A
política e a ética da “vida justa”
A
capacidade de adaptação demonstrada pelo capitalismo ao longo de dois séculos
levar-nos-ia a aceitar a famosa frase de Thatcher, “There’s no alternative”,
como uma profecia autorrealizável. Desde então, outras mudanças ocorreram em
resposta a sobressaltos, insurgências de movimentos e crises de várias
naturezas e intensidades. Em nenhum desses momentos se chegou verdadeiramente a
pôr em causa a coesão e os alicerces de um sistema global que, para não deixar
dúvidas, se define como o “fim da história”.
Isto
significa, como afirmou desencantadamente Mark Fisher, que é mais fácil
imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Para quem vive hoje, sim,
sem dúvida. A profecia de Thatcher e a amarga reflexão de Fisher tornaram-se
uma verdade dificilmente questionável.
O
horizonte torna-se ainda mais sombrio quando consideramos alguns dos elementos
que marcam pesadamente o cenário proporcionado pelo capitalismo algorítmico.
Trata-se do desenvolvimento daquilo que, desde a primeira década deste século,
se impôs globalmente como economia das plataformas, onde a centralidade do
modelo algorítmico revolucionou as relações em todos os níveis, muito para além
do contexto laboral.
A
tendência para a individualização, a perda de sentido das formas coletivas de
leitura dos processos e de construção de respostas, o domínio da ideologia do
sucesso a qualquer custo, da meritocracia — onde o fracasso é apontado como
culpa individual — e a constante desvalorização das relações corporais em favor
das virtuais: tudo isto aponta para uma mutação antropológica que atinge níveis
profundos, inclusive a esfera do inconsciente e dos sonhos.
A
ausência de um sujeito coletivo historicamente definido sobre o qual construir
uma verdadeira alternativa — sujeito que deve ser criado, não encontrado em
nenhuma parte, nem curto-circuitado numa “multidão” sempre-já antagônica! —
produz, como escreve Márcio Pochmann no Outras Palavras, frustração e
ressentimento. Estes, por sua vez, reforçam o sentido de individualidade e
solidão, alimentando o círculo vicioso que nos tritura.
Os
últimos dez anos foram marcados por uma aceleração impressionante do processo
de consolidação deste novo padrão, simultaneamente econômico, social, cultural,
político e antropológico. A sua velocidade não nos deixou tempo para refletir
sobre o que acontecia. Os rastros que deixa são indeléveis e já hoje claramente
visíveis. Sem dúvida, serão ainda mais nos próximos anos, sobretudo entre as
gerações mais novas, em todas as dimensões da vida quotidiana.
Isto
não nos impede de pensar um outro futuro, até porque “pensar” significa
imaginar e conhecer algo novo, imprevisível, em contraposição ao simples
reconhecer daquilo que já se conhece. Neste sentido, conhecer o novo traduz-se
em viver o novo, aquilo que ainda não é. “A imaginação, a ficção, o mito não
são fugas do real, mas modalidades da sua intensificação, articulação e
transformação”, escreve Vittorio Gallese em Il Sé digitale (2025).
“Frequentar
o futuro” — como sugeria o médico Cardoso a Pereira, o jornalista idoso do
célebre romance de Tabucchi Afirma Pereira — torna-se, portanto, condição de
possibilidade para uma resistência criadora. “A capacidade de criar mundos
possíveis, de habitar a alteridade, de construir estruturas de sentido
partilhadas que excedem o que já existe” (Gallese, 2025) é aquilo que temos de
resgatar, precisamente porque representa o alvo do extrativismo exercido sobre
a nossa própria especificidade enquanto seres humanos.
O
futuro pode começar a ser criado já. Pode ser experimentado no cotidiano das
nossas vidas, nos espaços que subtraímos à dominação implacável e omnívora.
Nessas
condições, conseguimos viver, ainda que temporária e parcialmente, para além do
horizonte traçado para nós. Cada luta, cada conquista, cada freio imposto à
lógica dominante, produz novas relações, onde a capacidade de imaginar
transforma-se em potência de construir já o que é para nós uma alteridade
plena. E, precisamente por isso, deixamos de estar disponíveis para aceitar que
nada possa ser diferente.
Perante
um capitalismo algorítmico que domestica qualquer espaço — físico e temporal —
da nossa existência à cadeia de valorização e financeirização que o alimenta e
reproduz, a resposta só pode situar-se ao nível da vida como um todo. É, de
fato, a única resposta possível às técnicas de poder que se exprimem na
biopolítica, no interior das quais devemos encontrar o terreno onde produzir o
conflito. Na medida em que a vida coletiva é tomada pelo poder como âmbito de
intervenção, a reivindicação de uma “vida justa” encarna a sua subversão,
projeta o seu avesso.
Isto
derruba os limites entre “produção” e “reprodução”, entre conflitos laborais e
conflitos sociais. Amplia o leque de iniciativas baseadas no “cuidado de si”
como condição para o “cuidado dos outros”. Recoloca a ética política — e não a
moral — no centro da visão do mundo em que queremos viver.
A ética
é a cartografia das potências que produzem formas de vida orientadas para uma
sanidade social, política, econômica e cultural, referida tanto à comunidade
como a cada um dos seus membros. Neste sentido, ética, política e justiça
trabalham juntas.
No
artigo que, nas nossas intenções, representava a primeira parte das reflexões
aqui continuadas, descrevíamos as modalidades de atuação e o papel desempenhado
pela guerra num contexto alimentado e gerido pelo caos.
Vale a
pena recordar a célebre formulação de Foucault no curso É preciso defender a
sociedade, no Collège de France: a política é a guerra conduzida por outros
meios. Nunca como hoje essa afirmação soou tão atual. A centralidade da guerra
no cenário político global, com todos os dispositivos que a acompanham, relega
a política “tradicional” para um papel derivado.
Basta
ler os 22 pontos contidos no recente manifesto da Palantir, publicado por Alex
Karp em The Technological Republic, para perceber como a própria sociedade se
transforma num campo de aplicação das lógicas da guerra permanente e total.
A
“guerra” contra todos aqueles que surgem como ameaça aos desígnios definidos
pelo capitalismo algorítmico não prevê limites nem remorsos. O que está em
causa é o combate à própria ideia de sociedade civil enquanto espaço de ação
política legitimamente antagónica. Um espaço onde seja legítimo agir para
subverter a ordem dos princípios que regulam as relações tóxicas às quais todos
estamos submetidos.
• Semana difícil com entrevistas que
perdem eleições. Por Fernando Horta
A
semana começou com uma entrevista de Dario Durigan ao Estadão na qual o
ministro da Fazenda defendeu, ponto por ponto, quase tudo o que o receituário
neoliberal poderia desejar — inclusive contra posições do próprio presidente
que diz servir. Não é a primeira vez. Desde que chegou à cúpula da Fazenda,
vindo dos quadros corporativos de uma das maiores plataformas digitais do
mundo, o ex-assessor-ministro vem cutucando justamente o que a Constituição tem
de mais protetivo aos mais pobres: os mínimos constitucionais de investimento
em saúde e educação, aqueles pisos crescentes e vinculados que existem
precisamente para que o gasto social não fique à mercê do humor fiscal de cada
governo. Cada investida nesse terreno, ainda que vestida de “tecnicalidade”, deixa
para o PT a herança envenenada de ter sido o partido que afrouxou as garantias
dos mais vulneráveis.
Mas o
problema da entrevista vai além disso. Durigan afirma que o Brasil “é um país
digital” quando os dados mostram o contrário. Há conectividade desigual,
exclusão persistente, escolas sem infraestrutura, milhões à margem dos serviços
básicos digitalizados. Temos muito trabalho pela frente, não uma vitória a
comemorar. E, quando o jornalista — atentem que foi o jornalista de um dos
veículos mais conservadores do Brasil que aventou o problema — o confronta com
a exclusão que a digitalização produz nas camadas mais pobres, a resposta vem
com um pedantismo que assusta: “não temos opção” — pedantismo, aliás, que é
marca de toda a entrevista. Há sempre opção. A opção é exatamente o que um
ministro existe para construir — política pública que inclua antes de digitalizar,
e não digitalização que exclua antes de incluir.
Em
seguida, Durigan fala abstratamente em “reforma administrativa”, sem a
responsabilidade que o cargo exige. Um ministro não pode subscrever, no vácuo,
um termo carregado de acepções políticas opostas. Até admito — embora não
acredite — que ele o tenha invocado de boa-fé, como ferramenta para conter
abusos e os poucos “novos marajás” do alto funcionalismo. Mas é inaceitável que
um ministro desconheça que a direita usa exatamente essa palavra para atacar a
base do serviço público: acabar com a segurança jurídica do servidor, esvaziar
a estabilidade e transformar a máquina num loteamento de cargos à indicação de
cada gestão. Quem ocupa um ministério não tem o direito de ser ingênuo com
vocabulário.
Há
ainda o gesto mais grave: Durigan, que não tem voto, tenta condicionar um
eventual segundo mandato de Lula a um “ajuste fiscal” que ele já dá como certo.
Aqui não falta apenas leitura do momento político — falta História. Foi
precisamente num ajuste desse tipo que Dilma Rousseff se viu encurralada, sem
força política para resistir ao golpe que veio em 2016. Dez anos depois, o
ex-assessor-ministro repete o roteiro com a leveza de quem nunca leu a ata da
própria tragédia. É o tipo de entrevista que, em outro tempo, renderia uma
demissão.
Na
esteira da semana, veio o comentário de Lula, no entorno do G7, de que não
seria “esquerdista”. Talvez não devesse ter sido captado, mas também não
deveria ter sido dito. Não adianta passar pano com a erudição de sempre —
lembrar o Lênin de O esquerdismo, doença infantil do comunismo não conserta o
estrago. Para boa parte da população, o que ficou foi que Lula disse não ser de
esquerda. E isso desagrega justamente quem precisamos arregimentar: os que
acreditam, e acreditam em si mesmos, como progressistas. Comunicação política
não se mede pela intenção, mede-se pelo resultado, mede-se pelo que chega.
No
apagar das luzes, uma operação da Polícia Federal atingiu Jaques Wagner e o
coração do PT baiano. Wagner não é nenhum neófito; se se aproximou de Vorcaro,
sabia o terreno que pisava. E não é de hoje que encadeia erros: a aliança
contra Messias no STF, o apoio a Alcolumbre — hoje desafeto de Lula e obstáculo
à PEC da escala de trabalho — e agora as relações que a PF mira. O entorno do
presidente parece especializado em transformar capital político em algo o mais
inerte possível.
O saldo
é cruel. No início da semana, uma vitória de Lula no primeiro turno parecia
plausível — construída quase exclusivamente pelo esforço do próprio presidente.
Ao fim dela, não parece mais. A cada passo que Lula dá rumo aos 50% mais um
voto de outubro, seu entorno, atabalhoado, recua dois.
E nem
entro no mérito da decisão do Banco Central de cortar a Selic em apenas 0,25%.
O Comitê deveria ter escolhido: ou o ambiente interno e externo pede cautela, e
então segura a taxa, aguentando a crítica; ou abre espaço para os setores
produtivos e os trabalhadores, e então corta com gesto que se faça sentir. Essa
meia-decisão não acalma o mercado nem alivia a economia real — só produz ruído.
É tão nociva, à sua maneira, quanto a entrevista de Durigan.
Do
jeito que as coisas caminham, tudo parece roteiro para que — mesmo a
contragosto — sejamos levados a concluir que Haddad precisa voltar ao centro do
tabuleiro. Se a intenção era essa, funciona. Mas há um detalhe que ninguém no
entorno parece computar: a cada semana assim, quem de fato agradece, em
silêncio, são os Bolsonaro.
Fonte:
Por Stefano Rota e Marta Lança, em Outras Palavras/Brasil 247

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