sábado, 20 de junho de 2026

O dedo de Rita Lee contra o moralismo conservador

No ano de 2023, a coordenação pedagógica de um colégio de elite conservador no estado de São Paulo, cedeu uma lousa para manifestações estéticas de iniciativa dos estudantes. Duas alunas do ensino médio nela desenharam uma figura feminina de rosto magro, pescoço longo, com óculos escuros, inconfundivelmente alusiva a Rita Lee. Uma terceira colega imaginou que essa homenagem poderia se tornar mais representativamente simbólica se ao lado do rosto de nossa brilhante roqueira paulistana fosse acrescentada a imagem de um cogumelo. E assim o fez. O simples acréscimo do desenho de uma planta de prestígio psicodélico bastou para despertar a ira censora de uma autoridade da escola, que ordenou o imediato apagamento dessa singela homenagem a nossa irreverente artista. Poucos dias depois, o nobre estabelecimento de ensino estava forrado de pequenos panfletos de autoria desconhecida que estampavam a foto icônica de uma Rita Lee bela e sorridente, dirigindo o dedo do meio a todo tipo de caretice moralista.

O fato de que a manifestação das estudantes, que poderia perfeitamente ser acolhida como um ato de liberdade de expressão amplamente contemplado pela constituição brasileira, tenha sido censurada em nome dos chamados bons costumes, é representativo do moralismo vigente no atual momento histórico. Nos últimos anos, movimentos conservadores, especificamente ligados a igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais têm se tornado cada vez mais organizados, e buscam ordenar a esfera pública e privada de acordo com valores morais considerados absolutos. A atual onda conservadora se torna um fenômeno social e político muito preocupante porque sua defesa de valores tradicionais não está coadunada com os princípios do pluralismo democrático e do Estado de direito. Os grupos conservadores realizam uma pregação abertamente autoritária, reduzindo diferenças políticas a dicotomias morais, rejeitando os fundamentos da vida democrática, hostilizando os direitos humanos e legitimando formas diretas ou simbólicas de violência em nome da moral e da religião. Os líderes desses grupos atuam como autênticos disseminadores de pânico social, pois se declaram inimigos da universidade pública e do universo das artes, e tratam alguns temas específicos como diversidade sexual, feminismo e antirracismo, como se fossem núcleos propagadores de degeneração moral e decadência social.

Para uma compreensão crítica sobre as tendências contemporâneas de conservadorismo moral, é importante resgatar a pesquisa sobre a personalidade autoritária realizada por Theodor Adorno e demais integrantes do Instituto de Pesquisas Sociais (Escola de Frankfurt) nos Estados Unidos, durante a década de 1940. A questão essencial que motivou essa pesquisa foi a interrogação sobre os motivos que levam indivíduos de uma sociedade liberal a buscarem a anulação de si mesmos no interior de coletivos fascistas. Em outras palavras: “por que os seres humanos modernos retornam a padrões de comportamento que contradizem flagrantemente seu próprio nível racional e o presente estágio da civilização tecnológica esclarecida?”. A pesquisa acerca da articulação entre conservadorismo moral e fascismo conduziu à definição da personalidade autoritária como “pseudoconservadora”.

Embora a personalidade autoritária e fascista recorra com frequência a discursos moralistas e a bandeiras aparentemente conservadoras, é necessário distinguir entre “fascismo” e “conservadorismo” em sentido estrito. Um indivíduo conservador é aquele que se orienta pela preservação de determinadas estruturas econômicas, políticas, culturais ou morais, posicionando-se de maneira reativa diante de processos de ruptura ou inovação social. Por outro lado, o fascista não se define fundamentalmente pela intenção de conservar uma ordem social existente, mas por um impulso destrutivo dirigido contra tudo aquilo que possa ser identificado como diferente, desviante ou incompatível com sua concepção autoritária de normalidade. Sua dinâmica emocional não se limita à hostilidade contra indivíduos situados à margem dos padrões sociais hegemônicos, alcançando também as próprias instituições responsáveis pela sustentação da vida civilizada, inclusive aquelas que garantem mediações democráticas, direitos jurídicos e formas mínimas de convivência social.

O conceito de pseudoconservadorismo assume papel central para a compreensão do autoritarismo e do fascismo, pois permite compreender como é possível que sociedades modernas altamente racionais do ponto de vista técnico podem produzir formas profundas de irracionalidade social e política, integrando a modernização técnica com a regressão psicológica. Um dos aspectos mais sofisticados da análise de Adorno, e que revela sua profunda atualidade, está em mostrar que o pseudoconservadorismo combina aspectos de rebeldia e conformismo, manifestando-se paradoxalmente como um tipo de rebeldia conformista. Dedicam-se à perseguição política de opositores, veiculam teorias conspiratórias e defendem a submissão a líderes autoritários, disciplina coletiva e uniformidade moral. Mas seus aspectos de rebeldia disseminam uma oratória anti-sistema, e em defesa da liberdade de expressão, ao mesmo tempo em que corroem internamente os fundamentos da democracia e apoiam formas autoritárias de poder.

Na medida em que o conservadorismo de índole fascista mascara impulsos destrutivos que nada tem a ver com qualquer tipo de conservação das instituições democráticas, torna-se relevante interrogar sobre a origem desse tipo de agressividade. Em uma perspectiva freudiana, a vida civilizada exige a repressão de impulsos eróticos (Eros, ou pulsões de vida) e agressivos (Thanatos, ou pulsões de morte) que intensificam o antagonismo entre desejo e civilização, provocando conflitos psíquicos e sofrimento neurótico. Essa é a origem do mal-estar na civilização, que torna todo indivíduo civilizado um inimigo potencial da própria vida em sociedade. Para que o indivíduo singular se reconcilie com a vida em civilização, é fundamental que sua educação se desenvolva como um processo formativo da subjetividade, que torne possível o aprendizado contínuo da sublimação das pulsões eróticas e destrutivas, isto é, que elas sejam desviadas de suas finalidades primárias e imediatas e se tornem compatíveis com a vida social. Quando esse processo de aprimoramento espiritual é impedido, ou se realiza de forma precária e incompleta, o indivíduo acumula ressentimentos que fazem dele uma espécie de inimigo secreto da própria civilização. Segundo a análise de Adorno, essa é a origem da hostilidade fascista contra minorias sociais, intelectuais, artistas e grupos marginalizados, pois os impulsos internos reprimidos são projetados em todos aqueles que representam a diferença. Dessa forma, a pessoa se torna altamente vulnerável a pregações de ódio contra o Outro: “sua vida toda é um esforço contínuo para suprimir e degradar a natureza, interna ou externamente, e para identificar-se com seus substitutos mais poderosos – a raça, a pátria, o líder, a camarilha e a tradição”.

Com base na análise desenvolvida por Adorno, torna-se possível compreender por que indivíduos comuns inseridos em sociedades democráticas podem ser receptivos a discursos retóricos marcados pelo preconceito e pela agressividade contra populações negras, homossexuais, prostitutas, imigrantes, indígenas e outros grupos socialmente marginalizados. Para interpretar esse fenômeno é fundamental considerar a teoria freudiana, especialmente os conceitos de estranho (unheimlich) e de narcisismo das pequenas diferenças. A utilização dessas categorias permite esclarecer o caráter profundamente projetivo que estrutura a discriminação fascista. Isso significa que o ódio direcionado pelo fascista ao Outro, isto é, àquele que se encontra excluído dos parâmetros de normalidade estabelecidos pela sociedade burguesa, não decorre propriamente de características reais da vítima, mas expressa a projeção de desejos reprimidos, conflitos internos e frustrações pessoais que o próprio sujeito preconceituoso procura expulsar de si enquanto sinais de estranheza, fragilidade, impotência ou impureza. A dinâmica fundamental do fascismo mobiliza justamente tudo aquilo que aparece simultaneamente como estranho e familiar ao sujeito, algo que ele sequer reconhece em si mesmo, mas que passa a ser percebido como intolerável por entrar em conflito com os padrões morais hegemônicos da sociedade burguesa.

Sob a perspectiva da psicanálise, o moralismo conservador se origina de conflitos inconscientes entre desejos reprimidos e mecanismos de defesa do eu, que levam o sujeito a expulsar da própria consciência aqueles conteúdos internos que são fonte de angústia, dada a incompatibilidade com sua própria moralidade severa. A hostilidade agressiva dirigida contra o Outro reflete a incapacidade da própria pessoa em se relacionar com o estranho que a habita. Dada a intensidade do conflito entre os desejos reprimidos e a moralidade do próprio sujeito, o comportamento conservador peculiar ao fascista se manifesta como neurose obsessiva, pois é uma forma específica de transtorno emocional que é compulsiva e acompanhada da necessidade exagerada de controle moral sobre si mesmo e sobre o Outro. Mas na medida em que o pertencimento a coletivos fascistas transforma a impotência subjetiva do sujeito em uma fantasia narcísica de onipotência, ele se mantém em uma condição de impostura perante si próprio. O apego obsessivo e frequentemente furioso a palavras de ordem disseminadoras dos mais diversos tipos de preconceito contra os diferentes, é sintoma de profundas desavenças internas que traem o desacordo secreto do moralista com as normas supostamente absolutas. Sua necessidade de justificar o preconceito através de interpretações bíblicas historicamente anacrônicas não é movida por uma fé religiosa autêntica, mas pelo autoengano emocional e cognitivo.

Notadamente no interior de irmandades religiosas que se autodenominam conservadoras, o sujeito desfruta de intensa gratificação emocional de origem narcísica, pois pode se imaginar pertencendo a uma comunidade de pessoas mais puras e superiores, e é justamente esse prazer substitutivo que explica o ressentimento que se volta contra a autocrítica: “qualquer tipo de crítica ou autoconsciência é ressentida como uma perda narcísica e incita fúria”. Porém, o esforço realizado por eles para manterem o autoengano permanece em contradição flagrante frente aos potenciais de esclarecimento imanentes a uma sociedade liberal culturalmente e tecnologicamente evoluída. Embora orgulhosos da própria ignorância, fascistas pseudoconservadores não podem simplesmente revogar o progresso histórico realizado pela humanidade para tomar consciência de si mesma e criticar os essencialismos bíblicos em nome dos quais a diferença é relegada à condição de anormalidade, desvio e deficiência. A esse respeito, o pensamento de Michel Foucault permanece atual e se mostra altamente relevante para dar visibilidade às experiências historicamente marginalizadas e para desconstruir as oposições binárias entre normal e patológico que historicamente legitimaram diversas manifestações nefastas de branquitude, colonialismo e heteronormatividade.

Mesmo que os moralistas atualmente de plantão na sociedade brasileira esbravejem em nome de Cristo, sua pregação e ativismo políticos são impulsionados por uma dinâmica destrutiva que não se origina das vítimas, mas sim da tentativa desesperada do próprio sujeito de expulsar de si sentimentos de fragilidade, impotência e impureza que lhe parecem ao mesmo tempo íntimos e ameaçadores. O moralismo fanático mascara uma neurose obsessiva que conduz o sujeito a investir grande quantidade de energia emocional em uma condição de impostura diante de si próprio, sustentada por mecanismos de autoengano afetivo e cognitivo. Desde que esse sujeito esteja emocionalmente disponível para enfrentar suas próprias sombras, é possível sugerir que meia hora de uma sessão de análise bem realizada poderá valer mais para o autoconhecimento do que centenas de cultos dominicais. Por esse motivo, é urgente inverter o senso comum e compreender que a atual pregação moralista é obscena e emocionalmente desonesta, na medida em que mascara o estranho que habita o interior de todo moralista. Por outro lado, o dedo do meio de Rita Lee, alçado à dignidade de protesto estudantil, se mostra imponente e libertário, lembrando a todos nós sobre a importância de alcançar a mais completa tradução de nossa grande artista.

 

Fonte: Por Sinésio Ferraz Bueno, em Outras Palavras

 

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