segunda-feira, 22 de junho de 2026

Novo programa de atenção domiciliar amplia cuidado aos idosos no Brasil

O Ministério da Saúde lançou nesta quinta-feira (18), no Rio de Janeiro, o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (Padi Brasil). A previsão é investir R$ 500 milhões para estruturar e levar equipes multiprofissionais aos lares de idosos que têm limitações funcionais e não podem se deslocar até uma unidade de saúde.

As administrações municipais poderão solicitar a criação de novas equipes ou a ampliação das já existentes na atenção básica. Isso inclui o aumento da carga horária de atendimento e a contratação de novos profissionais, incluindo médicos especialistas. Até o momento, 2.733 municípios solicitaram adesão ao Padi Brasil, totalizando o pedido de 3.677 equipes.

O repasse mensal para cada equipe poderá ter um incremento de até R$ 10 mil por meio do programa, alcançando o valor de até R$ 57,5 mil mensais, a depender da modalidade da equipe multiprofissional (Ampliada, Complementar ou Estratégica).

De acordo com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, esses grupos de trabalho são compostos por profissionais de saúde de diferentes áreas que atuam de forma integrada às equipes de Saúde da Família.

“O idoso vai receber a visita de profissionais especializados com um olhar especial para as condições deles, que têm dificuldades de mobilidade e não conseguem fazer atividades físicas. Serão desde médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, terapeutas ocupacionais até assistentes sociais”, detalhou o ministro.

Segundo o ministro, cada município pode escolher a composição profissional ideal a partir de um cardápio oferecido pelo Ministério da Saúde.

O governo federal prevê investir R$ 163,2 milhões em 2026 e R$ 329,3 milhões em 2027.

<><> Envelhecimento saudável

Dados apresentados pelo Ministério da Saúde indicam que a expectativa de vida ao nascer no Brasil atingiu 76,6 anos em 2024. Atualmente, 80% da população idosa do país depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) para atendimentos médicos. Estima-se que existam cerca de 3 milhões de idosos acamados no território nacional acompanhados pela atenção primária.

Segundo o ministro da Saúde, o Padi Brasil se junta a outros programas já existentes para melhorar a qualidade de vida deste grupo da população.

“Já temos o Farmácia Popular, que garante remédio para hipertensão, diabetes e as fraldas geriátricas. Também o Mais Especialistas, que está reduzindo o tempo de espera das pessoas para cirurgias e exames especializados. Estamos reorganizando o SUS para cuidar melhor dos idosos no nosso país”, diz Padilha.

A Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa é considerada uma ferramenta estratégica para monitorar as condições de saúde deste público. Ela está disponível em formato físico e digital, no aplicativo Meu SUS Digital.

O ministério também disponibiliza materiais educativos voltados a cuidadores, familiares e profissionais de saúde sobre prevenção de quedas e comunicação relacionada à demência.

<><> Homenagem

Durante a cerimônia de lançamento, o Ministério da Saúde prestou uma homenagem à médica e advogada Guilhermina Maria Galvão Siqueira Gomes, cuja iniciativa inspirou o programa nacional.

Na década de 1990, Guilhermina atuou no Hospital Municipal Paulino Werneck, na Ilha do Governador, onde identificou que pacientes idosos recebiam alta e retornavam frequentemente ao hospital por falta de acompanhamento adequado. A médica liderou, então, a criação do Programa de Atenção Domiciliar (PAD) na unidade, oferecendo assistência médica, de enfermagem, fisioterapia, psicologia e apoio aos cuidadores familiares diretamente nas residências.

•        Só 4 em cada 10 idosos que relatam depressão recebem diagnóstico, aponta estudo

Dados analisados por pesquisadores da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) e da University College London revelam que entre os 15,9% dos idosos que se sentiam deprimidos, apenas 37,3% relataram diagnóstico médico de depressão, o que representa 4 em cada 10.

A análise utilizou entrevistas com 6.872 pessoas com mais de 60 anos da segunda onda do Elsi-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros), conduzida entre 2019 e 2021 pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pela Fiocruz-MG.

Apesar da lacuna observada entre o autorrelato de tristeza, solidão ou falta de prazer em atividades cotidianas e o diagnóstico formal, Jefferson Traebert, professor do programa de pós-graduação em ciências da saúde da Unisul e um dos autores do estudo, afirma que não é possível estabelecer nexo causal entre os dados.

“A contribuição do estudo está em apontar que a autopercepção pode indicar uma predisposição ou fatores de risco nessa faixa etária, para que os médicos da atenção primária e as políticas públicas possam ficar atentos”, afirma.

Entre os idosos diagnosticados com depressão, a pesquisa identificou fatores de risco como gênero, escolaridade e estilo de vida. Mulheres apresentam risco 2,23 vezes maior de desenvolver a doença.

Baixa escolaridade e sedentarismo também aparecem como fatores associados.

Os achados concluem que idosos com até oito anos de escolaridade apresentaram maior prevalência em comparação aos não escolarizados. Os pesquisadores dizem que o dado é aparentemente contraditório à literatura, que aponta que níveis mais baixos de escolaridade estão associados ao aumento dos sintomas depressivos. A hipótese levantada é o reflexo do descompasso entre expectativas e oportunidades vivenciadas por indivíduos com escolaridade intermediária.

Para Traebert, esses fatores de risco devem ser observados mesmo em pessoas sem diagnóstico que já apresentam sentimentos depressivos. “É preciso um olhar mais atento para as mulheres e para quem tem menor instrução formal”, recomenda. “A prática de atividade física é um fator protetivo importante para o sofrimento psíquico e para a depressão.”

A situação conjugal não mostrou significância estatística no estudo, o que surpreendeu o pesquisador, já que o vínculo marital costuma ser considerado fator protetivo para a depressão.

Traebert alerta também para a tendência de naturalizar tristeza e solidão em idosos, o que pode contribuir para negligência em relação à saúde mental dessa população. Ele afirma que o sofrimento psíquico não é natural e pode impactar na qualidade de vida.

Ele aponta a atenção primária em saúde, porta de entrada do SUS (Sistema Único de Saúde), como espaço fundamental para que idosos possam expor esses sentimentos além das queixas físicas. Outra recomendação dos pesquisadores é a combinação do autorrelato com as avaliações objetivas para o manejo de depressão em idosos.

O estudo cita dados de 2017 mostrando que metade dos idosos com depressão não foram diagnosticados na atenção primária devido à semelhança dos sintomas depressivos com aspectos do envelhecimento, como fadiga, perda de libido, problemas de memória e irritabilidade.

“Às vezes o idoso não reconhece o próprio sofrimento psíquico, mas a equipe de saúde tem que reconhecer. Precisamos pesquisar e entender esses sentimentos como possíveis sinais de sofrimento, não só físico, mas emocional”, conclui Traebert.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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