sábado, 20 de junho de 2026

Contra o machismo digital, o orgulho do desejo

As mudanças na tecnologia e o desenvolvimento acelerado da inteligência artificial estão dando origem ao que chamamos de violência digital. Em um espelho deformado do que é a violência offline, as possibilidades na internet se multiplicam e surgem novas formas de causar dano: criam-se ou difundem-se conteúdos que expõem as pessoas sem o seu consentimento. Desde a divulgação de imagens sexuais privadas até os deepfakes – fotos que desnudam ou sexualizam pessoas por meio de IA – ou a instalação de câmeras escondidas em quartos de hotel. Tudo pode ser conteúdo. Tudo pode, além disso, ser monetizado.

O uso da IA é muito significativo, já que, de qualquer imagem possível – pela primeira vez, o limite é apenas a nossa imaginação –, quais são as que parecem se adaptar melhor ao dispositivo de viralização? A sexualização – sobretudo das mulheres – aparentemente captura a libido criativa das massas, já que nessa nova paisagem digital se imprimem as relações de poder existentes. Por que tantos homens não só não sentem repulsa pela falta de consentimento, mas isso os excita?, pergunta a influenciadora OnlineMami. Será que é um motivo a mais para criá-las, um extra que proporciona o prazer da transgressão?

Essas novas formas de agressão geram questionamentos de todos os tipos. Alguns têm a ver com como obrigar as empresas de tecnologia a prestar contas pelo conteúdo que geram ou difundem. Uma linha de trabalho feminista seria como responsabilizar os que criam essas imagens para tentar frear sua proliferação. Mas outra que não podemos esquecer tem a ver com minimizar o dano que elas produzem. Por que deveríamos nos envergonhar de uma imagem sintética, de um nu falso que tem o nosso rosto? E, na verdade, por que deveria nos envergonhar qualquer imagem sexual, seja ela falsa ou não?

<><> A vergonha como controle social

Quando uma imagem sexual de uma garota circula sem a sua permissão, ativa-se um mecanismo de controle social. Se forem imagens reais, pode-se chegar a culpabilizá-la: “Se você não queria que circulassem, por que as gravou?” O segundo mecanismo é classificatório: “Ela é uma vadia, olha o que ela faz”. “Não é uma mulher de alto valor”, como se diria na machosfera. Em qualquer caso, não importa se a imagem é real ou fabricada, parece que há algo nessas imagens que é inerentemente humilhante ou vexatório. E se isso se transformou nas últimas décadas – ou desde mais atrás – foi precisamente graças ao trabalho dos feminismos que lutaram para libertar a sexualidade feminina desse mecanismo de controle. Mas se continua prejudicando mais quem aparece na imagem do que quem a difunde, isso significa que ainda há muito a ser feito.

A mensagem implícita é disciplinar: não façam essas coisas ou ajam de modo que ninguém acredite que vocês são capazes de fazê-las. A sexualidade feminina tem sido tradicionalmente regulada por meio de mecanismos coercitivos, mas também pela culpa, por se sentir suja, “fácil” ou indigna por desejar. Muitas mulheres limitavam ou silenciavam seus desejos para não se exporem à desonra social. Embora hoje sejamos muito mais livres em nossa sexualidade, sobretudo as mais jovens, os resquícios dessa moral continuam funcionando por meio da ameaça de exposição pública. Os conselhos dos pais para suas filhas agora são: não tirem fotos, não as enviem.

A “virtude” e a “castidade” foram historicamente impostas como condições de valor social para as mulheres, já que a honra delas e de suas famílias dependia da vigilância sobre a sua sexualidade. Esse dispositivo funcionava como um mecanismo para regular a circulação de mulheres e de heranças, ligando o controle da sexualidade feminina à ordem econômica e familiar. Evidentemente, esse ideal de pureza não se aplicava aos homens, e esse duplo padrão parece que ainda persiste. Já sabemos que o desejo feminino foi historicamente regulado para se apresentar como passivo – somos as “que consentem ou não” segundo o marco político que operou nestes últimos anos nos discursos públicos. Enquanto isso, o desejo masculino é representado como legítimo e ativo. Não se concebe que eles possam não desejá-lo e nós, sim. Daí a vergonha operar apenas em uma direção, e os homens cujas imagens sexuais circulam geralmente não se sentem mal, ou não tão mal.

Embora hoje já não falemos de castidade, a lógica da pureza persiste em novos formatos: o slut-shaming nas redes sociais, a cultura do consentimento em chave moralizante – mulheres “responsáveis” que evitem situações que as “coloquem em risco” –, ou marcos que reproduzem a dicotomia entre “vítimas” dignas e mulheres “culpáveis” – as que não se ajustam à norma. Alguns desses marcos, além disso, podem vir de setores do próprio feminismo, por exemplo, nas representações que se fazem das trabalhadoras sexuais como sempre estupradas, porque o seu consentimento não é levado em conta. Seriam elas, então, vítimas voluntárias?

<><> Somos más, poderíamos ser piores

Virginie Despentes trabalhou essa questão da vergonha a partir de um feminismo de libertação sexual. De vez em quando, é preciso voltar a essa autora, sobretudo em tempos em que o conservadorismo sexual volta a emergir dos lugares mais insuspeitados, inclusive de certos feminismos que representam a sexualidade feminina heterossexual como um campo alheio, lugar onde só nos espera dor ou onde só podemos estar a serviço dos homens: o poliamor é para os homens, afirmar-se na sexualidade livre é neoliberal, o sexo casual não é prazeroso, dizem. Despentes nos abre uma janela e por ela entra luz. “Temos que ensinar as garotas a se orgulharem dos seus boquetes”, diz uma personagem em seu romance Querido Babaca. “Me chama a atenção, em primeiro lugar, que nas redes sociais seja possível envergonhar uma garota por chupar um pau. E também que nós, como adultos, não nos tenhamos sentido chamados a dizer que chupar paus é legal. Que continue sendo algo vergonhoso para uma garota ser vista chupando paus me parece incrível e acredito que isso pode ser mudado. Se você tem vontade de chupá-los, é um bom gesto. O mundo te deve gratidão”, diz em uma entrevista de Patricia Reguero.

“A grande ausente dos discursos da última década é a garota que se comporta mal, a garota que chupa paus, a garota fácil, a garota que quer muito sexo, a garota tesuda. Essa que é um pouco a garota de quem fala Itziar Ziga em Devenir perras. É necessária uma crítica da pornografia e de determinados tipos de prostituição, mas, ao mesmo tempo, temos que estabelecer discursos que defendam as garotas realmente más, e essas são as garotas que transam muito ou como querem”, diz em uma entrevista de Ana Requena. Mas nestes últimos anos, em nossa luta contra as violências sexuais, parece que, sem querer, chegamos a potencializar essa imagem de passividade mais adaptada à imagem de vítima, em oposição à nossa própria libertação. Reivindicar o direito das mulheres de decidir sobre suas práticas sexuais e de falar sobre elas sem vergonha – incluídas aquelas consideradas vulgares ou degradantes – impugna essa distribuição desigual de legitimidade entre homens e mulheres no que diz respeito ao acesso à sexualidade em igualdade.

Esta não é uma celebração ingênua do sexo como um âmbito livre de relações de poder: em sua própria experiência com o estupro, relatada em Teoria King Kong, Despentes reconhece como a violência sexual estrutura a relação entre mulheres e desejo. Sua defesa da liberdade sexual vem sempre acompanhada de uma crítica ao sistema que naturaliza essa violência. Não se trata, então, unicamente de reivindicar o poder de fazer “o que quisermos”, mas de transformar os marcos estruturais que tornam as mulheres vulneráveis à violência e à estigmatização. E essa é uma luta paralela e necessária.

<><> A sacralização do sexo como armadilha política

De modo que, em nossa própria prática feminista, surge este paradoxo: quanto mais sacralizamos a sexualidade – quanto mais a tratamos como um terreno excepcional, intocável, onde se joga o mais íntimo de uma pessoa –, mais difícil se torna para uma mulher sobreviver à exposição pública indesejada ou a outras violências. Se a circulação de uma imagem sexual é horrível e vai te prejudicar irremediavelmente, então ela é também uma arma tremendamente eficaz. Mas o dano não está na imagem em si, mas no olhar social que a degrada, de modo que a mensagem também poderia ser: e daí se se difunde, você não fez nada de errado. Em geral, não há nada inerentemente desonroso em nenhuma dessas imagens. Também é verdade que a prática cotidiana é mais complicada. Por exemplo, quando uma garota de quinze anos chega em casa e sabe que metade da escola viu uma imagem sua – real ou fabricada, tanto faz – e que amanhã ela terá que atravessar aquele corredor de novo. Nesse momento, dizer a ela que ela não fez nada de errado é necessário, mas talvez não seja suficiente, porque ainda operamos no presente e é certo que o ambiente que pune de forma injusta não se desmonta magicamente. O sofrimento é real. A estrutura que o produz é a que precisa ser desmontada.

Portanto, além de transformar a cultura, há outras tarefas pendentes. O primeiro, insistimos, é tentar evitar que essas violências continuem se reproduzindo e que deixem de ter consequências negativas para as mulheres – por exemplo, em alguns casos, podem demiti-la do trabalho ou ter outras consequências indesejadas. Ao mesmo tempo, é preciso frear a circulação dessas imagens. Recusar-se a enviá-las, a compartilhá-las e apontar quem as difunde. E isso não é só coisa de garotos: as garotas também compartilham, as garotas também fazem slut-shaming ou reproduzem a lógica que as prejudica. Que a vergonha mude de lado significa que o estigma recaia sobre quem difunde uma imagem com a intenção de humilhar ou de anular outra pessoa, não sobre quem aparece nela. Outra tarefa necessária, é claro, é estar ao lado das que sofrem e fazê-las sentir que contam com o nosso apoio. Deveríamos acompanhar sem minimizar sua dor, mas também tentando não reproduzir os marcos moralizantes que a prejudicam.

O objetivo é confrontar as estruturas que possibilitam – material e simbolicamente – a apropriação do corpo das mulheres. Mas o trabalho é cotidiano e ordinário. Quando uma adolescente descobre que está circulando uma imagem sua fazendo um boquete e o que ela sente não é raiva, mas culpa, sabemos que ainda há muito a ser feito. A primeira coisa será dizer a ela que ela não está sozinha. A segunda, e sem hesitar, é que ela não fez nada de errado. Que, se ela tinha vontade, está muito bem feito.

 

Fonte: Por Nuria Alabao, no CTXT | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

 

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