A
bolha da IA: quem torce pelo caos?
“Mesmo
que isso acabe se revelando uma bolha, você não deveria se preocupar, porque a
bolha está impulsionando investimentos — e boa parte desses investimentos
acabará se mostrando muito saudável.” Foi assim que Jeff Bezos, fundador e
presidente-executivo da Amazon, respondeu recentemente, ao ser perguntado sobre
uma possível bolha em torno da inteligência artificial nas bolsas americanas. A
frase talvez seja uma das melhores maneiras de interpretar o momento atual da
economia global. Bezos não está negando a existência de especulação ou
valuations exagerados. Seu ponto é outro: algumas das maiores bolhas da
história também foram momentos de construção acelerada de infraestrutura e
capacidade produtiva. Foi assim com as ferrovias, com a eletrificação e com a
internet. A questão central, portanto, talvez não seja se existe uma bolha na
economia da IA — provavelmente existe —, mas qual legado econômico ela deixará.
Essa
lógica ajuda a entender um dos aparentes paradoxos da economia americana atual.
Enquanto parte importante da economia cresce lentamente, pressionada por juros
elevados e perda de dinamismo, as bolsas seguem renovando máximas históricas. O
chamado “crescimento em K” descreve exatamente isso: diferentes partes da
economia evoluindo em direções opostas. O S&P 500 e, sobretudo, o Nasdaq
passaram a refletir cada vez menos a problemática economia real americana como
um todo e cada vez mais o desempenho de um pequeno grupo de gigantes
tecnológicas ligadas à inteligência artificial. Essa concentração aparece de
forma particularmente clara nas chamadas “Magnificent Seven”, especialmente
Tesla, NVIDIA, Microsoft, Meta, Apple, Amazon e Alphabet. Nos últimos anos,
essas empresas concentraram parcela extraordinária da valorização das bolsas
americanas. Mais impressionante do que a alta das ações, porém, é a escala dos
investimentos, que foi ampliada entre 5 e 10 vezes. Amazon anunciou algo
próximo de US$ 200 bilhões anuais em capex; Alphabet, até US$ 185 bilhões;
Meta, até US$ 135 bilhões; e Microsoft, cerca de US$ 145 bilhões. Somadas,
apenas essas quatro empresas devem investir mais de US$ 600 bilhões em um único
ano, sobretudo em chips, data centers, energia e infraestrutura computacional.
Não se
trata apenas de especulação financeira. Essas empresas geram lucros
extraordinários e financia a corrida da IA com caixa próprio. Microsoft,
Alphabet, Meta e Amazon possuem posições dominantes em software, nuvem,
publicidade digital e infraestrutura tecnológica. A própria Nvidia viu seus
lucros dispararem com a demanda por chips voltados à IA. Ao mesmo tempo, uma
parte crescente do ecossistema da inteligência artificial ainda opera muito
mais no terreno da promessa do que da rentabilidade consolidada. Empresas como
OpenAI, Anthropic, xAI e CoreWeave captaram bilhões de dólares sem possuir
modelos de negócios plenamente sustentáveis. É aí que aparece o componente
clássico de bolha: expectativas futuras justificando valuations ainda
desproporcionais aos resultados presentes.
A
necessidade de investimentos em IA também está mudando a própria natureza do
negócio. Amazon, Alphabeth, Meta e Microsoft tem, progressivamente, incorporado
a gestão da infraestrutura aos seus negócios ao lado do desenvolvimento de IA.
Mas
talvez exista um problema mais profundo nessa dinâmica, e provavelmente inédita
na história do capitalismo, ligado à gestão da infraestrutura computacional.
Diferentemente de uma ferrovia, de uma hidrelétrica ou mesmo da infraestrutura
básica da internet, os ativos centrais da revolução da IA envelhecem em
velocidade extraordinária. Chips, GPUs e data centers tornam-se rapidamente
obsoletos diante do ritmo acelerado da inovação. Isso significa que parte
relevante dos investimentos realizados hoje talvez jamais tenha tempo
suficiente para gerar retornos compatíveis antes de exigir uma nova rodada
massiva de reinvestimentos. E tem mais: quanto mais a fronteira tecnológica
avança, maior tende a ser a necessidade de capital, energia, minerais
estratégicos e capacidade computacional.
Em
função dessa dinâmica de investimentos crescentes em ativos físicos e de
softwares que se depreciam aceleradamente em função do ritmo das inovações, as
empresas líderes têm mudado sua estratégia financeira. Elas, que
tradicionalmente se valiam da enorme geração de caixa, cada vez mais dependem
do lançamento de dívida e de operações “fora do balanço” para sustentar o
crescimento exponencial dos seus investimentos, preservando o caixa e a
política de recompra de ações.
Portanto,
essa dinâmica pressupõe expansão permanente não apenas do capital financeiro,
mas também da disponibilidade de energia, água, semicondutores, terras raras e
infraestrutura elétrica em escala gigantesca — algo que pode encontrar limites
físicos, ambientais e geopolíticos antes mesmo de encontrar limites
tecnológicos.
Estamos,
portanto, diante de uma bolha financeira de um tipo que talvez nem o economista
americano Hyman Minsky (1919–1996) pudesse imaginar plenamente quando formulou
sua “Hipótese da Fragilidade Financeira”. Minsky, que é esquecido nos momentos
de expansão exorbitante dos mercado e lembrado ad naseam depois que eclodem,
argumentava que períodos prolongados de estabilidade e euforia levam agentes
econômicos a assumir riscos crescentes, elevando endividamento e alavancagem
até que o próprio sistema se torne estruturalmente instável. Mas a bolha atual
parece ir além da dinâmica clássica descrita por ele: não estamos apenas diante
de ativos sobrevalorizados alimentados por crédito e expectativas otimistas,
mas de um sistema em que a própria velocidade da inovação tecnológica corrói
continuamente a vida útil dos investimentos realizados em infraestrutura
computacional e softwares de IA, exigindo reinvestimentos permanentes antes
mesmo que os ativos anteriores tenham gerado retornos compatíveis.
Talvez
este seja o verdadeiro paradoxo da nova economia digital: enquanto trilhões de
dólares são direcionados para ativos rapidamente obsoletos e concentrados em
poucas empresas, cresce simultaneamente a pressão sobre o sistema financeiro,
sobre a economia real e sobre um planeta já perigosamente próximo de seus
limites ambientais e climáticos. Talvez, por isso, a questão central não seja
simplesmente se a bolha vai implodir — em algum grau, bolhas sempre implodem ou
se transformam. A questão relevante é outra: quais serão as consequências dessa
dinâmica para o sistema financeiro, para a economia global e para o nosso
planeta.
• O valor de um futuro limpo e verde. Por
Karin Brüning
A
sustentabilidade já é a nova maneira de fazer negócios. Mais do que agregar
lucro e valor às marcas, é um processo inevitável de transformação de valores e
mudança de comportamento frente ao maior desafio do milênio: a crise climática.
O setor de Investimentos Ambientais, Sociais e de Governança (ESG) tem
experimentado um crescimento exponencial e a tendência é que se torne um pilar
fundamental dos mercados financeiros globais na próxima década, com um
crescimento robusto para os ativos sob gestão (Assets Under Management).
A
Bloomberg Intelligence estima que os ativos ESG possam ultrapassar US$ 40
trilhões até 2030, sendo que outras fontes esperam valores ainda mais altos,
como a Fortune Business Insights, que prevê um crescimento do mercado global de
investimentos ESG de US$ 45,61 trilhões (2026) para US$ 180,78 trilhões até
2034, com uma Taxa Composta de Crescimento Anual (CAGR) de 18,8% durante o
período da previsão. Ainda mais otimista é a expectativa da Precedence
Research, que avaliou o mercado global de investimentos nesse setor em US$
35,48 trilhões em 2025 e acredita que aumentará para aproximadamente US$ 191,22
trilhões até 2035, com uma CAGR de 18,27% de 2026 a 2035.
A
convergência dessas projeções destaca a expectativa de que o mercado ESG não
apenas continuará sua trajetória de crescimento, mas também acelerará,
impulsionado por uma maior conscientização e demanda dos investidores por
práticas sustentáveis. O segmento de consultoria ESG também demonstra um
crescimento significativo, impulsionado pela crescente pressão regulatória e
pela necessidade de as empresas integrarem princípios ESG em suas estratégias e
operações.
A
Polaris Market Research avaliou o tamanho do mercado global de consultoria ESG
em US$ 14,89 bilhões em 2024. Mas as previsões de crescimento são exponenciais,
podendo chegar a US$ 135,90 bilhões até 2034, uma taxa de crescimento de 24,8%.
Já a Business Research Insights projeta que o mercado global de consultores ESG
atingirá US$ 14,24 bilhões em 2026 e US$ 36,53 bilhões até 2035, crescendo a
uma CAGR de 12,5%.
Um
número mais conservador é fornecido pela Custom Market Insights, segundo a qual
a sustentabilidade atingirá US$ 14 bilhões até 2034, com uma CAGR de 15,5% de
2025 a 2034. O crescimento neste segmento é atribuído à demanda por expertise
para navegar em regulamentações complexas, desenvolver estratégias de
sustentabilidade e garantir a conformidade e a transparência nos relatórios
ESG.
Nesse
contexto, a Europa é projetada para continuar sendo o maior mercado ESG, com
mais de US$ 18 trilhões em ativos sob gestão até 2030, mantendo sua
participação global de 45%. Os EUA podem ver sua participação diminuir para
menos de 25%, enquanto o Japão e a China são mercados em crescimento, com o
Japão podendo exceder 15% (quase US$ 7 trilhões) e a China atingindo cerca de
US$ 5 trilhões em ativos ESG até 2030.
O que
impulsiona o crescimento do mercado ESG é, sem dúvida, a crescente preocupação
com questões ambientais e sociais, que leva os investidores a alinhar seus
portfólios com valores sustentáveis. Nesse cenário, o investimento em educação
ambiental infantil, embora possa parecer distante do “core business”, oferece
retornos sociais e reputacionais significativos que se traduzem em valor de
longo prazo para as empresas. A Fundação Abrinq destaca que “proteger a
infância é o maior investimento ESG que uma empresa pode fazer”, pois contribui
para a garantia de direitos e para a construção de um futuro mais justo e
resiliente.
Programas
de educação ambiental para crianças geram um “triplo dividendo”, uma vez que
promovem a resiliência climática, protegem o potencial individual das crianças
e fomentam o desenvolvimento sustentável. O UNICEF aponta que cada US$ 1
investido em programas de qualidade na primeira infância pode gerar um retorno
econômico médio de US$ 13,70, e para a educação pré-primária, esse valor é de
US$ 9 de benefícios para a sociedade, podendo chegar a US$ 17 para crianças em
situação de vulnerabilidade.
Esses
investimentos resultam em benefícios intangíveis cruciais, como fortalecimento
da reputação, da marca e a lealdade do consumidor. Além disso, ações voltadas
para a infância e o meio ambiente fortalecem os laços com comunidades,
funcionários e parceiros, criando um ambiente de colaboração e confiança. E
essa percepção começa antes mesmo do emprego, uma vez que, para 76% dos
candidatos, segundo a Alpha Sense, causas sociais e ambientais são um fator
decisivo na escolha do local de trabalho.
Apesar
dos claros benefícios, a medição do ROI de iniciativas ESG e de impacto social
pode ser complexa. Pesquisas indicam que 98% das iniciativas de
sustentabilidade falham em comprovar seu ROI devido à falta de métricas claras,
e menos de 50% das empresas rastreiam os retornos de suas ações de
sustentabilidade. Superar esse desafio requer o estabelecimento de metas
específicas, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e com prazo definido (SMART),
além de uma integração mais profunda das métricas ESG nas análises financeiras
e de desempenho corporativo.
É
importante notar, no entanto, que, mesmo assim, empresas com altas pontuações
ESG observaram um retorno para os acionistas 2,6 vezes maior entre 2013 e 2020
do que a média do mercado.
Por
fim, fazendo um exercício de imaginação, em um cenário hipotético, de um país
com aproveitamento 100% sustentável e limpo de seus recursos naturais, o
retorno financeiro para qualquer tipo de investimento seria extraordinariamente
alto. Estudos indicam que o financiamento de metas de sustentabilidade
relacionadas à natureza pode demonstrar um retorno sobre o investimento (ROI)
superior a 20 vezes.
Segundo
o Centro Mundial de Monitoramento da Conservação do Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambiente (UNEP-WCMC), investir US$ 7,4 trilhões globalmente até
2030 em metas de sustentabilidade relacionadas à natureza poderia gerar o
equivalente econômico de US$ 152 trilhões em benefícios.
Além
dos retornos financeiros diretos, um ambiente limpo e saudável, com uma
população educada para respeitar o meio ambiente, resultaria em mais
produtividade e capacidade de inovação, sem tensões sociais e políticas
constantes, criando um ambiente mais estável e previsível para investimentos no
nosso bem mais inestimável: o futuro.
Fonte:
Por Rogério Studart e Antônio José Alves Junior, em Outras Palavras/A Terra é
Redonda

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