segunda-feira, 22 de junho de 2026

Entenda como rede de supermercados se tornou produto de crédito consignado ligado ao Banco Master, na Bahia

Investigações da Polícia Federal (PF) apontam que a relação entre o líder do Governo no Senado, Jaques Wagner (PT), e o ex-CEO do Banco Master, Augusto Lima, está associada à rede de supermercados baiana Cesta do Povo e ao cartão de crédito com benefício consignado CredCesta.

Tanto Wagner quanto Lima foram alvos da 9ª fase da "Operação Compliance Zero", deflagrada nesta quinta-feira (18). A ação investiga um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.

Em nota, Wagner afirmou ser inocente e negou atuação em favor do Banco Master ou de outras instituições financeiras. Já Lira afirmou que sempre autuou dentro dos limites da lei.

Conforme as apurações da PF, Wagner era secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia quando participou do processo que levou à privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), dona da rede de supermercados, em 2018. Augusto Lima foi o comprador da companhia, arrematada por R$ 15 milhões após duas tentativas frustradas de leilão.

Em nota enviada a editoria de Política do g1, em abril deste ano, Jaques Wagner confirmou que conheceu Augusto Lima em 2017, quando era o secretário responsável por conduzir a venda da empresa.

A investigação da PF, porém, não aponta suspeitas sobre o leilão em si, nem sobre favorecimento ao governo Rui Costa (PT). Os agentes apuram se o senador teria atuado, em outro momento, em favor de interesses do banqueiro em projetos ligados ao crédito consignado.

O empréstimo passou a ser o principal eixo de expansão do CredCesta, criado a partir da Cesta do Povo. Inicialmente voltado a compras de servidores públicos, aposentados e pensionistas, o consignado foi incorporado, posteriormente, a operações mais amplas no mercado financeiro, se tornando a porta de entrada do Banco Master para operar na modalidade de crédito.

<><> Descontos na folha continuam

Contando com a omissão e ou conveniência do governador Jerônimo Rodrigues, que apesar das denúncias de irregularidades praticadas pelo grupo Master e em especial do Credicesta, cuja omissão é comprovada, pois não se conhece qualquer medida tomada para apurar sobre os descontos em folha dos servidores, mesmo após a liquidação do banco e com o escândalo envolvendo Jaques Wagner, que se aprofundada pela PF irá chegar a outros nomes do governo Rui Costa, onde ocorreram as falcatruas.

Talvez aí resida o medo do atual governador, de mexer na teia de aranha e fazer uma apuração mais aprofundada, que poderá bater, quem sabe, na porta do seu padrinho político, que ainda sencontra enredado com a compra dos respiradores na época mais grave da Covid, cujos valores pagos a empresa que não entregou um equipamento de amostra, cujos valores pagos jamais retornaram aos cofres públicos.

<><> Empresa Baiana de Alimentos

A Ebal foi uma empresa pública do governo da Bahia criada para atuar no abastecimento alimentar e no comércio varejista de produtos básicos. Ela era a responsável por operar a rede de supermercados Cesta do Povo.

A Ebal foi colocada em leilão para a iniciativa privada em 2015, no governo de Rui Costa (PT). Após dois leilões sem lances, a empresa foi arrematada em 2018, pelo valor de R$ 15 milhões.

O processo foi comandado pelo então governador Rui Costa, juntamente com Jaques Wagner, então secretário de Desenvolvimento Econômico.

<><> Cesta do povo

A Cesta do Povo foi uma rede de supermercados criada pelo governo da Bahia, nos anos 1970, com foco em vender produtos básicos a preços mais acessíveis para a população de baixa renda.

Durante muitos anos, a Cesta do Povo teve presença forte no interior da Bahia e em bairros populares de Salvador, mas começou a perder a força a partir dos anos 2000.

Quando a administradora Ebal foi leiloada em 2018, a Cesta do Povo também foi vendida. Augusto Lima adquiriu a rede de supermercados.

<><> CredCesta

O CredCesta é um cartão de benefício consignado ofertado a servidores públicos, aposentados e pensionistas, onde o pagamento das parcelas é descontado diretamente da folha de pagamento. Apesar de atualmente operar em todo o Brasil, ele surgiu na Bahia e tem forte ligação com a rede Cesta do Povo.

Com a compra da Cesta do Povo, em 2018, Augusto Lima também adquiriu o Credcesta, que na época era um cartão de benefícios voltado a servidores públicos municipais e estaduais. O financiamento bancava a compra parcelada de servidores do estado nos supermercados.

Entre 2019 e 2024, Augusto Lima atuou como sócio e CEO do banco Master, de Daniel Vorcaro. Neste período, ele expandiu o CredCesta para além da finalidade original de compra de gêneros alimentícios e o cartão se tornou a porta de entrada do Banco Master para operar na modalidade de crédito consignado.

Segundo um requerimento da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS para a quebra de sigilo bancário de Augusto Lima, a ampliação do Credcesta transformou o cartão em um produto de crédito consignado “que se disseminou pelo país e passou a integrar carteiras negociadas com fundos de investimento e outras instituições financeiras”.

De acordo com as investigações, uma parte relevante desses créditos oferecidos a aposentados e pensionistas não foi informada às autoridades ou não possuía recursos e estrutura suficientes para operar dentro das regras.

Em meados de 2025, já no meio da mais grave crise envolvendo o Banco Master, os dois decidiram romper a sociedade. Augusto Lima ficou com o Banco Pleno, que tem como origem o cartão de crédito consignado.

<><> Jaques Wagner

O foco central desta fase da operação é a relação de proximidade entre Jaques Wagner e Augusto Lima. A PF investiga se o senador atuou diretamente em favor de projetos de interesse do grupo financeiro do banqueiro.

Entre as medidas citadas estão a chamada "Emenda Master" e uma proposta legislativa que visava ampliar o limite do crédito consignado, setor onde o grupo possui forte atuação justamente por meio do Credcesta.

Em contrapartida a essa atuação parlamentar, os investigadores suspeitam que Wagner tenha sido beneficiado com:

•        Propina:

- repasses que somariam R$ 3,5 milhões, realizados por meio de uma empresa ligada ao enteado, Eduardo Mendonça Sodré Martins, o "Dudu" (secretário de Meio Ambiente do governo da Bahia), e à nora do senador, Bonnie Toaldo Bonilha.

•        Imóvel de luxo:

- a transação suspeita de um apartamento no Poeme Residence (unidade 1702), localizado no bairro do Horto Florestal, em Salvador — área nobre da capital baiana. O apartamento está avaliado em mais de R$ 2,4 milhões, segundo a PF.

•        Mordomias:

- o uso frequente de aeronaves particulares e o recebimento de ingressos para shows. Na decisão, consta a compra de ingressos para um show em Los Angeles, nos Estados Unidos, no valor de mais de R$ 63 mil pagos pela empresa Reag Investimentos em favor da família do senador.

<><> Leia nota de Jaques Wagner na íntegra

"O senador Jaques Wagner (PT-BA) esclarece que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados. O parlamentar acompanha com tranquilidade o andamento das investigações e mantém a confiança na condução delas.

Cabe esclarecer que o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar. O senador também nega atuação em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira.

Sobre os valores em espécie apreendidos, a assessoria informa que o montante é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais. Por fim, o senador Jaques Wagner reitera que permanece à inteira disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos, com a certeza de que a verdade prevalecerá".

<><> O que diz a defesa de Augusto Lima na íntegra

"As diligências realizadas pela Polícia Federal nesta data eram desnecessárias, uma vez que Augusto Lima está há seis meses à disposição das autoridades para esclarecer os fatos em apuração.

De todo modo, as medidas contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos.

Augusto Lima sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública".

•        Consignados do Master somaram R$ 354 milhões na folha do Exército

Documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram que o Banco Master movimentou cerca de R$ 354 milhões em empréstimos consignados descontados na folha de militares e pensionistas do Exército entre outubro de 2020 e abril de 2026. Os registros revelam ainda que o credenciamento da instituição foi renovado pelo Comando do Exército em janeiro de 2025, poucos meses antes de o Banco Central decretar sua liquidação extrajudicial.

As informações foram encaminhadas pelo Centro de Pagamento do Exército (CPEx) e abrangem operações vinculadas ao Banco Máxima e ao Banco Master.

O pico da operação ocorreu em 2022, quando os descontos ultrapassaram R$ 110 milhões ao longo do ano. Em alguns meses, mais de 12 mil beneficiários tiveram parcelas de empréstimos vinculadas ao banco descontadas diretamente em folha.

<>< Renovação antes da liquidação

Em 15 de janeiro de 2025, o Comando do Exército assinou um termo aditivo prorrogando por mais dois anos o contrato de credenciamento do Banco Master para operar empréstimos consignados junto a militares e pensionistas. A vigência foi estendida até 14 de janeiro de 2027.

O ato, posteriormente publicado no Diário Oficial da União, teve como fundamento o Parecer Referencial nº 2/2024 da Consultoria Jurídica do Exército.

Menos de um ano depois, em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição. Na decisão, a autoridade monetária apontou comprometimento da situação econômico-financeira do banco, deterioração da liquidez, infrações às normas do sistema financeiro e descumprimento de determinações regulatórias.

A proximidade entre a renovação contratual e a intervenção levanta questionamentos sobre os critérios adotados pelo Exército para manter o credenciamento da instituição. Em respostas a pedidos feitos via LAI, a Força não apresentou documentos que demonstrassem eventual análise da situação financeira do banco antes da assinatura do aditivo nem esclareceu quais avaliações embasaram a decisão.

<><> R$ 110 milhões em um único ano

Os dados do CPEx mostram a relevância da operação dentro da folha militar.

Em 2022, os descontos relacionados ao Banco Master somaram R$ 110,4 milhões. Apenas em setembro daquele ano, o valor mensal chegou a R$ 10,5 milhões, alcançando 12.778 CPFs.

Em 2023, os descontos totalizaram R$ 83,7 milhões. Já em 2024, o volume ficou em aproximadamente R$ 41 milhões.

Ao longo do período analisado, foram registrados mais de 30 mil contratos vinculados ao banco, concentrados principalmente entre pensionistas e militares veteranos. Os números indicam que a instituição mantinha participação expressiva no mercado de consignados da Força.

<><> Repasses continuaram após a intervenção

Após a liquidação extrajudicial, o Exército rescindiu unilateralmente o contrato de credenciamento do Banco Master e bloqueou a instituição para novas operações no sistema de consignações.

Os contratos já existentes, porém, permaneceram ativos. Segundo o CPEx, os descontos continuariam sendo realizados nos contracheques dos militares e pensionistas e os valores seriam repassados até a quitação dos empréstimos contratados antes da intervenção.

A reportagem questionou o Comando do Exército sobre os critérios utilizados para renovar o contrato em janeiro de 2025, se houve análise específica da situação econômico-financeira do Banco Master antes da prorrogação. Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta.

 

Fonte: g1

 

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