Lições
de Paulo Freire contra as fake news
Mais
uma eleição se aproxima e a esquerda se vê de novo na tarefa de desmentir as
falsidades da extrema-direita, como Sísifo a rolar eternamente sua pedra. À
esquerda falta a consciência de uma assimetria fundamental que pode ser
formulada em termos simples: enganar é mais fácil do que educar. Educar é mais
difícil, porque para se deixar educar é preciso uma virtude que só pode nascer
numa cultura radicada em perspectivas filosóficas: a virtude de ser capaz de
aceitar a própria ignorância.
Para se
educar, é preciso antes de mais nada aceitar que ignora e se colocar diante da
tarefa de procurar o saber.
Quando
o medo de ser enganado nasce numa cultura onde a preocupação com a educação é
meramente retórica e propagandística e não se expressa na sociedade e nos fatos
políticos que deram forma ao seu destino, as pessoas nesses lugares buscam não
o conhecimento e a verdade, mas atalhos e caminhos rápidos, pois sua
preocupação é apenas evitar parecer ignorante, ou seja, é uma preocupação
hipócrita. Mais de uma astúcia pode ser atribuída a Olavo de Carvalho, uma
delas é a de ter feito dessa sacada uma fonte de renda, com o seu livro “O
mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”. A estratégia da
extrema-direita se ampara precisamente sobre um medo de ser visto como idiota
que distorce nossa relação com a verdade.
Sem que
tenhamos criado uma sociedade verdadeiramente comprometida em educar, o medo de
ser visto como idiota conduz as pessoas a teorias da conspiração e às fake
news. É certo que o Brasil não conseguiu criar uma cultura estreitamente
vinculada à educação, mas será que as “sociedades desenvolvidas” conseguiram? A
educação nessas sociedades está mais articulada ao mercado e à economia (nisso
concordariam por razões diversas Ivan Illich e Mangabeira Unger), mas não está
fundamentada no sentido filosófico de assumir a ignorância como único ponto de
partida possível. Por isso, elas tampouco estão protegidas contra a fake news e
contra líderes demagogos, pois o apelo à ciência e à verdade que circula nessas
sociedades (uma espécie de antídoto ineficaz contra esse problema) é um mero
apelo à técnica e, sobretudo, a autoridades, que não pode convencer quem não
aprendeu a se colocar na condição de ignorante, quem rejeita essa posição desde
o começo.
Em seu
“Rebelião das massas”, Ortega y Gasset observa o que ele chama de hermetismo da
alma do homem-massa. Escreve: “O hermetismo inato de sua alma impede o que
seria a precondição para descobrir a própria insuficiência: o ato de
comparar-se a outros seres. Comparar-se seria ausentar-se por um instante de si
mesmo e transpor-se ao próximo.” Como enfrentar, na teoria e na prática, o
desafio de encarar essa verdade exposta por Ortega y Gasset? O filósofo soa
elitista à esquerda espanhola, e ele é confessadamente alguém que diz que “a
sociedade humana é aristocrática sempre”, então como articular esse viés
inegavelmente aristocrático às necessidades populares, conforme os anseios da
esquerda?
Em
qualquer caso, falta uma resposta política e filosófica da esquerda à
assimetria fundamental que diz que as pessoas se deixam mais facilmente enganar
do que educar. E enquanto a esquerda não se der conta da dimensão filosófica
dessa resposta, isto é, enquanto ela estiver envolvida em batalhas pela atenção
e pelo engajamento de eleitores, enredada em guerras culturais que deve vencer
jogando o jogo das relações públicas e da publicidade, estará fadada a rolar
sua pedra eternamente. Nem a ciência nem a publicidade podem ajudar a aproximar
as pessoas da verdade, de modo que elas se imunizem contra a fake news e seus
efeitos políticos. A verdade não é um produto cuja necessidade se pode
estimular por meio da publicidade (nesse quesito, o papel da literatura é muito
mais importante do que a dos divulgadores científicos, que são pouco mais do
que “publicitários do bem”, se é que existe tal coisa). A ciência só pode nos
ensinar a lidar com o conhecimento, pois a ideologia não-filosófica de uma
ciência determinista vê a ignorância como um mero alvo a ser eliminado. Uma
ciência descolada da filosofia não pode parir uma ética, um modo de ser no
mundo! Só uma filosofia e uma cultura filosófica podem nos ensinar a lidar com
a ignorância, com o que não se sabe e com o que não se pode saber.
Talvez
seja o caso de resgatar Paulo Freire e sua pedagogia anti-autoritária, humana e
sensível às dificuldades de um Outro sempre inferiorizado, do acosso constante
da direita. Resgatar e colocar em prática sua educação, sua pedagogia, como um
modo de responder à necessidade de fazer a educação mais atraente que o
irresistível apelo das fake news. Mas o certo é precisamos de uma resposta
urgente, pois de outro modo os padrões da inteligência humana se verão
alterados de forma duradoura pelo predomínios de vozes e de padrões de
inteligência determinados por pessoas empenhadas em explorar as
vulnerabilidades expostas por essa assimetria. De outro modo o melhor da
civilização estará em perigo, como está agora.
Fonte:
Por Leonardo Bernardes, em Outras Palavras

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