Um
terreno escorregadio
O
universo das ciências humanas e sociais não é apenas novo, uma criança com
menos de dois séculos, mas também um terreno escorregadio, complexo e
pantanoso. Até mesmo um aluno de primeiro semestre sente o cheiro dessa
instabilidade logo nas primeiras aulas. Acreditando ter encontrado um terreno
sólido com parâmetros críticos confiáveis, além de ferramentas úteis contra
suas próprias opressões, ele descobre, ao contrário, um labirinto de conceitos
e um oceano de autores.
Em
outras palavras, não existe qualquer tipo de paradigma no horizonte, a não ser
tentativas fragmentadas e dispersas. Como é evidente aos olhos de qualquer um,
não somos biologia, física e química, ou seja, não existe nenhum consenso
mínimo sobre o que o mundo é (ontologia) ou sobre suas condições de acesso
(epistemologia).
Até
aqui, nenhuma novidade… Nossos artigos são mais longos, nossas palestras mais
cansativas, nossas reuniões mais tensas, justamente porque o excesso de
palavras preenche o vácuo deixado pela ausência paradigmática. De qualquer
forma, as coisas saíram do controle na década de 1960 com sua nova esquerda,
amparada por seus mergulhos “pós-estruturalistas”. O que antes era uma simples
instabilidade, agora beira o total anarquismo, uma terra sem lei onde o céu é o
limite.
Se o
autor morreu, se o homem morreu, se a linguagem é uma matriz inevitável, e
dispositivos tomam conta dos mínimos detalhes, então as ciências humanas e
sociais param de fingir solidez, como faziam no século XIX, e abraçam
completamente sua natureza estética, literária… performática.
Em Karl
Marx, a linguagem não era um pântano incerto e fluido, mas uma ferramenta útil
na descrição de problemas objetivamente objetivos repletos de objetividade.
Poder, dominação, dominante e dominado, além de muitos outros termos, eram
elementos transparentes e abertos a análises, testes e comparações. Se carregam
verdades ou não, se descrevem estados de coisas ou mentem sobre eles, esse não
é o ponto do ensaio.
O que
interessa aqui é apenas a consistência do contorno epistêmico do marxismo: o
dominante tem a posse dos meios de produção e o dominado vende sua força de
trabalho… simples. A violência exercida, da mesma forma, é muito clara, do topo
até a base, personificada em superestruturas tendenciosas e rastreáveis.
Michel
Foucault, ao contrário, implodiu tudo pelo caminho, descentrando o conceito de
poder, o que significa a chegada de microagressões e traços inconscientes e
subliminares, ou seja, todo um jogo interpretativo muito próximo de uma crítica
literária. O campo das humanidades, antes já instável e repleto de suspeita, se
torna um espaço fluido de hermeneutas interpretando as entrelinhas do
“não-dito”, numa espécie de psicanálise do social. O que pode parecer um campo
criativo de cientistas humanos e sociais performando cambalhotas
interpretativas, carrega também um risco embutido, principalmente quando casos
específicos são analisados.
A
professora da UFBA e influenciadora digital, Bárbara Carine, publicou um vídeo
recente sobre uma experiência racista em um restaurante de Salvador. Depois de
frequentar o espaço, na hora do pagamento, a atendente pergunta: “crédito?”.
“Mas por que não ‘crédito ou débito?’”, pensou a influenciadora. Segundo
Bárbara Carine, nos bastidores dessa pergunta “inocente” repousa um conjunto de
microagressões, imperceptíveis ao olhar comum, mas óbvio ao hermeneuta da
suspeita com sua genialidade epistêmica.
Nas
palavras de Bárbara Carine: “Parece uma coisa boba, mas me irrita porque está
vinculada a uma dimensão de escassez associada a pessoas negras. Entende-se que
pessoas negras não têm dinheiro vivo, que pessoas negras sempre têm dinheiro
futuro, e que a gente sempre vai pagar as coisas no crédito”, declarou.
“Entende–se
que pessoas negras não tem dinheiro vivo”, diz Bárbara Carine. Mas quem é o
sujeito dessa frase? Não pode ser a atendente, porque nada foi dito por ela.
Também não foram os outros clientes, já que nem prestaram atenção no caso.
Também não foram cartazes ou textos no restaurante, porque nada disso foi
mencionado. Talvez esse sujeito oculto (Entende–se) seja justamente isso…
oculto, uma zona de pura inconsciência dissecada pelos olhos hermenêuticos de
Bárbara Carine.
Sem
dúvida, não existe nenhum problema na análise da professora, a não ser um
pequeno detalhe: a pressa. Nas ciências sociais, meu território, existem
argumentos com baixa ou alta evidência, como diria Max Weber. Se a atendente
usasse palavras racistas, por exemplo, o nível de objetividade do caso seria
alto, o que pode justificar uma interpretação rápida, imediata. Mas não foi
assim… a análise em jogo faz parte do subsolo do acontecimento, um mergulho que
ultrapassa o dito e as próprias motivações dos agentes.
Como
cientistas sociais, podemos, e devemos, mergulhar nesse campo hermenêutico
pantanoso, mas sempre com muita cautela. Quanto menos evidências na mesa,
quanto mais nos aproximamos de zonas subjetivadas e até inconscientes, segundo
Max Weber, mais a análise pede calma, o que não acontece com Bárbara Carine.
Como de
costume, seus saltos hermenêuticos são rápidos demais, quase sempre de óculos
escuros em um carro, numa pura informalidade, como aconteceu com sua crítica ao
outdoor do Cremeb (Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia). Na época,
ela acusou a campanha publicitária de racista, porque apenas representava uma
mulher negra dentro de uma proposta antifraude.
Da
mesma forma que no exemplo do restaurante, aqui sua hermenêutica da suspeita
foi costurada em segundos, na estrada. Mesmo depois de descobrir que a campanha
publicitária era mais complexa, mais diversa, com outros corpos representados
ao longo da cidade, isso não abalou em nada seu contorcionismo pós-estrutural…
ela não pediu desculpas. Mas como se desculpar? Quais autoridades das ciências
humanas e sociais existem lá fora? Quem consegue dizer: “Bárbara, você foi
longe demais” ou “sua interpretação é falsa”?
Na
prática, a culpa não é dela, a culpa é minha, é sua, é nossa, por ter produzido
um campo epistêmico tão caótico, incerto e perigoso. A culpa é nossa por ter
transformado as ciências sociais e humanas em uma brincadeira performática,
reforçada pelo performatismo de plataformas como Twitter e Instagram. A culpa é
nossa, da área menos paradigmática do universo, do espaço mais fluido que o
humano já criou. Sem dúvida, essa fluidez tem suas vantagens, mas também seus
riscos, como deixei claro ao longo dessas páginas.
Seria
muito fácil lançar a culpa em uma pessoa, como se todos os outros estivessem
imunes do escorregão de Bárbara Carine. Nada disso… A culpa não é individual, é
coletiva, é epistêmica. A culpa é do próprio tecido que ampara nossas
especulações nas últimas décadas. O “monstro” não é a professora da UFBA …
Somos todos nós. E os riscos da imprudência, da nossa falta absoluta de
paradigma, podem ser altos demais, inclusive politicamente.
Assim
como na história do menino que gritava lobo, gritar “racismo” em qualquer
circunstância, sem o mínimo de cuidado metodológico, dessensibiliza o público,
esvazia o sentido das palavras. Ou seja, se tudo é racismo, nada é racismo. O
irônico é que nossos esforços antirracistas acabam machucando justamente aquilo
que juramos proteger: o povo preto e sua legitimidade de luta.
Essa
banalização hermenêutica de Bárbara Carine, ou melhor, nossa, reforçada por um
pós-estruturalismo descontrolado e algoritmos super convenientes, carregam
efeitos políticos e acadêmicos perigosos. Como ficou claro até aqui, o problema
nunca foi a análise feita, mas a pressa… sempre a pressa.
A
ciência, como disse Isabelle Stengers, é lenta, cansativa, complexa. Se
comparada a uma refeição, ela não é um fastfood, barato e rápido, mas um prato
demorado feito em detalhes por especialistas. O problema de Bárbara Carine não
foi sua conclusão (Afinal, pode ser verdadeira ou falsa, quem sabe?), mas a
velocidade da sua pirueta hermenêutica. Mas não é isso o que as pessoas buscam
hoje? Ninguém gosta do tédio do cientista com seu percurso metodológico
cansativo, o que o público deseja é a performance de um discurso inflamado,
cheio de entretenimento e piruetas interpretativas.
Diante
de um “2 + 2 = 5”, a reação de qualquer engenheiro é imediata: “Isso é falso”.
Mas e nas humanidades? Quem pode dizer que uma interpretação foi longe demais?
O retorno ao marxismo e suas teorias de grande porte, além do seu intelectual
universal, não funciona 100%. O que fazer, então? Sinceramente, eu não sei. Por
enquanto, apenas assisto preocupado a um vídeo de uma professora da UFBA
questionando a inconsciência de uma atendente de um restaurante aleatório em
Salvador.
Fonte:
Por Thiago de Araujo Pinho em A Terra é Redonda

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