sábado, 20 de junho de 2026

O trauma e a esperança por trás da rara participação do Haiti na Copa do Mundo

Por dois dias, a violência parou. A chegada do então campeão mundial Brasil para uma partida de exibição no Haiti, devastado por conflitos, paralisou a capital Porto Príncipe em 2004. “Você tem certeza de que os brasileiros estão jogando no Haiti? Parece que os brasileiros estão em casa”, lembra o jornalista haitiano Pierre Richard Midy que seus amigos estrangeiros lhe perguntaram.

Parecia mesmo. Com bandeiras brasileiras sendo levantadas, camisas verdes e amarelas e pintura facial, milhares de moradores se alinharam nas ruas e subiram nas árvores para ter uma visão melhor de seus heróis, incluindo Ronaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos.

Com a única participação do Haiti na Copa do Mundo masculina em 1974, os torcedores há muito tempo recorriam ao Brasil como sua equipe para torcer no Mundial.

Sua paixão aumentou ainda mais nas últimas duas décadas por meio dos principais papéis do Brasil no apoio à manutenção da paz, ajuda humanitária e migração.

O Haiti perdeu a partida por 6 a 0, mas o amistoso organizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) foi muito mais importante em uma nação insular caribenha dominada pela guerra de gangues. Midy relembra “uma atmosfera de paz” e que as gangues pareciam “prontas para virar a página e cessar o fogo por dois dias”.

Este ano, os haitianos estão aproveitando a rara chance de não apenas torcer por sua própria equipe na Copa do Mundo, mas também jogar contra o Brasil novamente.

Ambos estão no Grupo C, ao lado da Escócia e do Marrocos.

As ruas foram limpas e as bandeiras haitianas foram penduradas com orgulho, enquanto os fãs estão encontrando maneiras criativas de assistir à ação em um país onde há uma escassez crônica de eletricidade.

Mais uma vez, o futebol para eles é uma questão de esperança, não de resultados.

Em grande parte sob controle de gangues e enfrentando uma crise humanitária agravada por desastres naturais, como o terremoto de 2010 que matou mais de 100 mil pessoas, o Haiti é tão perigoso que a seleção nacional não disputa uma partida em casa há cinco anos.

Seu técnico nunca pisou na ilha, a maioria dos jogadores nasceu no exterior e será difícil para os torcedores acompanharem a Copa do Mundo de perto, já que as restrições de viagem aos Estados Unidos impostas pelo governo do presidente Donald Trump — somadas aos custos — tornam essa possibilidade praticamente inalcançável.

"Temos muitos jogadores que nunca estiveram no Haiti. Então, antes dos jogos, eu costumava compartilhar com eles a realidade do país e a responsabilidade que carregamos nos ombros", disse Duckens Nazon, maior artilheiro da história da seleção haitiana.

"Quando vestimos essa camisa, é mais do que uma partida comum. Somos a primeira nação negra independente do mundo. Temos muita história. Precisamos assumir esse papel."

Um jogador que conhece essa realidade melhor do que ninguém é Woodensky Pierre, o único atleta da seleção que atua no futebol haitiano.

O volante foi criado na favela de Cité Soleil e joga pelo Violette AC, um dos maiores clubes do Haiti. O estádio do time, o Stade Sylvio Cator, sediava os jogos da seleção até ser tomado por gangues há dois anos.

O Violette conquistou o campeonato nacional um mês antes da Copa do Mundo, mas, em uma demonstração de como é a vida cotidiana no Haiti, o início da partida decisiva foi atrasado por causa de tiros.

Woodensky, como é conhecido, foi convocado inicialmente por Sébastien Migné apenas com base em vídeos na internet, já que o técnico da seleção haitiana não tinha como vê-lo jogar pessoalmente.

"Esse jogador vem de um dos bairros mais perigosos do Haiti. Ele joga por instinto, porque aprendeu cedo que hesitar pode custar tudo", disse Midy.

"Ele é muito importante para o povo haitiano porque representa a ideia de que 'não estamos mortos, ainda temos talento aqui'. Ele sempre diz: 'Não estou apenas carregando a bola, estou carregando as esperanças do lugar de onde venho'."

Nazon espera que o exemplo de Woodensky — e da seleção haitiana como um todo — possa deixar um legado capaz de inspirar a paz.

"É isso que tentamos transmitir à nova geração", afirmou.

"Vocês não são obrigados a pegar em armas. Não são obrigados a entrar para gangues, traficar ou usar drogas. Existem muitas formas de sair dessa situação."

Em 2021, o país mergulhou no caos após o assassinato do presidente Jovenel Moïse. Desde então, ele nunca foi substituído por um presidente eleito, o que abriu espaço para que as gangues ampliassem seu poder e influência.

Segundo a Anistia Internacional, 5.600 pessoas foram mortas no Haiti somente em 2024. A população do país é estimada em cerca de 11,5 milhões de habitantes.

O Haiti vem disputando seus jogos "em casa" a cerca de 800 quilômetros de distância, em Curaçao.

Dezesseis dos jogadores da seleção nasceram fora do Haiti, distribuídos por cinco países diferentes. O elenco de 26 atletas reúne jogadores de 25 clubes espalhados por 15 países.

Quem conseguiu transformar essas peças dispersas em uma equipe coesa foi o francês Sébastien Migné, que foi auxiliar técnico de Camarões na Copa do Mundo do Catar, em 2022.

"Ele é um técnico mágico", disse Midy.

"Quando assisto aos jogos do Haiti, não consigo explicar como ele faz isso. Eu perguntei a ele, e ele respondeu: 'Não sou eu, são os jogadores. Não tenho nenhum segredo. Apenas digo para colocarem o coração em campo'."

E é exatamente isso que faz Nazon, nascido na França, filho de pais haitianos.

Segundo Midy, sua paixão pelo país lhe rendeu status de herói nacional, independentemente dos 44 gols marcados em 80 partidas pela seleção.

"Nós o chamamos de 'chouchou' do Haiti", disse ele, usando o termo francês carinhoso que significa algo como "queridinho".

"Os haitianos sempre veem nele o exemplo de alguém que se sente mais haitiano do que muitas pessoas que nasceram e cresceram no Haiti."

Seu companheiro de equipe Hannes Delcroix, ex-zagueiro do Burnley, nasceu no Haiti, mas foi adotado por uma família belga quando tinha apenas dois anos de idade.

Ele nunca voltou ao país e só nos últimos anos retomou contato com sua mãe biológica e suas irmãs.

"Eu nunca as vi pessoalmente, mas conversamos de vez em quando por telefone", contou. "No começo é uma sensação estranha, porque não existe vínculo nem conexão."

"Acho que eu só queria saber se ela estava bem, saudável, se todos estavam em segurança. E se havia alguma forma de eu ajudar."

Talvez essa reconexão com sua família biológica tenha sido o que o levou a optar por defender a seleção haitiana em 2025.

"Chega um momento em que você se pergunta o que quer para sua vida e por qual país deseja jogar. E, para mim, a resposta foi Haiti", afirmou o jogador de 27 anos, que disputou uma partida pela seleção da Bélgica em 2020.

Os mais céticos poderiam argumentar que Delcroix escolheu o Haiti apenas porque a equipe estava perto de garantir vaga na Copa do Mundo. Mas ele diz que a decisão se transformou em uma jornada de autodescoberta.

"Sempre esteve no fundo da minha mente a possibilidade de jogar pelo Haiti. Na primeira vez em que nos reunimos, senti que não estava sozinho", disse.

"Quando estou com a seleção haitiana, isso me ajuda muito a entender melhor a cultura e a língua. Eu não falo (o idioma) crioulo, então é algo que realmente quero aprender mais profundamente."

A qualificação do ano passado para a Copa do Mundo foi alcançada em um dia já significativo para o Haiti, 18 de novembro. É a mesma data da revolta de escravos que derrubou o domínio colonial de Napoleão na Batalha de Vertieres em 1803.

A equipe planejava usar uma camisa com a imagem dessa batalha, mas foi forçada a mudar o design poucos dias antes da Copa do Mundo depois de ser informada de que não cumpria as regras da Fifa que proíbem 'mensagens ou slogans políticos, religiosos ou pessoais' no kit.

Mudar o design do kit não é a única maneira pela qual eles tiveram que se adaptar, com os torcedores no Haiti precisando improvisar para poder assistir às partidas.

Midy explica que, durante as Copas do Mundo anteriores, os jovens reuniram recursos para alugar ou comprar um pequeno gerador ou criar suas próprias zonas de torcedores, enquanto famílias com sistemas de energia independentes abriram suas portas para amigos e vizinhos e transformaram suas salas de estar em vibrantes centros de futebol.

“Este ano, no entanto, a empolgação atingiu outro nível”, disse ele. “Em bairros populares, organizações e grupos locais estão distribuindo kits que incluem televisores e sistemas inversores movidos a energia solar para ajudar os residentes a acompanhar o torneio.”

Embora a seleção não dispute uma partida em casa desde a derrota por 1 a 0 para o Canadá, em 2021, os jogadores continuam contando com apoio nas diferentes cidades por onde passam. Isso se deve ao tamanho da diáspora haitiana, estimada em quase dois milhões de pessoas espalhadas pelo mundo.

No amistoso preparatório para a Copa do Mundo contra o Peru, disputado há duas semanas em Miami — cidade que abriga um bairro conhecido como Little Haiti — a comunidade haitiana do sul da Flórida ajudou a lotar o Nu Stadium.

O Haiti disputa nesta sexta (19/06) sua segunda partida na Copa, contra o Brasil.

No passado, talvez houvesse mais haitianos torcendo pela seleção brasileira do que pela própria equipe nacional. Mas Duckens Nazon acredita que o Haiti agora merece o apoio incondicional de seu povo.

"É realmente louco pensar que, no seu próprio país, antes havia mais gente torcendo por outra seleção", afirmou o atacante, que passou por 13 clubes ao longo da carreira, entre eles St Mirren, Coventry City e Oldham Athletic.

"Eles não tinham nada em que se agarrar para dizer: 'Tenho orgulho' ou 'Tenho uma seleção nacional'. Mas agora têm uma seleção que está disputando a Copa do Mundo, então devem se orgulhar disso. Eles podem gostar do Brasil, podem gostar de outras equipes, mas devem torcer por nós."

E, junto com esse apoio, vem a esperança de que o futebol possa voltar a funcionar como uma pausa — ainda que temporária — na violência que assola o país.

"Todos os líderes de gangues gostam de futebol", disse Midy.

"Depois da classificação para a Copa do Mundo, vi vídeos de líderes de gangues comemorando como qualquer outra pessoa nas ruas, com música."

Duckens Nazon se lembra de cenas parecidas em 2019, quando o Haiti chegou às semifinais da Copa Ouro da Concacaf.

"Eles nos mostraram alguns vídeos. Foi algo impressionante. Nunca tinha visto nada parecido na minha vida. Havia muita gente nas ruas — integrantes de gangues e civis juntos — simplesmente aproveitando aquele momento", contou.

"Tenho certeza de que isso vai acontecer durante a Copa do Mundo. Mas queremos levar esse espírito e esse ambiente para sempre, e não apenas durante um, dois ou três jogos."

•        O que tinha a camisa da seleção do Haiti que foi proibida pela Fifa na Copa

Nesta sexta-feira (19/06), o Haiti entrou em campo contra o Brasil, em Filadélfia, pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026. Mas antes de pensar em futebol, a seleção haitiana teve que resolver outro problema: dias antes da estreia no torneio, a Fifa proibiu, em cima da hora, a camisa que o time usaria na competição. O motivo era uma ilustração discreta, posicionada perto do quadril direito do uniforme.

Ela mostrava silhuetas de combatentes erguendo a bandeira do Haiti — uma representação da Batalha de Vertières, o confronto de 1803 que selou a independência do país.

A Fifa concluiu que a imagem poderia ser interpretada como uma declaração política, o que viola seu regulamento de equipamentos, e pediu a remoção. A seleção já havia usado a camisa original em dois amistosos preparatórios na Flórida, contra Peru e Nova Zelândia, antes da intervenção.

A fabricante da camisa, a colombiana Saeta, afirmou que o desenho nunca teve intenção política — seria uma homenagem aos homens e mulheres que constroem o futuro do país. Já a Federação Haitiana de Futebol, em nota à imprensa americana, classificou a decisão da Fifa como "uma má interpretação". Nenhuma das duas partes entrou em conflito aberto com a entidade: a camisa foi alterada, e a versão revisada já apareceu nas fotos oficiais do time antes do torneio.

Foi com essa nova camisa, sem a ilustração, que o Haiti estreou no último sábado (13/06), em Boston — e perdeu por 1 a 0 para a Escócia. O Brasil, na mesma rodada, empatou 1 a 1 com o Marrocos, em Nova Jersey.

<><> Não foi a primeira vez

A proibição da Fifa não foi um caso isolado. Meses antes, o Comitê Olímpico Internacional já havia vetado um elemento visual parecido na delegação haitiana — dessa vez, uma ilustração do revolucionário Toussaint Louverture, prevista no uniforme da cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de Milão-Cortina, também sob a justificativa de simbolismo político.

A solução encontrada na época pela estilista Stella Jean, responsável pelo uniforme olímpico, foi pintar sobre a figura de Louverture, deixando apenas um cavalo contra um fundo de folhagem tropical. Jean comentou à Associated Press que, de um jeito ou de outro, o Haiti estava prestes a estabelecer um recorde: duas reprovações das maiores autoridades esportivas internacionais em poucos meses.

Para muitos haitianos, a proibição da Fifa carregou um peso simbólico ainda maior por causa de uma coincidência específica.

O Haiti garantiu sua vaga nesta Copa do Mundo em 18 de novembro de 2025, ao vencer a Nicarágua por 2 a 0 nas eliminatórias da Concacaf. A data era simbólica: é o mesmo dia, exatamente 222 anos antes, da Batalha de Vertières, vencida em 18 de novembro de 1803.

<><> A batalha que fundou um país

A Batalha de Vertières foi o desfecho de um processo que começou doze anos antes. Em agosto de 1791, pessoas escravizadas na colônia francesa de Saint-Domingue se ergueram contra os senhores de engenho em uma revolta que se tornaria a única rebelião de escravizados da história a culminar na fundação de um país independente.

Em menos de dois anos, os revoltosos haviam forçado a França a abolir a escravidão no território — décadas antes de a maior parte do mundo ocidental fazer o mesmo.

O conflito se transformou em guerra de independência quando Napoleão Bonaparte tentou reverter a abolição e retomar o controle da colônia, em 1802.

A resistência, liderada por Jean-Jacques Dessalines, cercou as últimas tropas francesas em Cap-Français — atual Cap-Haïtien —, onde o general Donatien de Rochambeau resistia com cerca de 5.000 homens.

A batalha decisiva aconteceu em 18 de novembro de 1803, no Forte de Vertières, nos arredores da cidade. Um dos episódios mais lembrados até hoje envolve o general François Capois: durante um avanço sob fogo intenso, seu cavalo foi atingido e ele caiu, mas se levantou, ergueu a espada e seguiu em frente gritando para que os soldados avançassem.

Impressionado, o próprio Rochambeau teria ordenado um cessar-fogo temporário para saudar a bravura do general — que ficou conhecido a partir daquele dia como "Capois-la-Mort" ("Capois, a Morte"). Depois da pausa, os combates foram retomados.

Derrotado, Rochambeau negociou a rendição no dia seguinte: recebeu dez dias para evacuar o restante de suas tropas de Saint-Domingue. Foi a última grande batalha da Revolução Haitiana. Em 1º de janeiro de 1804, menos de dois meses depois, o Haiti declarou sua independência, tornando-se a segunda nação independente das Américas, depois dos Estados Unidos. Dessalines se tornou o primeiro chefe de Estado do país.

Até hoje, 18 de novembro é celebrado no Haiti como o Dia das Forças Armadas — data oficial em homenagem à vitória.

<><> O estádio que não existe mais

O contexto em que a seleção chega a esta Copa é de fragilidade. Segundo estimativas das Nações Unidas, gangues armadas controlam entre 80% e 90% da capital, Porto Príncipe — incluindo a região onde fica o Stade Sylvio Cator, principal estádio do país e palco da seleção havia décadas, inclusive durante as campanhas das eliminatórias para sua única outra participação numa Copa do Mundo, em 1974.

A equipe não joga em solo haitiano desde 2021, ano marcado pelo assassinato do então presidente Jovenel Moïse, que deixou um vácuo de poder explorado por grupos armados. Em março de 2024, a Federação Haitiana de Futebol confirmou que o próprio Sylvio Cator havia sido invadido e ocupado por gangues. Hoje, o estádio funciona como abrigo para moradores que fogem da violência nos arredores.

No mesmo período, o centro de treinamento da seleção, conhecido como Centro de Goal da Fifa, em Croix-des-Bouquets, foi tomado por uma gangue. Mais recentemente, neste ano, parte de suas instalações foi incendiada durante confrontos entre gangues e a polícia.

Sem condições de treinar ou jogar em casa, a seleção passou a se preparar fora do país — primeiro na Flórida e em Nova Jersey, depois em Curaçao, onde, em novembro de 2025, venceu a Nicarágua por 2 a 0 e garantiu a vaga inédita em 52 anos.

Um dos gols daquela noite saiu dos pés de Louicius Deedson, hoje jogador do FC Dallas, que descreveu à CNN a euforia nas ruas de Porto Príncipe como algo que o país não vivia há muito tempo. Mesmo o técnico francês da seleção não pôde viajar até o Haiti para acompanhar os treinos.

 

Fonte: BBC Sport

 

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