sábado, 20 de junho de 2026

Um terreno escorregadio

O universo das ciências humanas e sociais não é apenas novo, uma criança com menos de dois séculos, mas também um terreno escorregadio, complexo e pantanoso. Até mesmo um aluno de primeiro semestre sente o cheiro dessa instabilidade logo nas primeiras aulas. Acreditando ter encontrado um terreno sólido com parâmetros críticos confiáveis, além de ferramentas úteis contra suas próprias opressões, ele descobre, ao contrário, um labirinto de conceitos e um oceano de autores.

Em outras palavras, não existe qualquer tipo de paradigma no horizonte, a não ser tentativas fragmentadas e dispersas. Como é evidente aos olhos de qualquer um, não somos biologia, física e química, ou seja, não existe nenhum consenso mínimo sobre o que o mundo é (ontologia) ou sobre suas condições de acesso (epistemologia).

Até aqui, nenhuma novidade… Nossos artigos são mais longos, nossas palestras mais cansativas, nossas reuniões mais tensas, justamente porque o excesso de palavras preenche o vácuo deixado pela ausência paradigmática. De qualquer forma, as coisas saíram do controle na década de 1960 com sua nova esquerda, amparada por seus mergulhos “pós-estruturalistas”. O que antes era uma simples instabilidade, agora beira o total anarquismo, uma terra sem lei onde o céu é o limite.

Se o autor morreu, se o homem morreu, se a linguagem é uma matriz inevitável, e dispositivos tomam conta dos mínimos detalhes, então as ciências humanas e sociais param de fingir solidez, como faziam no século XIX, e abraçam completamente sua natureza estética, literária… performática.

Em Karl Marx, a linguagem não era um pântano incerto e fluido, mas uma ferramenta útil na descrição de problemas objetivamente objetivos repletos de objetividade. Poder, dominação, dominante e dominado, além de muitos outros termos, eram elementos transparentes e abertos a análises, testes e comparações. Se carregam verdades ou não, se descrevem estados de coisas ou mentem sobre eles, esse não é o ponto do ensaio.

O que interessa aqui é apenas a consistência do contorno epistêmico do marxismo: o dominante tem a posse dos meios de produção e o dominado vende sua força de trabalho… simples. A violência exercida, da mesma forma, é muito clara, do topo até a base, personificada em superestruturas tendenciosas e rastreáveis.

Michel Foucault, ao contrário, implodiu tudo pelo caminho, descentrando o conceito de poder, o que significa a chegada de microagressões e traços inconscientes e subliminares, ou seja, todo um jogo interpretativo muito próximo de uma crítica literária. O campo das humanidades, antes já instável e repleto de suspeita, se torna um espaço fluido de hermeneutas interpretando as entrelinhas do “não-dito”, numa espécie de psicanálise do social. O que pode parecer um campo criativo de cientistas humanos e sociais performando cambalhotas interpretativas, carrega também um risco embutido, principalmente quando casos específicos são analisados.

A professora da UFBA e influenciadora digital, Bárbara Carine, publicou um vídeo recente sobre uma experiência racista em um restaurante de Salvador. Depois de frequentar o espaço, na hora do pagamento, a atendente pergunta: “crédito?”. “Mas por que não ‘crédito ou débito?’”, pensou a influenciadora. Segundo Bárbara Carine, nos bastidores dessa pergunta “inocente” repousa um conjunto de microagressões, imperceptíveis ao olhar comum, mas óbvio ao hermeneuta da suspeita com sua genialidade epistêmica.

Nas palavras de Bárbara Carine: “Parece uma coisa boba, mas me irrita porque está vinculada a uma dimensão de escassez associada a pessoas negras. Entende-se que pessoas negras não têm dinheiro vivo, que pessoas negras sempre têm dinheiro futuro, e que a gente sempre vai pagar as coisas no crédito”, declarou.

“Entende–se que pessoas negras não tem dinheiro vivo”, diz Bárbara Carine. Mas quem é o sujeito dessa frase? Não pode ser a atendente, porque nada foi dito por ela. Também não foram os outros clientes, já que nem prestaram atenção no caso. Também não foram cartazes ou textos no restaurante, porque nada disso foi mencionado. Talvez esse sujeito oculto (Entende–se) seja justamente isso… oculto, uma zona de pura inconsciência dissecada pelos olhos hermenêuticos de Bárbara Carine.

Sem dúvida, não existe nenhum problema na análise da professora, a não ser um pequeno detalhe: a pressa. Nas ciências sociais, meu território, existem argumentos com baixa ou alta evidência, como diria Max Weber. Se a atendente usasse palavras racistas, por exemplo, o nível de objetividade do caso seria alto, o que pode justificar uma interpretação rápida, imediata. Mas não foi assim… a análise em jogo faz parte do subsolo do acontecimento, um mergulho que ultrapassa o dito e as próprias motivações dos agentes.

Como cientistas sociais, podemos, e devemos, mergulhar nesse campo hermenêutico pantanoso, mas sempre com muita cautela. Quanto menos evidências na mesa, quanto mais nos aproximamos de zonas subjetivadas e até inconscientes, segundo Max Weber, mais a análise pede calma, o que não acontece com Bárbara Carine.

Como de costume, seus saltos hermenêuticos são rápidos demais, quase sempre de óculos escuros em um carro, numa pura informalidade, como aconteceu com sua crítica ao outdoor do Cremeb (Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia). Na época, ela acusou a campanha publicitária de racista, porque apenas representava uma mulher negra dentro de uma proposta antifraude.

Da mesma forma que no exemplo do restaurante, aqui sua hermenêutica da suspeita foi costurada em segundos, na estrada. Mesmo depois de descobrir que a campanha publicitária era mais complexa, mais diversa, com outros corpos representados ao longo da cidade, isso não abalou em nada seu contorcionismo pós-estrutural… ela não pediu desculpas. Mas como se desculpar? Quais autoridades das ciências humanas e sociais existem lá fora? Quem consegue dizer: “Bárbara, você foi longe demais” ou “sua interpretação é falsa”?

Na prática, a culpa não é dela, a culpa é minha, é sua, é nossa, por ter produzido um campo epistêmico tão caótico, incerto e perigoso. A culpa é nossa por ter transformado as ciências sociais e humanas em uma brincadeira performática, reforçada pelo performatismo de plataformas como Twitter e Instagram. A culpa é nossa, da área menos paradigmática do universo, do espaço mais fluido que o humano já criou. Sem dúvida, essa fluidez tem suas vantagens, mas também seus riscos, como deixei claro ao longo dessas páginas.

Seria muito fácil lançar a culpa em uma pessoa, como se todos os outros estivessem imunes do escorregão de Bárbara Carine. Nada disso… A culpa não é individual, é coletiva, é epistêmica. A culpa é do próprio tecido que ampara nossas especulações nas últimas décadas. O “monstro” não é a professora da UFBA … Somos todos nós. E os riscos da imprudência, da nossa falta absoluta de paradigma, podem ser altos demais, inclusive politicamente.

Assim como na história do menino que gritava lobo, gritar “racismo” em qualquer circunstância, sem o mínimo de cuidado metodológico, dessensibiliza o público, esvazia o sentido das palavras. Ou seja, se tudo é racismo, nada é racismo. O irônico é que nossos esforços antirracistas acabam machucando justamente aquilo que juramos proteger: o povo preto e sua legitimidade de luta.

Essa banalização hermenêutica de Bárbara Carine, ou melhor, nossa, reforçada por um pós-estruturalismo descontrolado e algoritmos super convenientes, carregam efeitos políticos e acadêmicos perigosos. Como ficou claro até aqui, o problema nunca foi a análise feita, mas a pressa… sempre a pressa.

A ciência, como disse Isabelle Stengers, é lenta, cansativa, complexa. Se comparada a uma refeição, ela não é um fastfood, barato e rápido, mas um prato demorado feito em detalhes por especialistas. O problema de Bárbara Carine não foi sua conclusão (Afinal, pode ser verdadeira ou falsa, quem sabe?), mas a velocidade da sua pirueta hermenêutica. Mas não é isso o que as pessoas buscam hoje? Ninguém gosta do tédio do cientista com seu percurso metodológico cansativo, o que o público deseja é a performance de um discurso inflamado, cheio de entretenimento e piruetas interpretativas.

Diante de um “2 + 2 = 5”, a reação de qualquer engenheiro é imediata: “Isso é falso”. Mas e nas humanidades? Quem pode dizer que uma interpretação foi longe demais? O retorno ao marxismo e suas teorias de grande porte, além do seu intelectual universal, não funciona 100%. O que fazer, então? Sinceramente, eu não sei. Por enquanto, apenas assisto preocupado a um vídeo de uma professora da UFBA questionando a inconsciência de uma atendente de um restaurante aleatório em Salvador.

 

Fonte: Por Thiago de Araujo Pinho em A Terra é Redonda

 

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