‘Ilhado’
nos EUA, dificilmente Eduardo Bolsonaro voltar a se candidatar após cumprir condenação
A
condenação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) pela Primeira Turma
do Supremo Tribunal Federal (STF) é mais um golpe nas ambições políticas do
filho 03 do ex-presidente Jair Bolsonaro. A sua possível permanência nos
Estados Unidos, onde está desde fevereiro de 2025, pode, indiretamente,
dificultar a sua participação em eleições no Brasil.
Especialista
em direito eleitoral, o advogado Renato Ribeiro de Almeida explica que, caso a
condenação se confirme e ele não se apresente para cumprir a pena, ficará com
seus direitos políticos suspensos por estar em dívida com a justiça brasileira.
“Quem tem condição penal com trânsito em julgado tem suspensão dos direitos
políticos”, diz Almeida. Nesta situação, ele fica inelegível até resolver a
questão ou o crime prescrever.
A
intenção de continuar na política brasileira de Eduardo Bolsonaro fica clara
com a nota divulgada após a condenação onde o filho do ex-presidente se coloca
como um perseguido político. “Por isso o real objetivo deste julgamento sem pé
nem cabeça é apenas um: tirar meu nome das eleições”, diz a nota divulgada nas
redes sociais do ex-deputado. Veja a íntegra da nota aqui.
Vale
lembrar que, no caso de Eduardo Bolsonaro, para isso ocorrer, ainda é
necessário que os embargos da defesa sejam analisados e indeferidos, além de um
mandado de prisão expedido. Uma outra fase pode envolver um pedido de
extradição que passaria pelo Ministério da Justiça para chegar às autoridades
norte-americanas.
Na
decisão da Primeira Turma da Corte do STF, dada na última terça-feira, 16 de
junho, a dosimetria da pena foi calculada em quatro anos e dois meses de prisão
em regime semiaberto, com a inelegibilidade por oito anos, segundo a Lei da
Ficha Limpa, contados a partir do fim do cumprimento da sentença. O tempo em
que o ex-deputado ficaria sem poder se candidatar, portanto, seria de cerca de
12 anos.
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Por que isso importa?
• Ex-deputado federal pelo PL, Eduardo
Bolsonaro pretendia sair nas eleições de 2026 como suplente da vaga ao Senado
pela legenda.
• Eduardo Bolsonaro também figura nas
investigações que relacionam Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, com a
financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro, Dark Horse.
Porém,
segundo Ribeiro de Almeida, a inelegibilidade neste período de oito anos pode
ser questionada na Justiça, em tese, em função do enquadramento específico do
crime cometido nas hipóteses de inelegibilidade previstas pela Lei da Ficha
Limpa. De acordo com o regulamento da norma, a condenação por órgão colegiado
já pode produzir efeitos eleitorais antes do encerramento definitivo do
processo, ou seja, antes da declaração do trânsito em julgado.
Na
avaliação do advogado, contudo, seria necessário verificar se o crime de coação
à Justiça no curso do processo, motivo pelo qual Eduardo foi condenado, se
enquadra entre os delitos expressamente contemplados pela Lei da Ficha Limpa.
Outra hipótese seria o crime de coação ser compreendido dentro do arcabouço de
crime contra a administração da Justiça, que também prevê a inelegibilidade de
oito anos após o cumprimento da sentença.
“Esse
provavelmente será um dos temas centrais de uma eventual discussão eleitoral
futura, já que a elegibilidade ou inelegibilidade é analisada quando do
registro de candidatura, em agosto do ano eleitoral”, analisa Almeida.
A
condenação pelo STF não gera efeitos automáticos em relação à vida de Eduardo
em território norte-americano, o que significa que ele não corre risco de
restrições migratórias, civis ou políticas nos Estados Unidos.
“Qualquer
consequência prática dependeria de avaliação das autoridades americanas à luz
de sua própria legislação migratória e de segurança nacional”, explica o
advogado. O ex-parlamentar só poderá ser preso fora do país caso haja um pedido
de extradição determinado pelo ministro Alexandre de Moraes. Essa decisão,
porém, só cabe após o trânsito em julgado do processo.
“Caso
haja condenação definitiva e interesse do Estado brasileiro, o pedido seria
formalizado pelo governo brasileiro, por via diplomática, com base no tratado
de extradição vigente entre Brasil e Estados Unidos. Ainda assim, a decisão
final caberia às autoridades americanas, que analisariam requisitos legais,
dupla tipicidade, natureza do delito e eventuais impedimentos previstos em seu
ordenamento jurídico”, conclui Almeida.
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O julgamento no STF
Após
ter sido denunciado em setembro do ano passado pela Procuradoria-Geral da
República (PGR), o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro foi condenado por
coação à Justiça no processo de julgamento do pai, o ex-presidente Jair
Bolsonaro, também condenado por tentativa de golpe de Estado.
Segundo
a apresentação da denúncia pela PGR ao STF, a atuação de Eduardo nos EUA teria
como missão pressionar autoridades brasileiras para beneficiar Bolsonaro. Para
o procurador-geral Paulo Gonet, o ex-parlamentar, em parceria com o influenciador Paulo Figueiredo, tentou
“instaurar clima de instabilidade e de temor, projetando sobre as autoridades
brasileiras a perspectiva de represálias estrangeiras e sobre a população o
espectro de um país isolado e escarnecido”.
Eduardo
Bolsonaro está nos Estados Unidos para articular a defesa e os interesses do
pai, preso em novembro de 2025, a partir de sanções contra o Brasil e ministros
do STF. A afirmação foi feita em março do ano passado pelo próprio
ex-parlamentar em vídeo divulgado nas redes sociais.
“Irei
me licenciar, sem remuneração, para que possa me dedicar integralmente à busca
das devidas sanções contra os violadores de direitos humanos. Aqui, poderei
focar na luta por punições justas a Alexandre de Moraes e à sua ‘gestapo’ da
Polícia Federal”, publicou Eduardo Bolsonaro na ocasião.
Meses
depois da chegada do então deputado federal aos Estados Unidos, o presidente
Donald Trump anunciou a aplicação de uma tarifa de 50% sobre os produtos
importados do Brasil. A medida, que ficou conhecida como “tarifaço”, foi
justificada politicamente por Trump pelo julgamento de Bolsonaro, que chamou de
“caça às bruxas” em carta dirigida ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No
mesmo período, o governo norte-americano decretou a aplicação da Lei Magnitsky
contra o ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal da trama golpista.
Posteriormente, outros integrantes da Corte tiveram o visto revogado, além do
ministro da Saúde de Lula, Alexandre Padilha e o então ministro da Justiça e
Segurança Pública, Ricardo Lewandowski.
Durante
o julgamento de Eduardo Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes apresentou
diversas entrevistas e vídeos publicados nas redes sociais pelo ex-deputado,
para demonstrar que o filho de Bolsonaro
tomou para si a autoria da articulação política contra o Brasil nos Estados
Unidos.
“Não é
função de deputado federal brasileiro fazer lobby no exterior contra o próprio
país”, disse o ministro durante a leitura do relatório. O voto do magistrado
foi acompanhado por unanimidade pela Primeira Turma, formada, além de Moraes, pelos ministros Carmen Lúcia,
Cristiano Zanin e Flávio Dino.
No dia
17 de junho, durante encontro dos países do G7, o presidente dos EUA Donald
Trump defendeu Bolsonaro em uma fala confusa que misturou Eduardo e Flávio.
“Acabei de me despedir dele [de Lula] e ouvi que prenderam o Bolsonaro Jr. Ele
estava indo bem nas pesquisas e o prenderam porque fez uma declaração no Texas.
Ou prenderam, ou querem prendê-lo”, disse Trump.
• Os cúmplices do plano para tirar Moraes
do caminho das máfias bolsonaristas. Por Moisés Mendes
Eduardo
Bolsonaro foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão e será, depois de
cumpridos os prazos para recursos e chicanas protelatórias, mais um foragido da
Justiça. Outros terão o mesmo destino e buscarão abrigo fora do Brasil.
A cada
condenação no Supremo, se o relator for Alexandre de Moraes, os jornais das
corporações irão requentar o debate raso e cansativo envolvendo golpistas
alcançados pela Justiça: o ministro, por ser alvo dos criminosos, não pode
julgá-los.
E o
Supremo responderá, a cada condenação, como acontece agora, que o alvo dos
bandidos é o STF, a instituição, e não apenas Moraes. Outro juiz relator dos
processos também seria ameaçado por eles. E assim já se esboça como será a vida
de Flávio Dino com as investigações das quadrilhas das emendas parlamentares.
Dino
recebe ameaças virtuais e presenciais e ouviu de funcionária de uma companhia
aérea, no aeroporto: “É melhor matar do que xingar”. Dependendo do que
acontecer nas eleições de outubro, Dino passará a ouvir a mesma frase de quem
manda matar e de quem se encarrega de executar a ordem.
Foi o
que quase aconteceu com Alexandre de Moraes e o plano dos kids pretos
comandados pelo general Mario Fernandes. Moraes seria assassinado por militares
que só não levaram a ideia adiante por incompetência, mas muito mais por
covardia.
A
insistência com que a grande imprensa tenta desqualificar Moraes – como faz de
novo nos jornais dessa quinta-feira – é a prova da cumplicidade com essas
ameaças. Na Itália, vamos relembrar, as máfias se livraram dos juízes dando
ordens para que fossem assassinados.
Aqui,
Mário Fernandes falhou ao cumprir a missão para que Lula, Moraes e Alckmin
fossem mortos. Mas as máfias italianas, mais competentes, conseguiram tirar
dois juízes das investigações e processos que sofriam nos anos 90 pela bravura
muito mais dos magistrados do que do sistema de Justiça.
O juiz
Giovanni Falcone foi morto no dia 23 de maio de 1992. Pouco depois, em 19 de
julho, mataram seu colega Paolo Borsellino. Porque os dois representavam a
capacidade do Judiciário de enfrentar as máfias.
Os
mafiosos queriam matar Giovanni Falcone e Paolo Borsellino. Não tinham
interesse em nenhum outro juiz. Queriam os dois que foram assassinados. Porque
os magistrados iriam pegá-los. Os juízes eram a Justiça.
Mafiosos
clássicos, como os italianos, e mafiosos genéricos e golpistas agrupados em
facções políticas, como os brasileiros, querem se livrar dos que os enfrentam
com destemor.
Por
isso querem pegar Alexandre de Moraes. Ele incomoda os chefes do bolsonarismo e
só existe como incômodo porque é o STF atuando contra criminosos poderosos. Não
é um justiceiro avulso.
A
grande imprensa que dá destaque à falsa controvérsia sobre a atuação de Moraes,
ao invés de exaltar a condenação histórica do primeiro filho do chefe da
organização criminosa, é cúmplice dos que tentam se livrar do ministro.
Os
bandidos bolsonaristas querem pegar Moraes há muito tempo e agora indicam, com
recados, que também pedem a cabeça de Flávio Dino. E os jornalões se divertem
com a ‘polêmica’ legalista sobre a suspeição do juiz.
Já está
provado, pelo entendimento de polícia, promotores, procuradores e juízes, que o
bolsonarismo é uma estrutura montada a partir de uma base familiar com feições
mafiosas. E por isso agem como máfia, como já observou o jurista Wálter
Maierovitch.
Essa
família que ameaça Moraes, porque o juiz não recua, chegou a criar um enclave
americano para atacar o inimigo. Qualquer aprendiz de qualquer área, e não
apenas do Direito, sabe que o objetivo era tirá-lo da relatoria dos casos
envolvendo golpistas, mafiosos e milicianos ligados aos Bolsonaros.
E a
grande imprensa se dedica, em nome do debate e da controvérsia, a reforçar a
estratégia dos Bolsonaros. Por cumplicidade com as vozes que, a pretexto da
discordância, fortalecem os argumentos e as ações criminosas da família.
Folha,
Estadão e Globo escondem a relevância da condenação de Eduardo, no contexto da
resistência política da família, para destacar as suspeitas sobre Alexandre
Moraes. Serão cobrados por tudo o que acontecer com a continuidade e o
agravamento da perseguição ao ministro.
Fonte:
Por Maira Escardovelli, da Agência Pública/Brasil 247

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