sábado, 20 de junho de 2026

A estratégia que fez o Irã atravessar guerras, sanções e isolamento sem se render aos EUA

A República Islâmica do Irã desenvolveu, desde os seus primeiros anos, uma visão de mundo e um pensamento estratégico. A recente guerra que Israel e os Estados Unidos lhe moveram levou-a a coordenar as suas Forças Armadas e a sua diplomacia, enquanto os feitos militares lhe permitiram refletir sobre a maneira de prosseguir os seus objetivos revolucionários ao mesmo tempo que protegia a sua população.

<><> A visão do imã Khomeini

1. O imã Ruhollah Khomeini não era um especialista em relações internacionais. No entanto, para ele era claro que o Reino Unido e os Estados Unidos eram os adversários tradicionais do Irã. Além disso, pensava que Israel era um posto avançado dos anglo-saxões no Oriente Médio.

2. Quando foi confrontado com a “guerra imposta” pelos ocidentais a partir do Iraque, ficou horrorizado com a utilização de mísseis disparados contra cidades iranianas e com a disseminação de gás venenoso. Considerava que o seu país jamais se rebaixaria a usar armas de destruição em massa como essas ou como bombas atômicas.

Em 1988, quando a guerra já durava uma década e a vitória não estava à vista, redigiu uma fatwa ordenando o desmantelamento do programa nuclear militar herdado do xá e da França. Foi uma decisão difícil, que fez a guerra durar ainda mais tempo.Essa fatwa foi retomada pelo aiatolá Ali Khamenei. Parece-me, assim, absurdo acreditar que os Guardiões da Revolução — esse corpo fortemente doutrinado — aceitariam violá-la ou sequer permitiriam que fosse violada por outros iranianos.

3. Uma terceira posição do imã Khomeini foi considerar que deveria defender a unidade do islã (a Umma) antes de qualquer vitória. Chegou a um acordo de não agressão com Hassan el-Banna, fundador da Confraria dos Irmãos Muçulmanos. Encontrou-se com ele em 1938 e acordou um pacto em 1947.

No entanto, os dois homens nunca partilharam a mesma visão do islã e a Confraria tornou-se, a partir de 1949, uma sociedade secreta parcialmente controlada pelos britânicos.

Hoje, o Irã mantém relações com a Confraria e habitualmente a convida para os seus congressos pan-islâmicos anuais, mas, ao mesmo tempo, combate organizações como a Al-Qaeda e o Daesh (Estado Islâmico), cujos líderes foram ou são Irmãos Muçulmanos.

Em 2005, o presidente Mahmud Ahmadinejad industrializou o seu país, que até então vivia apenas das receitas petrolíferas. Depois lançou um vasto programa científico voltado ao domínio da fusão nuclear. Para ele, tratava-se de relançar a revolução anti-imperialista do imã Khomeini, descobrindo uma fonte de energia que poria fim ao domínio das companhias petrolíferas e libertaria o Terceiro Mundo. Esse projeto nunca se concretizou completamente, pois Israel assassinou os principais cientistas da área no Irã.

<><> O direito de responder à agressão e a libertação dos Estados ocupados

A guerra imposta por Israel e pelos Estados Unidos, em 28 de fevereiro de 2026, abriu uma reflexão estratégica no Irã. Não podendo retaliar contra os Estados Unidos, a 10 mil quilômetros de distância, os Guardiões da Revolução atacaram as bases militares estadunidenses no Golfo.

E surpreenderam-se com a magnitude das consequências dessa ação: sem as suas bases regionais, o agressor estava indefeso. Para continuar a atacar, teria de fazê-lo a partir de Diego Garcia (Ilhas Maurício) e da Alemanha.

Entrando em ação, os seus diplomatas evidenciaram que o Direito Internacional reconhecia a legitimidade da ação. Eles recuperaram a Resolução 3314 (XXIX) da Assembleia Geral das Nações Unidas, que afirma que o direito de resistência à agressão também se estende aos Estados que abrigam bases militares estrangeiras utilizadas para agressão.

Alguns desses Estados, como os Emirados Árabes Unidos, que montaram durante quase cinquenta anos as redes de desvio ao cerco estadunidense — impropriamente qualificado de “sanções” pelos ocidentais —, eram aliados do Irã. Todos os estrategistas ocidentais consideravam inimaginável que o Irã atacasse os seus próprios aliados.

No entanto, os Guardiões da Revolução decidiram fazê-lo para demonstrar que eles não estavam protegidos pelos Estados Unidos, mas, pelo contrário, eram expostos e colocados em risco. Os diplomatas iranianos lembraram aos seus vizinhos árabes que, segundo o Direito Internacional, eles deveriam impedir o uso das bases que abrigavam para cometer agressões; caso contrário, seriam cúmplices delas.

Ora, as elites políticas árabes, particularmente as do Golfo Pérsico, continuam submissas às antigas potências coloniais. Muitas vezes até as admiram. Os Emirados Árabes Unidos só são independentes desde 1971. Até então, eram domínios do Império Britânico ligados ao Império das Índias.

Os ataques iranianos soaram, portanto, como trovões:

  1. os Estados Unidos, principal potência militar da Guerra Fria, eram incapazes de defendê-las;
  2. as Nações Unidas também eram incapazes de defendê-las, uma vez que a Resolução 2817 (adotada em 11 de março de 2026) viola o Direito Internacional;
  3. as nações árabes do Golfo encontravam-se sem defesa, já que nenhuma dispunha de um exército digno desse nome (os Exércitos da Arábia Saudita e do Catar são compostos principalmente por combatentes estrangeiros).

Fiéis aos ensinamentos do imã Khomeini, os Guardiões da Revolução ajustaram os seus ataques tanto para desorganizar as sociedades árabes do Golfo quanto para levar os seus Estados a libertarem-se dos anglo-saxões.

<><> O controle do Estreito de Ormuz e a libertação dos bancos estrangeiros submetidos ao Departamento do Tesouro

O primeiro país a dar esse passo foi o Sultanato de Omã. Embora não abrigasse bases militares estadunidenses, fechou o seu espaço aéreo à Força Aérea dos EUA e o seu espaço marítimo aos navios da Marinha dos EUA.

Ao perceber o pânico que isso provocava entre os armadores ocidentais, os Guardiões da Revolução concluíram que o controle do Estreito de Ormuz lhes permitia combater a economia do Ocidente, que apoia há meio século o cerco anglo-saxão ao Irã. Reforçando essa posição, os diplomatas iranianos sublinharam que o Direito Internacional autoriza o fechamento da passagem do estreito, não para todos, mas para os agressores.

Os Guardiões da Revolução decidiram, portanto, proibir os navios que arvorassem pavilhão anglo-saxão ou fossem fretados por companhias anglo-saxãs de atravessar o estreito. Os diplomatas argumentaram então que, embora o Direito Internacional não autorize a cobrança de pedágios pela travessia de um estreito, permite aos países ribeirinhos adotar medidas ambientais de precaução. Por exemplo, Irã e Omã podem exigir conjuntamente garantias aos petroleiros em caso de catástrofes como a do Amoco Cadiz.

Ao criar a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA, na sigla em inglês), em 1º de maio, sem sequer esperar o consentimento de Omã, os Guardiões da Revolução transformaram a Guerra do Golfo no palco da sua revolução anti-imperialista. Para atravessar o estreito, os ocidentais devem depositar, em determinados bancos iranianos, fundos de garantia que lhes serão devolvidos após a travessia.

O problema é que o cerco anglo-saxão ao Irã também passa pelo sistema bancário Swift. Todos os bancos ocidentais comprometeram-se perante o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos a não negociar com o Irã, sob pena de multas astronômicas. Assim, o BNP, da França, que comerciava com o Irã e Cuba, foi obrigado a pagar uma multa de US$ 9 bilhões. Nenhum banco ocidental violará o cerco anglo-saxão ao Irã — a menos, é claro, que os armadores pressionem os responsáveis políticos a libertarem-se dos anglo-saxões.

A questão do Estreito de Ormuz não é, portanto, a instauração de um pedágio — que nunca existiu —, mas a submissão dos aliados dos Estados Unidos à Foreign Account Tax Compliance Act (Lei de Conformidade Fiscal sobre Contas Estrangeiras — FATCA), uma submissão que os torna cúmplices dos Estados Unidos.

Deve-se recordar que o Ocidente, como civilização, forjou-se na Idade Média em torno da condenação dos cercos militares pela Igreja Católica, que continua a opor-se ao cerco de Cuba, do Irã e da Coreia do Norte.

Além disso, o Irã pediu ao Ansar Allah que bloqueasse o Estreito de Bab el-Mandeb aos navios dos agressores. Segundo o Exército dessa facção iemenita, navios israelenses e estadunidenses poderiam ser alvejados. Até o momento, porém, essas ameaças ainda não foram postas em prática.

<><> O cessar-fogo no Líbano e o afastamento entre Washington e Tel Aviv

Embora a questão da cumplicidade dos ocidentais nos cercos anglo-saxões ainda não estivesse resolvida, os iranianos surpreenderam-se ao ver que os Estados Unidos, que haviam aceitado em 11 de abril, em Islamabad, o princípio de um cessar-fogo em todas as frentes, incluindo o Líbano, não reagiram às operações israelenses no país, mesmo depois de o presidente Trump ter proclamado um cessar-fogo entre Israel e o Líbano em 16 de abril. Os iranianos começaram então a interrogar-se sobre as relações entre Washington e Tel Aviv.

Um terço deles pensava que os Estados Unidos e Israel perseguiam o mesmo objetivo de dominação, mas por meios diferentes. Outro terço estimava que os dois países repartiam os papéis — o “bom policial” e o “mau policial” —, enquanto o último terço acreditava que Donald Trump e Benjamin Netanyahu já não estavam na mesma sintonia.

Seja como for, decidiram separar as duas nações. Anunciaram que a retomada dos combates no Líbano contradizia os acordos preliminares de Islamabad e, portanto, o cessar-fogo. Consequentemente, ameaçaram retomar os bombardeios contra o Estado israelense. O presidente dos Estados Unidos, para quem o apoio a Israel é uma questão histórica inegociável, não poderia alcançar a paz no Golfo devido às operações de Benjamin Netanyahu no Líbano.

Inicialmente, impôs negociações de paz a Israel e ao Líbano, em Washington. As conversações começaram na presença de Elbridge Colby, subsecretário da Guerra e principal teórico do ataque estadunidense ao Irã. Os israelenses exigiam a desmilitarização completa do Hezbollah, enquanto o governo libanês, embora compartilhasse esse objetivo, exigia sobretudo a aplicação do “mecanismo” (isto é, do cessar-fogo de 27 de novembro de 2024).

Ora, isso deve fazer recordar a História. Em 1948, Estados árabes lançaram uma guerra contra o Estado israelense logo após David Ben-Gurion autoproclamar o Estado de Israel, em violação do plano das Nações Unidas conhecido como “partilha da Palestina”.

As forças libanesas, comandadas pelo emir Magid Arslane, obtiveram várias vitórias, mas o Reino Unido, em socorro da comunidade judaica da Palestina (Yishuv), lançou o Exército da Cisjordânia, comandado pelo general John Bagot Glubb, conhecido como “Glubb Pasha”, e pelos seus oficiais britânicos, para repelir os árabes.

Essa guerra israelo-árabe é frequentemente apresentada pelos ocidentais como uma vitória israelense, quando foi, na realidade, uma vitória britânica. No entanto, a Liga dos Estados Árabes decidiu, em 1965, cessar todos os contatos com o autoproclamado Estado de Israel.

O Líbano então adotou uma lei proibindo os cidadãos libaneses de celebrar qualquer acordo — financeiro, cultural ou intelectual — ou manter qualquer outro tipo de relação com entidades ou indivíduos israelenses. A lei prevê penas de três a dez anos de trabalhos forçados e multa de 5 mil a 40 mil libras libanesas para qualquer infrator. Além disso, os artigos 273, 275 e 285 do Código Penal criminalizam qualquer “contato com o inimigo”, punível com pena de morte.

Ainda assim, as delegações dos dois países acabaram reunindo-se em Washington sem que o Parlamento libanês tivesse revogado essa legislação.

No momento em que uma nova rodada de negociações libano-israelenses começava em Washington, em 29 de maio, os israelenses lançaram novos ataques, ordenando que populações civis fugissem e bombardeando as suas casas. Essa ofensiva levou à ocupação do castelo cruzado de Beaufort, em 31 de maio.

Os Guardiões da Revolução, constatando que Israel negociava apenas para ganhar tempo, retomaram os seus bombardeios contra o Estado israelense.

Furioso, o presidente Trump ameaçou primeiro o Irã com os piores tormentos, mas depois cedeu. Obrigou Israel a interromper os combates e aceitou as principais reivindicações iranianas. O Irã acabava de provocar uma divergência entre Washington e Tel Aviv, impondo uma relação hierárquica onde antes existia uma relação de coordenação.

¨      Acordo entre EUA e Irã revela como a China se tornou fiadora silenciosa da região

A escolha do Paquistão como local da negociação entre EUA e Irã revela tanto quanto o próprio conteúdo do tratado. Não há neutralidade em geopolítica, apenas diferentes formas de poder. Nesse sentido, o fato de um entendimento entre Estados Unidos e Irã ter sido articulado em Islamabad não é um detalhe logístico, mas um sintoma de transformação na arquitetura internacional.

O Paquistão, situado na transição entre o Oriente Médio, o Sul da Ásia e a Ásia Central, ocupa uma posição geoestratégica singular. Atualmente, o país consolidou-se como o nó vital da Nova Rota da Seda chinesa, materializada no Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), oferecendo a Pequim acesso direto ao Mar Arábico e às rotas energéticas do Golfo Pérsico.

Ao deslocar o eixo da mediação para fora dos fóruns tradicionais ocidentais, o acordo indica a consolidação da China como a nova fiadora silenciosa dos equilíbrios regionais.

A própria trajetória recente das negociações de paz entre Washington e Teerã revela as tensões desse deslocamento. Em maio, uma rodada anterior sugerida em Islamabad foi recusada por Washington, evidenciando resistências internas e o desconforto em aceitar um ambiente diplomático fora de sua órbita tradicional. O retorno à mesa, semanas depois, não se deu por iniciativa estratégica, mas por forte pressão inflacionária.

O impacto sobre o preço dos combustíveis e os consequentes custos políticos internos recolocaram a necessidade de estabilização regional como prioridade. Trata-se de um movimento que ocorre, inclusive, em atrito com os interesses de Israel, principal aliado estadunidense no Oriente Médio.

Pequim não aparece como protagonista formal, mas sua presença é estrutural. O Irã negocia sob a garantia implícita de que não está isolado, seja pelo fluxo contínuo de petróleo para a Ásia, seja pelos mecanismos econômicos que contornam o sistema financeiro dominado pelo dólar.

Na prática, esse cenário demonstra que o regime de sanções perdeu sua eficácia plena. A pressão já não basta para impor uma rendição, em um contexto marcado pelo fim da exclusividade do poder dos EUA e pela emergência de atores como a China, que ampliam as margens de negociação.

É nesse contexto que cabe compreender as bases do chamado “acordo de paz”. Longe de representar uma solução definitiva, trata-se de uma tentativa de reorganizar o equilíbrio regional de poder. O Irã aceita limitações táticas em seu programa nuclear, mas preserva sua capacidade estratégica e obtém alívio nas sanções econômicas.

Até então, essas restrições sufocavam o crescimento do país devido à forte redução das exportações de petróleo, além de contribuírem para o desemprego, a desvalorização da moeda e a alta inflação dos alimentos. Os Estados Unidos, por sua vez, buscam conter riscos sem se comprometer com uma reconfiguração mais ampla do tabuleiro regional.

A instabilidade do acordo decorre justamente dessa ambiguidade, já que ele não soluciona as tensões estruturais, limitando-se a administrá-las. A rivalidade entre Irã e Israel permanece intacta, assim como a disputa por influência no Líbano, na Síria e no Golfo. O fato de Israel manter operações militares no Líbano mesmo com negociações em curso revela os limites desse arranjo, demonstrando que os atores regionais não necessariamente reconhecem ou se subordinam à lógica do entendimento.

Mais do que um tratado, o que se desenha é um mecanismo precário de contenção de danos. Sua durabilidade dependerá menos das cláusulas formais e mais da correlação de forças em constante mutação. Nesse cenário, a China avança não pela imposição, mas pela gravidade econômica, enquanto os Estados Unidos tentam preservar sua capacidade de contenção, agindo mais para gerenciar o próprio declínio relativo do que para ditar os rumos de um mundo que caminha, irreversivelmente, para a multipolaridade.

O acordo, portanto, não encerra um conflito; ele se encarrega de expor a transição em curso, na qual o Paquistão atua como laboratório geopolítico e ponto de convergência dessas novas forças. O que está em jogo, afinal, não é apenas o programa nuclear iraniano, mas a própria forma de organização do poder global no século XXI.

 

Fonte: Por Thierry Meyssan, na Rede Voltaire/Diálogos do Sul Global

 

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