Como
devolver o que nunca foi seu e sair como herói
Imagine
um síndico que passa anos desligando a água de um morador, bloqueando suas
encomendas, dificultando a entrada das visitas e implicando com qualquer
reforma que ele tente fazer no apartamento.
Depois
de muito tempo, o síndico convoca uma reunião extraordinária e faz uma
proposta:
“Se
você prometer que não vai mexer em nada sem a minha autorização, eu volto a
abrir o registro da água, libero suas encomendas e paro de fiscalizar a sua
porta três vezes por dia.”
O
morador, que já estava tomando banho de canequinha e carregando balde escada
acima, aceita na hora. Os vizinhos comemoram o entendimento. O síndico recebe
elogios pela capacidade de diálogo. E quase ninguém percebe que a grande
concessão do acordo foi devolver ao morador uma parte daquilo que já era dele
desde o começo.
Parece
história de condomínio. Mas, em escala internacional, o roteiro não é muito
diferente.
Pois
bem. Foi mais ou menos isso o que aconteceu nesta semana entre os Estados
Unidos e o Irã.
Um
memorando de 14 pontos. Quatorze. E, se você espremer o texto direitinho, sai o
seguinte suco de cinismo: o Irã entra com o programa nuclear, com a
fiscalização permanente e com a promessa de ser um bom menino. O Tio Sam entra
com o “perdão por ter sufocado você” e devolve parte das chaves que ele mesmo
havia recolhido ao longo dos anos.
É o
triunfo da paz dos fortes. Uma maravilha de igualdade. Parece um ladrão
devolver a carteira vazia à vítima e ainda esperar um cartão de agradecimento
no Natal.
O
acordo funciona muito na lógica do “quebro suas pernas e depois vendo as
muletas com desconto, desde que você me deixe revistar suas gavetas de seis em
seis meses”. O Irã recupera gradualmente aquilo que nunca deveria ter perdido:
o direito de comprar e vender sem que alguém telefone para o gerente do banco.
Mas tudo condicionado a sorrir para Washington. Se o aiatolá espirrar sem pedir
licença, o cadeado volta para a porta.
E o que
acho mais fascinante na geopolítica de alta-costura é a tal da não
proliferação. O conceito é lindo, quase poético. Só quem pertence ao clube do
charuto pode ter o brinquedo de explodir o planeta.
Se você
já possui a bomba, tudo bem. É uma democracia consolidada e responsável, mesmo
que, de vez em quando, resolva invadir um vizinho porque “acreditava” que ele
tinha armas que nunca apareceram.
Agora,
se está fora do clube e tenta acender um simples estalinho para se defender,
transforma-se imediatamente em uma ameaça global.
O
debate nunca foi sobre um mundo sem bombas. O debate é sobre quem pode ter o
controle remoto da destruição total na mesa de cabeceira.
Nessa
altura, alguém há de perguntar:
“E o
tal do Estreito de Ormuz?”
Pois é.
Aí entramos no terreno onde as grandes potências realmente se entendem: o
dinheiro.
Quando
começou o quiprocó, o mundo fingia estar profundamente preocupado com as
criancinhas e com a população civil local, que já vinha sofrendo com as sanções
havia décadas. Não estava. O mundo só entrou em pânico de verdade quando olhou
para o preço do barril de petróleo.
O
Estreito de Ormuz é aquele lugar por onde passa cerca de um quinto do petróleo
consumido no planeta. Se aquilo fechar, a gasolina em Nova York sobe alguns
centavos, o mercado financeiro em Londres tem uma crise de labirintite e a
classe média brasileira começa a chorar na bomba de combustível, entoando a
velha pergunta dos bolsoloides: “Quem é o presidente mesmo?”
No
segundo em que o petróleo correu perigo, a diplomacia internacional, que
normalmente anda na velocidade de um Fusca velho para resolver crises
humanitárias, passou a operar na velocidade de uma Mercedes. Surgiram reuniões
de emergência na ONU, cafezinhos diplomáticos com biscoitinhos amanteigados,
tapinhas nas costas e, de repente, o acordo apareceu.
A
velocidade para salvar um litro de nafta é sempre muito maior do que a
velocidade para salvar uma vida. Se o Estreito de Ormuz transportasse apenas
água mineral e boas intenções, estariam discutindo o memorando até o próximo
século.
No fim
das contas, o cessar-fogo é ótimo, claro. Evita que o mundo vire um churrasco
antes da hora. Mas não resolveu grande coisa. As divergências continuam lá, as
sanções podem voltar ao primeiro sinal de desobediência e o Tio Sam continua
com a mão no disjuntor da energia dos outros.
É uma
trégua de condomínio.
O mundo
continua sendo aquele recreio da escola onde o garoto de dois metros de altura
dita as regras do futebol, escolhe quem joga, inventa o impedimento quando lhe
convém e, se estiver perdendo, enfia a bola debaixo do braço e vai embora. E o
resto da ONU fica ali em volta, batendo palmas e dizendo:
“Que
rapaz maduro. Como ele preza o diálogo.”
Viva a
diplomacia internacional.
Mas,
por via das dúvidas, abasteça o carro hoje à noite.
Fonte:
Por Vanderlei Tenório, em Viomundo

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