Contra
o machismo digital, o orgulho do desejo
As
mudanças na tecnologia e o desenvolvimento acelerado da inteligência artificial
estão dando origem ao que chamamos de violência digital. Em um espelho
deformado do que é a violência offline, as possibilidades na internet se
multiplicam e surgem novas formas de causar dano: criam-se ou difundem-se
conteúdos que expõem as pessoas sem o seu consentimento. Desde a divulgação de
imagens sexuais privadas até os deepfakes – fotos que desnudam ou sexualizam
pessoas por meio de IA – ou a instalação de câmeras escondidas em quartos de
hotel. Tudo pode ser conteúdo. Tudo pode, além disso, ser monetizado.
O uso
da IA é muito significativo, já que, de qualquer imagem possível – pela
primeira vez, o limite é apenas a nossa imaginação –, quais são as que parecem
se adaptar melhor ao dispositivo de viralização? A sexualização – sobretudo das
mulheres – aparentemente captura a libido criativa das massas, já que nessa
nova paisagem digital se imprimem as relações de poder existentes. Por que
tantos homens não só não sentem repulsa pela falta de consentimento, mas isso
os excita?, pergunta a influenciadora OnlineMami. Será que é um motivo a mais
para criá-las, um extra que proporciona o prazer da transgressão?
Essas
novas formas de agressão geram questionamentos de todos os tipos. Alguns têm a
ver com como obrigar as empresas de tecnologia a prestar contas pelo conteúdo
que geram ou difundem. Uma linha de trabalho feminista seria como
responsabilizar os que criam essas imagens para tentar frear sua proliferação.
Mas outra que não podemos esquecer tem a ver com minimizar o dano que elas
produzem. Por que deveríamos nos envergonhar de uma imagem sintética, de um nu
falso que tem o nosso rosto? E, na verdade, por que deveria nos envergonhar
qualquer imagem sexual, seja ela falsa ou não?
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A vergonha como controle social
Quando
uma imagem sexual de uma garota circula sem a sua permissão, ativa-se um
mecanismo de controle social. Se forem imagens reais, pode-se chegar a
culpabilizá-la: “Se você não queria que circulassem, por que as gravou?” O
segundo mecanismo é classificatório: “Ela é uma vadia, olha o que ela faz”.
“Não é uma mulher de alto valor”, como se diria na machosfera. Em qualquer
caso, não importa se a imagem é real ou fabricada, parece que há algo nessas
imagens que é inerentemente humilhante ou vexatório. E se isso se transformou
nas últimas décadas – ou desde mais atrás – foi precisamente graças ao trabalho
dos feminismos que lutaram para libertar a sexualidade feminina desse mecanismo
de controle. Mas se continua prejudicando mais quem aparece na imagem do que
quem a difunde, isso significa que ainda há muito a ser feito.
A
mensagem implícita é disciplinar: não façam essas coisas ou ajam de modo que
ninguém acredite que vocês são capazes de fazê-las. A sexualidade feminina tem
sido tradicionalmente regulada por meio de mecanismos coercitivos, mas também
pela culpa, por se sentir suja, “fácil” ou indigna por desejar. Muitas mulheres
limitavam ou silenciavam seus desejos para não se exporem à desonra social.
Embora hoje sejamos muito mais livres em nossa sexualidade, sobretudo as mais
jovens, os resquícios dessa moral continuam funcionando por meio da ameaça de
exposição pública. Os conselhos dos pais para suas filhas agora são: não tirem
fotos, não as enviem.
A
“virtude” e a “castidade” foram historicamente impostas como condições de valor
social para as mulheres, já que a honra delas e de suas famílias dependia da
vigilância sobre a sua sexualidade. Esse dispositivo funcionava como um
mecanismo para regular a circulação de mulheres e de heranças, ligando o
controle da sexualidade feminina à ordem econômica e familiar. Evidentemente,
esse ideal de pureza não se aplicava aos homens, e esse duplo padrão parece que
ainda persiste. Já sabemos que o desejo feminino foi historicamente regulado
para se apresentar como passivo – somos as “que consentem ou não” segundo o
marco político que operou nestes últimos anos nos discursos públicos. Enquanto
isso, o desejo masculino é representado como legítimo e ativo. Não se concebe
que eles possam não desejá-lo e nós, sim. Daí a vergonha operar apenas em uma
direção, e os homens cujas imagens sexuais circulam geralmente não se sentem
mal, ou não tão mal.
Embora
hoje já não falemos de castidade, a lógica da pureza persiste em novos
formatos: o slut-shaming nas redes sociais, a cultura do consentimento em chave
moralizante – mulheres “responsáveis” que evitem situações que as “coloquem em
risco” –, ou marcos que reproduzem a dicotomia entre “vítimas” dignas e
mulheres “culpáveis” – as que não se ajustam à norma. Alguns desses marcos,
além disso, podem vir de setores do próprio feminismo, por exemplo, nas
representações que se fazem das trabalhadoras sexuais como sempre estupradas,
porque o seu consentimento não é levado em conta. Seriam elas, então, vítimas
voluntárias?
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Somos más, poderíamos ser piores
Virginie
Despentes trabalhou essa questão da vergonha a partir de um feminismo de
libertação sexual. De vez em quando, é preciso voltar a essa autora, sobretudo
em tempos em que o conservadorismo sexual volta a emergir dos lugares mais
insuspeitados, inclusive de certos feminismos que representam a sexualidade
feminina heterossexual como um campo alheio, lugar onde só nos espera dor ou
onde só podemos estar a serviço dos homens: o poliamor é para os homens,
afirmar-se na sexualidade livre é neoliberal, o sexo casual não é prazeroso,
dizem. Despentes nos abre uma janela e por ela entra luz. “Temos que ensinar as
garotas a se orgulharem dos seus boquetes”, diz uma personagem em seu romance
Querido Babaca. “Me chama a atenção, em primeiro lugar, que nas redes sociais
seja possível envergonhar uma garota por chupar um pau. E também que nós, como
adultos, não nos tenhamos sentido chamados a dizer que chupar paus é legal. Que
continue sendo algo vergonhoso para uma garota ser vista chupando paus me
parece incrível e acredito que isso pode ser mudado. Se você tem vontade de
chupá-los, é um bom gesto. O mundo te deve gratidão”, diz em uma entrevista de
Patricia Reguero.
“A
grande ausente dos discursos da última década é a garota que se comporta mal, a
garota que chupa paus, a garota fácil, a garota que quer muito sexo, a garota
tesuda. Essa que é um pouco a garota de quem fala Itziar Ziga em Devenir
perras. É necessária uma crítica da pornografia e de determinados tipos de
prostituição, mas, ao mesmo tempo, temos que estabelecer discursos que defendam
as garotas realmente más, e essas são as garotas que transam muito ou como
querem”, diz em uma entrevista de Ana Requena. Mas nestes últimos anos, em
nossa luta contra as violências sexuais, parece que, sem querer, chegamos a
potencializar essa imagem de passividade mais adaptada à imagem de vítima, em
oposição à nossa própria libertação. Reivindicar o direito das mulheres de
decidir sobre suas práticas sexuais e de falar sobre elas sem vergonha –
incluídas aquelas consideradas vulgares ou degradantes – impugna essa
distribuição desigual de legitimidade entre homens e mulheres no que diz
respeito ao acesso à sexualidade em igualdade.
Esta
não é uma celebração ingênua do sexo como um âmbito livre de relações de poder:
em sua própria experiência com o estupro, relatada em Teoria King Kong,
Despentes reconhece como a violência sexual estrutura a relação entre mulheres
e desejo. Sua defesa da liberdade sexual vem sempre acompanhada de uma crítica
ao sistema que naturaliza essa violência. Não se trata, então, unicamente de
reivindicar o poder de fazer “o que quisermos”, mas de transformar os marcos
estruturais que tornam as mulheres vulneráveis à violência e à estigmatização.
E essa é uma luta paralela e necessária.
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A sacralização do sexo como armadilha política
De modo
que, em nossa própria prática feminista, surge este paradoxo: quanto mais
sacralizamos a sexualidade – quanto mais a tratamos como um terreno
excepcional, intocável, onde se joga o mais íntimo de uma pessoa –, mais
difícil se torna para uma mulher sobreviver à exposição pública indesejada ou a
outras violências. Se a circulação de uma imagem sexual é horrível e vai te
prejudicar irremediavelmente, então ela é também uma arma tremendamente eficaz.
Mas o dano não está na imagem em si, mas no olhar social que a degrada, de modo
que a mensagem também poderia ser: e daí se se difunde, você não fez nada de
errado. Em geral, não há nada inerentemente desonroso em nenhuma dessas
imagens. Também é verdade que a prática cotidiana é mais complicada. Por exemplo,
quando uma garota de quinze anos chega em casa e sabe que metade da escola viu
uma imagem sua – real ou fabricada, tanto faz – e que amanhã ela terá que
atravessar aquele corredor de novo. Nesse momento, dizer a ela que ela não fez
nada de errado é necessário, mas talvez não seja suficiente, porque ainda
operamos no presente e é certo que o ambiente que pune de forma injusta não se
desmonta magicamente. O sofrimento é real. A estrutura que o produz é a que
precisa ser desmontada.
Portanto,
além de transformar a cultura, há outras tarefas pendentes. O primeiro,
insistimos, é tentar evitar que essas violências continuem se reproduzindo e
que deixem de ter consequências negativas para as mulheres – por exemplo, em
alguns casos, podem demiti-la do trabalho ou ter outras consequências
indesejadas. Ao mesmo tempo, é preciso frear a circulação dessas imagens.
Recusar-se a enviá-las, a compartilhá-las e apontar quem as difunde. E isso não
é só coisa de garotos: as garotas também compartilham, as garotas também fazem
slut-shaming ou reproduzem a lógica que as prejudica. Que a vergonha mude de
lado significa que o estigma recaia sobre quem difunde uma imagem com a
intenção de humilhar ou de anular outra pessoa, não sobre quem aparece nela. Outra
tarefa necessária, é claro, é estar ao lado das que sofrem e fazê-las sentir
que contam com o nosso apoio. Deveríamos acompanhar sem minimizar sua dor, mas
também tentando não reproduzir os marcos moralizantes que a prejudicam.
O
objetivo é confrontar as estruturas que possibilitam – material e
simbolicamente – a apropriação do corpo das mulheres. Mas o trabalho é
cotidiano e ordinário. Quando uma adolescente descobre que está circulando uma
imagem sua fazendo um boquete e o que ela sente não é raiva, mas culpa, sabemos
que ainda há muito a ser feito. A primeira coisa será dizer a ela que ela não
está sozinha. A segunda, e sem hesitar, é que ela não fez nada de errado. Que,
se ela tinha vontade, está muito bem feito.
Fonte:
Por Nuria Alabao, no CTXT | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

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