O
dedo de Rita Lee contra o moralismo conservador
No ano
de 2023, a coordenação pedagógica de um colégio de elite conservador no estado
de São Paulo, cedeu uma lousa para manifestações estéticas de iniciativa dos
estudantes. Duas alunas do ensino médio nela desenharam uma figura feminina de
rosto magro, pescoço longo, com óculos escuros, inconfundivelmente alusiva a
Rita Lee. Uma terceira colega imaginou que essa homenagem poderia se tornar
mais representativamente simbólica se ao lado do rosto de nossa brilhante
roqueira paulistana fosse acrescentada a imagem de um cogumelo. E assim o fez.
O simples acréscimo do desenho de uma planta de prestígio psicodélico bastou
para despertar a ira censora de uma autoridade da escola, que ordenou o
imediato apagamento dessa singela homenagem a nossa irreverente artista. Poucos
dias depois, o nobre estabelecimento de ensino estava forrado de pequenos
panfletos de autoria desconhecida que estampavam a foto icônica de uma Rita Lee
bela e sorridente, dirigindo o dedo do meio a todo tipo de caretice moralista.
O fato
de que a manifestação das estudantes, que poderia perfeitamente ser acolhida
como um ato de liberdade de expressão amplamente contemplado pela constituição
brasileira, tenha sido censurada em nome dos chamados bons costumes, é
representativo do moralismo vigente no atual momento histórico. Nos últimos
anos, movimentos conservadores, especificamente ligados a igrejas evangélicas
pentecostais e neopentecostais têm se tornado cada vez mais organizados, e
buscam ordenar a esfera pública e privada de acordo com valores morais
considerados absolutos. A atual onda conservadora se torna um fenômeno social e
político muito preocupante porque sua defesa de valores tradicionais não está
coadunada com os princípios do pluralismo democrático e do Estado de direito.
Os grupos conservadores realizam uma pregação abertamente autoritária,
reduzindo diferenças políticas a dicotomias morais, rejeitando os fundamentos
da vida democrática, hostilizando os direitos humanos e legitimando formas
diretas ou simbólicas de violência em nome da moral e da religião. Os líderes
desses grupos atuam como autênticos disseminadores de pânico social, pois se
declaram inimigos da universidade pública e do universo das artes, e tratam
alguns temas específicos como diversidade sexual, feminismo e antirracismo,
como se fossem núcleos propagadores de degeneração moral e decadência social.
Para
uma compreensão crítica sobre as tendências contemporâneas de conservadorismo
moral, é importante resgatar a pesquisa sobre a personalidade autoritária
realizada por Theodor Adorno e demais integrantes do Instituto de Pesquisas
Sociais (Escola de Frankfurt) nos Estados Unidos, durante a década de 1940. A
questão essencial que motivou essa pesquisa foi a interrogação sobre os motivos
que levam indivíduos de uma sociedade liberal a buscarem a anulação de si
mesmos no interior de coletivos fascistas. Em outras palavras: “por que os
seres humanos modernos retornam a padrões de comportamento que contradizem
flagrantemente seu próprio nível racional e o presente estágio da civilização
tecnológica esclarecida?”. A pesquisa acerca da articulação entre conservadorismo
moral e fascismo conduziu à definição da personalidade autoritária como
“pseudoconservadora”.
Embora
a personalidade autoritária e fascista recorra com frequência a discursos
moralistas e a bandeiras aparentemente conservadoras, é necessário distinguir
entre “fascismo” e “conservadorismo” em sentido estrito. Um indivíduo
conservador é aquele que se orienta pela preservação de determinadas estruturas
econômicas, políticas, culturais ou morais, posicionando-se de maneira reativa
diante de processos de ruptura ou inovação social. Por outro lado, o fascista
não se define fundamentalmente pela intenção de conservar uma ordem social
existente, mas por um impulso destrutivo dirigido contra tudo aquilo que possa
ser identificado como diferente, desviante ou incompatível com sua concepção
autoritária de normalidade. Sua dinâmica emocional não se limita à hostilidade
contra indivíduos situados à margem dos padrões sociais hegemônicos, alcançando
também as próprias instituições responsáveis pela sustentação da vida
civilizada, inclusive aquelas que garantem mediações democráticas, direitos
jurídicos e formas mínimas de convivência social.
O
conceito de pseudoconservadorismo assume papel central para a compreensão do
autoritarismo e do fascismo, pois permite compreender como é possível que
sociedades modernas altamente racionais do ponto de vista técnico podem
produzir formas profundas de irracionalidade social e política, integrando a
modernização técnica com a regressão psicológica. Um dos aspectos mais
sofisticados da análise de Adorno, e que revela sua profunda atualidade, está
em mostrar que o pseudoconservadorismo combina aspectos de rebeldia e
conformismo, manifestando-se paradoxalmente como um tipo de rebeldia
conformista. Dedicam-se à perseguição política de opositores, veiculam teorias
conspiratórias e defendem a submissão a líderes autoritários, disciplina
coletiva e uniformidade moral. Mas seus aspectos de rebeldia disseminam uma
oratória anti-sistema, e em defesa da liberdade de expressão, ao mesmo tempo em
que corroem internamente os fundamentos da democracia e apoiam formas
autoritárias de poder.
Na
medida em que o conservadorismo de índole fascista mascara impulsos destrutivos
que nada tem a ver com qualquer tipo de conservação das instituições
democráticas, torna-se relevante interrogar sobre a origem desse tipo de
agressividade. Em uma perspectiva freudiana, a vida civilizada exige a
repressão de impulsos eróticos (Eros, ou pulsões de vida) e agressivos
(Thanatos, ou pulsões de morte) que intensificam o antagonismo entre desejo e
civilização, provocando conflitos psíquicos e sofrimento neurótico. Essa é a
origem do mal-estar na civilização, que torna todo indivíduo civilizado um
inimigo potencial da própria vida em sociedade. Para que o indivíduo singular
se reconcilie com a vida em civilização, é fundamental que sua educação se
desenvolva como um processo formativo da subjetividade, que torne possível o
aprendizado contínuo da sublimação das pulsões eróticas e destrutivas, isto é,
que elas sejam desviadas de suas finalidades primárias e imediatas e se tornem
compatíveis com a vida social. Quando esse processo de aprimoramento espiritual
é impedido, ou se realiza de forma precária e incompleta, o indivíduo acumula
ressentimentos que fazem dele uma espécie de inimigo secreto da própria
civilização. Segundo a análise de Adorno, essa é a origem da hostilidade
fascista contra minorias sociais, intelectuais, artistas e grupos
marginalizados, pois os impulsos internos reprimidos são projetados em todos
aqueles que representam a diferença. Dessa forma, a pessoa se torna altamente
vulnerável a pregações de ódio contra o Outro: “sua vida toda é um esforço
contínuo para suprimir e degradar a natureza, interna ou externamente, e para
identificar-se com seus substitutos mais poderosos – a raça, a pátria, o líder,
a camarilha e a tradição”.
Com
base na análise desenvolvida por Adorno, torna-se possível compreender por que
indivíduos comuns inseridos em sociedades democráticas podem ser receptivos a
discursos retóricos marcados pelo preconceito e pela agressividade contra
populações negras, homossexuais, prostitutas, imigrantes, indígenas e outros
grupos socialmente marginalizados. Para interpretar esse fenômeno é fundamental
considerar a teoria freudiana, especialmente os conceitos de estranho
(unheimlich) e de narcisismo das pequenas diferenças. A utilização dessas
categorias permite esclarecer o caráter profundamente projetivo que estrutura a
discriminação fascista. Isso significa que o ódio direcionado pelo fascista ao
Outro, isto é, àquele que se encontra excluído dos parâmetros de normalidade
estabelecidos pela sociedade burguesa, não decorre propriamente de
características reais da vítima, mas expressa a projeção de desejos reprimidos,
conflitos internos e frustrações pessoais que o próprio sujeito preconceituoso
procura expulsar de si enquanto sinais de estranheza, fragilidade, impotência
ou impureza. A dinâmica fundamental do fascismo mobiliza justamente tudo aquilo
que aparece simultaneamente como estranho e familiar ao sujeito, algo que ele
sequer reconhece em si mesmo, mas que passa a ser percebido como intolerável
por entrar em conflito com os padrões morais hegemônicos da sociedade burguesa.
Sob a
perspectiva da psicanálise, o moralismo conservador se origina de conflitos
inconscientes entre desejos reprimidos e mecanismos de defesa do eu, que levam
o sujeito a expulsar da própria consciência aqueles conteúdos internos que são
fonte de angústia, dada a incompatibilidade com sua própria moralidade severa.
A hostilidade agressiva dirigida contra o Outro reflete a incapacidade da
própria pessoa em se relacionar com o estranho que a habita. Dada a intensidade
do conflito entre os desejos reprimidos e a moralidade do próprio sujeito, o
comportamento conservador peculiar ao fascista se manifesta como neurose
obsessiva, pois é uma forma específica de transtorno emocional que é compulsiva
e acompanhada da necessidade exagerada de controle moral sobre si mesmo e sobre
o Outro. Mas na medida em que o pertencimento a coletivos fascistas transforma
a impotência subjetiva do sujeito em uma fantasia narcísica de onipotência, ele
se mantém em uma condição de impostura perante si próprio. O apego obsessivo e
frequentemente furioso a palavras de ordem disseminadoras dos mais diversos
tipos de preconceito contra os diferentes, é sintoma de profundas desavenças
internas que traem o desacordo secreto do moralista com as normas supostamente
absolutas. Sua necessidade de justificar o preconceito através de
interpretações bíblicas historicamente anacrônicas não é movida por uma fé
religiosa autêntica, mas pelo autoengano emocional e cognitivo.
Notadamente
no interior de irmandades religiosas que se autodenominam conservadoras, o
sujeito desfruta de intensa gratificação emocional de origem narcísica, pois
pode se imaginar pertencendo a uma comunidade de pessoas mais puras e
superiores, e é justamente esse prazer substitutivo que explica o ressentimento
que se volta contra a autocrítica: “qualquer tipo de crítica ou autoconsciência
é ressentida como uma perda narcísica e incita fúria”. Porém, o esforço
realizado por eles para manterem o autoengano permanece em contradição
flagrante frente aos potenciais de esclarecimento imanentes a uma sociedade
liberal culturalmente e tecnologicamente evoluída. Embora orgulhosos da própria
ignorância, fascistas pseudoconservadores não podem simplesmente revogar o
progresso histórico realizado pela humanidade para tomar consciência de si
mesma e criticar os essencialismos bíblicos em nome dos quais a diferença é
relegada à condição de anormalidade, desvio e deficiência. A esse respeito, o
pensamento de Michel Foucault permanece atual e se mostra altamente relevante
para dar visibilidade às experiências historicamente marginalizadas e para
desconstruir as oposições binárias entre normal e patológico que historicamente
legitimaram diversas manifestações nefastas de branquitude, colonialismo e
heteronormatividade.
Mesmo
que os moralistas atualmente de plantão na sociedade brasileira esbravejem em
nome de Cristo, sua pregação e ativismo políticos são impulsionados por uma
dinâmica destrutiva que não se origina das vítimas, mas sim da tentativa
desesperada do próprio sujeito de expulsar de si sentimentos de fragilidade,
impotência e impureza que lhe parecem ao mesmo tempo íntimos e ameaçadores. O
moralismo fanático mascara uma neurose obsessiva que conduz o sujeito a
investir grande quantidade de energia emocional em uma condição de impostura
diante de si próprio, sustentada por mecanismos de autoengano afetivo e
cognitivo. Desde que esse sujeito esteja emocionalmente disponível para
enfrentar suas próprias sombras, é possível sugerir que meia hora de uma sessão
de análise bem realizada poderá valer mais para o autoconhecimento do que
centenas de cultos dominicais. Por esse motivo, é urgente inverter o senso
comum e compreender que a atual pregação moralista é obscena e emocionalmente
desonesta, na medida em que mascara o estranho que habita o interior de todo
moralista. Por outro lado, o dedo do meio de Rita Lee, alçado à dignidade de
protesto estudantil, se mostra imponente e libertário, lembrando a todos nós
sobre a importância de alcançar a mais completa tradução de nossa grande
artista.
Fonte:
Por Sinésio Ferraz Bueno, em Outras Palavras

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