Pesquisa
investiga como o direito à saúde tem sido negado à população negra
Com
base em sua experiência de atuação por cinco anos na Atenção Primária à Saúde
(APS), na região do Grande ABC, em São Paulo, a psicóloga Geralda Aparecida
resolveu empreender uma pesquisa que analisou a implementação da Política
Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) naquela região e como o
direito à saúde tem sido desigual em razão do racismo. O estudo analisou a
implementação desde a APS até a rede de proteção social.
Os
resultados da análise estão no estudo de mestrado intitulado Racismo e produção
do cuidado no SUS: um olhar para a atenção primária em saúde, apresentado ao
Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública (FSP)
da USP, sob orientação de Maria Cristina Prado Louvison.
Geralda
atualmente é articuladora de Atenção Básica na região, mas é funcionária da
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SESSP) desde 2004. Em sua função,
ela auxilia gestores dos municípios a identificar prioridades, formular
estratégias de enfrentamento de problemas e qualificar os serviços de saúde da
APS, o primeiro nível de atenção no Sistema Único de Saúde (SUS), funcionando
como a “porta de entrada” dos usuários.
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Reconhecendo o racismo institucional
A
Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) foi instituída
pelo Ministério da Saúde em 2009, fruto de anos de mobilização do movimento
negro. Ela tem como objetivo garantir o reconhecimento das necessidades
específicas da população negra no acesso aos serviços do SUS, reconhecendo o
racismo institucional como um determinante social das condições de saúde.
Apesar
da conquista, sua implementação permanece um desafio, já que a existência da
política não garante, por si só, sua incorporação ao cotidiano dos serviços de
saúde, especialmente na APS. Dados do Ministério da Saúde (2024) indicam que a
maioria dos municípios brasileiros (66%) não inclui ações da PNSIPN em seus
planos de saúde, enquanto 69% não oferecem temas sobre saúde da população negra
nos programas de educação permanente para os profissionais da área.
Em
entrevista ao Jornal da USP, Geralda afirma que, por isso, surge uma
necessidade para além da capacitação de profissionais sobre a política. Essa
formação deve ser voltada ao cuidado das populações presentes nos territórios
em que os profissionais irão atuar, analisando cada vulnerabilidade com uma
atenção específica.
Ela
afirma que se sentiu instigada em estudar a PNSIPN assim que obteve
conhecimento sobre tal política. “Comecei a observar como ela (a política)
estava inserida nas pautas de reuniões e espaços que eu frequento e, na
verdade, ela não estava.” Por isso, resolveu expor como os serviços de saúde
podem favorecer ou perpetuar o racismo ao negligenciar as determinações
sociais.
O
Grande ABC como campo de investigação
As
pesquisas de campo ocorreram entre maio de 2024 e fevereiro de 2025. A
investigação tinha o objetivo de capturar as trajetórias de vida, as
experiências de saúde e as percepções dos indivíduos, especialmente da
população negra.
A
composição da região estudada envolve os municípios de Diadema, Mauá, Ribeirão
Pires, Rio Grande da Serra, Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do
Sul, que possuem uma população conjunta de 2.696.530 habitantes (Censo IBGE,
2022).
Além da
proximidade da pesquisadora, a escolha da região se deu pelos destaques no
desenvolvimento de políticas de saúde. Algumas cidades foram escolhidas pelo
Ministério da Saúde para testar novos sistemas antes de seu lançamento e a
heterogeneidade entre os municípios poderia trazer mais informações importantes
para a pesquisa.
O
Grande ABC também possui um programa de ouvidoria racial desde 2021, uma
iniciativa pioneira no Estado de São Paulo. O projeto tem como objetivo tornar
o serviço de ouvidoria mais acessível e próximo das vítimas de discriminação
racial na região.
A
pesquisa de campo foi realizada em duas etapas. Na primeira, foi aplicado um
questionário on-line intitulado Implementação da Política Nacional da Saúde
Integral da População Negra (PNSIPN), dirigido aos gestores da APS da região.
Dentre as respostas, foram escolhidos dois municípios que pareciam ter mais
iniciativas da política implementada, constatação que foi posteriormente
refutada ao iniciar a segunda fase. Em uma das cidades escolhidas, os programas
voltados para a população negra informados no formulário, existiam para a
população no geral, sem distinção.
Geralda
decidiu denominá-los de Luanda e Benin em seu texto, para garantir a
sinceridade e evitar a exposição dos respondentes e do município. Essa segunda
fase consistiu em aplicar entrevistas com quatro grupos: gestores da APS,
atores com envolvimento na luta por direitos da população negra e que foram
chamados de atores mobilizadores da política (AMP), profissionais de saúde da
Estratégia de Saúde da Família e usuários do SUS.
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Desafios da implementação
Os
resultados da primeira etapa refletiram o panorama nacional, marcado pela
fragilidade na implementação da PNSIPN, uma vez que seis dos sete respondentes
relataram a inexistência de linhas de cuidado específicas para essa população.
Uma das
denúncias que a pesquisa revela é a distribuição desigual dos recursos do SUS.
Geralda afirma que um município com uma situação socioeconômica melhor, tem
maiores condições de estruturar equipes maiores e recebe um financiamento
melhor. “Então, o município com maior vulnerabilidade, maior desigualdade e que
não consegue ter fontes de arrecadação robustas, ele não vai conseguir
estruturar um SUS suficiente para atender sua população.”
A
população já vulnerável fica impossibilitada de acessar serviços integrais de
saúde, recurso que influencia a estrutura física, quantidade e qualificação de
equipes. Então, o alcance populacional do SUS se torna bem menor.
A
pesquisadora também constata que, apesar de ter escolhido os dois municípios
pelos mesmos critérios de implementação da PNSIPN, em uma das cidades a
política era bastante fortalecida, ligada ao gabinete do prefeito, uma promessa
de campanha. No outro, não havia iniciativas da gestão e sim de um histórico
regional, que foi descontinuado. Por isso ela destaca que a rotatividade de
gestores, influenciada por mudanças políticas e eleitorais, pode afetar a saúde
pública nos municípios brasileiros, comprometendo a continuidade de ações e o
planejamento de longo prazo.
Em
2022, percebendo a defasagem na produção de dados raciais, a gestão de Luanda
realizou uma campanha com o objetivo de ampliar a compreensão sobre a
importância da implementação da pergunta raça/cor nas fichas de atendimento no
SUS. Foram organizadas várias formações para os profissionais com intenção de
prepará-los para fazer a pergunta de forma adequada e explicar sua relevância
para além da burocracia.
No
município de Benin, foi relatado durante a pesquisa que, com a mudança de
gestão no município, as ações da PNSIPN foram descontinuadas e o tema
esquecido. Os funcionários envolvidos saíram da Secretaria da Saúde e os novos
não entendiam mais sua importância.
“Precisa
ter alguém, um gestor estadual, por exemplo, ou o ministério, para fomentar
essa discussão, não deixar que ela fique inviabilizada novamente. A gente não
pode deixar de falar da saúde da população negra, mas é um tema que acaba
ficando esquecido. Se não temos um articulador da política lembrando, ela vai
ficar sempre inviabilizada”, afirma Geralda.
No
mesmo município, uma das profissionais da UBS disse: “Eu diria que é só uma
formalidade para o cadastro, assim. Mas eu não sei se tem algo associado ao
tratamento em si que vai diferenciar. Acredito que não, né? Pelo menos para a
gente, aqui, o tratamento é igual da mesma forma”. Apesar da importância do
quesito, profissionais podem sentir que perguntar sobre raça/cor é, em si, um
ato discriminatório ou desnecessário, uma vez que “todos são iguais”. Isso
transforma o sistema de saúde em um espaço no qual falar sobre desigualdades
raciais passa a ser visto como algo problemático.
“Mais
que apontar caminhos, espera-se que essa dissertação desperte em pesquisadores,
gestores e trabalhadores do SUS a vontade de continuar lutando por um SUS com
mais integralidade e equidade para que de fato se torne aquilo que um dia o
movimento da reforma sanitária e o movimento negro sonharam para um sistema de
saúde universal”, escreve Geralda Aparecida, ao finalizar sua pesquisa.
• Idosos negros são minoria, e motivos vão
de violência a racismo em atendimento médico
O
direito de envelhecer, no Brasil, é atrelado a privilégios de cor e renda.
Mulheres brancas, nascidas entre 2010 e 2019, possuem uma expectativa de vida
ao nascer de 80,06 anos, enquanto as mulheres negras alcançam 76,01 anos. Já os
homens brancos vivem, em média, 74,52 anos, enquanto negros têm 68,65 anos,
segundo dados do Imds (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social).
Essas
disparidades se intensificam nos primeiros 30 anos, diminuindo progressivamente
à medida que a idade avança. As pessoas negras representam 56% da população
brasileira, mas entre os idosos esse percentual cai para cerca de 48%, segundo
o IBGE.
“O
envelhecimento não está sendo igual para todas as pessoas”, afirma o psiquiatra
e psicogeriatra Julio César Menezes Vieira. Ele cita um estudo de 2019 que
mostrou que, enquanto a pirâmide etária geral da cidade de São Paulo se
assemelha à de países ricos, a da população negra tem o perfil de nações
pobres.
Para a
advogada e ativista do movimento negro Lenny Blue de Oliveira, “a
invisibilidade da população idosa negra é uma violência a partir do momento que
naturaliza a mortalidade precoce”. Isso porque a diferença de expectativa de
vida está muito relacionada às mortes na juventude, que trazem a média do grupo
para baixo. No caso de homens negros, por exemplo, eles são maioria entre as
vítimas de homicídio.
Além
disso, dificuldades de atendimento de saúde e até racismo na busca por cuidado
médico são fatores que influenciam a disparidade.
O casal
de aposentados Elizete Carvalho, 67, e Giovane Carvalho, 62, utiliza os
serviços de saúde pública para servidores estaduais. Quando a filha nasceu e
teve que ser transferida com urgência para outro hospital, sofreram um episódio
de racismo.
“Giovane
sentiu o preconceito ao duvidarem que aquele pai jovem e negro teria capacidade
de pagamento dos altíssimos custos de CTI”, relembra Elizete. “Pediram cheque
caução antes mesmo da internação, apesar de ser caso urgentíssimo.”
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Efeitos do racismo na saúde
O
médico Vilson Cardoso de Oliveira Júnior, geriatra pelo Hospital dos Servidores
do Estado de São Paulo, explica que, do ponto de vista biológico, “há
alterações genéticas relacionadas à ancestralidade, como enzimas hepáticas que
interferem na absorção de medicamentos”.
Ele
destaca que “idosos negros apresentam taxas mais altas de hipertensão, diabetes
e acidentes vasculares cerebrais, o que aumenta o risco de demência”. Vilson e
o psicogeriatra Julio César afirmam também que o racismo é um fator de estresse
crônico, que gera eventos traumáticos e um desgaste mental contínuo.
“Isso
está diretamente associado ao maior risco de depressão na população negra
idosa”, completa Vilson. “Profissionais de saúde diagnosticam menos depressão
em pessoas negras, o que agrava o quadro.”
“O
histórico de desigualdade é cumulativo”, afirma o Júlio César. “A população
negra tem menor escolaridade, menor inserção em empregos que melhorem a renda
e, muitas vezes, não consegue sequer ler uma bula de medicamento. As condições
de moradia também são mais precárias, com menor acesso a saneamento e menor
remuneração. Isso tudo se reflete na saúde ao longo da vida.”
Vilson
também afirma que o diagnóstico mais tardio de doenças, como o melanoma, “pode
ser consequência da menor investigação na população negra. Problemas como
diabetes e pressão alta são muitas vezes piores controlados devido à
dificuldade de acesso à saúde.”
A
ativista Lenny Blue relata que essa exclusão também se expressa no cotidiano
mais básico da saúde. Ela conta que precisou “lutar para conseguir fazer uma
mamografia aos 72 anos”, porque profissionais presumiam que, por ser idosa e
sem vida sexual ativa, o exame não era necessário.
Ela vê
o etarismo como parte de um inconsciente coletivo que naturaliza a negligência.
“O racismo é tão cruel que a gente já vai preparada para ele. Falta letramento
racial e etário nos serviços de saúde”, defende.
A
advogada completa que o processo de envelhecimento, que ela chama de
“idosidade”, é uma condição que traz intersecção com todas as demais dimensões
da vida. Isso porque ela é moldada pela identidade e pela trajetória de uma
pessoa, cujos fatores se combinam para criar experiências únicas de opressão ou
privilégio.
As
políticas públicas devem compreender essas dimensões da velhice, sem tratá-la
de forma universal. “É importante falar de idosidade porque é falar de vida e é
garantir que as próximas gerações tenham a perspectiva e o direito de
envelhecer.”
Fonte:
Jornal da USP/Folhapress

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