Do
terremoto ao vodu, brasileiro se apaixonou pelo Haiti
Então
aluno do curso de estudos literários da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp), Werner Garbers Elias Pereira, o Neno, estava especialmente animado
na virada do ano 2009 para 2010. No comecinho de janeiro, ele e um grupo de
estudantes iriam para o Haiti.
Parte
de um projeto acadêmico, a ideia era passar três meses no país caribenho de
pouco mais de 11 milhões de habitantes. "Considerávamos o Haiti um espaço
importante para que alunos de graduação criássemos nossas ferramentas de
pesquisa. Meu plano era conhecer mais a literatura haitiana e o [idioma]
crioulo haitiano. E depois fazer uma apresentação disso no Brasil",
recorda ele.
Só que
veio o dia 12 de janeiro. Naquela fatídica terça-feira, dois acontecimentos
muito intensos, separados por horas, mudaram completamente o projeto de
Pereira. E selariam o futuro dele — com um vínculo indissociável do povo e da
história haitianos.
Naquela
data ele tinha uma entrevista agendada com um grande intelectual, o escritor,
cientista político e sociólogo Jean Anil Louis Juste — pesquisador que havia,
três anos antes, defendido seu doutorado na Universidade Federal de Pernambuco.
Quando
Pereira estava a caminho da casa de Juste, em Porto Príncipe, capital haitiana,
deparou-se com uma grande movimentação popular. Uma tragédia, soube ele. Em um
crime até hoje não esclarecido, o intelectual foi morto a tiros por um grupo de
homens — que fugiu em motocicletas. "Ele denunciava muitos crimes
envolvendo corrupção", lembra o brasileiro.
Horas
depois, uma nova ocorrência decretaria o término daquele início de pesquisa
acadêmica. Os ponteiros marcavam quase 17h quando um catastrófico terremoto,
com epicentro a 25 quilômetros da capital haitiana, devastou parte considerável
do país. Calcula-se que tenham sido 300 mil mortos e ao menos 1,5 milhão de
flagelados.
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Impacto
"Conheci
o Haiti nesse contexto: tragédia natural e tragédia social", ele define.
"Um professor, uma ponte para você falar com o Haiti, assassinado. E o
terremoto."
"Aquilo
me marcou muito", conta. "Quem vem fazer trabalho humanitário aqui
vem para ajudar. Eu digo que fui ajudado pelos haitianos, porque depois do
terremoto era difícil até encontrar comida. Sei que sobrevivi por acaso. Foram
muitas as vítimas."
Dezesseis
anos depois, Pereira conta essa história para a reportagem via chamada de vídeo
diretamente da sede do Centro Cultural Brasil-Haiti, em Porto Príncipe. Ele é o
diretor da instituição, mantida pela embaixada brasileira no país caribenho. E
também dá aula de português a haitianos — alguns deles buscam aprender a língua
pensando em imigrar para o Brasil.
Estima-se
que, atualmente, vivam no Brasil de 150 mil a 200 mil haitianos. "Isso
explodiu ainda mais o ensino da língua", constata Pereira. "Mas
sempre houve demanda."
Quando
a seleção entrar em campo contra o Haiti, na partida marcada para a noite do
dia 19 de junho, é dali que ele vai assistir. Com festa, ganhe quem ganhar.
"Eu
sou corintiano roxo. Uma das minhas conexões com o Brasil sempre foi o
Corinthians. A seleção também, mas depois do Corinthians", diz Pereira.
A ideia
é reunir cerca de mil pessoas no centro cultural para o jogo, com comes e bebes
típicos dos dois países. O brasileiro explica que o Brasil é muito amado pelos
haitianos — e como faz 52 anos que o time do Haiti não vai a uma Copa do Mundo,
em geral a torcida era pelo escrete canarinho.
Ele
mesmo disse que vai providenciar uma camisa metade Haiti, metade Brasil,
expressando assim o coração dividido de quem foi adotado pelo outro país.
"Vou celebrar qualquer gol. Vou torcer pelo empate e que ambos se
classifiquem. E tornem a se encontrar na final", vislumbra. "Se for
assim, todos ganhariam."
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Menos de 50
São
pouquíssimos os brasileiros que, a exemplo de Pereira, residem no Haiti.
Estimativas do relatório mais recente do Ministério das Relações Exteriores, de
2023, calculam serem 42.
A
trajetória de Pereira é peculiar o suficiente para que ele tenha sido
coincidentemente o mesmo indicado para a reportagem por duas fontes diferentes
— sem relação alguma entre elas — com alguma conexão com o país.
Essa
sua primeira passagem pelo país acabou abreviada pelo terremoto, evidentemente.
"O que era para ser três meses acabou se limitando a 20 dias",
recorda. De volta ao Brasil, ele concluiu os estudos na Unicamp. Mas o Haiti
não saiu de sua cabeça.
Começou
a estudar o idioma crioulo e passou a buscar maneiras de voltar, em definitivo,
ao país caribenho. A oportunidade surgiu via concurso público — em 2012, a
embaixada brasileira abriu vaga para professor de português no tal centro
cultural. Ele foi aprovado e se mudou para Porto Príncipe. Alguns meses depois,
passou a acumular o cargo de diretor da mesma instituição.
Pereira
não teve problemas em fazer uma verdadeira imersão cultural no país que o
acolheu. Logo aprendeu o idioma crioulo a ponto de não precisar mais usar o
francês para se comunicar com os locais — o Haiti tem como oficiais as duas
línguas, a do colonizador e a criada pelos africanos e afrodescendentes, como
línguas oficiais.
E, se
em São Paulo ele já era adepto da umbanda, no Haiti acabou mergulhando no
voduísmo, mantendo portanto a religiosidade de matriz africana. A música também
foi outro ponto de conexão. Se na capital paulista ele frequentava o famoso
samba da vela, em Santo Amaro, no Haiti ele tem uma banda, a Motif Mizik, onde
toca percussão e canta.
"Apesar
de ser branco de pele, sempre fui muito próximo da cultura
afrobrasileira", comenta. "A umbanda, o samba e depois a capoeira,
cresci sendo influenciado por isso."
O Haiti
foi decisivo também por isso. "É uma referência para o mundo afro,
principalmente pela sua história", enfatiza. É um capítulo sui generis na
história americana, aliás: de 1791 a 1804, a nação teve uma bem-sucedida
revolução em que escravizados negros conseguiram não só a liberdade como a
independência dos colonizadores franceses. Esse fascinante passado faz com que
alguns historiadores considerem o território uma espécie de país-quilombo.
"É
a única nação dos últimos séculos que, quando nasceu, fundou também uma língua,
o crioulo, e uma religião, o vodu, ao mesmo tempo. Isso é impressionante. Eu
queria entender tudo isso", comenta Pereira.
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Qualidade de vida
Obviamente
não é fácil justificar para amigos e familiares brasileiros essa escolha. No
imaginário nacional predomina a ideia de que imigrar só "vale a pena"
se for para "um país melhor". Ao mesmo tempo, Pereira lamenta, a
visão do Haiti que os brasileiros têm ainda é muito estereotipada, ressaltando
a violência e a pobreza e não valorizando a história e a cultura que tanto o
encantam.
Há
lastro nos dados, vale ressaltar. Considerando o Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH), por exemplo, o Haiti amarga a 156ª posição entre os 191 países
considerados. Dados de 2022 mostram que apenas 37% da população haitiana tem
acesso à rede sanitária e mais de 30% ainda têm dificuldade para conseguir água
potável.
Pereira
não ignora os problemas. Pensa que seu trabalho, de certa forma, é um tijolinho
a ajudar a construir um Haiti melhor para o futuro. Sente-se parte disso,
abraçado pela população.
Quando
presenciou o terremoto, diz que se sentiu impotente ao ver tanta tragédia e não
conseguir fazer nada. Isso o fez "querer voltar". "E
colaborar", ressalta. Ele se lembra de quando caminhava pelas ruas e foi
interpelado por um sujeito que perguntava se ele, "por ser branco",
não teria como conseguir um trator. "Ele queria ajuda para tirar a família
dos escombros", relata. A sensação foi das piores de sua vida.
E ele
foi ficando. "As histórias me interessaram. Fiquei também. O Haiti é um
país pequeno e, com todos os dilemas, fui me interessando cada vez mais",
comenta.
"Hoje
me vejo em definitivo aqui. Mas foi um processo", conta. "Eu me
imagino no Haiti por uma série de razões. Mas, com certeza, o que mais me
prende aqui é o calor humano. Desenvolvi projetos, amizades, relações e afetos
que me marcaram muito."
Desde a
mudança definitiva, ele costuma ir ao Brasil uma vez por ano. "Passo um
mês de férias e já tenho saudades do Haiti. É uma coisa que não sei
explicar", comenta. A família custou a entender. "Hoje, eles
entendem. No Brasil ainda há um preconceito quanto ao Haiti", resigna-se.
Durante
alguns anos, viveu com uma namorada haitiana, dançarina e professora de dança.
O relacionamento virou apenas uma amizade. "Somos grandes amigos",
diz ele. E, praticamente numa troca de pátrias, ela agora vive em São Paulo.
Pereira
não descarta, no futuro, constituir alguma família no Haiti, lugar onde parece
caminhar para viver de forma definitiva. Por enquanto, conta ele, tem apenas os
dois gatos.
"Morar
aqui é uma constante recriação da vida", define.
Fonte:
BBC News Brasil

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