Notícias
de outra Marcha para Jesus
No
último 6 de junho, ocorreu a Marcha para Jesus em Paris, com um percurso
turístico raro, um privilégio para poucos, que levou os fiéis do Panteão à
Place des Invalides. Os organizadores esperavam um público de mais de 50 mil
pessoas, superando o de 2025. Somando-se todas as marchas no país, estima-se a
participação de cerca de 100 mil pessoas, o que, convenhamos, não é pouco para
um país que se considera laico e que reprime quitidianamente os quase 10% de
muçulmanos que compõem a sua população em nome desse princípio.
Nos
moldes carnavalescos semelhantes aos do megaevento análogo brasileiro –
obviamente menos animado, pois, nesse quesito, não dá para comparar franceses e
brasileiros, embora a fé talvez venha a se cada vez mais a mesma –, a Marcha
para Jesus, cuja origem remonta a 1987, na cidade de Londres, ocorre desde os
anos 1990 na capital francesa e tem apresentado um crescimento exponencial
desde a pandemia de Covid-19, passando de 5 mil participantes em 2019 para dez
vezes mais em bem menos de uma década.
Já em
1998, o jornal Le Monde notara a estranheza e a novidade daquela marcha como um
estranho sinal do futuro: “Há trinta anos, aqui mesmo, desfilava-se em nome dos
ideais de Marx e da Revolução. Hoje, atrás de cinco caminhões equipados com
sistemas de som, trombetas e baterias, dançando e cantando gospels, entoando
aleluias e hosanas, cerca de cinco mil cristãos evangélicos anunciavam a
iminência do Reino: o de ‘Jesus vivo’, ‘Jesus, rei das nações’, Jesus ‘que te
procura’, Jesus ‘que responde aos teus sofrimentos’, como atestavam as faixas e
os slogans dessa estranha manifestação. Empoleirado sobre um dos caminhões,
Bíblia na mão, um pregador esgoelava-se ao megafone: ‘Parisienses, só Jesus
pode salvar vocês!’”.
O
modelo parisiense é o evento brasileiro: “As Marchas para Jesus são
absolutamente colossais no Brasil”, nota o sociólogo Sébastien Fath. “Eles
reivindicam seu lugar à mesa da República, na cultura e na sociedade, e essa
Marcha para Jesus é uma forma de dizer: nós também somos tão legítimos quanto
qualquer outro grupo para nos manifestarmos publicamente nas ruas”, acrescenta
ele. Esses “militantes” já compõem 1,6% da população, em torno de 1,1 milhão de
fiéis, constituindo assim o terceiro grupo religioso do país.
A
influência das vertentes brasileiras é flagrante. A brasilianização do mundo
também passa por aqui. Em 2018, havia 20 templos da Igreja Universal na região
parisiense; hoje, certamente são mais. Edir Macedo, inclusive, chegou a comprar
e tentou transformar o famoso teatro La Scala em seu Templo de Salomão
parisiense, projeto vetado pela prefeitura.
No caso
francês, o evento se assemelha mais a um desfile sindical do que ao Carnaval de
Salvador, observa o mesmo Sébastien Fath. A principal diferença em relação à
Marcha para Jesus brasileira, no entanto, talvez esteja estampada na manchete
publicada pelo Le Monde: “A Marcha para Jesus, organizada pelos evangélicos,
atrai cada vez mais jovens católicos”.
Os
católicos compõem 20% daqueles que marcham para Jesus, contando com dois dos
doze carros alegóricos sonorizados que desfilaram pelas ruas de Paris. Em um
deles, a animação era garantida pela juventude católica da Île-de-France e pelo
grupo pop cristão Beloved, de maioria negra, o outro era animado pelo jovem
irmão dominicano Paul-Adrien, um frade influencer que conta com quase 400 mil
seguidores no Instagram.
O
padrinho da edição de 2026 foi o maior artilheiro da seleção francesa de
futebol, Olivier Giroud, uma espécie de atleta de Cristo local que, após uma
juventude católica, converteu-se ao evangelicalismo sob a influência da mãe. A
principal atração musical, que surpreendeu a todos, foi a cantora negra
congolesa Dena Mwana, que canta em inglês e francês e vive entre os Estados
Unidos e seu país natal. A cada ano, a Marcha para Jesus se afirma como um dos
principais eventos cristãos no país da Revolução.
A
participação de uma liderança ligada à juventude católica em um encontro
promovido por evangélicos, marcado por práticas típicas desse universo – como
pregações em espaços públicos, músicas religiosas e orações realizadas
coletivamente e em voz alta – revela transformações na maneira como os jovens
vivenciam sua fé. Diferentemente das gerações anteriores, que tendiam a
expressar a religiosidade de forma mais reservada, muitos jovens cristãos,
especialmente católicos, buscam hoje manifestar suas crenças de modo mais
público e compartilhá-las com familiares, amigos e a comunidade em geral.
Nesse
contexto, por exemplo, a Marcha para Jesus tem despertado o interesse de um
número crescente de estudantes católicos do ensino médio e da universidade. Nos
últimos anos, diversos participantes compareceram ao evento por iniciativa
própria ou acompanhados de amigos, sem que houvesse qualquer mobilização ou
incentivo formal por parte da instituição eclesial. Uma estudante declarou ao
jornal Le Monde: “Estou feliz por fazer parte de uma geração em que a maioria
das pessoas não tem medo nem vergonha de dizer que é cristã”.
E
acrescentou: “Buscamos todas as formas possíveis de proclamar nossa fé. Hoje,
os estudantes do ensino médio pelos quais sou responsável em minha paróquia não
sentem nenhum constrangimento em explicar que não podem participar deste ou
daquele evento porque estarão na igreja naquele horário”.
Não é
novidade que é através de uma prática radical do catolicismo que parte
considerável da extrema direita francesa se organiza e se orienta, esta
associação data da época da Revolução francesa. O crescimento recente e à
direita da juventude católica francesa é um fenômeno que data de mais de uma
década. Ele tem sua origem na Manif pour tous. Esta manifestação foi, na
realidade, um movimento social e político criado em 2012 em oposição ao projeto
de lei que permitia o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Seu nome faz
referência ao slogan do governo socialista de François Hollande: mariage pour
tous (casamento para todos).
O
movimento reuniu diversas associações, militantes conservadores, líderes
religiosos e cidadãos comuns contrários ao casamento homossexual e à adoção de
bebês e crianças por casais do mesmo sexo. De maneira indireta, ele serviu
sobretudo como catalisador da reorganização da extrema direita francesa como um
todo, mas especialmente a cristã. Vindos de todos os lugares do país, eles se
encontravam nas ruas de Paris, lugar propício para se reaglutinarem e
reforçarem o movimento e suas posições radicais.
O
movimento organizou várias grandes manifestações, com destaque para as de 2012
e 2013, especialmente em Paris, reunindo milhares de participantes, com
destaque para a série de bandeiras que enfeitavam o trajeto em alusão direta à
monarquia e à nobreza outrora decapitadas. A lei foi aprovada em abril de 2013,
mas o movimento continuou ativo, ampliando as suas pautas relacionadas à
família, dando ênfase agora à bioética, especialmente à procriação medicamente
assistida (PMA) e à gestação por substituição (GPA). Sua capacidade de
mobilização diminuiu com os anos e, embora não se possa falar de um fim oficial
da Manif pour tous, vale notar que ela se transformou, em 2023, num Sindicato da Família. A manifestação desaparecera,
mas muitos frutos dela brotaram.
Como
notaram Marylou Magal e Nicolas Massol, foi o ambiente festivo e engajado da
Manif pour tous que deu um impulso aglutinador para que uma nova juventude
cristã de direita emergisse de modo organizado e integrasse movimentos e
partidos deste campo político, do Rassemblement National de Bardella e Le Pen
ao Reconquête de Zemmour. Isso repercute, por exemplo, no dobro de
participantes que, no espaço de dez anos, na busca de sentido para a vida e por
uma nova Flor de Lis, se engajam na peregrinação anual para a catedral de
Chartres ou ainda no aumento em quase 50% no número de batismos de “uma
juventude católica em busca de radicalidade” ou, como vimos, na comunhão cristã
que veio a ser a Marcha para Jesus francesa, com o destaque parisiense de
sempre.
Fonte:
Por Frederico Lyra, em A Terra é Redonda

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