Chico
Buarque ainda tem uma das melhores sínteses musicais entre amor e política
Francisco
Buarque de Hollanda descobriu a sua profissão quando ficou desempregado. No
início ser artista era brincadeira. Por volta dos 22 anos, trancou a Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da USP, sabendo que poderia voltar caso a música
desse errado. Entretanto, no meio do caminho havia um golpe militar.
Dias
após a publicação do Ato Institucional nº5, em dezembro de 1968, ele foi detido
em casa e levado do Dops ao I Exército, viajando pelas ruas do Rio de Janeiro
na companhia de militares trajados como civis. Marieta Severo, então sua
esposa, correu atrás e o aguardou ser interrogado por um dia inteiro.
O
problema é que àquela altura, no final de 1968 e início de 1969, Francisco já
era Chico Buarque, autor d’“A Banda”; o bom moço que havia confundido os
desatentos ao participar da passeata dos Cem Mil e ao escrever a peça Roda
Viva.
Marieta
estava grávida da primeira filha do casal quando uma breve viagem à Itália
tornou-se um exílio. Chico só poderia sair do Rio com autorização do Exército,
mais precisamente, de um tal coronel Átila. O coronel autorizou e foram à
Europa para um compromisso artístico. Mas a família não voltou ao Brasil,
sobretudo, por ter recebido um aviso de Caetano Veloso indicando que Chico
estava sob o olhar vigilante da ditadura.
Nessa
época, quem passava pelas mãos dos militares era interrogado sobre os demais
artistas. Se o interesse por um deles se mostrava persistente durante o
inquérito, tratava-se de avisá-lo. A solidariedade foi um traço positivo de um
tempo tão obscuro.
Chico
foi morar na Itália: o dinheiro acabando; o trabalho rareando. Foi naquele
período que ele entendeu que a música botava comida na mesa. Aliás, não estava
botando. Então os quatro – Chico, Marieta, a primeira filha, Silvia, e a
recém-nascida, Helena – retornaram ao Brasil.
Há um
vídeo em preto e branco de Chico, datado de 1968; consta que foi gravado na Itália. Respondendo
ao entrevistador, ele afirma que foi preso, mas que não pode falar sobre isso.
Está muito jovem, bonito e fuma bastante. Questionado a respeito de Roda Viva,
diz que é uma comédia na qual fotografa a ilusão do ídolo e a mentira da
televisão.
De
súbito, vejo outro vídeo se materializando. Dessa vez encontro as imagens
coloridas no Tik Tok. É uma espécie de meme no qual Chico discorre sobre a
bissexualidade. Ele gosta de mulheres e acredita que não vai gostar de um homem
e está tudo bem. “Algum tempo depois” – indica a edição – Chico se derrete com
um recado de Caetano e lança: “Caetano é engraçado porque desconcerta a gente”.
O vídeo
coloca em dúvida a sexualidade declarada do artista, trazendo-o a uma nova
linguagem do humor que é consumida aos montes por novíssimos amantes da MPB. No
entanto, é o mesmo Chico, aquele que cristalizou a imagem de grande compositor
e porta-voz contra a ditadura. Imagem construída desde os anos 1960 e que
perdura até hoje, sobrevivendo e se valendo das ilusões do ídolo; das mentiras
da televisão.
Com
isso começo a história de Chico Buarque que gostaria de costurar para vocês;
com um breve relato de seu exílio e duas imagens que o reencenam no
contemporâneo. No seu aniversário de 82 anos, é interessante notar como ele
ainda atualiza o nosso imaginário de juventude. As análises que se seguem
indicam a sua contribuição nesse sentido. Vejamos que a geração que inventou o
Brasil em plena ditadura, semeando sonhos numa terra erodida, ainda pode nos
informar vividamente sobre amor e política.
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À flor da terra
Traçar
um perfil político de Chico Buarque seria um trabalho eternamente inacabado.
Optei por não o fazer, apostando na existência de muitos perfis do artista que
provavelmente dão conta do recado. Ao invés disso, quero mostrar como o
político jorra de sua obra quando escavamos o não óbvio.
Chico
torce o nariz quando pensa numa arte utilitária. O público procurava metáforas
nos textos em que elas simplesmente não figuravam e algumas canções versavam
apenas sobre o amor (como veremos adiante, não há nada de menor nas músicas de
amor). Contudo, o jogo discreto com a política não quer dizer que Chico não se
inscreva no regime da fresta de que fala Gilberto Vasconcellos em De olho na
fresta.
Vasconcellos,
identificando que a MPB se assentava no seio da indústria cultural, propõe a
linguagem da fresta como única possibilidade de enunciar um discurso subversivo
naquele contexto. Por um lado, a censura; por outro, a cultura de massa.
Portanto a fresta seria o ponto, quase saturado, pelo qual alguns cavalos de
Tróia conseguiam passar.
Ao
contrário do que se pensa, no interior desses cavalos não se escondiam
militantes barbudos, com frases de efeito prontas – o que nas décadas de 1960 e
1970 já se chamava de esquerda festiva. Não. Os cavalos de Chico eram, por
fora, aqueles de corrida, bem cuidados, com porte e preparo físico. Por dentro,
entretanto, as contradições sociais se digladiavam, rebatendo-se em canções que
saíam cortando na forma de estilhaços.
A obra
política de Chico é violenta. Isso porque nela se impõe a arbitrária violência
da linguagem, como diz Silviano Santiago no prefácio do livro de Vasconcellos.
A linguagem é caprichosa, convocando outras vozes e, por isso mesmo, fazendo
com que o compositor não tenha pele, não tenha corpo e não possa traçar limites
entre o “eu” e o “outro” – refiro-me a uma definição que Miúcha faz do irmão,
presente no perfil biográfico escrito por Regina Zappa, Chico Buarque, de 1999.
Ainda
com Santiago, o ruído causado pela violência da linguagem insiste na
contradição. Algo próprio da arte latino-americana – que Chico Buarque maneja
como ninguém – é a exposição de uma realidade incômoda na qual a voz dos
desvalidos não pode ser ignorada. Chico viceja um discurso poético que abriga
os excluídos, ferindo qualquer presente que se quer “normal”, “normativo” ou
“higiênico”.
Junto à
convivência entre o hegemônico e o contraditório, vem a proposta utópica de um
tempo-espaço radicalmente outro. Adélia Bezerra de Meneses, estudiosa da
poética de Chico, afirma que os personagens da música “O que será (À flor da
terra)”, como os delirantes, os embriagados e as meretrizes, “não se deixam
cercear pela razão e habitam o mundo da fantasia”. Nesse caso, a suspensão da
razão e a fantasia não projetam o caos como fim. Antes, querem dialogar com os
desejos mais loucos. É na partilha dos sujeitos desejantes que se constrói um
terreno em comum.
A
utopia política adentra a construção de um espaço comunal, fruto do desejo
entre os sujeitos. A fim de habitá-lo, os sujeitos se despem das máscaras
sociais e enfrentam a sua alteridade radical. Opondo-se violentamente e nus, um
roça no outro, gerando uma faísca mais perigosa do que uma música panfletária.
É desse material que se faz boa parte da obra de Chico Buarque.
Se
restam dúvidas sobre o êxito dos indomáveis, em “O que será (À flor da terra)”,
Chico dá conta delas na terceira estrofe da canção. Como analisa Marcos
Napolitano em um artigo na revista História (São Paulo) de 2003, sabendo que
para a MPB o “amanhã” configurava-se como um mito iminente, a música rompe com
qualquer tipo de ordem e gera um lugar novo tão fantástico que, mesmo o
julgando como o inferno, o Padre Eterno vai até lá abençoar.
Insistem
as perguntas: o que seria combinado no breu das tocas? O que andaria nas bocas?
O que seria sussurrado e gritado, ao mesmo tempo? Napolitano aventa a
possibilidade de ser a revolução. Voltemos, assim, a Silviano Santiago, que nos
anos 70 apontava para a crise do pensamento revolucionário. Ele denunciava que
num contexto cheio de contradições sociais, a luta de classes não explicava uma
realidade na qual os signos da diferença irrompiam o tempo todo para
desestabilizar as ideias homogêneas do que seriam as classes.
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À flor da pele
Darei
continuidade, pensando no erotismo de ambas as versões de “O que será?”.
Afinal, como já dito, Chico instiga o desejo como o modo de formar partilha
entre o sujeito e o outro. Dessa forma, amor e política andam lado a lado na
corda bamba, desafiando os limites da arte e da identidade. Arrisco dizer que
são esses os índices cuja invocação é profícua para a força utópica; a força
revolucionária.
Em “O
que será (À flor da pele)”, o eu-lírico narra a si e o foco não está mais numa
entidade terceira; alheia. Questiona-se o que o bole por dentro, o que está na
própria pele e na própria face.
Vamos
utilizar essa noção para meditar um pouco sobre como Chico se coloca na letra,
notando que ele emprega um alter ego visto sob a ótica de Alexandre Nodari em A
literatura como antropologia especulativa de 2024. O livro analisa as
proximidades entre a antropologia e a literatura, concluindo que, resguardadas
as distâncias entre os dois campos, a observação do outro requer que o sujeito
se torne o que difere de si.
Ou
seja, ser sujeito é a possibilidade de transitar entre observador e observado.
Só é possível existir sujeito porque existe o outro; porque o sujeito está no
mundo em relação aos outros que não são ele. Mas poderiam ser.
Na
segunda estrofe de “O que será (À flor da pele)”, o eu lírico engendra o outro
porque diz “a gente”. Seríamos todos nós? Inclusive, os mutilados da outra
versão? Ou seriam o amante e o(s) ser(es) amado(s)? De todo modo, o pacto entre
“um” e “mais de um” se funda na dúvida, na aflição medonha e na perturbação.
Esse
jogo poético é incômodo e violento, pois o sujeito é esgarçado na presença do
diferente (Chico não tem pele e não tem corpo, como disse Miúcha). O encontro
não é harmônico e, ainda que seja o amor, não será conciliado nem nos dez
mandamentos.
Nesse
sentido, gostaria de me debruçar sobre uma discussão que sempre ronda a obra de
Chico. Um bom exemplo diz respeito à música “Tua cantiga”, de 2017. Quando a
letra diz que o apaixonado “largaria mulher e filho” pelo objeto da paixão,
muitas mulheres podem ter se ofendido com a promessa irresponsável – o que
chamaríamos hoje de falta de responsabilidade emocional.
Sabe-se
que não é Chico prometendo, mas acredito que precisamos dar um passo além e ver
que a composição é a exploração do alter ego sobre a existência, a realidade e
as suas dobras. Afinal, a poesia sacode verdade e mentira, suspendendo-as numa
dimensão ambivalente; que é esta aqui, mas que também não é.
Portanto,
cobrar que a música seja uma cartilha moral, espelhando-a na realidade, acaba
por mortificar a capacidade utópica da arte. O processo artístico alimenta a
vida imediata com a matéria recolhida dessa dimensão suspensa, onde se eleva o
alter ego ao extremo.
Vejamos
mais uma música que sofre da mesma questão. “Com açúcar, com afeto” é um
documento histórico que explica as escolhas artísticas de uma mulher, Nara
Leão. Após se emancipar da bossa nova – onde era a “muda” e não a “musa”, como
afirmou em entrevistas –, Nara se engaja na sociabilidade fértil da cultura de
protesto. É ali que participa ativamente de um encontro promovido pela
juventude comunista, o qual reunia diferentes classes sociais, rompendo
barreiras culturais e rítmicas antes intransponíveis. O avanço da ditadura e da
indústria cultural drena esse projeto, fazendo com que Nara se decepcione com
as expectativas revolucionárias propagadas pela MPB. Então, ela mergulha num
lirismo nostálgico e, junto a Chico Buarque, mapeia um Brasil arcaico, bucólico
e com papéis de gênero inabalados. Não é um endosso, mas a criação de um
imaginário que ironizava os estudantes brancos e sudestinos que insistiam em
falar pela classe trabalhadora, apesar de estarem cada vez mais distante dela.
Ademais,
Chico e Nara dilaceram as suas identidades, indo até o outro – a mulher
submissa e recatada – para ser o outro. Não se trata de ser cômodo, mas de
entender que o outro é um eu-possível, já que humano. Cabe ao ouvinte também
ver o eu lírico como um eu-possível, fazendo da fruição estética um exercício
de empatia radical – o que não é o mesmo que conciliar.
Nessa
esteira, tornamo-nos o outro e vemos como ele se vê; vemos como ele nos vê.
Está aí um movimento animado pela poesia e pelo erótico. No intuito de se
fundir ao outro, o sexo vai transbordando o sujeito e o quebrando, fazendo-o
exceder e caminhar junto ao que está para além de si. Talvez o contato com a
alteridade radical incomode tanto e nos leve a rejeitá-la, por ser incorreta
negando-a dentro da cartilha militante, pois é um contato também erótico; trata
daquilo que reprimimos.
Finalizando
estas palavras, quero remeter a outra música de Chico Buarque. “Mar e lua”
versa sobre o amor entre duas mulheres que, banhando-se na água do mar, vão se
rasgando e se transmutando em peixes, conchas e areia. Nodari traz a hipótese
de que o termo grego ego teria o significado de algo insubstancial. Vou mais a
fundo, com Nodari: se há alguma substância ela reside na própria possibilidade
de ser outro.
Chico
Buarque manifesta esses limites em toda a sua obra com mais de 60 anos
registrados na história do Brasil. No cancioneiro de Chico, amor e política;
erotismo e revolução são chaves para manter pulsando as veias do processo
libertário. Pois, em Chico, até a ruptura mais conclamada encontra a diferença
logo ao lado. E precisamos fazer alguma coisa com esse outro indesejado. Chico
propõe que o escutemos com o ouvido de dentro – conceito de Tom Jobim que ele
gosta de repetir –, não com o de fora. Que os seus 82 anos nos inspirem a ouvir
com o ouvido de dentro; a ouvir, com o ouvido do outro, as múltiplas vozes que
nos cortam neste país tão desigual.
Fonte:
Por Taissa Maia, para Jacobin Brasil

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