sábado, 20 de junho de 2026

Notícias de outra Marcha para Jesus

No último 6 de junho, ocorreu a Marcha para Jesus em Paris, com um percurso turístico raro, um privilégio para poucos, que levou os fiéis do Panteão à Place des Invalides. Os organizadores esperavam um público de mais de 50 mil pessoas, superando o de 2025. Somando-se todas as marchas no país, estima-se a participação de cerca de 100 mil pessoas, o que, convenhamos, não é pouco para um país que se considera laico e que reprime quitidianamente os quase 10% de muçulmanos que compõem a sua população em nome desse princípio.

Nos moldes carnavalescos semelhantes aos do megaevento análogo brasileiro – obviamente menos animado, pois, nesse quesito, não dá para comparar franceses e brasileiros, embora a fé talvez venha a se cada vez mais a mesma –, a Marcha para Jesus, cuja origem remonta a 1987, na cidade de Londres, ocorre desde os anos 1990 na capital francesa e tem apresentado um crescimento exponencial desde a pandemia de Covid-19, passando de 5 mil participantes em 2019 para dez vezes mais em bem menos de uma década.

Já em 1998, o jornal Le Monde notara a estranheza e a novidade daquela marcha como um estranho sinal do futuro: “Há trinta anos, aqui mesmo, desfilava-se em nome dos ideais de Marx e da Revolução. Hoje, atrás de cinco caminhões equipados com sistemas de som, trombetas e baterias, dançando e cantando gospels, entoando aleluias e hosanas, cerca de cinco mil cristãos evangélicos anunciavam a iminência do Reino: o de ‘Jesus vivo’, ‘Jesus, rei das nações’, Jesus ‘que te procura’, Jesus ‘que responde aos teus sofrimentos’, como atestavam as faixas e os slogans dessa estranha manifestação. Empoleirado sobre um dos caminhões, Bíblia na mão, um pregador esgoelava-se ao megafone: ‘Parisienses, só Jesus pode salvar vocês!’”.

O modelo parisiense é o evento brasileiro: “As Marchas para Jesus são absolutamente colossais no Brasil”, nota o sociólogo Sébastien Fath. “Eles reivindicam seu lugar à mesa da República, na cultura e na sociedade, e essa Marcha para Jesus é uma forma de dizer: nós também somos tão legítimos quanto qualquer outro grupo para nos manifestarmos publicamente nas ruas”, acrescenta ele. Esses “militantes” já compõem 1,6% da população, em torno de 1,1 milhão de fiéis, constituindo assim o terceiro grupo religioso do país.

A influência das vertentes brasileiras é flagrante. A brasilianização do mundo também passa por aqui. Em 2018, havia 20 templos da Igreja Universal na região parisiense; hoje, certamente são mais. Edir Macedo, inclusive, chegou a comprar e tentou transformar o famoso teatro La Scala em seu Templo de Salomão parisiense, projeto vetado pela prefeitura.

No caso francês, o evento se assemelha mais a um desfile sindical do que ao Carnaval de Salvador, observa o mesmo Sébastien Fath. A principal diferença em relação à Marcha para Jesus brasileira, no entanto, talvez esteja estampada na manchete publicada pelo Le Monde: “A Marcha para Jesus, organizada pelos evangélicos, atrai cada vez mais jovens católicos”.

Os católicos compõem 20% daqueles que marcham para Jesus, contando com dois dos doze carros alegóricos sonorizados que desfilaram pelas ruas de Paris. Em um deles, a animação era garantida pela juventude católica da Île-de-France e pelo grupo pop cristão Beloved, de maioria negra, o outro era animado pelo jovem irmão dominicano Paul-Adrien, um frade influencer que conta com quase 400 mil seguidores no Instagram.

O padrinho da edição de 2026 foi o maior artilheiro da seleção francesa de futebol, Olivier Giroud, uma espécie de atleta de Cristo local que, após uma juventude católica, converteu-se ao evangelicalismo sob a influência da mãe. A principal atração musical, que surpreendeu a todos, foi a cantora negra congolesa Dena Mwana, que canta em inglês e francês e vive entre os Estados Unidos e seu país natal. A cada ano, a Marcha para Jesus se afirma como um dos principais eventos cristãos no país da Revolução.

A participação de uma liderança ligada à juventude católica em um encontro promovido por evangélicos, marcado por práticas típicas desse universo – como pregações em espaços públicos, músicas religiosas e orações realizadas coletivamente e em voz alta – revela transformações na maneira como os jovens vivenciam sua fé. Diferentemente das gerações anteriores, que tendiam a expressar a religiosidade de forma mais reservada, muitos jovens cristãos, especialmente católicos, buscam hoje manifestar suas crenças de modo mais público e compartilhá-las com familiares, amigos e a comunidade em geral.

Nesse contexto, por exemplo, a Marcha para Jesus tem despertado o interesse de um número crescente de estudantes católicos do ensino médio e da universidade. Nos últimos anos, diversos participantes compareceram ao evento por iniciativa própria ou acompanhados de amigos, sem que houvesse qualquer mobilização ou incentivo formal por parte da instituição eclesial. Uma estudante declarou ao jornal Le Monde: “Estou feliz por fazer parte de uma geração em que a maioria das pessoas não tem medo nem vergonha de dizer que é cristã”.

E acrescentou: “Buscamos todas as formas possíveis de proclamar nossa fé. Hoje, os estudantes do ensino médio pelos quais sou responsável em minha paróquia não sentem nenhum constrangimento em explicar que não podem participar deste ou daquele evento porque estarão na igreja naquele horário”.

Não é novidade que é através de uma prática radical do catolicismo que parte considerável da extrema direita francesa se organiza e se orienta, esta associação data da época da Revolução francesa. O crescimento recente e à direita da juventude católica francesa é um fenômeno que data de mais de uma década. Ele tem sua origem na Manif pour tous. Esta manifestação foi, na realidade, um movimento social e político criado em 2012 em oposição ao projeto de lei que permitia o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Seu nome faz referência ao slogan do governo socialista de François Hollande: mariage pour tous (casamento para todos).

O movimento reuniu diversas associações, militantes conservadores, líderes religiosos e cidadãos comuns contrários ao casamento homossexual e à adoção de bebês e crianças por casais do mesmo sexo. De maneira indireta, ele serviu sobretudo como catalisador da reorganização da extrema direita francesa como um todo, mas especialmente a cristã. Vindos de todos os lugares do país, eles se encontravam nas ruas de Paris, lugar propício para se reaglutinarem e reforçarem o movimento e suas posições radicais.

O movimento organizou várias grandes manifestações, com destaque para as de 2012 e 2013, especialmente em Paris, reunindo milhares de participantes, com destaque para a série de bandeiras que enfeitavam o trajeto em alusão direta à monarquia e à nobreza outrora decapitadas. A lei foi aprovada em abril de 2013, mas o movimento continuou ativo, ampliando as suas pautas relacionadas à família, dando ênfase agora à bioética, especialmente à procriação medicamente assistida (PMA) e à gestação por substituição (GPA). Sua capacidade de mobilização diminuiu com os anos e, embora não se possa falar de um fim oficial da Manif pour tous, vale notar que ela se transformou, em 2023, num  Sindicato da Família. A manifestação desaparecera, mas muitos frutos dela brotaram.

Como notaram Marylou Magal e Nicolas Massol, foi o ambiente festivo e engajado da Manif pour tous que deu um impulso aglutinador para que uma nova juventude cristã de direita emergisse de modo organizado e integrasse movimentos e partidos deste campo político, do Rassemblement National de Bardella e Le Pen ao Reconquête de Zemmour. Isso repercute, por exemplo, no dobro de participantes que, no espaço de dez anos, na busca de sentido para a vida e por uma nova Flor de Lis, se engajam na peregrinação anual para a catedral de Chartres ou ainda no aumento em quase 50% no número de batismos de “uma juventude católica em busca de radicalidade” ou, como vimos, na comunhão cristã que veio a ser a Marcha para Jesus francesa, com o destaque parisiense de sempre.

 

Fonte: Por Frederico Lyra, em A Terra é Redonda


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