sábado, 20 de junho de 2026

Trump fez guerra, perdeu controle sobre o Irã e voltou à diplomacia de Lula em 2010

Mais de uma década e meia antes de Donald Trump recorrer à guerra contra o Irã para forçar uma negociação, Luiz Inácio Lula da Silva tentou resolver a mesma crise pela diplomacia.

Trump bombardeou o Irã, ampliou a instabilidade regional, gastou bilhões dos secos cofres estadunidenses, colocou o mundo diante de uma grave crise energética e, ao fim, voltou à mesa com o que Lula já havia defendido quinze anos antes.

Em 2010, o Brasil apostou que a crise nuclear iraniana poderia ser contida por negociação, reconhecimento político e supervisão internacional. Washington recusou esse caminho. Preferiu sanções, sabotagem diplomática e, depois, força militar.

O memorando assinado nesta quinta-feira (18) entre Estados Unidos e Irã escancara essa ironia histórica: depois de destruir o acordo que limitava o programa nuclear iraniano, Trump retorna à negociação em condições piores, obrigado a reconhecer Teerã como interlocutor legítimo, aceitar uma janela de 60 dias e tratar de alívio de sanções, desbloqueio de ativos e supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

<><> 2010: Lula aposta na diplomacia e Washington bloqueia

Em 2009, a proposta apresentada pela AIEA, com apoio dos Estados Unidos, previa que o Irã enviasse urânio pouco enriquecido para fora do país e recebesse, em troca, combustível nuclear para o Reator de Pesquisa de Teerã, usado para fins médicos. A ideia era criar uma medida de confiança sob supervisão internacional.

Em maio de 2010, Lula, Recep Tayyip Erdoğan e Mahmoud Ahmadinejad anunciaram a Declaração de Teerã. O Irã aceitava depositar 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido na Turquia, mantendo a propriedade do material, com possibilidade de monitoramento pela AIEA.

A leitura brasileira foi de que Brasília havia conseguido, pela diplomacia, aquilo que as grandes potências diziam buscar. Afinal, meses antes, o presidente Barack Obama havia enviado uma carta a Lula sinalizando que a transferência de cerca de 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido para fora do Irã poderia representar um passo importante para construir confiança.

Mas os EUA rejeitaram a iniciativa.

A justificativa oficial era que o programa nuclear iraniano havia avançado desde 2009, que o estoque de urânio do Irã já era maior e que a Declaração de Teerã não resolvia a continuidade do enriquecimento no país. Poucas semanas depois, Washington impulsionou uma nova rodada de sanções no Conselho de Segurança da ONU.

A controvérsia nasce justamente aí. Para a diplomacia brasileira, a rejeição não foi apenas técnica. O acordo colocava Brasil e Turquia, duas potências médias do Sul Global, como mediadoras bem-sucedidas de uma das crises mais sensíveis da ordem internacional. Era um espaço que Washington e seus aliados não estavam dispostos a ceder.

A rejeição posterior alimentou a percepção de que o problema não estava apenas no conteúdo do acordo, mas na resistência dos Estados Unidos a uma solução conduzida fora de sua tutela.

<><> 2015: o acordo que Washington aceitava

Cinco anos depois, surgiu o Plano de Ação Conjunto Global, o JCPOA, assinado por Irã, Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Alemanha e União Europeia.

Diferentemente da proposta defendida por Lula, o novo acordo impunha restrições muito mais severas ao programa nuclear iraniano. Teerã reduziu drasticamente seus estoques de urânio enriquecido, limitou o enriquecimento a 3,67%, diminuiu o número de centrífugas em operação e aceitou um dos regimes de inspeção mais rigorosos já estabelecidos pela AIEA.

Em troca, recebeu alívio gradual das sanções econômicas.

Para Washington, aquele era o modelo aceitável: o Irã continuava existindo como potência regional, mas com seu programa nuclear rigidamente controlado.

Para o então chanceler brasileiro, Celso Amorim, a Declaração de Teerã não resolvia sozinha todo o contencioso nuclear iraniano, mas abria uma oportunidade concreta de construção de confiança e de retomada de negociações mais amplas. 

Em artigo publicado com o chanceler turco Ahmet Davutoğlu poucos dias após o acordo, Amorim defendeu que não havia solução viável fora da diplomacia e advertiu que desperdiçar aquela chance poderia ser lamentado por gerações. Anos depois, afirmou que a rejeição da iniciativa Brasil-Turquia representou “três anos perdidos”.

A trajetória posterior reforça essa leitura. Em 2015, os Estados Unidos e seus aliados acabaram assinando um acordo baseado em princípios que já estavam presentes, ainda que de forma mais limitada, na proposta de 2010: negociação direta, supervisão internacional, reconhecimento do direito iraniano ao uso pacífico da energia nuclear e troca entre compromissos nucleares e alívio de sanções.

<><> 2018: Trump destrói o acordo e perde a aposta

A virada veio em 2018.

Trump retirou unilateralmente os Estados Unidos do JCPOA e lançou a política de “pressão máxima” contra o Irã. A ruptura foi apresentada pela Casa Branca como correção estratégica.

O governo dizia que o acordo tinha quatro falhas centrais: permitia que várias restrições expirassem com o tempo, não limitava o programa de mísseis balísticos iraniano, ignorava a atuação regional de Teerã no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen, e liberava recursos econômicos que poderiam fortalecer o Estado iraniano.

Para Trump, o acordo “enriquecia” o Irã e apenas adiava sua capacidade nuclear, mas a justificativa técnica escondia uma decisão política.

O JCPOA era uma das maiores marcas diplomáticas de Barack Obama. Trump chegou à Casa Branca prometendo desmontar o legado democrata: abandonou o Acordo de Paris, atacou o Obamacare e transformou o acordo nuclear com o Irã em símbolo daquilo que chamava de fraqueza estadunidense. A política externa servindo à vingança doméstica.

Havia ainda a pressão de Israel e das monarquias do Golfo. Benjamin Netanyahu sempre tratou o JCPOA como ameaça, porque o acordo não eliminava definitivamente a capacidade nuclear iraniana; apenas a limitava por um período.

Já a Arábia Saudita via o alívio das sanções como risco geopolítico. Um Irã menos estrangulado economicamente teria mais força para disputar influência regional.

Foi nesse ambiente que nasceu a doutrina da “pressão máxima”. Trump apostou que sanções devastadoras, isolamento financeiro e ameaça militar obrigariam Teerã a aceitar um acordo mais amplo, incluindo mísseis, política regional, aliados como Hezbollah e os houthis, além de limitações nucleares permanentes.

O resultado foi o oposto.

Quando Trump abandonou o JCPOA, o Irã ainda operava dentro dos principais limites do acordo. O pacto restringia o enriquecimento a 3,67%, impunha teto de 300 quilos ao estoque de urânio enriquecido e reduzia drasticamente o número de centrífugas. Depois da saída estadunidense, esse sistema começou a desmoronar: o enriquecimento aumentou, o estoque cresceu e o risco de guerra se ampliou.

Em 2018, o Irã estava submetido a limites verificáveis. Em 2026, depois da “pressão máxima” e da guerra, Washington negocia com um Irã que acumulou mais conhecimento, mais estoque e mais capacidade nuclear.

Esse é o paradoxo que expõe a derrota estratégica de Trump: os Estados Unidos abandonaram um acordo que limitava o programa nuclear iraniano para forçar um acordo melhor, mas terminaram diante de um Irã mais avançado e mais capaz de resistir.

<><> 2026: a guerra leva Trump de volta à mesa

É nesse contexto que surge o acordo de 2026.

Depois de anos de sanções, ameaças, confrontos indiretos e nova escalada militar envolvendo o Estreito de Ormuz, Washington voltou à mesa, mas em uma posição muito diferente daquela de 2015.

O memorando negociado agora não reproduz as duras restrições do JCPOA. Em vez de impor limites detalhados sobre estoques, centrífugas e níveis de enriquecimento, estabelece mecanismos transitórios, supervisão internacional e novas negociações para resolver as questões mais sensíveis.

Ao mesmo tempo, abre caminho para alívio de sanções, desbloqueio de ativos e retomada das exportações iranianas de petróleo, além de um fundo de reconstrução e desenvolvimento estimado em US$ 300 bilhões após danos causados pelos ataques israelo-estadunidenses.

Em outras palavras: Trump iniciou uma guerra para alcançar um resultado inferior ao acordo que os Estados Unidos já possuíam em 2015.

O saldo é ainda mais duro porque a guerra não entregou o objetivo que a justificou. Se o pretexto era deter o programa nuclear iraniano, o memorando de 2026 não impôs o desmonte do programa, não estabeleceu enriquecimento zero e não restaurou os controles rígidos do JCPOA.

Ao contrário. Empurrou as questões mais sensíveis para novas negociações e reconheceu, na prática, que qualquer solução dependerá de garantias, supervisão internacional e concessões econômicas a Teerã.

<><> A derrota de Trump e a razão histórica de Lula

A maior ironia é que o desfecho de 2026 se aproxima mais da lógica defendida por Lula em 2010 do que da coerção perseguida por Washington durante mais de uma década e meia.

A Declaração de Teerã partia do princípio de que o Irã não seria derrotado nem humilhado, mas integrado a uma solução negociada.

Os Estados Unidos recusaram esse caminho.

Depois de sanções, isolamento, assassinatos seletivos, crises energéticas e guerra aberta, Washington volta a reconhecer uma realidade que Lula já enxergava: o Irã não pode ser submetido pela força. Trump sai derrotado, não porque aceitou negociar, mas porque precisou incendiar o tabuleiro para retornar à diplomacia que havia desprezado.

¨      Do Afeganistão à Venezuela, bombas dos EUA caíram sobre 10 países no século 21

Desde o início deste século, cinco presidentes dos EUA ocuparam a Casa Branca: Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump, em seu primeiro e atual mandato, e Joseph Biden. Em cada uma dessas presidências, com governos alternados entre democratas e republicanos, a agressão armada contra nações soberanas tem sido uma constante. 

Se considerarmos o período de 2000 até o presente, Clinton pareceria estar em “melhor situação”. No entanto, levando em conta que seu governo começou em 1993, seu histórico não está isento de bombardeios na Somália (1993), Bósnia (1994 e 1995), Sudão (1998), Afeganistão (1998), Iraque — com a operação “Raposa do Deserto” (1998) —, além do que restou da Iugoslávia, em 1999. 

George W. Bush, por sua vez, também acumulou uma longa lista de agressões militares, muitas delas prolongadas ao longo de todo o seu mandato presidencial. 

Afeganistão e Iraque sofreram agressões e ocupações contínuas, enquanto o Paquistão passou a ser atacado a partir de 2004. O Iêmen foi bombardeado em 2002 e a Somália, entre 2007 e 2008. 

Sob o governo Barack Obama, o cerco aos territórios afegão, iraquiano e paquistanês continuou. A Líbia foi acrescentada à lista de alvos de bombardeios e ataques com drones a partir de 2011, e a Síria, a partir de 2014. Em ambos os casos, quando a tão planejada “mudança de regime” ocorreu, a bandeira nacional foi alterada. 

Da mesma forma, Iêmen e Somália passaram a ser bombardeados não mais de forma isolada, mas sistemática. 

Durante o primeiro mandato de Donald Trump, a partir de 2017, as operações militares dos Estados Unidos continuaram nos países mencionados anteriormente, embora o Paquistão tenha deixado de ser bombardeado em 2018 e a Líbia, em 2019. 

Biden manteve intacta a orientação militar, com a “medalha” de ter retirado as tropas do Afeganistão em 2022, deixando o Talibã no poder. 

O retorno de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, foi marcado por um aumento nas áreas de conflito armado com presença e protagonismo dos Estados Unidos, com agressões militares contra a Venezuela, o Irã e bombardeios em solo nigeriano. 

Os territórios atacados militarmente por Israel, seguindo a mesma lógica de poder e influência de Washington, e com seu apoio político, logístico e militar, também não podem ficar fora da contagem: Palestina, Líbano, Catar… 

Os dados apresentados até aqui mostram que, embora cada administração estadunidense tenha suas particularidades, a política externa das canhoneiras — hoje, os porta-aviões — não é uma singularidade pessoal ou partidária, mas uma linha estratégica do Estado profundo, fortemente influenciada por atores em quem ninguém vota, nem dentro nem fora dos Estados Unidos, de empresas de armamento a empresas de tecnologia, passando por petroleiras. 

Nenhuma das agressões militares mencionadas foi um incidente isolado. Elas sempre foram, e continuam sendo, precedidas por intensas campanhas midiáticas, bem como por bloqueios econômicos e políticos. 

Em todos esses casos, a narrativa dos direitos humanos e do combate ao terrorismo foi invocada de formas mais ou menos grosseiras, inclusive a suposta guerra contra as drogas. Em nenhum dos países atacados até o momento há menos drogas, menos “terrorismo” ou mais direitos. Abordaremos esse assunto com mais detalhes em futuras publicações. 

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Granma

 

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