sábado, 20 de junho de 2026

Para que serviu a guerra? A pergunta inevitável levantada pelo acordo entre EUA e Irã

O memorando de entendimento assinado pelos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Irã, Masoud Pezeshkian, deixou evidentes as consequências políticas, militares e econômicas da decisão mal calculada de atacar o Irã em 28 de fevereiro.

O custo humano já é claro. Milhares de pessoas morreram, muitas delas civis, no Irã e no Líbano.

Os EUA, e por extensão Israel, sofreram uma derrota estratégica. O regime em Teerã enfrentou seu pior pesadelo: uma operação militar conjunta para incapacitá-lo ou destruí-lo conduzida pelos EUA, a potência mais forte do mundo, e por Israel, a superpotência do Oriente Médio. O regime não apenas sobreviveu. Ele saiu fortalecido.

Sua estratégia de bloquear o estreito de Ormuz — e com isso um quinto do fornecimento mundial de petróleo e gás, além de outros componentes vitais da economia global — forçou Trump a concordar com uma série de concessões que enfureceram e alarmaram os críticos mais duros do Irã nos EUA e o governo israelense.

O memorando de entendimento — ou MOU, na sigla em inglês — prevê o fim da guerra no Líbano, mas Israel diz que isso não pode acontecer. Os israelenses querem ter liberdade de ação no Líbano, e essa questão pode provocar uma ruptura ainda maior entre Israel e os EUA, além de favorecer os setores mais radicais do Irã que se opõem a qualquer acordo com os americanos.

Em troca da reabertura do estreito, o texto do MOU afirma que os EUA irão suspender seu bloqueio aos portos iranianos, flexibilizar sanções permitindo ao Irã ganhar bilhões de dólares com exportações de petróleo e iniciar o processo de devolução de bilhões em dinheiro ao Irã, por meio do descongelamento de ativos mantidos no exterior.

Isso tudo antes mesmo de EUA e Irã entrarem no difícil processo de negociar um acordo nuclear. É o preço pago pelos EUA para se voltar à situação de 27 de fevereiro, o dia anterior ao lançamento da guerra pelos americanos e israelenses. Naquele dia, o estreito de Ormuz estava aberto à navegação e negociadores americanos e iranianos discutiam um acordo nuclear.

A assinatura do MOU significa que as negociações serão retomadas e os navios poderão transitar pelo estreito de Ormuz.

<><> Erro de política externa

O secretário de Estado de Joe Biden, Antony Blinken, publicou no X: "o único 'resultado' do cessar-fogo é a provável reabertura do estreito de Ormuz — que já estava aberto antes do início da guerra. E aparentemente pagaremos ao Irã por isso."

A questão de para que exatamente serviu a guerra é inevitável e não desaparecerá. Trata-se do maior erro de política externa de Trump até agora.

Pode também significar o fim da longa carreira política do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Ele enfrenta eleições em outubro e um acerto de contas com os eleitores israelenses por seu papel nas falhas de segurança — as piores da história de Israel — que permitiram que o sistema militar e de inteligência do país não detectasse o plano do Hamas de invadir Israel a partir de Gaza em 7 de outubro de 2023.

As políticas militares de linha dura de Netanyahu e seu desprezo pela diplomacia foram concebidos, pelo menos em parte, para restaurar sua reputação como o "Senhor Segurança" de Israel.

Teerã sempre esteve ciente do potencial de poder de fechar o estreito de Ormuz. O mesmo ocorria com os militares dos EUA, seus diplomatas e seus serviços de inteligência.

Mas o antigo líder supremo do Irã, Ali Khamenei, um homem idoso e cauteloso, optava por não correr o risco de usar o estreito como arma.

Depois que Israel o matou, junto com seus conselheiros mais próximos, nas primeiras operações de bombardeio da guerra, seus sucessores acreditaram, corretamente, que estavam em uma luta existencial e não hesitaram em fechar o estreito.

Eles descobriram o poder de controlar um ponto de estrangulamento da economia global. É uma arma muito mais utilizável, e muito mais barata, do que a rede de aliados e intermediários em que investiram décadas e bilhões para construir no Oriente Médio.

Com exceção do regime de Bashar al-Assad na Síria, que caiu no final de 2024, o chamado "eixo de resistência do Irã" ainda sobrevive, embora por pouco. Mas foi tão enfraquecido por Israel que já nem faz sentido discutir se ainda tem capacidade de "resistência".

O Irã também investiu recursos em um programa nuclear que continua negando ter como objetivo a construção de uma arma, mas que sem dúvida deu a Teerã uma opção e uma ameaça. No entanto, isso provocou uma guerra que, apesar da sobrevivência do regime, causou enormes danos ao Irã.

Fechar o estreito, em contraste, foi fácil e teve um impacto rápido e devastador, espalhando os efeitos para os Estados árabes produtores de petróleo e grande parte do restante do mundo.

O poder das forças aéreas dos EUA e de Israel garantiu uma série de vitórias táticas. Mas elas não foram suficientes para evitar uma derrota estratégica. Isso porque a estratégia EUA-Israel de mudança de regime se baseava em uma série de pressupostos simplistas e equivocados.

O Irã não era como a Venezuela, uma ditadura latino-americana corrupta, que entrou em colapso quando seu líder foi sequestrado e levado a julgamento nos EUA.

O regime iraniano é, sem dúvida, corrupto e altamente repressivo — seus agentes mataram milhares de manifestantes nas ruas do Irã em janeiro — mas também se baseia em uma ideologia, em convicções religiosas e em uma concepção de segurança nacional, martírio e sobrevivência que surgiu da devastadora guerra contra o Iraque de Saddam Hussein na década de 1980.

Quando os EUA deram início à guerra, Trump disse que o regime em Teerã cairia. Ele disse ao povo iraniano que se preparasse para uma oportunidade única em uma geração de recuperar seu país. Pouco depois, exigiu a rendição incondicional do regime.

Netanyahu, que tentou repetidamente, sem sucesso, convencer os antecessores de Trump na Casa Branca a entrar em guerra contra o Irã, usou linguagem bíblica para resumir a magnitude do que acreditava estar prestes a acontecer: "Essa coalizão de forças nos permite fazer o que tenho desejado fazer há 40 anos: destruir completamente o regime de terror."

Nenhum dos dois conseguiu cumprir seus objetivos.

O memorando de entendimento não é um acordo final. É um compromisso de negociar a maior questão entre as partes — o programa nuclear do Irã. Mas já inclui incentivos importantes para o Irã. Se as negociações avançarem, os EUA afirmaram que irão levantar as sanções.

Tudo depende do sucesso de 60 dias de negociações sobre um acordo nuclear — prazo que pode ser estendido e provavelmente será, já que as questões são complexas. Nenhum dos lados confia no outro. Muito pode dar errado. Setores mais radicais em Washington, Teerã e Israel não querem que o acordo funcione.

Se adotar posturas maximalistas nas negociações, o Irã corre o risco de exagerar sua posição e comprometer ganhos econômicos que poderiam aliviar sua economia fragilizada.

Mas este acordo é muito melhor do que uma guerra que matou milhares e ameaçou uma recessão econômica global.

Se um acordo nuclear for alcançado, satisfazendo os EUA e o Irã, e se ambos cumprirem suas promessas, o Oriente Médio poderá ser transformado. Esse é um grande "se", ao final de uma negociação que será longa e difícil.

¨      Acordo é vitória do Irã e fim das sanções pode gerar boom econômico ao país, afirma especialista

O acordo entre Estados Unidos e Irã pode ser o estopim de um boom econômico da República Islâmica, devido a dois dos pontos principais da negociação: o fim das sanções econômicas à República Islâmica e a devolução de seus ativos congelados em instituições do Ocidente. Quem levanta essa hipótese é o cientista político e professor de Relações Internacionais Bruno Lima Rocha.

Segundo Lima Rocha, “sem as sanções, o país consegue ter um comércio direto, sem ter que triangular com diversos países que quiserem comprar, por exemplo, fertilizantes iranianos”.

“Com esse boom das commodities agrícolas e a necessidade de fertilidade de terras muito produtivas, o polo petroquímico iraniano é uma potência que pode atingir o planeta inteiro”, acrescentou o acadêmico e jornalista do canal HispanTV Brasil.

Lima Rocha afirma que o acordo, “em geral, é muito favorável aos termos do Irã”. No entanto, acredita que seu pleno cumprimento é bastante difícil, tanto pelo interesse de Israel em manter seus ataques ao Líbano – uma das condições iranianas para o acordo é o respeito ao território libanês –, como pelo fato de que Tel Aviv tampouco aceitaria um cenário favorável economicamente à República Islâmica.

“A economia iraniana estando bem é uma garantia de que o sionismo nunca vai ter sossego. Essa é uma máxima que sabem Tel Aviv, Washington e até as oliveiras milenares e os cedros do Líbano que ainda resistem à ocupação sionista”, afirma o cientista político.

>>>> Leia a entrevista:

·        Como você avalia o acordo de 14 pontos entre Irã e Estados Unidos? Quem ganhou e quem perdeu?

Bruno Lima Rocha: Em geral, o acordo é muito favorável aos termos do Irã. A leitura de que o país perderia com as restrições à produção de armas nucleares é equivocada, porque nunca houve uma tentativa iraniana de produção de tais armamentos. Há inclusive uma fátua sobre isso, ou seja, uma jurisprudência com termos vinculantes.

O Irã não vai abrir mão da sua capacidade de produzir mísseis, que garantem a defesa do país, não perde nenhuma riqueza estratégica, nenhum ativo, nenhuma cadeia de valor.

A questão do Estreito (de Ormuz) vai ser disputada também no direito internacional. Além disso, o país terá uma compensação pelos crimes de guerra cometidos por Estados Unidos e Israel, que incluem a destruição de pontes, usinas de dessalinização, represas hidrelétricas, etc.

Finalmente, há um compromisso de Washington de liberação dos ativos iranianos. Podemos dizer que o Irã conseguiu colocar no acordo todos os seus interesses mais importantes, incluindo a questão do Líbano, ainda que esse ponto está na dependência de que o governo de Netanyahu (em Israel) cumpra com o que está escrito, o que acho difícil.

·        As concessões feitas pela Casa Branca neste acordo podem ser vistas internamente no país como sinal de fraqueza do governo Trump? Isso pode ter consequências eleitorais?

Creio que sim. Trump entrou numa aventura, estimulado por seu genro, Jared Kushner, que é muito próximo do gabinete de Netanyahu. A decisão teria sido tomada no final de janeiro deste ano, e ele achava que teria um pré-acordo assinado em março, o que não aconteceu.

O governo dos Estados Unidos é muito mal avaliado e a guerra tem avaliação ainda pior avaliada que a do governo. Segundo a opinião pública norte-americana, é uma guerra insensata, feita por interesses israelenses diretos, e demonstra uma fraqueza do governo Trump. Nem seu secretário de Estado, Marco Rubio, dá tanta ênfase ao conflito.

Rubio é como um pró-cônsul romano, quer um grande protetorado na América Latina, e não alguém que entende o grande jogo que está sendo jogado na Eurásia. Não entende que para conter o avanço da integração econômica eurasiática e da aliança sino-russa, o Irã é um fator-chave. Nesse sentido, os Estados Unidos perderam tudo. Se derrotassem o Irã, estariam muito próximos de atingir uma conexão chave entre Rússia e China, e também a economia iraniana, a economia do petróleo, mas nada disso aconteceu.

·        O fim das sanções e o fundo de reconstrução são as principais vitórias do Irã com este acordo? Como você analisa estes aspectos específicos?

O fundo de reconstrução é um reconhecimento de que foi uma guerra de agressão contra o Irã, e o cometimento de crimes de guerra, porque atingiram a infraestrutura civil, tentando criar uma situação de não-governo, ou do governo chegar aos limites da sua capacidade de tomar decisões, e de adesão popular.

Sobre o fim das sanções, é curioso que se o acordo com o governo Obama, em 2015, tivesse ido adiante, talvez a economia iraniana não estivesse tão forte hoje, devido a que sua fortaleza, sem a integração eurasiática, é ter 50% do comércio por terra, graças a um sistema de trocas muito efetivo a partir quase de um mercado de bolsa comum de commodities no mar Cáspio, com uma complementariedade econômica desdolarizada com Rússia e China.

Se as sanções tivessem sido levantadas em 2015, como quis Obama, como predicava o professor (Zbigniew) Brzezinski, um dos grandes falcões civis do Partido Democrata, nada disso estaria acontecendo.

Para o Irã, o retorno dos ativos é muito importante. Sem as sanções, o país consegue ter um comércio direto, sem ter que triangular com diversos países que quiserem comprar, por exemplo, fertilizantes iranianos. O Brasil é um mercado potencial enorme para isso.

Com esse boom das commodities agrícolas e a necessidade de fertilidade de terras muito produtivas, o polo petroquímico iraniano é uma potência que pode atingir o planeta inteiro. Nesse sentido, o fim das sanções é muito positivo. A internacionalização dos produtos exportáveis do Irã é outro ativo importante, porque o país pode constituir joint ventures sem passar por danos ou punições aos países que receberam essas propostas e esse ingresso de capital.

Pode fazê-lo? Com moeda chinesa, pode. Mas aí, alguns governos periclitantes podem ficar preocupados em desagradar Washington. Se as sanções acabarem, e culminar na reconexão do Irã ao Swift, se criaria o cenário idela para o país.

¨      Motjaba Khamenei diz que aceitou acordo com EUA pelos ‘esforços’ do presidente iraniano

O líder supremo do Irã, aiatolá Mojtaba Khamenei, afirmou nesta quinta-feira (18/06) ter autorizado o memorando de entendimento com os Estados Unidos em razão do compromisso assumido pelo presidente Masoud Pezeshkian de proteger os direitos da resistência e da nação persa.

“Eu, em princípio, tinha uma visão diferente. No entanto, em virtude do compromisso que o estimado presidente assumiu comigo, em seu nome e em nome dos demais membros, quanto à proteção dos direitos da nação iraniana e da Frente de Resistência, e de sua aceitação explícita dessa responsabilidade, dei minha autorização”, declarou Khamenei em uma mensagem escrita divulgada pela mídia local.

De acordo com o líder supremo, durante as negociações que culminaram na assinatura do acordo, as autoridades iranianas realizaram esforços consideráveis. Já o presidente norte-americano, Donald Trump, teria recorrido a “todo tipo de influência” para alcançar o tratado, “movido pelo desespero”, de acordo com o texto.

“Ele [Pezeshkian] também afirmou que, se o lado norte-americano quiser fazer exigências excessivas, eles não concordarão com elas”, destacou Khamenei. “A partir de agora, aguardaremos o cumprimento das condições supracitadas. No entanto, é evidente que futuras negociações presenciais não significarão a aceitação da posição do inimigo”.

O acordo de 14 pontos foi assinado remotamente nas primeiras horas desta quinta-feira pelos presidentes iraniano e norte-americano. Durante os últimos meses, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, trabalhou na mediação entre o Irã e os Estados Unidos em prol do alcance de um acordo de paz.

 

Fonte: BBC News/Opera Mundi

 

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