Missão
Josué de Castro: qual o futuro do combate à fome?
Realizado
nos dias 1, 2 e 3 de junho, o I Encontro Nacional para a Transformação dos
Sistemas Agroalimentares, promovido pela Missão Josué de Castro em parceria com
a Fundação Banco do Brasil (FBB), reuniu mais de 10 organizações nacionais em
Brasília, integrando movimentos populares, lideranças sindicais e
representantes de instituições públicas. A escolha da capital federal como sede
buscou dar visibilidade institucional às discussões realizadas nos três dias. O
evento, realizado no auditório da Associação de Docentes da Universidade de
Brasília (ADUnb) unificou vozes do campo e da cidade em torno de debates acerca
da importância da valorização da agricultura familiar para o combate à fome no
país.
O
encontro ocorreu para reforçar o debate sobre insegurança alimentar no país,
marcada principalmente pelo avanço do agronegócio. O setor, que vem batendo
recordes de exportação, consolida o Brasil como uma das maiores potências
agrícolas do mundo, mas é ineficiente no combate à fome. De acordo com dados da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a fome afeta de maneira
desigual o país, tendo as regiões Norte e Nordeste como as com mais domicílios
em insegurança alimentar.
O
modelo do agronegócio, ao priorizar a exportação de commodities em detrimento
do cultivo de alimentos para o consumo interno, é visto pelos movimentos
populares como um desafio para a garantia da soberania alimentar no país. Nesse
cenário, a Missão Josué de Castro buscou articular diversas organizações para
propor um projeto de transformação dos sistemas agroalimentares a partir de
seus diversos territórios.
O
primeiro dia do evento foi marcado pela apresentação dos movimentos populares,
que trouxeram relatos de diferentes territórios do país sobre a produção no
campo e sobre a necessidade da garantia de direitos básicos como direito à
moradia, à água, à energia e à terra para combater a insegurança alimentar.
Matheus Florêncio, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA),
organização que representa trabalhadores da agricultura familiar – responsável
por grande parte dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros – declarou à
reportagem a importância da união dos movimentos camponeses e urbanos durante o
encontro para o fortalecimento da luta dos movimentos populares.
Em
entrevista ao Outras Palavras, Marcelo Leal, secretário-geral da Missão Josué
de Castro destacou o objetivo do encontro de promover em maior nível o debate
sobre a transformação dos sistemas agroalimentares: “Cada um (organizações) vai
colocar na mesa, lá no território, aquilo que tem de melhor. E o nosso
objetivo, a nossa intenção é que isso vai fortalecer as organizações em
particular e fazer emergir uma nova classe de organização no território, que é
o que nós chamamos da Missão Josué de Castro”.
Após o
momento de articulação inicial, houve ainda mesas temáticas com enfoque
geopolítico e de conjuntura nacional. O tema “Transição de poder e desafios
para os movimentos populares na América Latina” foi ministrado por Mônica
Bruckmann, cientista política e professora da UFRJ. Bruckmann destacou ser
necessária a melhor distribuição de recursos governamentais para reforçar a
soberania alimentar: “É preciso que políticas que drenem recursos do governo
cessem. É preciso investimento na agricultura familiar”.
O final
do primeiro dia do evento foi marcado pelo compartilhamento de conhecimento
entre as organizações e pela realização de painéis de experiências liderados
por integrantes dos movimentos. As atividades foram voltadas para o debate
sobre governança e gestão, transição agroecológica e energética, educação
popular, comunicação e cozinhas e feiras solidárias.
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Do direito à terra à necessidade da comunicação popular estratégica
O
segundo dia do encontro foi marcado pelo aprofundamento de análises sobre o
avanço do agronegócio, dos desafios para a reforma urbana e do papel da
comunicação na promoção das pautas dos movimentos sociais. A participação de
Caio Pompeia, antropólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP),
abordou a relação do atual governo Lula e de governos de direita com o
agronegócio, analisando o fenômeno do “agrobolsonarismo”. A partir dessa
análise, os debates que se seguiram convergiram para a urgência de contrapor
esse modelo econômico.
Rud
Rafael, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST),
movimento de luta por moradia urbana, destacou a relevância das ocupações
populares e da luta dos movimentos contra modelos capitalistas de cidade que
impulsionam a desigualdade para combater a insegurança alimentar nessas
regiões. Segundo Rafael, a insegurança alimentar nas periferias têm relação
direta com a falta de acesso à moradia: “A fome é a expressão da desigualdade
do acesso à terra”, disse.
Como
resposta a essa realidade desigual, Bianca Lima, gestora da Xepa, frente de
ativismo alimentar do Mídia Ninja, trouxe a importância do investimento em
comunicação para contrapor limites impostos pelos algoritmos que favorecem a
mídia hegemônica. Para a comunicadora, fortalecer a visibilidade de mídias
independentes é indispensável para a promoção de pautas dos movimentos
populares.
Em
entrevista à reportagem, Ithalo Alves, jornalista e militante do Movimento dos
Atingidos por Barragens (MAB), movimento que reúne famílias afetadas pela
construção de barragens e hidrelétricas, afirmou a necessidade da formação
política dos comunicadores sociais e a aproximação deles com a realidade
vivenciada pelos movimentos para a existência de uma comunicação popular forte
dentro das organizações.
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Os rumos da aliança popular firmada pela missão
O
terceiro e último dia do encontro nacional contou com a fala dos agentes
territoriais, sintetizando seus aprendizados nos painéis de experiência
promovidos pelo encontro. Foram realizadas também mesas para o debate do futuro
da Missão Josué de Castro na promoção da soberania alimentar, além de
discussões sobre agroecologia e métodos de governança. As agendas finais
unificaram as estratégias que os movimentos populares e as instituições
públicas têm para realizar de forma conjunta nos territórios com objetivo de
garantir o direito a alimentação adequada no país.
O
encerramento foi marcado pela leitura da carta manifesto, documento político
que consolidou os princípios de luta e os objetivos traçados pela missão. Além
do documento, uma novidade tecnológica foi apresentada ao público. Marina Cruz,
gerente de projetos da HackLab – empresa brasileira de tecnologia – revelou o
novo site da Missão Josué de Castro. A plataforma política, ainda em fase
inicial e de software livre, permitirá a criação de um ambiente vivo e o
reconhecimento das forças coletivas. Nela, os movimentos poderão compartilhar
suas vivências nos territórios de forma autônoma.
Marcelo
Leal reafirma em depoimento ao Outras Palavras a tarefa da Missão Josué de
Castro em conseguir sensibilizar a sociedade brasileira à respeito da superação
da fome. Segundo Leal, as políticas de combate a insegurança alimentar se
esgotaram, logo, fomentar trajetórias coletivas e territoriais é necessário
para a criação de novas políticas públicas eficientes no setor.
Fonte:
Por Kauany Rocha, em Outras Palavras

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