Indígenas
e quilombolas: por que o orçamento secreto não chega aos territórios
tradicionais?
Bilhões
de reais circulam pelo orçamento público brasileiro nos últimos anos. Parte
desses recursos passa pelas emendas parlamentares, instrumento que ganhou
protagonismo durante o debate sobre o chamado Orçamento Secreto. Ao mesmo
tempo, comunidades indígenas e quilombolas continuam enfrentando dificuldades
relacionadas ao saneamento, à saúde, à educação, à infraestrutura e à
regularização fundiária.
A
contradição ajuda a levantar uma pergunta: se o Estado brasileiro movimenta
valores cada vez maiores por meio de emendas, incentivos econômicos e
investimentos públicos, por que tantas demandas históricas permanecem sem
solução em territórios tradicionais?
A
resposta não está apenas na discussão sobre corrupção ou transparência. Ela
passa pela forma como o orçamento é distribuído, pelos critérios que definem
prioridades de investimento e pela capacidade de diferentes grupos
influenciarem as decisões sobre o uso dos recursos públicos.
Entender
a relação entre indígenas e quilombolas, orçamento público e desigualdade
territorial ajuda a explicar por que algumas regiões recebem investimentos
contínuos enquanto outras seguem disputando acesso a direitos básicos.
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Territórios fora do mapa de investimentos
O
debate sobre o Orçamento Secreto colocou em evidência uma transformação
importante na política brasileira: o crescimento do poder das emendas
parlamentares na distribuição de recursos públicos.
O
Orçamento Secreto ficou conhecido pelo uso das emendas de relator,
classificadas como RP9 no orçamento federal. O mecanismo ganhou destaque entre
2020 e 2022 porque permitia a distribuição de bilhões de reais sem que a
população soubesse com clareza quais parlamentares haviam solicitado os
recursos nem quais critérios orientavam sua destinação.
Após
decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), o modelo foi considerado
incompatível com os princípios de transparência da administração pública e
passou por mudanças. Mesmo assim, o debate permaneceu porque as emendas
parlamentares continuaram concentrando uma parcela crescente do orçamento e
ampliando a influência do Congresso sobre a distribuição dos recursos públicos.
Em
audiência da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos
Deputados, representantes de órgãos de fiscalização discutiram os impactos
desse modelo. A diretora-executiva da Transparência Brasil, Juliana Sakai,
afirmou que as emendas passaram a ser distribuídas de forma pulverizada e sem
conexão com programas estruturados de políticas públicas, ampliando o poder
político dos parlamentares sobre os recursos.
O
debate levou à ampliação de mecanismos de controle. O Supremo Tribunal Federal
determinou novas exigências de rastreabilidade para as chamadas emendas Pix,
enquanto auditorias do Tribunal de Contas da União identificaram problemas como
ausência de planejamento, recursos parados e desvios de finalidade em
transferências analisadas.
A
preocupação também levou ao surgimento da Frente em Defesa do Orçamento
Público, criada para questionar o crescimento das emendas e seus impactos sobre
o planejamento das políticas públicas.
O
problema não está apenas em saber para onde o dinheiro vai. A questão também
envolve quem consegue disputar esses recursos.
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Quem influencia a distribuição dos recursos públicos?
As
emendas parlamentares são apresentadas como instrumentos para atender demandas
locais. Na prática, porém, a distribuição dos recursos costuma acompanhar redes
políticas já consolidadas.
Municípios
maiores, regiões com maior peso eleitoral e grupos com capacidade de
articulação institucional tendem a disputar investimentos em condições
diferentes das encontradas por comunidades tradicionais.
Essa
diferença ajuda a entender por que indígenas e quilombolas aparecem com
frequência entre os grupos mais afetados por carências de infraestrutura, mesmo
em períodos de ampliação dos gastos públicos.
A
própria representação política ajuda a ilustrar essa desigualdade. Nas eleições
de 2022, somente cinco pessoas indígenas foram eleitas para a Câmara dos
Deputados, entre os mais de 500 eleitos. Somente em 2025 o concurso para
diplomatas do Itamaraty passou a reservar vagas para indígenas e quilombolas.
Apesar
disso, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) afirmou que, entre 2024 e 2026, o
número de eleitores que se autodeclaram indígenas aumentou em 68%, um fato que
sugere engajamento eleitoral, avanços na autodeclaração identitária e da
mobilização de comunidades.
Essas
medidas representam avanços institucionais, mas também revelam algo maior: a
presença desses grupos em espaços de decisão continua sendo um processo
relativamente recente.
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O debate racial na desigualdade territorial
Parte
das dificuldades atuais dos territórios indígenas e quilombolas está
relacionada à concentração fundiária, o avanço do agronegócio sobre os
territórios, à mineração, à escravidão e à exclusão política que marcaram a
formação do país.
O
debate sobre desigualdade econômica mostra que a concentração de riqueza no
Brasil envolve não apenas renda, mas também acesso à terra, patrimônio,
crédito, educação e oportunidades.
Em
2025, dados da Oxfam afirmaram que 63% da riqueza brasileira estavam
concentrados nas mãos de apenas 1% da população em 2025, enquanto os 50% mais
pobres detinham apenas 2% do patrimônio nacional.
O
racismo estrutural também aparece como parte dessa discussão. Com a abolição da
escravidão, a população não foi acompanhada por políticas de integração,
distribuição de terras ou inclusão econômica, o que perpetuou desigualdades que
continuam influenciando acesso à renda, educação e representação política
O
debate sobre colorismo acrescenta outra camada ao problema ao mostrar como a
hierarquização racial também opera dentro dos próprios grupos racializados,
produzindo diferentes níveis de exclusão social.
Quando
esses fatores se combinam ao isolamento geográfico de muitos territórios
tradicionais, o resultado costuma aparecer na dificuldade de acesso a políticas
públicas.
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O acesso às políticas públicas continua desigual
A
exclusão orçamentária produz consequências práticas em áreas como saúde,
educação e infraestrutura.
Em
2026, o Ministério da Saúde lançou o Programa Nacional de Saneamento Indígena,
com investimento de R$ 187 milhões voltado para abastecimento de água,
esgotamento sanitário e manejo de resíduos sólidos em aldeias.
Na
educação, o Ministério da Educação se posicionou contra a substituição do
ensino presencial por aulas remotas em comunidades indígenas, quilombolas e
ribeirinhas, argumentando que a legislação brasileira prevê educação específica
e diferenciada para esses grupos.
No
Pará, professores, indígenas e quilombolas se mobilizaram contra essas mudanças
que poderiam ampliar a presença do ensino remoto em territórios tradicionais,
na sede da Secretaria Estadual de Educação (Seduc).
Ao
mesmo tempo, o acesso ao conhecimento também continua marcado por
desigualdades.
Entre
2010 e 2025, apenas duas das 323 chamadas públicas do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a principal instituição
pública de fomento à pesquisa científica, tecnológica e de inovação do Brasil,
incluíram diversidade racial como critério de seleção. No mesmo período, mais
de R$10 bilhões foram destinados a editais sem esse recorte, enquanto
iniciativas com critérios de diversidade receberam pouco mais de R$2 milhões.
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Territórios tradicionais seguem disputando direitos básicos
O
contraste entre diferentes prioridades orçamentárias ajuda a ilustrar a
dimensão do problema.
Em
2024, o governo federal anunciou R$58,7 bilhões em investimentos públicos para
transformação digital, além de R$85,7 bilhões previstos pelo setor produtivo
até 2035. Somados a investimentos já realizados, o montante chegou a R$186,6
bilhões destinados a áreas como semicondutores, data centers, computação em
nuvem e infraestrutura tecnológica
O
investimento em inovação possui objetivos econômicos específicos e não concorre
necessariamente com políticas voltadas para povos tradicionais.
Ainda
assim, a comparação ajuda a dimensionar a diferença de escala entre grandes
programas de desenvolvimento econômico e demandas históricas relacionadas à
regularização fundiária, saneamento ou infraestrutura em territórios indígenas
e quilombolas.
A
questão central passa a ser entender como o orçamento define prioridades e
quais grupos conseguem transformar suas demandas em investimentos permanentes.
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Os conflitos causados por grandes empreendimentos em territórios tradicionais
Mesmo
quando recebem reconhecimento formal, muitos territórios continuam enfrentando
disputas. Um estudo realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela
Coordenação Nacional de Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) concluiu
que 98,2% dos territórios quilombolas analisados sofrem algum tipo de pressão
associada a obras de infraestrutura, mineração ou imóveis rurais. Os
pesquisadores destacam que essas áreas estão entre as mais conservadas do país,
mantendo mais de 3,4 milhões de hectares de vegetação nativa.
No
Pará, uma comunidade passou a questionar a instalação de um complexo de aterros
sanitários próximo ao Território Quilombola Menino Jesus. A Defensoria Pública
sustenta que a área utilizada pelo empreendimento está relacionada a uma
disputa fundiária e aponta riscos para comunidades tradicionais localizadas no
entorno.
Os
conflitos também aparecem em escala nacional. Um dos principais espaços onde
essas disputas se tornam visíveis é o Acampamento Terra Livre (ATL),
considerado a maior mobilização indígena do Brasil. Realizado anualmente em
Brasília desde 2004, o encontro reúne lideranças de centenas de povos para
discutir violações de direitos, pressionar os poderes públicos e apresentar
reivindicações relacionadas à demarcação de terras, saúde, educação e proteção
territorial.
As
disputas territoriais passaram a envolver não apenas conflitos fundiários
tradicionais, mas também projetos ligados à mineração, exploração de petróleo,
geração de energia, infraestrutura logística e grandes obras.
O ATL
inclui, em seus debates, a exploração de petróleo, gás e minerais em terras
indígenas, refletindo preocupações que ganharam força diante do avanço de
projetos econômicos em áreas próximas a territórios tradicionais.
Nesse
contexto, a disputa pelo orçamento público se conecta diretamente à disputa
pelo território. Comunidades que ainda lutam pela regularização de suas terras,
pela proteção ambiental ou pela garantia de consulta prévia frequentemente
enfrentam mais dificuldades para acessar investimentos públicos estruturantes.
Enquanto
bilhões de reais circulam por meio de emendas parlamentares e grandes projetos
de desenvolvimento, parte desses territórios continua reivindicando condições
básicas para exercer direitos já previstos na Constituição.
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A proteção dos territórios precisa ser um interesse público
O
debate sobre indígenas e quilombolas costuma aparecer associado a questões
culturais ou fundiárias. Mas esses territórios também desempenham funções
relacionadas à preservação ambiental, à biodiversidade e aos recursos hídricos.
O
Brasil assumiu o compromisso internacional de regularizar e proteger 63 milhões
de hectares de terras indígenas e quilombolas até 2030, como parte de uma
iniciativa global voltada à proteção de territórios tradicionalmente ocupados.
O anúncio colocou o país como responsável pela maior meta territorial entre os
participantes da coalizão internacional.
A
proposta busca acelerar processos de reconhecimento fundiário e ampliar a
proteção jurídica de áreas consideradas importantes para a preservação
ambiental e para os modos de vida de povos tradicionais.
Em
âmbito nacional, o Governo Federal anunciou em 2024 a destinação de 2,3 milhões
de hectares de terras públicas federais para regularização fundiária indígena e
reforma agrária. A medida incluiu áreas administradas pela União e foi
apresentada como parte da retomada de políticas voltadas ao reconhecimento de
territórios historicamente reivindicados por povos indígenas e comunidades
rurais.
A
regularização fundiária é considerada uma etapa importante porque permite
ampliar a segurança jurídica das comunidades e facilita a implementação de
políticas públicas permanentes nos territórios.
Também
em 2024, 58,3 mil hectares de terras públicas foram destinados especificamente
à regularização de territórios quilombolas. O anúncio representou uma das
maiores destinações voltadas exclusivamente para comunidades quilombolas.
A
medida atende uma demanda histórica de grupos que aguardam há décadas pela
conclusão dos processos de titulação de suas terras, condição frequentemente
associada ao acesso mais estável a investimentos públicos, crédito rural,
infraestrutura e programas governamentais.
Os
impactos ambientais também afetam diretamente modos de vida tradicionais.
Artesãos indígenas relataram, durante o ATL, que o avanço do desmatamento e a
redução de aves em determinadas regiões passaram a dificultar a produção de
cocares feitos com penas recolhidas naturalmente dos animais, por exemplo. O
episódio mostra como a preservação ambiental, cultura e território permanecem
conectados.
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O orçamento pode ampliar ou reduzir desigualdades históricas em territórios
indígenas e quilombolas
O fim
formal do Orçamento Secreto não encerrou o debate sobre a distribuição dos
recursos públicos.
A
discussão continua envolvendo transparência, fiscalização e controle social.
Mas ela também levanta outra pergunta: quais grupos conseguem transformar suas
demandas em prioridade orçamentária?
Nos
últimos anos, indígenas e quilombolas registraram avanços em áreas como
regularização fundiária, representação institucional, saneamento e acesso a
políticas públicas.
Ao
mesmo tempo, conflitos territoriais, dificuldades de infraestrutura e
desigualdades históricas continuam presentes em diferentes regiões do país.
Por
isso, o debate sobre orçamento público não se resume a acompanhar cifras ou
investigar irregularidades. Ele também ajuda a entender quem participa da
definição das prioridades do Estado e quais territórios permanecem esperando
investimentos que já chegaram a outras partes do Brasil.
A
discussão sobre indígenas e quilombolas ajuda a revelar uma dimensão pouco
visível do orçamento público: além de definir quanto o Estado arrecada e gasta,
ele também define quais territórios recebem prioridade, quais demandas avançam
mais rapidamente e quais comunidades continuam aguardando investimentos
prometidos há décadas.
Fonte:
ICL Notícias

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