A
estratégia que fez o Irã atravessar guerras, sanções e isolamento sem se render
aos EUA
A
República Islâmica do Irã desenvolveu, desde os seus
primeiros anos, uma visão de mundo e um pensamento estratégico. A recente
guerra que Israel e os Estados Unidos lhe moveram levou-a a coordenar as suas
Forças Armadas e a sua diplomacia, enquanto os feitos militares lhe permitiram
refletir sobre a maneira de prosseguir os seus objetivos revolucionários ao
mesmo tempo que protegia a sua população.
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A visão do imã Khomeini
1.
O imã Ruhollah
Khomeini não
era um especialista em relações internacionais. No entanto, para ele era claro
que o Reino Unido e os Estados Unidos eram os adversários tradicionais do Irã.
Além disso, pensava que Israel era um posto avançado dos anglo-saxões no
Oriente Médio.
2.
Quando foi confrontado com a “guerra imposta” pelos ocidentais a partir do
Iraque, ficou horrorizado com a utilização de mísseis disparados contra cidades
iranianas e com a disseminação de gás venenoso. Considerava que o seu país
jamais se rebaixaria a usar armas de destruição em massa como essas ou como
bombas atômicas.
Em
1988, quando a guerra já durava uma década e a vitória não estava à vista,
redigiu uma fatwa ordenando o desmantelamento do programa nuclear militar
herdado do xá e da França. Foi uma decisão difícil, que fez a guerra durar
ainda mais tempo.Essa fatwa foi retomada pelo aiatolá Ali Khamenei. Parece-me,
assim, absurdo acreditar que os Guardiões da Revolução — esse corpo fortemente
doutrinado — aceitariam violá-la ou sequer permitiriam que fosse violada por
outros iranianos.
3. Uma
terceira posição do imã Khomeini foi considerar que deveria defender a unidade
do islã (a Umma) antes de qualquer vitória. Chegou a um acordo de não agressão
com Hassan el-Banna, fundador da Confraria dos Irmãos Muçulmanos. Encontrou-se
com ele em 1938 e acordou um pacto em 1947.
No
entanto, os dois homens nunca partilharam a mesma visão do islã e a Confraria
tornou-se, a partir de 1949, uma sociedade secreta parcialmente controlada
pelos britânicos.
Hoje, o
Irã mantém relações com a Confraria e habitualmente a convida para os seus
congressos pan-islâmicos anuais, mas, ao mesmo tempo, combate organizações como
a Al-Qaeda e o Daesh (Estado Islâmico), cujos líderes foram ou são Irmãos
Muçulmanos.
Em
2005, o presidente Mahmud Ahmadinejad industrializou o seu país, que até então
vivia apenas das receitas petrolíferas. Depois lançou um vasto programa
científico voltado ao domínio da fusão nuclear. Para ele, tratava-se de
relançar a revolução anti-imperialista do imã Khomeini, descobrindo uma fonte
de energia que poria fim ao domínio das companhias petrolíferas e libertaria o
Terceiro Mundo. Esse projeto nunca se concretizou completamente, pois Israel
assassinou os principais cientistas da área no Irã.
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O direito de responder à agressão e a libertação dos Estados ocupados
A guerra imposta por
Israel e pelos Estados Unidos, em 28 de fevereiro de 2026, abriu uma reflexão
estratégica no Irã. Não podendo retaliar contra os Estados Unidos, a 10 mil
quilômetros de distância, os Guardiões da Revolução atacaram as bases militares
estadunidenses no Golfo.
E
surpreenderam-se com a magnitude das consequências dessa ação: sem as suas
bases regionais, o agressor estava indefeso. Para continuar a atacar, teria de
fazê-lo a partir de Diego Garcia (Ilhas Maurício) e da Alemanha.
Entrando
em ação, os seus diplomatas evidenciaram que o Direito Internacional reconhecia
a legitimidade da ação. Eles recuperaram a Resolução 3314 (XXIX) da Assembleia
Geral das Nações Unidas, que afirma que o direito de resistência à agressão
também se estende aos Estados que abrigam bases militares estrangeiras
utilizadas para agressão.
Alguns
desses Estados, como os Emirados Árabes Unidos, que montaram durante quase
cinquenta anos as redes de desvio ao cerco estadunidense — impropriamente
qualificado de “sanções” pelos ocidentais —, eram aliados do Irã. Todos os
estrategistas ocidentais consideravam inimaginável que o Irã atacasse os seus
próprios aliados.
No
entanto, os Guardiões da Revolução decidiram fazê-lo para demonstrar que eles
não estavam protegidos pelos Estados Unidos, mas, pelo contrário, eram expostos
e colocados em risco. Os diplomatas iranianos lembraram aos seus vizinhos
árabes que, segundo o Direito Internacional, eles deveriam impedir o uso das
bases que abrigavam para cometer agressões; caso contrário, seriam cúmplices
delas.
Ora, as
elites políticas árabes, particularmente as do Golfo Pérsico, continuam
submissas às antigas potências coloniais. Muitas vezes até as admiram. Os
Emirados Árabes Unidos só são independentes desde 1971. Até então, eram
domínios do Império Britânico ligados ao Império das Índias.
Os
ataques iranianos soaram, portanto, como trovões:
- os Estados
Unidos, principal potência militar da Guerra Fria, eram incapazes de
defendê-las;
- as Nações Unidas
também eram incapazes de defendê-las, uma vez que a Resolução 2817
(adotada em 11 de março de 2026) viola o Direito Internacional;
- as nações árabes
do Golfo encontravam-se sem defesa, já que nenhuma dispunha de um exército
digno desse nome (os Exércitos da Arábia Saudita e do Catar são compostos
principalmente por combatentes estrangeiros).
Fiéis
aos ensinamentos do imã Khomeini, os Guardiões da Revolução ajustaram os seus
ataques tanto para desorganizar as sociedades árabes do Golfo quanto para levar
os seus Estados a libertarem-se dos anglo-saxões.
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O controle do Estreito de Ormuz e a libertação dos bancos estrangeiros
submetidos ao Departamento do Tesouro
O
primeiro país a dar esse passo foi o Sultanato de Omã. Embora não abrigasse
bases militares estadunidenses, fechou o seu espaço aéreo à Força Aérea dos EUA
e o seu espaço marítimo aos navios da Marinha dos EUA.
Ao
perceber o pânico que isso provocava entre os armadores ocidentais, os
Guardiões da Revolução concluíram que o controle do Estreito de Ormuz lhes
permitia combater a economia do Ocidente, que apoia há meio século o cerco
anglo-saxão ao Irã. Reforçando essa posição, os diplomatas iranianos
sublinharam que o Direito Internacional autoriza o fechamento da passagem do
estreito, não para todos, mas para os agressores.
Os
Guardiões da Revolução decidiram, portanto, proibir os navios que arvorassem
pavilhão anglo-saxão ou fossem fretados por companhias anglo-saxãs de
atravessar o estreito. Os diplomatas argumentaram então que, embora o Direito
Internacional não autorize a cobrança de pedágios pela travessia de um
estreito, permite aos países ribeirinhos adotar medidas ambientais de
precaução. Por exemplo, Irã e Omã podem exigir conjuntamente garantias aos
petroleiros em caso de catástrofes como a do Amoco Cadiz.
Ao
criar a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA, na sigla em inglês), em
1º de maio, sem sequer esperar o consentimento de Omã, os Guardiões da
Revolução transformaram a Guerra do Golfo no palco da sua revolução
anti-imperialista. Para atravessar o estreito, os ocidentais devem depositar,
em determinados bancos iranianos, fundos de garantia que lhes serão devolvidos
após a travessia.
O
problema é que o cerco anglo-saxão ao Irã também passa pelo sistema bancário
Swift. Todos os bancos ocidentais comprometeram-se perante o Departamento do
Tesouro dos Estados Unidos a não negociar com o Irã, sob pena de multas
astronômicas. Assim, o BNP, da França, que comerciava com o Irã e Cuba, foi
obrigado a pagar uma multa de US$ 9 bilhões. Nenhum banco ocidental violará o
cerco anglo-saxão ao Irã — a menos, é claro, que os armadores pressionem os
responsáveis políticos a libertarem-se dos anglo-saxões.
A
questão do Estreito de Ormuz não é, portanto, a instauração de um pedágio — que
nunca existiu —, mas a submissão dos aliados dos Estados Unidos à Foreign
Account Tax Compliance Act (Lei de Conformidade Fiscal sobre Contas
Estrangeiras — FATCA), uma submissão que os torna cúmplices dos Estados Unidos.
Deve-se
recordar que o Ocidente, como civilização, forjou-se na Idade Média em torno da
condenação dos cercos militares pela Igreja Católica, que continua a opor-se ao
cerco de Cuba, do Irã e da Coreia do Norte.
Além
disso, o Irã pediu ao Ansar Allah que bloqueasse o Estreito de Bab el-Mandeb
aos navios dos agressores. Segundo o Exército dessa facção iemenita, navios
israelenses e estadunidenses poderiam ser alvejados. Até o momento, porém,
essas ameaças ainda não foram postas em prática.
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O cessar-fogo no Líbano e o afastamento entre Washington e Tel Aviv
Embora
a questão da cumplicidade dos ocidentais nos cercos anglo-saxões ainda não
estivesse resolvida, os iranianos surpreenderam-se ao ver que os Estados
Unidos, que haviam aceitado em 11 de abril, em Islamabad, o princípio de um
cessar-fogo em todas as frentes, incluindo o Líbano, não reagiram às operações
israelenses no país, mesmo depois de o presidente Trump ter proclamado um
cessar-fogo entre Israel e o Líbano em 16 de abril. Os iranianos começaram
então a interrogar-se sobre as relações entre Washington e Tel Aviv.
Um
terço deles pensava que os Estados Unidos e Israel perseguiam o mesmo objetivo
de dominação, mas por meios diferentes. Outro terço estimava que os dois países
repartiam os papéis — o “bom policial” e o “mau policial” —, enquanto o último
terço acreditava que Donald Trump e Benjamin Netanyahu já não estavam na mesma
sintonia.
Seja
como for, decidiram separar as duas nações. Anunciaram que a retomada dos
combates no Líbano contradizia os acordos preliminares de Islamabad e,
portanto, o cessar-fogo. Consequentemente, ameaçaram retomar os bombardeios
contra o Estado israelense. O presidente dos Estados Unidos, para quem o apoio
a Israel é uma questão histórica inegociável, não poderia alcançar a paz no
Golfo devido às operações de Benjamin Netanyahu no Líbano.
Inicialmente,
impôs negociações de paz a Israel e ao Líbano, em Washington. As conversações
começaram na presença de Elbridge Colby, subsecretário da Guerra e principal
teórico do ataque estadunidense ao Irã. Os israelenses exigiam a
desmilitarização completa do Hezbollah, enquanto o governo libanês, embora
compartilhasse esse objetivo, exigia sobretudo a aplicação do “mecanismo” (isto
é, do cessar-fogo de 27 de novembro de 2024).
Ora,
isso deve fazer recordar a História. Em 1948, Estados árabes lançaram uma
guerra contra o Estado israelense logo após David Ben-Gurion autoproclamar o
Estado de Israel, em violação do plano das Nações Unidas conhecido como
“partilha da Palestina”.
As
forças libanesas, comandadas pelo emir Magid Arslane, obtiveram várias
vitórias, mas o Reino Unido, em socorro da comunidade judaica da Palestina (Yishuv),
lançou o Exército da Cisjordânia, comandado pelo general John Bagot Glubb,
conhecido como “Glubb Pasha”, e pelos seus oficiais britânicos, para repelir os
árabes.
Essa
guerra israelo-árabe é frequentemente apresentada pelos ocidentais como uma
vitória israelense, quando foi, na realidade, uma vitória britânica. No
entanto, a Liga dos Estados Árabes decidiu, em 1965, cessar todos os contatos
com o autoproclamado Estado de Israel.
O
Líbano então adotou uma lei proibindo os cidadãos libaneses de celebrar
qualquer acordo — financeiro, cultural ou intelectual — ou manter qualquer
outro tipo de relação com entidades ou indivíduos israelenses. A lei prevê
penas de três a dez anos de trabalhos forçados e multa de 5 mil a 40 mil libras
libanesas para qualquer infrator. Além disso, os artigos 273, 275 e 285 do
Código Penal criminalizam qualquer “contato com o inimigo”, punível com pena de
morte.
Ainda
assim, as delegações dos dois países acabaram reunindo-se em Washington sem que
o Parlamento libanês tivesse revogado essa legislação.
No
momento em que uma nova rodada de negociações libano-israelenses começava em
Washington, em 29 de maio, os israelenses lançaram novos ataques, ordenando que
populações civis fugissem e bombardeando as suas casas. Essa ofensiva levou à
ocupação do castelo cruzado de Beaufort, em 31 de maio.
Os
Guardiões da Revolução, constatando que Israel negociava apenas para ganhar
tempo, retomaram os seus bombardeios contra o Estado israelense.
Furioso,
o presidente Trump ameaçou primeiro o Irã com os piores tormentos, mas depois
cedeu. Obrigou Israel a interromper os combates e aceitou as principais
reivindicações iranianas. O Irã acabava de provocar uma divergência entre
Washington e Tel Aviv, impondo uma relação hierárquica onde antes existia uma
relação de coordenação.
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Acordo entre EUA e Irã revela como a China se tornou
fiadora silenciosa da região
A
escolha do Paquistão como local da
negociação entre EUA e Irã revela tanto quanto o próprio conteúdo do tratado.
Não há neutralidade em geopolítica, apenas diferentes formas de poder. Nesse
sentido, o fato de um entendimento entre Estados Unidos e Irã ter sido articulado
em Islamabad não é um detalhe logístico, mas um sintoma de transformação na
arquitetura internacional.
O
Paquistão, situado na transição entre o Oriente Médio, o Sul da Ásia e a Ásia
Central, ocupa uma posição geoestratégica singular. Atualmente, o país
consolidou-se como o nó vital da Nova Rota da Seda chinesa, materializada no Corredor
Econômico China-Paquistão (CPEC), oferecendo a Pequim acesso direto ao Mar
Arábico e às rotas energéticas do Golfo Pérsico.
Ao
deslocar o eixo da mediação para fora dos fóruns tradicionais ocidentais, o
acordo indica a consolidação da China como a nova fiadora silenciosa dos
equilíbrios regionais.
A
própria trajetória recente das negociações de paz entre Washington e Teerã
revela as tensões desse deslocamento. Em maio, uma rodada anterior sugerida em
Islamabad foi recusada por Washington, evidenciando resistências internas e o
desconforto em aceitar um ambiente diplomático fora de sua órbita tradicional.
O retorno à mesa, semanas depois, não se deu por iniciativa estratégica, mas
por forte pressão inflacionária.
O
impacto sobre o preço dos combustíveis e os consequentes custos políticos
internos recolocaram a necessidade de estabilização regional como prioridade.
Trata-se de um movimento que ocorre, inclusive, em atrito com os interesses de
Israel, principal aliado estadunidense no Oriente Médio.
Pequim
não aparece como protagonista formal, mas sua presença é estrutural. O Irã
negocia sob a garantia implícita de que não está isolado, seja pelo fluxo
contínuo de petróleo para a Ásia, seja pelos mecanismos econômicos que
contornam o sistema financeiro dominado pelo dólar.
Na
prática, esse cenário demonstra que o regime de sanções perdeu sua eficácia
plena. A pressão já não basta para impor uma rendição, em um contexto marcado
pelo fim da exclusividade do poder dos EUA e pela emergência de atores como a
China, que ampliam as margens de negociação.
É nesse
contexto que cabe compreender as bases do chamado “acordo de paz”. Longe de
representar uma solução definitiva, trata-se de uma tentativa de reorganizar o
equilíbrio regional de poder. O Irã aceita limitações táticas em seu programa
nuclear, mas preserva sua capacidade estratégica e obtém alívio nas sanções
econômicas.
Até
então, essas restrições sufocavam o crescimento do país devido à forte redução
das exportações de petróleo, além de contribuírem para o desemprego, a
desvalorização da moeda e a alta inflação dos alimentos. Os Estados Unidos, por
sua vez, buscam conter riscos sem se comprometer com uma reconfiguração mais
ampla do tabuleiro regional.
A
instabilidade do acordo decorre justamente dessa ambiguidade, já que ele não
soluciona as tensões estruturais, limitando-se a administrá-las. A rivalidade
entre Irã e Israel permanece intacta, assim como a disputa por influência no
Líbano, na Síria e no Golfo. O fato de Israel manter operações militares no
Líbano mesmo com negociações em curso revela os limites desse arranjo,
demonstrando que os atores regionais não necessariamente reconhecem ou se
subordinam à lógica do entendimento.
Mais do
que um tratado, o que se desenha é um mecanismo precário de contenção de danos.
Sua durabilidade dependerá menos das cláusulas formais e mais da correlação de
forças em constante mutação. Nesse cenário, a China avança não pela imposição,
mas pela gravidade econômica, enquanto os Estados Unidos tentam preservar sua
capacidade de contenção, agindo mais para gerenciar o próprio declínio relativo
do que para ditar os rumos de um mundo que caminha, irreversivelmente, para a
multipolaridade.
O
acordo, portanto, não encerra um conflito; ele se encarrega de expor a
transição em curso, na qual o Paquistão atua como laboratório geopolítico e
ponto de convergência dessas novas forças. O que está em jogo, afinal, não é
apenas o programa nuclear iraniano, mas a própria forma de organização do poder
global no século XXI.
Fonte:
Por Thierry Meyssan, na Rede Voltaire/Diálogos do Sul Global

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