sábado, 20 de junho de 2026

A política e a ética da “vida justa”

A capacidade de adaptação demonstrada pelo capitalismo ao longo de dois séculos levar-nos-ia a aceitar a famosa frase de Thatcher, “There’s no alternative”, como uma profecia autorrealizável. Desde então, outras mudanças ocorreram em resposta a sobressaltos, insurgências de movimentos e crises de várias naturezas e intensidades. Em nenhum desses momentos se chegou verdadeiramente a pôr em causa a coesão e os alicerces de um sistema global que, para não deixar dúvidas, se define como o “fim da história”.

Isto significa, como afirmou desencantadamente Mark Fisher, que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Para quem vive hoje, sim, sem dúvida. A profecia de Thatcher e a amarga reflexão de Fisher tornaram-se uma verdade dificilmente questionável.

O horizonte torna-se ainda mais sombrio quando consideramos alguns dos elementos que marcam pesadamente o cenário proporcionado pelo capitalismo algorítmico. Trata-se do desenvolvimento daquilo que, desde a primeira década deste século, se impôs globalmente como economia das plataformas, onde a centralidade do modelo algorítmico revolucionou as relações em todos os níveis, muito para além do contexto laboral.

A tendência para a individualização, a perda de sentido das formas coletivas de leitura dos processos e de construção de respostas, o domínio da ideologia do sucesso a qualquer custo, da meritocracia — onde o fracasso é apontado como culpa individual — e a constante desvalorização das relações corporais em favor das virtuais: tudo isto aponta para uma mutação antropológica que atinge níveis profundos, inclusive a esfera do inconsciente e dos sonhos.

A ausência de um sujeito coletivo historicamente definido sobre o qual construir uma verdadeira alternativa — sujeito que deve ser criado, não encontrado em nenhuma parte, nem curto-circuitado numa “multidão” sempre-já antagônica! — produz, como escreve Márcio Pochmann no Outras Palavras, frustração e ressentimento. Estes, por sua vez, reforçam o sentido de individualidade e solidão, alimentando o círculo vicioso que nos tritura.

Os últimos dez anos foram marcados por uma aceleração impressionante do processo de consolidação deste novo padrão, simultaneamente econômico, social, cultural, político e antropológico. A sua velocidade não nos deixou tempo para refletir sobre o que acontecia. Os rastros que deixa são indeléveis e já hoje claramente visíveis. Sem dúvida, serão ainda mais nos próximos anos, sobretudo entre as gerações mais novas, em todas as dimensões da vida quotidiana.

Isto não nos impede de pensar um outro futuro, até porque “pensar” significa imaginar e conhecer algo novo, imprevisível, em contraposição ao simples reconhecer daquilo que já se conhece. Neste sentido, conhecer o novo traduz-se em viver o novo, aquilo que ainda não é. “A imaginação, a ficção, o mito não são fugas do real, mas modalidades da sua intensificação, articulação e transformação”, escreve Vittorio Gallese em Il Sé digitale (2025).

“Frequentar o futuro” — como sugeria o médico Cardoso a Pereira, o jornalista idoso do célebre romance de Tabucchi Afirma Pereira — torna-se, portanto, condição de possibilidade para uma resistência criadora. “A capacidade de criar mundos possíveis, de habitar a alteridade, de construir estruturas de sentido partilhadas que excedem o que já existe” (Gallese, 2025) é aquilo que temos de resgatar, precisamente porque representa o alvo do extrativismo exercido sobre a nossa própria especificidade enquanto seres humanos.

O futuro pode começar a ser criado já. Pode ser experimentado no cotidiano das nossas vidas, nos espaços que subtraímos à dominação implacável e omnívora.

Nessas condições, conseguimos viver, ainda que temporária e parcialmente, para além do horizonte traçado para nós. Cada luta, cada conquista, cada freio imposto à lógica dominante, produz novas relações, onde a capacidade de imaginar transforma-se em potência de construir já o que é para nós uma alteridade plena. E, precisamente por isso, deixamos de estar disponíveis para aceitar que nada possa ser diferente.

Perante um capitalismo algorítmico que domestica qualquer espaço — físico e temporal — da nossa existência à cadeia de valorização e financeirização que o alimenta e reproduz, a resposta só pode situar-se ao nível da vida como um todo. É, de fato, a única resposta possível às técnicas de poder que se exprimem na biopolítica, no interior das quais devemos encontrar o terreno onde produzir o conflito. Na medida em que a vida coletiva é tomada pelo poder como âmbito de intervenção, a reivindicação de uma “vida justa” encarna a sua subversão, projeta o seu avesso.

Isto derruba os limites entre “produção” e “reprodução”, entre conflitos laborais e conflitos sociais. Amplia o leque de iniciativas baseadas no “cuidado de si” como condição para o “cuidado dos outros”. Recoloca a ética política — e não a moral — no centro da visão do mundo em que queremos viver.

A ética é a cartografia das potências que produzem formas de vida orientadas para uma sanidade social, política, econômica e cultural, referida tanto à comunidade como a cada um dos seus membros. Neste sentido, ética, política e justiça trabalham juntas.

No artigo que, nas nossas intenções, representava a primeira parte das reflexões aqui continuadas, descrevíamos as modalidades de atuação e o papel desempenhado pela guerra num contexto alimentado e gerido pelo caos.

Vale a pena recordar a célebre formulação de Foucault no curso É preciso defender a sociedade, no Collège de France: a política é a guerra conduzida por outros meios. Nunca como hoje essa afirmação soou tão atual. A centralidade da guerra no cenário político global, com todos os dispositivos que a acompanham, relega a política “tradicional” para um papel derivado.

Basta ler os 22 pontos contidos no recente manifesto da Palantir, publicado por Alex Karp em The Technological Republic, para perceber como a própria sociedade se transforma num campo de aplicação das lógicas da guerra permanente e total.

A “guerra” contra todos aqueles que surgem como ameaça aos desígnios definidos pelo capitalismo algorítmico não prevê limites nem remorsos. O que está em causa é o combate à própria ideia de sociedade civil enquanto espaço de ação política legitimamente antagónica. Um espaço onde seja legítimo agir para subverter a ordem dos princípios que regulam as relações tóxicas às quais todos estamos submetidos.

•        Semana difícil com entrevistas que perdem eleições. Por Fernando Horta

A semana começou com uma entrevista de Dario Durigan ao Estadão na qual o ministro da Fazenda defendeu, ponto por ponto, quase tudo o que o receituário neoliberal poderia desejar — inclusive contra posições do próprio presidente que diz servir. Não é a primeira vez. Desde que chegou à cúpula da Fazenda, vindo dos quadros corporativos de uma das maiores plataformas digitais do mundo, o ex-assessor-ministro vem cutucando justamente o que a Constituição tem de mais protetivo aos mais pobres: os mínimos constitucionais de investimento em saúde e educação, aqueles pisos crescentes e vinculados que existem precisamente para que o gasto social não fique à mercê do humor fiscal de cada governo. Cada investida nesse terreno, ainda que vestida de “tecnicalidade”, deixa para o PT a herança envenenada de ter sido o partido que afrouxou as garantias dos mais vulneráveis.

Mas o problema da entrevista vai além disso. Durigan afirma que o Brasil “é um país digital” quando os dados mostram o contrário. Há conectividade desigual, exclusão persistente, escolas sem infraestrutura, milhões à margem dos serviços básicos digitalizados. Temos muito trabalho pela frente, não uma vitória a comemorar. E, quando o jornalista — atentem que foi o jornalista de um dos veículos mais conservadores do Brasil que aventou o problema — o confronta com a exclusão que a digitalização produz nas camadas mais pobres, a resposta vem com um pedantismo que assusta: “não temos opção” — pedantismo, aliás, que é marca de toda a entrevista. Há sempre opção. A opção é exatamente o que um ministro existe para construir — política pública que inclua antes de digitalizar, e não digitalização que exclua antes de incluir.

Em seguida, Durigan fala abstratamente em “reforma administrativa”, sem a responsabilidade que o cargo exige. Um ministro não pode subscrever, no vácuo, um termo carregado de acepções políticas opostas. Até admito — embora não acredite — que ele o tenha invocado de boa-fé, como ferramenta para conter abusos e os poucos “novos marajás” do alto funcionalismo. Mas é inaceitável que um ministro desconheça que a direita usa exatamente essa palavra para atacar a base do serviço público: acabar com a segurança jurídica do servidor, esvaziar a estabilidade e transformar a máquina num loteamento de cargos à indicação de cada gestão. Quem ocupa um ministério não tem o direito de ser ingênuo com vocabulário.

Há ainda o gesto mais grave: Durigan, que não tem voto, tenta condicionar um eventual segundo mandato de Lula a um “ajuste fiscal” que ele já dá como certo. Aqui não falta apenas leitura do momento político — falta História. Foi precisamente num ajuste desse tipo que Dilma Rousseff se viu encurralada, sem força política para resistir ao golpe que veio em 2016. Dez anos depois, o ex-assessor-ministro repete o roteiro com a leveza de quem nunca leu a ata da própria tragédia. É o tipo de entrevista que, em outro tempo, renderia uma demissão.

Na esteira da semana, veio o comentário de Lula, no entorno do G7, de que não seria “esquerdista”. Talvez não devesse ter sido captado, mas também não deveria ter sido dito. Não adianta passar pano com a erudição de sempre — lembrar o Lênin de O esquerdismo, doença infantil do comunismo não conserta o estrago. Para boa parte da população, o que ficou foi que Lula disse não ser de esquerda. E isso desagrega justamente quem precisamos arregimentar: os que acreditam, e acreditam em si mesmos, como progressistas. Comunicação política não se mede pela intenção, mede-se pelo resultado, mede-se pelo que chega.

No apagar das luzes, uma operação da Polícia Federal atingiu Jaques Wagner e o coração do PT baiano. Wagner não é nenhum neófito; se se aproximou de Vorcaro, sabia o terreno que pisava. E não é de hoje que encadeia erros: a aliança contra Messias no STF, o apoio a Alcolumbre — hoje desafeto de Lula e obstáculo à PEC da escala de trabalho — e agora as relações que a PF mira. O entorno do presidente parece especializado em transformar capital político em algo o mais inerte possível.

O saldo é cruel. No início da semana, uma vitória de Lula no primeiro turno parecia plausível — construída quase exclusivamente pelo esforço do próprio presidente. Ao fim dela, não parece mais. A cada passo que Lula dá rumo aos 50% mais um voto de outubro, seu entorno, atabalhoado, recua dois.

E nem entro no mérito da decisão do Banco Central de cortar a Selic em apenas 0,25%. O Comitê deveria ter escolhido: ou o ambiente interno e externo pede cautela, e então segura a taxa, aguentando a crítica; ou abre espaço para os setores produtivos e os trabalhadores, e então corta com gesto que se faça sentir. Essa meia-decisão não acalma o mercado nem alivia a economia real — só produz ruído. É tão nociva, à sua maneira, quanto a entrevista de Durigan.

Do jeito que as coisas caminham, tudo parece roteiro para que — mesmo a contragosto — sejamos levados a concluir que Haddad precisa voltar ao centro do tabuleiro. Se a intenção era essa, funciona. Mas há um detalhe que ninguém no entorno parece computar: a cada semana assim, quem de fato agradece, em silêncio, são os Bolsonaro.

 

Fonte: Por Stefano Rota e Marta Lança, em Outras Palavras/Brasil 247

 

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