O
que será do SUS em uma década?
Os
dados do Censo Nacional 2022 descrevem a população brasileira com uma idade
média de 35 anos. Ainda jovem, porém bem menos que no ano 2000, quando a média
de idade era de 25 anos. E não podemos esquecer que 35 anos é apenas uma média,
a realidade mostra dados preocupantes. Os maiores de 65 anos, que em 2000 eram
aproximadamente 10 milhões (6% da população), em 2022 mais do que dobraram e
alcançaram 10,9% da população total (22,2 milhões). A esperança de vida ao
nascer registrada em 2022 foi de 73,1 anos para os homens e 80,2 para as
mulheres, quando em 2000 era de 66,3 e de 71,1. Em 2022 foram contados cerca de
40,1 milhões de menores de 14 anos, aproximadamente 19,8% da população, oito
milhões a menos que em 2000 (48 milhões – aprox. 28,4%).
O
Brasil está envelhecendo rapidamente: em 2036, os maiores de 65 serão 40
milhões e em 2046 chegarão a 58 milhões (respectivamente 18% e 25% do total).
Em dez, quize, ao mais tardar em 20 anos, estaremos como muitos países de
Europa hoje. Países onde sistemas de saúde historicamente fortes e bem
estruturados (como o NHS do Reino Unido ou o SSN da Itália) estão começando a
falhar sob a pressão do envelhecimento e a epidemia de doenças crônicas.
Os
diversos tipos de câncer e doenças cardiovasculares são hoje responsáveis por
quase a metade da mortalidade do Brasil (respectivamente 18 % e 30% de todas as
causas de óbito em 2024). Aproximadamente 26-28% da população adulta refere
diagnóstico de hipertensão arterial. A isso se soma o aumento da obesidade,
hipertensão e diabetes. Dados do Vigitel 2023 indicam que este último afeta
9,1-9,4% (15-16 milhões) da população adulta, aumentando multimorbidade e uso
cumulativo de consultas médicas, medicamentos, internações, programas de
atenção a doenças crônicas. A prevalência do diabetes vem aumentando
progressivamente nas últimas décadas. Em 2006, a taxa era de cerca de 5,5%,
quase dobrando em menos de 20 anos.
Mais da
metade dos adultos estão com excesso de peso (51% dos maiores de 18 anos — 37%
com sobrepeso e 24% obesos). Em torno de 30-33% de crianças e adolescentes (3-
17 anos) estão com sobrepeso ou obesidade, enquanto a obesidade infantil atinge
cerca de 10-15%. dependendo da faixa etária.
Aproximadamente
40-45% da população adulta é considerada insuficientemente ativa ou sedentária
e alguns estudos indicam que cerca de 47% dos brasileiros não praticam
atividade física no tempo livre. Não é apenas uma questão de números, mas
também de desigualdade: pessoas com menor escolaridade apresentam taxas de
sedentarismo significativamente maiores. Entre os que têm ensino fundamental
incompleto, 50-55% são sedentários, em comparação de apenas 25-30% na população
com ensino superior completo. O gap educacional persiste e, em algumas regiões,
está se ampliando, com as populações mais vulneráveis tendo menos acesso a
espaços seguros para atividade física. Essa proporção que desfavorece os mais
vulnerabilizados se observa também na obesidade, na hipertensão e nas outras
condições crônicas.
A
estrutura social muda junto com a demografia. As famílias unipessoais subiram
para 28-30% dos domicílios (eram 12-14% em 2010). Esse forte crescimento
reflete mudanças nos padrões de família, envelhecimento populacional, maior
autonomia feminina e urbanização. Também cresce o número de idosos que vivem
sozinhos, frequentemente com limitações funcionais: aumenta assim a necessidade
de assistência domiciliar e serviços sociais, frequentemente nas áreas onde os
jovens emigram e a rede familiar se enfraquece. A tendência é crescente: cerca
de 17-20% dos idosos (65+) viviam sozinhos em 2022. Entre idosos com 80 anos ou
mais, a proporção é ainda maior (aproximadamente 20-25%), com forte
predominância feminina.
De
acordo com Vigitel 2023, 17-20% dos adultos (homens 25-28%; mulheres 10-12%)
reporta consumo abusivo de álcool (4 ou mais doses nas mulheres e 5 ou mais
doses nos homens em uma única ocasião). A dependência alcoólica afeta 2-3% da
população adulta. A predominância do binge drinking (consumo pontual pesado),
em vez de consumo diário moderado, aumenta os riscos de exposição aos efeitos
nocivos do álcool. Cerca de 3-4% de todas as mortes são atribuíveis ao álcool
por várias causas: câncer, cirrose hepática, acidentes de trânsito (presente em
25-30% dos acidentes fatais) e outros. O abuso de álcool está associado a cerca
de 30% dos casos de violência doméstica.
Essa
combinação — mais idosos sozinhos, maior exposição a fatores de risco, mais
doenças crônicas, mais desigualdades territoriais — traz o risco de transformar
a longevidade em um fator de fragilidade coletiva, se não for acompanhada por
políticas sanitárias e sociais coerentes. Foi recentemente publicado um estudo
que mostra que na Espanha, no período de vida entre 65 e 85 anos, as pessoas
desfrutam de apenas dez anos de boa saúde. Os outros dez anos, são vividos com
condições crónicas mais ou menos invalidantes.
Além de
uma população que envelhece mais, mas que também adoece muito por estar
exageradamente exposta a fatores de risco, existe outra forte ameaça a
sustentabilidade do SUS, que é a constante pressão causada pelas novas
tecnologias e insumos de alto custo e com evidências de eficácia clínica. O SUS
não tem hoje e muito menos vai ter amanhã os recursos para absorver toda a nova
tecnologia que o mercado produz (emblemático o caso das canetas emagrecedoras).
Será cada vez mais difíceis decidir que medicamento ou procedimento o SUS tem
condição de garantir acesso a população sem custo. Dentro desse quadro, é
preciso que nos próximos anos o foco seja a promoção da saúde e prevenção de
doenças, que deve deixar de ser um programa secundário para se transformar na
principal política de desenvolvimento do SUS. Um sistema de saúde não pode
gastar todas as suas energias em ações curativas, esquecendo da potência das
intervenções voltadas a manter e cuidar a própria saúde (autocuidado) e a
prevenir doenças.
Reduzir
obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo de álcool e transtornos mentais
significa agir sobre as causas da multimorbidade que hoje atinge mais da metade
dos adultos e 70% dos maiores de 75 anos. Si tivermos sucesso nisso,
conseguiremos deslocar para frente o aparecimento das patologias, concentrando
a incapacidade nas idades mais avançadas – a chamada “compressão da morbidade”.
Significa investir em informação para saúde (com o apoio das redes sociais e da
IA), triagem, vacinações, mas também em cidades que favoreçam o movimento, em
trabalho que não consuma saúde, em escolas que reduzam a lacuna educativa nos
estilos de vida. Em síntese, menos desigualdades.
Em
termo de políticas de saúde, os números mostrados anteriormente tornam evidente
a prioridade constituída pelo fortalecimento da APS, único nível de atenção
orientado às pessoas, às famílias e ao território, não exclusivamente à doença.
Isso significa fortalecer as equipes de saúde da família para que possam
dedicar mais tempos as ações fora dos muros da UBS, saindo para a comunidade,
identificando os riscos sociais e ambientais e assistindo no domicílio os mais
fragilizados.
Contudo,
a estratégia “de baixo para cima”, adotada pela APS, para se consolidar precisa
de políticas nacionais fortes e corajosas de outros setores, que regulem (e, se
necessário, penalizem) os produtos industriais potencialmente nocivos (bebidas
alcóolicas, alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas etc.) e incentivem
as atividades físicas e o consumo de alimentos saudáveis. Campanhas nacionais
para redução do abuso de álcool e de estímulo a hábitos de vida saudável também
representam um instrumento potente. Um ótimo exemplo é representado pela
campanha antitabagista no Brasil dos anos oitenta e noventa que obteve
resultados excelentes e elogiados internacionalmente.
Muitos
acham que os problemas de saúde se resolvem com medicamentos e cirurgias. Em
minha opinião, estão muito equivocados. O velho ditado “prevenir é melhor do
que curar” é amplamente confirmado pela ciência. Não só a ciência médica, mas
também estudos econômicos mostram que os investimentos em prevenção trazem
enormes benefícios econômicos, por manter as pessoas trabalhadoras saudáveis e
poupar recursos graças a hospitalizações que não se fazem necessárias.
Acreditamos
que o desenvolvimento do SUS na próxima década deve estar orientados por uma
visão focada na promoção da saúde e na prevenção de doenças. A onda do
envelhecimento precisa de ações concretas e contundentes para evitar o tsunamis
da epidemia de doenças crónicas. Essa transformação será de extrema importância
para as futuras gerações.
Fonte:
Por Renato Tasca, em Outra Saúde

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