segunda-feira, 22 de junho de 2026

João Filho: Lula não pode passar a mão na cabeça de Jaques Wagner

A fagulha de suspeita que existia em torno da relação do senador Jaques Wagner, do Partido dos Trabalhadores da Bahia, com o escândalo Master se transformou em um vulcão em erupção. São muitos os indícios que justificaram a busca e apreensão nos endereços do petista no âmbito da Operação Compliance da Polícia Federal. Foram encontrados quase meio milhão de reais em dinheiro vivo, entre notas de dólares e euros.

As investigações apontam que o senador se beneficiou de uma série de vantagens econômicas em troca de atuação política em defesa dos interesses do Master no Congresso. Jaques Wagner mantinha uma relação de bastante proximidade com o ex-banqueiro Augusto Lima, apontado como um aliado estratégico de Daniel Vorcaro.

Ganhou ingressos de camarote para shows internacionais, uso de jatinhos particulares para familiares, um apartamento de luxo de R$ 2,5 milhões em Salvador, entre outras mamatas. Em troca, o senador teria colocado o seu mandato para defender emendas do interesse do Banco Master. Até a chamada Emenda Master, criada pelo senador Ciro Nogueira, presidente nacional do partido Progressistas, o PP, para tentar salvar a pele de Daniel Vorcaro, teria contado com o apoio do petista, segundo os investigadores.

<><> Difícil de convencer

Pela primeira vez o governo é arrastado para a lama do Master. E bem arrastado. Jaques Wagner não é uma figura qualquer. É o líder do governo no Senado, ex-chefe da Casa Civil do governo Dilma Rousseff, um homem importante dentro do PT e um amigo bastante próximo do presidente.

O presidente do PT, Edinho Silva, prometeu que o senador iria esclarecer todos os fatos. Mas Jaques Wagner não explicou nada. Negou todas as acusações, contou uma história esquisita sobre o apartamento e disse que o dinheiro vivo é “fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais”. É um papo difícil de convencer até o mais fervoroso militante petista. Pelo o que se viu até aqui, o nível de envolvimento do petista com o caso não é muito diferente do de Ciro Nogueira, por exemplo.

<><> Meteu o louco

Diante do derretimento de Jaques Wagner, Flávio Bolsonaro fez o que sabe fazer de melhor: meteu o louco. Fingiu não ter nada a ver com o Banco Master e comemorou a ação da PF contra o petista. “O PT da Bahia acaba de ser incluído pela Polícia Federal na operação contra o líder do governo do PT no Senado Federal, Jaques Wagner. Isso é um alento de que a impunidade vai ser combatida”, disse o homem que arrancou R$ 61 milhões de Vorcaro para bancar o filme panfletário sobre seu pai “Dark Horse”.

Flávio quer arrastar seu principal adversário na disputa presidencial para o olho do furacão do escândalo, lugar ocupado pelo bolsonarismo. O dano eleitoral à candidatura Lula é real. Foi dada a brecha que Flávio e certos setores da imprensa brasileira precisavam para justificar a tese de que o Master é um  “escândalo suprapartidário”. De qualquer forma, ainda é uma tese que não para em pé.

Por mais que Flávio Bolsonaro se faça de louco, a roubalheira do Banco Master continua sendo um escândalo essencialmente bolsonarista. Ele nasceu e cresceu sob as barbas do governo Bolsonaro e só terminou durante o governo Lula. Não existiria Banco Master se não fosse a anuência de um presidente bolsonarista do Banco Central.

Vorcaro irrigou financeiramente campanhas bolsonaristas — como as de Tarcísio de Freitas e a de Jair Bolsonaro — e despejou muitos milhões em “Dark Horse”, o filme que servirá como peça de campanha de Flávio. Isso na melhor das hipóteses. As suspeitas de que essa grana também está bancando o american dream de Eduardo Bolsonaro são enormes.

<><> Trunfo

Há um lado bom para a candidatura petista nesse avanço das investigações sobre Jaques Wagner. Lula poderá encher o peito durante a campanha para falar que o seu governo não interferiu nos trabalhos da Polícia Federal. Esse é um trunfo que ninguém pode lhe tirar.

A não-interferência em investigações criminais contra políticos é uma marca das gestões presidenciais petistas. Tal fato já foi atestado até mesmo por procuradores da Operação Lava Jato. Essa é uma carta com a qual o bolsonarismo não tem a mínima condição de jogar. Proteger e blindar aliados sempre foi uma prioridade na gestão bolsonarista. O ex-presidente Jair Bolsonaro interferiu em tudo o que pôde para salvar a pele da sua família, principalmente a do próprio Flávio Bolsonaro. Sergio Moro que o diga.

A Polícia Federal do governo Lula bateu à porta do líder do governo no Senado. Isso não é pouca coisa. Deveria ser algo normal, uma obrigação, mas estamos falando de Brasil. De qualquer forma, o presidente precisa fazer mais. Esse super trunfo que ele tem nas mãos perderá força caso ele passe a mão na cabeça do senador.

O desfecho dessa crise depende da coragem política de Lula em decidir se vai carregar o aliado ferido ou se usará o episódio para reforçar a ideia de que seu governo dá liberdade total para as investigações. Se varrer a sujeira para debaixo do tapete, a narrativa do republicanismo perde força.

Não será razoável iniciar a campanha da reeleição tendo no palanque um senador suspeito de integrar a bancada do Master no Congresso. Diante do caminhão de suspeitas nas costas do senador, Lula tem a chance de usar o episódio como o exemplo de que, nas suas gestões, as instituições trabalham com liberdade e ele age com rigor até mesmo contra seus amigos. 

•        Saiba como Jaques Wagner teria atuado em benefício do Banco Master, segundo a PF

A decisão judicial que autorizou cumprimento de mandados contra o senador Jaques Wagner (PT-BA) na manhã desta quinta-feira (18) traz relatos da Polícia Federal que indicam como o senador teria atuado em favor do Banco Master. A ação faz parte da 9ª fase da Operação Compliance Zero.

De acordo com o documento, haveria indícios de atuação parlamentar em temas relacionados à matéria de crédito consignado, em relação ao limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e na tentativa de fiscalização e controle da compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). A ação teria sido em prol também da "Emenda Master", que propunha mudanças no funcionamento do FGC.

A TV Globo procurou a assessoria do senador, mas, até a última atualização desta reportagem, não obteve resposta.

A PF identificou, como contrapartida à atuação de Wagner, a aquisição de um apartamento avaliado em R$ 2,4 milhões. Seria a unidade 1.702 do empreendimento Poème Horto, cujos dados teriam sido repassados diretamente de Wagner para Augusto Lima.

As tratativas teriam seguido mesmo após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, com chamadas de voz, reuniões presenciais, videoconferências e envio de minutas contratuais.

Wagner, que é líder do governo Lula no Senado, teria tratado diretamente com o banqueiro Augusto Ferreira Lima uma proposta para elevar a margem consignável dos salários de trabalhadores regidos pela CLT, para aposentados e pensionistas, além de autorizar para beneficiários do BPC.

O tema virou a emenda n° 30 apresentada à Medida Provisória 1.106/2022, que posteriormente foi convertida em lei.

Também houve, segundo a PF, a articulação para a aprovação da PEC 65/2023, que tinha repercussão sobre o limite de cobertura do FGC. É nessa matéria que Wagner teria atuado em prol da "Emenda Master", apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Teria havido uma sequência de contatos entre Guilherme Sodré, Daniel Vorcaro, o chefe de gabinete do senador e Augusto Lima.

Em 13 de agosto de 2024, quando a emenda n° 11 é incluída, há uma ligação entre Wagner e Lima de 9 minutos e 19 segundos, com o envio, logo depois, do link da emenda. Em 27 de agosto do mesmo ano, após um encontro presencial, Lima teria reencaminhado o link da emenda.

Apesar da descrição das condutas envolvendo a atividade parlamentar, o ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), não acolheu o pedido de buscas e apreensão no gabinete de Jaques Wagner.

A PF havia solicitado, mas a Procuradoria-Geral da República havia se manifestado contra.

"Isso porque a realização de medidas como a ora aventada em dependências situadas na sede de outro Poder reclama fundamentação particularmente rigorosa, apta a demonstrar não apenas a participação do parlamentar nos fatos sob apuração, mas também a existência de elementos indicativos de que, naquele espaço funcional, se encontrem provas indispensáveis à investigação, ou cuja obtenção se revele inviável por outros meios", justificou o ministro.

Também não foi autorizado o cumprimento de medidas em escritórios ligados ao mandato de Wagner.

Em entrevista ao programa Estúdio i, em maio, o senador comentou sua relação com os empresários Daniel Vorcaro e Augusto Lima ao abordar a privatização da rede estadual de supermercados Cesta do Povo, realizada durante o governo de Rui Costa, na Bahia.

Segundo o parlamentar, a Cesta do Povo representava um elevado custo para os cofres públicos. Ele afirmou que a rede estatal de supermercados gerava prejuízos anuais entre R$ 60 milhões e R$ 80 milhões ao governo baiano. De acordo com o senador, duas tentativas de venda foram realizadas por meio de leilões na Bolsa de Valores de São Paulo, em 2016 e 2018, mas não atraíram interessado

O senador relatou no programa que as negociações para a privatização ocorreram com o empresário Augusto Lima, e não com Daniel Vorcaro. Segundo ele, à época não conhecia Vorcaro.

“Nós negociamos com o Augusto Lima, que tinha expertise em cartões de serviço e cartões consignados, vendidos para diversos sindicatos em parceria com um empresário espanhol”, afirmou.

Ele explicou que a venda da rede foi concluída em 2018 e incluiu também o chamado Cartão Cesta. O parlamentar destacou que sua participação no processo se encerrou naquele momento, assim como a do então governador Rui Costa. “Eu bato palma para o que fizemos. Privatizamos o absurdo que era uma rede estatal de supermercados”, declarou na entrevista.

Sobre os desdobramentos posteriores do negócio, o senador afirmou que a gestão passou por outras instituições financeiras. “Daí para frente é com o Banco Máxima, que veio depois, e posteriormente com o Banco Master. Se houve ou não irregularidades, a Polícia Federal está investigando”, disse.

Questionado sobre Daniel Vorcaro, o senador reiterou que não tinha relação com o empresário durante a privatização. Segundo ele, Vorcaro passou a integrar o negócio posteriormente, após a saída do sócio espanhol. De acordo com seu relato, Augusto Lima não possuía capital de giro suficiente para continuar as operações de crédito, o que levou à entrada de Vorcaro no empreendimento.

•        'Você faz parte disso', disse sócio de Vorcaro a Jaques Wagner

Gestor do Banco Master, Augusto Ferreira Lima afirmou ao senador Jaques Wagner (PT-BA) que o petista fazia "parte" do processo de venda do Master ao BRB, o Banco de Brasília. “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!”, disse Augusto a Jaques em mensagem captada pelos investigadores da Operação Compliance Zero.

A operação teve a 9ª fase deflagrada nesta quinta-feira (18), tendo como alvo Jaques Wagner, Augusto Lima e outros investigados. Augusto era sócio do ex-banqueiro Daniel Vorcado, que está preso.

Na decisão judicial do Supremo Tribunal Federal (STF) que embasou a operação desta quinta, Augusto Ferreira Lima é citado como principal interlocutor privado de Jaques Wagner. É descrito como a figura central na entrega de vantagens, coordenando desde o uso de jatos até a operacionalização financeira para a compra do imóvel indicado pelo senador e os repasses para a BN Financeira.

O documento do STF, de autoria do ministro relator André Mendonça, informa:

"Merece destaque a mensagem de 29/03/2025, em que, ao explicar a JAQUES WAGNER os termos da operação de venda do Banco Master ao BRB, AUGUSTO afirmou: 'Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!'. Em juízo perfunctório, a frase indica que JAQUES não seria mero destinatário passivo de informações, mas interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico."

De acordo com balanço da gestão atual do BRB, R$ 30 bilhões foram transacionados com o Master entre 2024 e outubro de 2025. O presidente do BRB à época dos negócios, Paulo Henrique Costa, está preso.

Desse valor, R$ 12,12 bilhões foram alvo de apuração da operação Compliance Zero. E pelo menos R$ 8,8 bilhões eram títulos inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação – na prática, "crédito podre" que pode se transformar em um rombo no patrimônio do banco.

Segundo as investigações, Augusto Lima atuou para que o BRB comprasse as carteiras do Banco Master.

 

Fonte: The Intercept

 

Nenhum comentário: