Trump
fez guerra, perdeu controle sobre o Irã e voltou à diplomacia de Lula em 2010
Mais de
uma década e meia antes de Donald Trump recorrer à guerra contra o Irã para
forçar uma negociação, Luiz Inácio Lula da
Silva tentou
resolver a mesma crise pela diplomacia.
Trump
bombardeou o Irã, ampliou a instabilidade regional, gastou bilhões dos secos
cofres estadunidenses, colocou o mundo diante de uma grave crise energética e,
ao fim, voltou à mesa com o que Lula já havia defendido quinze anos antes.
Em
2010, o Brasil apostou que a crise nuclear iraniana poderia ser contida por
negociação, reconhecimento político e supervisão internacional. Washington
recusou esse caminho. Preferiu sanções, sabotagem diplomática e, depois, força
militar.
O
memorando assinado nesta quinta-feira (18) entre Estados Unidos e Irã escancara
essa ironia histórica: depois de destruir o acordo que limitava o programa
nuclear iraniano, Trump retorna à negociação em condições piores, obrigado a
reconhecer Teerã como interlocutor legítimo, aceitar uma janela de 60 dias e
tratar de alívio de sanções, desbloqueio de ativos e supervisão da Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA).
<><>
2010: Lula aposta na diplomacia e Washington bloqueia
Em
2009, a proposta apresentada pela AIEA, com apoio dos Estados Unidos, previa
que o Irã enviasse urânio pouco enriquecido para fora do país e recebesse, em
troca, combustível nuclear para o Reator de Pesquisa de Teerã, usado para fins
médicos. A ideia era criar uma medida de confiança sob supervisão
internacional.
Em maio
de 2010, Lula, Recep Tayyip Erdoğan e Mahmoud Ahmadinejad anunciaram a
Declaração de Teerã. O Irã aceitava depositar 1.200 quilos de urânio pouco
enriquecido na Turquia, mantendo a propriedade do material, com possibilidade
de monitoramento pela AIEA.
A
leitura brasileira foi de que Brasília havia conseguido, pela diplomacia,
aquilo que as grandes potências diziam buscar. Afinal, meses antes, o
presidente Barack Obama havia enviado uma carta a
Lula sinalizando
que a transferência de cerca de 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido para
fora do Irã poderia representar um passo importante para construir confiança.
Mas os
EUA rejeitaram a iniciativa.
A
justificativa oficial era que o programa nuclear iraniano havia avançado desde
2009, que o estoque de urânio do Irã já era maior e que a Declaração de Teerã
não resolvia a continuidade do enriquecimento no país. Poucas semanas depois,
Washington impulsionou uma nova rodada de sanções no Conselho de Segurança da
ONU.
A
controvérsia nasce justamente aí. Para a diplomacia brasileira, a rejeição não
foi apenas técnica. O acordo colocava Brasil e Turquia, duas potências médias
do Sul Global, como mediadoras bem-sucedidas de uma das crises mais sensíveis
da ordem internacional. Era um espaço que Washington e seus aliados não estavam
dispostos a ceder.
A
rejeição posterior alimentou a percepção de que o problema não estava apenas no
conteúdo do acordo, mas na resistência dos Estados Unidos a uma solução
conduzida fora de sua tutela.
<><>
2015: o acordo que Washington aceitava
Cinco
anos depois, surgiu o Plano de Ação Conjunto Global, o JCPOA, assinado por Irã,
Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Alemanha e União Europeia.
Diferentemente
da proposta defendida por Lula, o novo acordo impunha restrições muito mais
severas ao programa nuclear iraniano. Teerã reduziu drasticamente seus estoques
de urânio enriquecido, limitou o enriquecimento a 3,67%, diminuiu o número de
centrífugas em operação e aceitou um dos regimes de inspeção mais rigorosos já
estabelecidos pela AIEA.
Em
troca, recebeu alívio gradual das sanções econômicas.
Para
Washington, aquele era o modelo aceitável: o Irã continuava existindo como
potência regional, mas com seu programa nuclear rigidamente controlado.
Para o
então chanceler brasileiro, Celso Amorim, a Declaração de Teerã não resolvia
sozinha todo o contencioso nuclear iraniano, mas abria uma oportunidade
concreta de construção de confiança e de retomada de negociações mais
amplas.
Em artigo publicado com
o chanceler turco
Ahmet Davutoğlu poucos dias após o acordo, Amorim defendeu que não havia
solução viável fora da diplomacia e advertiu que desperdiçar aquela chance
poderia ser lamentado por gerações. Anos depois, afirmou que a rejeição da
iniciativa Brasil-Turquia representou “três anos perdidos”.
A
trajetória posterior reforça essa leitura. Em 2015, os Estados Unidos e seus
aliados acabaram assinando um acordo baseado em princípios que já estavam
presentes, ainda que de forma mais limitada, na proposta de 2010: negociação
direta, supervisão internacional, reconhecimento do direito iraniano ao uso
pacífico da energia nuclear e troca entre compromissos nucleares e alívio de
sanções.
<><>
2018: Trump destrói o acordo e perde a aposta
A
virada veio em 2018.
Trump
retirou unilateralmente os Estados Unidos do JCPOA e lançou a política de
“pressão máxima” contra o Irã. A ruptura foi apresentada pela Casa Branca como
correção estratégica.
O
governo dizia que o acordo tinha quatro falhas centrais: permitia que várias
restrições expirassem com o tempo, não limitava o programa de mísseis
balísticos iraniano, ignorava a atuação regional de Teerã no Líbano, na Síria,
no Iraque e no Iêmen, e liberava recursos econômicos que poderiam fortalecer o
Estado iraniano.
Para
Trump, o acordo “enriquecia” o Irã e apenas adiava sua capacidade nuclear, mas
a justificativa técnica escondia uma decisão política.
O JCPOA
era uma das maiores marcas diplomáticas de Barack Obama. Trump chegou à Casa
Branca prometendo desmontar o legado democrata: abandonou o Acordo de Paris,
atacou o Obamacare e transformou o acordo nuclear com o Irã em símbolo daquilo
que chamava de fraqueza estadunidense. A política externa servindo à vingança
doméstica.
Havia
ainda a pressão de Israel e das monarquias do Golfo. Benjamin Netanyahu sempre
tratou o JCPOA como ameaça, porque o acordo não eliminava definitivamente a
capacidade nuclear iraniana; apenas a limitava por um período.
Já a
Arábia Saudita via o alívio das sanções como risco geopolítico. Um Irã menos
estrangulado economicamente teria mais força para disputar influência regional.
Foi
nesse ambiente que nasceu a doutrina da “pressão máxima”. Trump apostou que
sanções devastadoras, isolamento financeiro e ameaça militar obrigariam Teerã a
aceitar um acordo mais amplo, incluindo mísseis, política regional, aliados
como Hezbollah e os houthis, além de limitações nucleares permanentes.
O
resultado foi o oposto.
Quando
Trump abandonou o JCPOA, o Irã ainda operava dentro dos principais limites do
acordo. O pacto restringia o enriquecimento a 3,67%, impunha teto de 300 quilos
ao estoque de urânio enriquecido e reduzia drasticamente o número de
centrífugas. Depois da saída estadunidense, esse sistema começou a desmoronar:
o enriquecimento aumentou, o estoque cresceu e o risco de guerra se ampliou.
Em
2018, o Irã estava submetido a limites verificáveis. Em 2026, depois da
“pressão máxima” e da guerra, Washington negocia com um Irã que acumulou mais
conhecimento, mais estoque e mais capacidade nuclear.
Esse é
o paradoxo que expõe a derrota estratégica de Trump: os Estados Unidos
abandonaram um acordo que limitava o programa nuclear iraniano para forçar um
acordo melhor, mas terminaram diante de um Irã mais avançado e mais capaz de
resistir.
<><>
2026: a guerra leva Trump de volta à mesa
É nesse
contexto que surge o acordo de 2026.
Depois
de anos de sanções, ameaças, confrontos indiretos e nova escalada militar
envolvendo o Estreito de Ormuz, Washington voltou à mesa, mas em uma posição
muito diferente daquela de 2015.
O
memorando negociado agora não reproduz as duras restrições do JCPOA. Em vez de
impor limites detalhados sobre estoques, centrífugas e níveis de
enriquecimento, estabelece mecanismos transitórios, supervisão internacional e
novas negociações para resolver as questões mais sensíveis.
Ao
mesmo tempo, abre caminho para alívio de sanções, desbloqueio de ativos e
retomada das exportações iranianas de petróleo, além de um fundo de
reconstrução e desenvolvimento estimado em US$ 300 bilhões após danos causados
pelos ataques israelo-estadunidenses.
Em
outras palavras: Trump iniciou uma guerra para alcançar um resultado inferior
ao acordo que os Estados Unidos já possuíam em 2015.
O saldo
é ainda mais duro porque a guerra não entregou o objetivo que a justificou. Se
o pretexto era deter o programa nuclear iraniano, o memorando de 2026 não impôs
o desmonte do programa, não estabeleceu enriquecimento zero e não restaurou os
controles rígidos do JCPOA.
Ao
contrário. Empurrou as questões mais sensíveis para novas negociações e
reconheceu, na prática, que qualquer solução dependerá de garantias, supervisão
internacional e concessões econômicas a Teerã.
<><>
A derrota de Trump e a razão histórica de Lula
A maior
ironia é que o desfecho de 2026 se aproxima mais da lógica defendida por Lula
em 2010 do que da coerção perseguida por Washington durante mais de uma década
e meia.
A
Declaração de Teerã partia do princípio de que o Irã não seria derrotado nem
humilhado, mas integrado a uma solução negociada.
Os
Estados Unidos recusaram esse caminho.
Depois
de sanções, isolamento, assassinatos seletivos, crises energéticas e guerra
aberta, Washington volta a reconhecer uma realidade que Lula já enxergava: o
Irã não pode ser submetido pela força. Trump sai derrotado, não porque aceitou
negociar, mas porque precisou incendiar o tabuleiro para retornar à diplomacia
que havia desprezado.
¨
Do Afeganistão à Venezuela, bombas dos EUA caíram sobre
10 países no século 21
Desde o
início deste século, cinco presidentes dos EUA ocuparam a Casa Branca: Bill Clinton, George W. Bush,
Barack Obama, Donald Trump, em seu primeiro e atual mandato, e Joseph Biden. Em
cada uma dessas presidências, com governos alternados entre democratas e
republicanos, a agressão armada contra nações soberanas tem sido uma constante.
Se
considerarmos o período de 2000 até o presente, Clinton pareceria estar em
“melhor situação”. No entanto, levando em conta que seu governo começou em
1993, seu histórico não está isento de bombardeios na Somália (1993), Bósnia
(1994 e 1995), Sudão (1998), Afeganistão (1998), Iraque — com a operação
“Raposa do Deserto” (1998) —, além do que restou da Iugoslávia, em 1999.
George W. Bush, por sua vez, também
acumulou uma longa lista de agressões militares, muitas delas prolongadas ao
longo de todo o seu mandato presidencial.
Afeganistão
e Iraque sofreram agressões e ocupações contínuas, enquanto o Paquistão passou
a ser atacado a partir de 2004. O Iêmen foi bombardeado em 2002 e a Somália,
entre 2007 e 2008.
Sob o
governo Barack Obama, o cerco aos
territórios afegão, iraquiano e paquistanês continuou. A Líbia foi acrescentada
à lista de alvos de bombardeios e ataques com drones a partir de 2011, e a
Síria, a partir de 2014. Em ambos os casos, quando a tão planejada “mudança de
regime” ocorreu, a bandeira nacional foi alterada.
Da
mesma forma, Iêmen e Somália passaram a ser bombardeados não mais de forma
isolada, mas sistemática.
Durante
o primeiro mandato de Donald Trump, a partir de 2017,
as operações militares dos Estados Unidos continuaram nos países mencionados
anteriormente, embora o Paquistão tenha deixado de ser bombardeado em 2018 e a
Líbia, em 2019.
Biden
manteve intacta a orientação militar, com a “medalha” de ter retirado as tropas
do Afeganistão em 2022, deixando o Talibã no poder.
O
retorno de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, foi marcado por um aumento nas
áreas de conflito armado com presença e protagonismo dos Estados Unidos, com
agressões militares contra a Venezuela, o Irã e bombardeios em solo
nigeriano.
Os
territórios atacados militarmente por Israel, seguindo a mesma lógica de poder
e influência de Washington, e com seu apoio político, logístico e militar,
também não podem ficar fora da contagem: Palestina, Líbano, Catar…
Os
dados apresentados até aqui mostram que, embora cada administração
estadunidense tenha suas particularidades, a política externa das canhoneiras —
hoje, os porta-aviões — não é uma singularidade pessoal ou partidária, mas uma
linha estratégica do Estado profundo, fortemente influenciada por atores em
quem ninguém vota, nem dentro nem fora dos Estados Unidos, de empresas de
armamento a empresas de tecnologia, passando por petroleiras.
Nenhuma
das agressões militares mencionadas foi um incidente isolado. Elas sempre
foram, e continuam sendo, precedidas por intensas campanhas midiáticas, bem
como por bloqueios econômicos e políticos.
Em
todos esses casos, a narrativa dos direitos humanos e do combate ao terrorismo
foi invocada de formas mais ou menos grosseiras, inclusive a suposta guerra
contra as drogas. Em nenhum dos países atacados até o momento há menos drogas,
menos “terrorismo” ou mais direitos. Abordaremos esse assunto com mais detalhes
em futuras publicações.
Fonte: Diálogos
do Sul Global/Granma

Nenhum comentário:
Postar um comentário