Jogadores
de raiz africana defendem seleção alemã na Copa
A
maioria das notícias sobre a seleção alemã na Copa do Mundo falava sobre o
retorno de Manuel Neuer, 40 anos, que já havia se aposentado do time e seguia
jogando no Bayern de Munique. Mas, por trás das manchetes sobre o goleiro, há
outra história. Ou histórias.
Dos 26
jogadores que representam a Alemanha, seis têm raízes africanas: Jonathan Tah
(pai marfinense), Antonio Rüdiger (mãe de Serra Leoa), Leroy Sané (pai
senegalês), Felix Nmecha e Jamal Musiala (ambos filhos de pai nigeriano) e
Jamie Leweling (pai ganês).
Na
verdade, se forem analisadas as convocações da seleção alemã no último ano,
houve um total de 17 jogadores de ascendência africana. A ligação que os
jogadores de futebol da Alemanha têm com essas outras nações é inegável e de
enorme importância para a Copa do Mundo de 2026.
"Com
a ultradireita liderando as pesquisas na Alemanha, em algumas com vantagem de
cinco, seis, sete pontos, acho que é realmente importante, neste momento em que
um quarto dos imigrantes que chegaram à Alemanha estão pensando em partir
novamente, mostrar que há pessoas aqui que estão prosperando, que não são
brancas, que têm origens de outros lugares, que cresceram aqui, que se mudaram
para cá e fizeram da Alemanha seu lar", afirma Musa Okwonga, autor e
podcaster de futebol ugandês-britânico que mora em Berlim há mais de uma
década.
A
Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla em alemão) não se esforçou
explicitamente para destacar a diversidade dessa seleção, mas reconhece sua
importância: "No fim das contas, todos estão unidos por uma decisão [de
jogar pela Alemanha] por convicção, e não tanto por determinado caminho no qual
o sucesso esportivo é mais provável", diz o diretor da DFB, Andreas
Rettig.
"Ficamos
felizes em ver um compromisso precoce com a seleção alemã, e isso nos
impressionou", afirma, citando o exemplo do zagueiro Jonathan Tah.
"Sabemos
disso pela economia: equipes mistas, com homens e mulheres ou de diferentes
nacionalidades, jovens ou idosos, são sempre vantajosas para o produto final;
por isso, estamos felizes por ter essa diversidade na equipe", acrescenta.
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Jogadores foram à África
No
início de 2025, Tah visitou a Costa do Marfim pela primeira vez desde os 14
anos, explicando em uma entrevista à DW que a viagem foi "extremamente
revigorante". Rüdiger também criou uma fundação em Serra Leoa.
"Voltar
a um lugar onde você se beneficiou da exploração colonial da Europa Ocidental e
encontrar parentes com quem, há apenas duas gerações, você ainda convivia, isso
é difícil para muitas pessoas", afirma Okwonga.
Levando
em conta que a Alemanha tem um passado colonial na Namíbia, na Tanzânia, em
Camarões e Togo, para citar apenas alguns exemplos, fica claro por que
sentir-se conectado a duas nações evoca emoções tão conflitantes e complexas.
Okwonga
acredita, no entanto, que a visibilidade de jogadores de futebol que têm raízes
africanas, mas que também se orgulham de ter a Alemanha como pátria, carrega um
simbolismo importante.
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Impacto além do futebol
Na
preparação para a Euro 2024, o técnico da seleção alemã, Julian Nagelsmann,
comentou uma pesquisa realizada pela emissora pública alemã WDR que revelou que
21% dos entrevistados queriam mais jogadores brancos na seleção nacional.
"Uma
seleção de futebol pode ser um exemplo de como unir diferentes culturas,
origens, religião e cor da pele. Está tudo bem do jeito que está. Jogamos a
Eurocopa para toda a população do país, e quem joga futebol de alto nível é
convidado a integrar a seleção", afirmou Nagelsmann.
Sua
postura firme em temas à parte do esporte chamou a atenção, pois o valor
simbólico e a influência da seleção alemã e do futebol como um todo são
bastante difundidos.
"Nos
12 anos em que estou aqui [na Alemanha], essa seleção alemã, a equipe que vi na
Eurocopa, foi a melhor versão. Em termos do futebol que jogou, como trabalhou
junto, como se apoiou mutuamente. É tudo o que se poderia desejar de um time de
futebol, de um coletivo, de uma comunidade", opina Okwonga, que também diz
que a presença de Vincent Kompany como técnico do Bayern de Munique teve um
impacto positivo no ambiente para os jogadores alemães com raízes africanas –
Kompany é um ex-jogador belga filho de pai congolês.
É claro
que muita coisa mudou desde que Gerald Asamoah se tornou o primeiro alemão
nascido na África a disputar uma Copa do Mundo, em 2006. Mas a discussão
continua, a exemplo do incidente ocorrido em 2023, quando dois jogadores com
raízes africanas de uma seleção de base alemã foram alvo de uma enxurrada de
comentários racistas nas redes sociais após perderem pênaltis.
Problemas
sistêmicos tendem a ser resolvidos por meio de políticas, e não pelas ações ou
palavras de um time de futebol, mas isso não torna seu simbolismo menos
significativo.
"Acho
que, na verdade, a diversidade dessa equipe não tem a ver com as pessoas que
detestam ver isso. Trata-se de mostrar que a amizade entre todos os grupos é
perfeitamente possível. Se eles não vencerem, não será porque o projeto
multiétnico foi um fracasso. Será porque foram derrotados por uma equipe
melhor", argumenta Okwonga.
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O que o título significaria para a Alemanha?
A
Alemanha não é uma das favoritas para a Copa do Mundo deste ano, mas, caso
vença, há uma tentação óbvia de considerar o impacto social e político no país.
Será que isso traria a alegria observada em 2014 ou mesmo em 2006, quando a
Alemanha sediou o torneio e viveu um "conto de fadas de verão", como
os alemães dizem, apesar de não ter vencido?
"Se
a Alemanha vencer a Copa do Mundo, será, antes de tudo, um triunfo para esse
grupo de jogadores e para os torcedores que os apoiaram. Não acho que seja um
ponto de influência política no sentido progressista, porque acredito que
muitas outras coisas estão dando errado na Alemanha no momento", opina
Okwonga.
"Acredito
que o sucesso em campo de uma seleção diversificada pode ser um catalisador no
contexto político certo. Infelizmente, não acredito que este seja o contexto
certo", conclui.
Com ou
sem o contexto correto, a diversidade desta seleção alemã merece
reconhecimento.
Fonte:
DW Brasil

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