sábado, 20 de junho de 2026

Lições de Paulo Freire contra as fake news

Mais uma eleição se aproxima e a esquerda se vê de novo na tarefa de desmentir as falsidades da extrema-direita, como Sísifo a rolar eternamente sua pedra. À esquerda falta a consciência de uma assimetria fundamental que pode ser formulada em termos simples: enganar é mais fácil do que educar. Educar é mais difícil, porque para se deixar educar é preciso uma virtude que só pode nascer numa cultura radicada em perspectivas filosóficas: a virtude de ser capaz de aceitar a própria ignorância.

Para se educar, é preciso antes de mais nada aceitar que ignora e se colocar diante da tarefa de procurar o saber.

Quando o medo de ser enganado nasce numa cultura onde a preocupação com a educação é meramente retórica e propagandística e não se expressa na sociedade e nos fatos políticos que deram forma ao seu destino, as pessoas nesses lugares buscam não o conhecimento e a verdade, mas atalhos e caminhos rápidos, pois sua preocupação é apenas evitar parecer ignorante, ou seja, é uma preocupação hipócrita. Mais de uma astúcia pode ser atribuída a Olavo de Carvalho, uma delas é a de ter feito dessa sacada uma fonte de renda, com o seu livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”. A estratégia da extrema-direita se ampara precisamente sobre um medo de ser visto como idiota que distorce nossa relação com a verdade.

Sem que tenhamos criado uma sociedade verdadeiramente comprometida em educar, o medo de ser visto como idiota conduz as pessoas a teorias da conspiração e às fake news. É certo que o Brasil não conseguiu criar uma cultura estreitamente vinculada à educação, mas será que as “sociedades desenvolvidas” conseguiram? A educação nessas sociedades está mais articulada ao mercado e à economia (nisso concordariam por razões diversas Ivan Illich e Mangabeira Unger), mas não está fundamentada no sentido filosófico de assumir a ignorância como único ponto de partida possível. Por isso, elas tampouco estão protegidas contra a fake news e contra líderes demagogos, pois o apelo à ciência e à verdade que circula nessas sociedades (uma espécie de antídoto ineficaz contra esse problema) é um mero apelo à técnica e, sobretudo, a autoridades, que não pode convencer quem não aprendeu a se colocar na condição de ignorante, quem rejeita essa posição desde o começo.

Em seu “Rebelião das massas”, Ortega y Gasset observa o que ele chama de hermetismo da alma do homem-massa. Escreve: “O hermetismo inato de sua alma impede o que seria a precondição para descobrir a própria insuficiência: o ato de comparar-se a outros seres. Comparar-se seria ausentar-se por um instante de si mesmo e transpor-se ao próximo.” Como enfrentar, na teoria e na prática, o desafio de encarar essa verdade exposta por Ortega y Gasset? O filósofo soa elitista à esquerda espanhola, e ele é confessadamente alguém que diz que “a sociedade humana é aristocrática sempre”, então como articular esse viés inegavelmente aristocrático às necessidades populares, conforme os anseios da esquerda?

Em qualquer caso, falta uma resposta política e filosófica da esquerda à assimetria fundamental que diz que as pessoas se deixam mais facilmente enganar do que educar. E enquanto a esquerda não se der conta da dimensão filosófica dessa resposta, isto é, enquanto ela estiver envolvida em batalhas pela atenção e pelo engajamento de eleitores, enredada em guerras culturais que deve vencer jogando o jogo das relações públicas e da publicidade, estará fadada a rolar sua pedra eternamente. Nem a ciência nem a publicidade podem ajudar a aproximar as pessoas da verdade, de modo que elas se imunizem contra a fake news e seus efeitos políticos. A verdade não é um produto cuja necessidade se pode estimular por meio da publicidade (nesse quesito, o papel da literatura é muito mais importante do que a dos divulgadores científicos, que são pouco mais do que “publicitários do bem”, se é que existe tal coisa). A ciência só pode nos ensinar a lidar com o conhecimento, pois a ideologia não-filosófica de uma ciência determinista vê a ignorância como um mero alvo a ser eliminado. Uma ciência descolada da filosofia não pode parir uma ética, um modo de ser no mundo! Só uma filosofia e uma cultura filosófica podem nos ensinar a lidar com a ignorância, com o que não se sabe e com o que não se pode saber.

Talvez seja o caso de resgatar Paulo Freire e sua pedagogia anti-autoritária, humana e sensível às dificuldades de um Outro sempre inferiorizado, do acosso constante da direita. Resgatar e colocar em prática sua educação, sua pedagogia, como um modo de responder à necessidade de fazer a educação mais atraente que o irresistível apelo das fake news. Mas o certo é precisamos de uma resposta urgente, pois de outro modo os padrões da inteligência humana se verão alterados de forma duradoura pelo predomínios de vozes e de padrões de inteligência determinados por pessoas empenhadas em explorar as vulnerabilidades expostas por essa assimetria. De outro modo o melhor da civilização estará em perigo, como está agora.

 

Fonte: Por Leonardo Bernardes, em Outras Palavras

 

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