sábado, 20 de junho de 2026

O que será do SUS em uma década?

Os dados do Censo Nacional 2022 descrevem a população brasileira com uma idade média de 35 anos. Ainda jovem, porém bem menos que no ano 2000, quando a média de idade era de 25 anos. E não podemos esquecer que 35 anos é apenas uma média, a realidade mostra dados preocupantes. Os maiores de 65 anos, que em 2000 eram aproximadamente 10 milhões (6% da população), em 2022 mais do que dobraram e alcançaram 10,9% da população total (22,2 milhões). A esperança de vida ao nascer registrada em 2022 foi de 73,1 anos para os homens e 80,2 para as mulheres, quando em 2000 era de 66,3 e de 71,1. Em 2022 foram contados cerca de 40,1 milhões de menores de 14 anos, aproximadamente 19,8% da população, oito milhões a menos que em 2000 (48 milhões – aprox. 28,4%).

O Brasil está envelhecendo rapidamente: em 2036, os maiores de 65 serão 40 milhões e em 2046 chegarão a 58 milhões (respectivamente 18% e 25% do total). Em dez, quize, ao mais tardar em 20 anos, estaremos como muitos países de Europa hoje. Países onde sistemas de saúde historicamente fortes e bem estruturados (como o NHS do Reino Unido ou o SSN da Itália) estão começando a falhar sob a pressão do envelhecimento e a epidemia de doenças crônicas.

Os diversos tipos de câncer e doenças cardiovasculares são hoje responsáveis por quase a metade da mortalidade do Brasil (respectivamente 18 % e 30% de todas as causas de óbito em 2024). Aproximadamente 26-28% da população adulta refere diagnóstico de hipertensão arterial. A isso se soma o aumento da obesidade, hipertensão e diabetes. Dados do Vigitel 2023 indicam que este último afeta 9,1-9,4% (15-16 milhões) da população adulta, aumentando multimorbidade e uso cumulativo de consultas médicas, medicamentos, internações, programas de atenção a doenças crônicas. A prevalência do diabetes vem aumentando progressivamente nas últimas décadas. Em 2006, a taxa era de cerca de 5,5%, quase dobrando em menos de 20 anos.

Mais da metade dos adultos estão com excesso de peso (51% dos maiores de 18 anos — 37% com sobrepeso e 24% obesos). Em torno de 30-33% de crianças e adolescentes (3- 17 anos) estão com sobrepeso ou obesidade, enquanto a obesidade infantil atinge cerca de 10-15%. dependendo da faixa etária.

Aproximadamente 40-45% da população adulta é considerada insuficientemente ativa ou sedentária e alguns estudos indicam que cerca de 47% dos brasileiros não praticam atividade física no tempo livre. Não é apenas uma questão de números, mas também de desigualdade: pessoas com menor escolaridade apresentam taxas de sedentarismo significativamente maiores. Entre os que têm ensino fundamental incompleto, 50-55% são sedentários, em comparação de apenas 25-30% na população com ensino superior completo. O gap educacional persiste e, em algumas regiões, está se ampliando, com as populações mais vulneráveis tendo menos acesso a espaços seguros para atividade física. Essa proporção que desfavorece os mais vulnerabilizados se observa também na obesidade, na hipertensão e nas outras condições crônicas.

A estrutura social muda junto com a demografia. As famílias unipessoais subiram para 28-30% dos domicílios (eram 12-14% em 2010). Esse forte crescimento reflete mudanças nos padrões de família, envelhecimento populacional, maior autonomia feminina e urbanização. Também cresce o número de idosos que vivem sozinhos, frequentemente com limitações funcionais: aumenta assim a necessidade de assistência domiciliar e serviços sociais, frequentemente nas áreas onde os jovens emigram e a rede familiar se enfraquece. A tendência é crescente: cerca de 17-20% dos idosos (65+) viviam sozinhos em 2022. Entre idosos com 80 anos ou mais, a proporção é ainda maior (aproximadamente 20-25%), com forte predominância feminina.

De acordo com Vigitel 2023, 17-20% dos adultos (homens 25-28%; mulheres 10-12%) reporta consumo abusivo de álcool (4 ou mais doses nas mulheres e 5 ou mais doses nos homens em uma única ocasião). A dependência alcoólica afeta 2-3% da população adulta. A predominância do binge drinking (consumo pontual pesado), em vez de consumo diário moderado, aumenta os riscos de exposição aos efeitos nocivos do álcool. Cerca de 3-4% de todas as mortes são atribuíveis ao álcool por várias causas: câncer, cirrose hepática, acidentes de trânsito (presente em 25-30% dos acidentes fatais) e outros. O abuso de álcool está associado a cerca de 30% dos casos de violência doméstica.

Essa combinação — mais idosos sozinhos, maior exposição a fatores de risco, mais doenças crônicas, mais desigualdades territoriais — traz o risco de transformar a longevidade em um fator de fragilidade coletiva, se não for acompanhada por políticas sanitárias e sociais coerentes. Foi recentemente publicado um estudo que mostra que na Espanha, no período de vida entre 65 e 85 anos, as pessoas desfrutam de apenas dez anos de boa saúde. Os outros dez anos, são vividos com condições crónicas mais ou menos invalidantes.

Além de uma população que envelhece mais, mas que também adoece muito por estar exageradamente exposta a fatores de risco, existe outra forte ameaça a sustentabilidade do SUS, que é a constante pressão causada pelas novas tecnologias e insumos de alto custo e com evidências de eficácia clínica. O SUS não tem hoje e muito menos vai ter amanhã os recursos para absorver toda a nova tecnologia que o mercado produz (emblemático o caso das canetas emagrecedoras). Será cada vez mais difíceis decidir que medicamento ou procedimento o SUS tem condição de garantir acesso a população sem custo. Dentro desse quadro, é preciso que nos próximos anos o foco seja a promoção da saúde e prevenção de doenças, que deve deixar de ser um programa secundário para se transformar na principal política de desenvolvimento do SUS. Um sistema de saúde não pode gastar todas as suas energias em ações curativas, esquecendo da potência das intervenções voltadas a manter e cuidar a própria saúde (autocuidado) e a prevenir doenças.

Reduzir obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo de álcool e transtornos mentais significa agir sobre as causas da multimorbidade que hoje atinge mais da metade dos adultos e 70% dos maiores de 75 anos. Si tivermos sucesso nisso, conseguiremos deslocar para frente o aparecimento das patologias, concentrando a incapacidade nas idades mais avançadas – a chamada “compressão da morbidade”. Significa investir em informação para saúde (com o apoio das redes sociais e da IA), triagem, vacinações, mas também em cidades que favoreçam o movimento, em trabalho que não consuma saúde, em escolas que reduzam a lacuna educativa nos estilos de vida. Em síntese, menos desigualdades.

Em termo de políticas de saúde, os números mostrados anteriormente tornam evidente a prioridade constituída pelo fortalecimento da APS, único nível de atenção orientado às pessoas, às famílias e ao território, não exclusivamente à doença. Isso significa fortalecer as equipes de saúde da família para que possam dedicar mais tempos as ações fora dos muros da UBS, saindo para a comunidade, identificando os riscos sociais e ambientais e assistindo no domicílio os mais fragilizados.

Contudo, a estratégia “de baixo para cima”, adotada pela APS, para se consolidar precisa de políticas nacionais fortes e corajosas de outros setores, que regulem (e, se necessário, penalizem) os produtos industriais potencialmente nocivos (bebidas alcóolicas, alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas etc.) e incentivem as atividades físicas e o consumo de alimentos saudáveis. Campanhas nacionais para redução do abuso de álcool e de estímulo a hábitos de vida saudável também representam um instrumento potente. Um ótimo exemplo é representado pela campanha antitabagista no Brasil dos anos oitenta e noventa que obteve resultados excelentes e elogiados internacionalmente.

Muitos acham que os problemas de saúde se resolvem com medicamentos e cirurgias. Em minha opinião, estão muito equivocados. O velho ditado “prevenir é melhor do que curar” é amplamente confirmado pela ciência. Não só a ciência médica, mas também estudos econômicos mostram que os investimentos em prevenção trazem enormes benefícios econômicos, por manter as pessoas trabalhadoras saudáveis e poupar recursos graças a hospitalizações que não se fazem necessárias.

Acreditamos que o desenvolvimento do SUS na próxima década deve estar orientados por uma visão focada na promoção da saúde e na prevenção de doenças. A onda do envelhecimento precisa de ações concretas e contundentes para evitar o tsunamis da epidemia de doenças crónicas. Essa transformação será de extrema importância para as futuras gerações.

 

Fonte: Por Renato Tasca, em Outra Saúde

 

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