José
Menezes Gomes: As contradições da bancada BBB
Abordaremos
aqui a relação entre a pauta moral da Bancada evangélica e a coesão de
interesse com a bancada do Boi, Bala e Bancos nas votações no congresso
nacional que impõem crescentes derrotas nas políticas sociais, enquanto
impulsiona a acumulação privada e ameaça até mesmo o direito ao aborto legal de
crianças estupradas. A frase a vida começa na batida do coração tem sido a base
para que fundamentalistas religiosos sejam evangélicos ou católicos
conservadores justifiquem o apoio a aprovação de Decreto Lei que impede o
aborto legal para crianças de até 14 anos.
Curiosamente
grande parte daqueles que são contra o aborto legal, apostando nesta frase são
também aqueles que defendem a redução da maioridade penal e até a pena de
morte, são contra a reforma agrária, são contra o SUS, são contra os direitos
trabalhistas, defendem o trabalho infantil, votam sempre em parlamentares que
votaram a favor da reforma da previdência, são contra os investimentos em
educação, defendem os juros altos e o uso do fundo público para pagar o serviço
da dívida.
Em
outras palavras, defendem que uma criança seja tratada como mãe e o estuprador
como pai. Sabemos que 73% dos abusos e estupros ocorrem entre familiares e
dentro dos lares. Luciana Temer, usando dados do Anuário Brasileiro de
Segurança Pública de 2023, demonstrou que, em 2022, foram registrados 40.659
estupros de menores de 13 anos no país, onde quem é mais estuprada são as
meninas, sendo quatro estupros por hora.1
Sabemos,
também, da grande dificuldade do atual congresso de votar qualquer tema de
interesses da população mais vulnerável, mas no dia 2 de junho em menos de dois
minutos sem tempo para debate foi aprovado um Decreto Legislativo que revoga
uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente
(Conanda) relacionada ao atendimento de crianças e adolescentes vítimas de
violência sexual, nos casos previstos de aborto legal.
O
processo ocorreu de forma simbólica, sem registro nominal dos votos e sem
debates em plenário. Curiosamente a senadora Damares Alves do PL eda bancada
evangélica, foi a relatora desta iniciativa. É bom lembrar que segundo
declaração dela teria sido estuprada por pastores quando criança.2 Por outro
lado, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Brasil tem mais de
5,5 milhões de crianças e adolescentes que não têm o nome do pai no registro de
nascimento. O número equivale a uma taxa onde cerca de 6% a 7% dos bebês nascem
sem a filiação paterna declarada anualmente.3
Por
outro lado, essa mesma senadora assinou em seguida uma proposta de Emenda
Constitucional, para impedir o fim da escala 6 por 1. Em outras palavras, ela
não deseja que uma criança que tenha que criar uma filha possa ter o sábado
para cuidar da filha.
Antes
desta votação a Câmara dos Deputados tinha aprovado no final do mês de maio de
2026, com o placar de 368 votos favoráveis e 96 contrários com uma margem muito
superior aos 308 votos necessários, a chamada PEC das igrejas, que ampliou a
imunidade tributária para entidades religiosas, incluindo até a compra de
helicópteros, que poderá significar uma perda de R$ 7 bilhões de impostos. Tal
fato revela uma conexão direta dentro da bancada BBBB (Banco, Bala, Bíblia e
Boi) onde se reveza os interesses de cada segmento da bancada a cada momento.
Neste
mesmo mês, a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que retoma a redução
dos limites da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, de autoria do
deputado Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL) que interessa diretamente a bancada do
Boi. No mês anterior o congresso Nacional derrubou o veto ao projeto de lei que
diminuiu as penas de pessoas condenadas pelos atos antidemocráticos de 8 de
janeiro de 2023 e pela tentativa de golpe de Estado, como o ex-presidente Jair
Bolsonaro. Na Câmara dos Deputados foram 318 votos contra o veto e 144 a favor
do veto. No Senado, foram 49 votos pela rejeição do veto e 24 contra.
Para
compreendermos a natureza oculta dessa bancada precisamos lembrar que nesta
bancada BBBB temos de um lado o segmento mais rico da população e do outro lado
o mais pobre. Em primeiro lugar, os banqueiros, que muito ganham na compra dos
títulos da dívida pública, na venda de previdência privada, de saúde e educação
privada e da prática de juros extorsivos. Em segundo lugar, os barões do
agronegócio que se beneficiam da Lei Kandir para não pagarem impostos, do uso
ostensivo de agrotóxicos e destruição do meio ambiente, da grilagem e
desmatamento de terras públicas, da contribuição tecnológica da Embrapa, dos
recursos estatais do BNDES para equipamentos e do Banco do Brasil via plano
Safra de R$ 516 bilhões de crédito rural e de constantes negociações e perdão
de suas dívidas.
Em
terceiro lugar, dos deputados vindos das várias esferas policiais da bancada da
Bala, dos fabricantes de armas que defendem o armamento da população, dos
defensores da redução da maioridade penal, dos defensores da privatização dos
presídios e da pena de morte. Neste caso, temos uma iniciativa na Comissão de
Segurança Pública da Câmara aprovada recentemente de projeto que autoriza o uso
do Fundo de Garantia do Tempo de Serviços (FGTS) para comprar armas de fogo no
dia do aniversário.
Temos
ainda as constantes insenções para as igrejas garantindo a imunidade tributária
destas, prevista na Constituição. Essas instituições religiosas, como são
entidades “sem fins lucrativos”, onde as receitas vêm normalmente de doações
espontâneas de caráter voluntário, deixam de pagar: IPTU (Imposto Predial e
Territorial Urbano), IRPJ (Imposto de Renda Pessoa Jurídica), PIS (sobre
faturamento desde que a entidade esteja regular como sem fins lucrativos e
cumpra exigências legais), COFINS (Contribuição para o Financiamento da
Seguridade Social), IPVA (Imposto sobre Veículos Automotores).4 Vale lembrar
que essas instituições religiosas estão disputando espaço para o atendimento à
usuários de drogas no Brasil, especialmente na disputa no âmbito do SUS.
Essa
bancada BBBB apresenta as contradições de classes mais profundas. De um lado
temos os mais ricos, brancos, beneficiados por políticas estatais e suas
renúncias fiscais, pouca densidade populacional com menos de 1% da população
que em tese daria pouco peso eleitoral. Vale lembrar que esse segmento foi
beneficiado com a política de branqueamento via um projeto estatal e ideológico
do Estado brasileiro, desde o Império e consolidado na Primeira República, que
buscava a partir de uma concepção racista de “europeizar” o país.
Do
outro lado, temos os mais pobres, pretos e pardos, com baixa renda, baixa
escolaridade e que ficaram ausentes de políticas públicas desde a proclamação
formal do fim da escravidão e continuam sem políticas sociais suficientes e que
acabam transferindo para os ricos pastores dízimos e ofertas que asseguram vida
prospera aos tradicionais líderes religiosos que chegam de carros de luxo nas
igrejas, cantores gospel que recebem cachês milionários.
Esse
segmento tem origem nos negros e povos originários escravizados por mais de
três séculos que ficaram a margem de política efetiva de reparação. Ao mesmo
tempo, esse segmento empobrecido permite a ascensão social e política de
líderes religiosos que passaram a ter redes de comunicação como rádios,
jornais, TVs e forte atuação nas mídias sociais.
Dentre
esses temos os casos mais ilustrativos deste enriquecimento no setor bancário
de lideranças religiosas como Daniel Vorcaro, que constituiu o Banco Master,
responsável pela maior fraude bancária brasileira. Da mesma forma temos o caso
do Valadão que criou o Banco Clava forte e acabou fechando após os recentes
escândalos. Nesta mesma direção tivemos a constituição do Banco DIGIMAIS, da
Universal, que está próximo de ser liquidado por suspeita de fraude bancária.
Neste
processo de mercantilização da fé temos, também, temos a constituição de uma
bancada evangélica com 146 deputados que é sempre decisiva nas votações que
permitiria a existência de políticas sociais fundamentais para o setor mais
empobrecido da população. Todavia, movida pelas Teologias da prosperidade e do
domínio acaba sendo a base social da bancada política dos mais ricos.
Vale
lembrar que essa Teologia da prosperidade desde o Relatório Rockefeller aos
dias atuais cumpriu um papel decisivo para a expansão das políticas
neoliberais5 e de conter as lutas sociais no continente, antes impulsionadas
pela Teologia da Libertação. Para essa bancada o terror não tem limite.
Primeiro uma criança ter um filho de um parente estuprador. Em segundo lugar,
essa criança não terá infância e nem poderá estudar e se capacitar para ter
independência financeira. Em terceiro, terá que educar o filho (a) sem ter a
participação do pai (estuprador).
Não
tendo fonte de renda acabará precisando da Bolsa Família que a bancada BBBB
condena. Não tendo uma profissão terá que sobreviver com o trabalho doméstico
que por não ter vínculo empregatício vai acabar no futuro dependendo do BPC,
que a bancada BBBB condena. Neste quadro de desamparo ainda poderá se converter
a uma denominação evangélica neopentecostal que ainda vai exigir 10% do seu
reduzido rendimento.
Desta
forma, sem ter emprego efetivo e renda, sem ter acesso a uma política
habitacional acabará numa comunidade onde seus filhos acabaram sem ter acesso à
educação impulsionando um círculo da pobreza que pode levar à marginalização.
Neste momento, a bancada BBBB irá propor a redução da maioridade penal e até a
pena de morte. Com isso a frase que a vida começa quando bate o coração é
convertida pela outra frase: bandido bom é bandido morto, como sempre lembra a
bancada da bala composta pelas várias esferas de parlamentares surgidos entre
os policiais.
Enquanto
do outro lado, a denominações evangélicas crescem a bancada evangélicas se
multiplicam e os problemas sociais são agudizados, enquanto os líderes
milionários compram os carros de luxo mais caros, mansões em Miami, limusines
para irem a igrejas,6 jatinhos e agora helicópteros sem pagar imposto.
Neste
processo de afirmação política da bancada evangélica temos de um lado um
intenso uso de mídias sociais com farta divulgação de notícias falsas para
alimentar as variadas teorias de conspiração, em grande parte elaborada nos
EUA. Todavia, esse movimento tem um roteiro já conhecido.
No
momento, próximo das eleições, a pauta moral é potencializada para garantir a
máxima adesão eleitoral aos membros da bancada BBBB. Depois de eleitos têm
início às articulações para assegurar durante mandato os interesses dos ricos
no uso do fundo público. Essas teologias da prosperidade e do domínio têm
cumprido um papel decisivo na atual polarização quando impulsiona um ódio de
classe errada, fazendo com que os mais atingidos pelas políticas neoliberais
das últimas décadas se tornem agentes da amplificação do neoliberalismo movidos
pela ilusão de prosperidade, enquanto aprofunda o empobrecimento social.
• A eleição que fez o popolo comunista
sonhar. Por Marco Mondaini
Há
exatos 50 anos, em 20 de junho de 1976, a Itália tremeu diante dos resultados
da eleição legislativa responsável pela escolha de 630 deputados e 315
senadores.
Quatro
anos antes, nas eleições nacionais de 1972, o Partido Comunista Italiano (PCI)
havia obtido 27,21% dos votos, um pouco mais de um quarto do eleitorado que foi
às urnas depositar a sua cédula na urna, o que acabou resultando numa bancada
de 179 deputados.
Em
1976, os comunistas italianos avançam, nada mais nada menos, que 7,16%,
ultrapassando, com os 34,37% alcançados, a margem de 1/3 dos votantes e
conquistando 49 cadeiras a mais no parlamento responsável pela formação de um
novo governo – 228 deputados –, além de 116 senadores, 22 a mais que na eleição
anterior.
Entre
1972 e 1976, nas eleições administrativas de 1975, o PCI já havia alcançado
33,4% dos votos, passando os comunistas italianos a governar cidades como Roma,
Milano, Torino, Firenze, Venezia, Napoli, Perugia, Bologna, Genoa, Ancona,
Cagliari, entre outras cidades de porte menor da península com formato de bota.
Além
disso, a separar os 27,21% de junho de 1972 e os 34,37% de junho de 1976,
deu-se outra grande conquista dos comunistas italianos – o apoio vitorioso à
manutenção da lei que regulamentava o divórcio no território italiano, por meio
de um referendo no qual o sim obteve 54% dos votos, batendo a Democracia Cristã
que empenhou todas as suas forças para que o não saísse vitorioso.
O
crescimento eleitoral do Partido Comunista Italiano era indiscutível e gerou a
esperança no popolo comunista de que, em breve, finalmente, o PCI ultrapassaria
a Democracia Cristã – isso, não obstante o fato da DC ter se mantido à frente,
nas eleições de junho de 1976, com 38,71% dos votos e 262 assentos na Câmara
dos Deputados.
É certo
que aqueles tempos eram de Guerra Fria e o salto adiante dos comunistas
italianos não seria ignorado pelo conjunto de forças sociais e políticas,
nacionais e internacionais, que não aceitariam, sob nenhuma hipótese, um
governo italiano com a participação de comunistas, muito menos liderado por um
primeiro-ministro rosso.
Entretanto,
naquele verão italiano, o “otimismo da vontade” superava em muito o “pessimismo
da razão”: a vitória do PCI sobre a DC (tal qual no referendo sobre a lei do
divórcio) era uma questão de tempo e de mais engajamento político.
Nem o
“banho de água fria” resultante da formação de um governo “puro-sangue” da
Democracia Cristã encabeçado por Giulio Andreotti, que entrou para a história
como o “governo das abstenções” (governo em que, ao invés de votarem contra ou
a favor da sua formação, os parlamentares comunistas se abstiveram), foi capaz
de abalar a confiança do popolo comunista de que “a história estava do lado do
partido de Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti”.
À
época, as bases do PCI tinham plena confiança na direção dada ao partido pelo
seu secretário-geral Enrico Berlinguer, apesar da desconfiança permanente em
relação à estratégia do “compromisso histórico” com a Democracia Cristã,
formulada logo após o Golpe de Estado contra Salvador Allende no Chile, em 11
de setembro de 1973.
No
plano internacional, o avanço eleitoral do PCI impulsionou Enrico Berlinguer a
esticar a corda da relação com os soviéticos, sem nunca a romper por completo,
é claro. Assim, legitimado pela força das urnas, é que o discípulo de Palmiro
Togliatti comparece às comemorações dos 60 anos da Revolução Russa de 1917 e
faz o célebre discurso, que desagradou por completo a Nomenklatura soviética e
dos demais partidos comunistas presentes à solenidade: o discurso em defesa do
valor universal da democracia.
Como já
tive ocasião de dizer em outro momento, “para a quase totalidade dos presentes
à celebração dos 60 anos da Revolução de Outubro de 1917, a defesa da
democracia como valor universal, das liberdades pessoais e coletivas, do
caráter não ideológico do Estado e do pluralismo na vida social, cultural e
ideal como fundamentos de uma nova e original sociedade socialista a ser
construída, representavam um conjunto de princípios contrários ao sistema
socialista efetivamente em funcionamento, bem como destoantes da concepção
marxista-leninista que embasava teoricamente tal sistema”.
Se, por
um lado, no plano internacional, a eleição de 20 de junho de 1976 resultou no
fortalecimento das posições assumidas pelos comunistas italianos, desde a
repressão soviética à Primavera de Praga em agosto de 1968, de externalizar o
dissenso em relação ao caráter despótico do regime socialista na União
Soviética, por outro lado, no plano interno, as ações terroristas de extrema
direita e de extrema esquerda fechavam o cerco em torno da possibilidade da
entrada do Partido Comunista Italiano numa eventual maioria de governo que –
bem ou mal – concretizasse a estratégia do “compromisso histórico” com a
Democracia Cristã.
E,
assim, se chega ao trágico acontecimento que selou definitivamente o destino da
política dos comunistas italianos na década de 1970, fazendo com que o sonho do
popolo comunista se desfizesse, passados menos de dois anos do seu início em 20
de junho de 1976: o sequestro, com o assassinato de toda a sua escolta, do
deputado democrata-cristão Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas (em 16 de março
de 1978) e a localização do seu cadáver crivado de balas dentro de uma Renault
vermelha (em 9 de maio de 1978), a meio caminho das sedes históricas do PCI, na
via delle Bottegue Oscure, e da DC, na Piazza Del Gesù.
Na
política, os sonhos costumam ter prazo de validade. Eles surgem, geram um
sentimento arrebatador de esperança e vão se esvaindo, mais ou menos
rapidamente, para numa outra conjuntura ressurgirem das cinzas com mais ou
menos entusiasmo.
A
história do comunismo italiano teve vários desses momentos de encantamento e
desencantamento. Mas até a dissolução do PCI, em fevereiro de 1991, o popolo
comunista viveu seus sonhos intensamente, a começar pelo Biennio Rosso
(1919-1920), antes mesmo da sua fundação em 1921, e pela Libertação da Itália
do fascismo, em 25 de abril de 1945, em grande medida devido às lutas dos
partigiani na Resistência.
O sonho
resultante dos 34,37% de votos alcançados pelos comunistas italianos 50 anos
atrás, em 20 de junho de 1976, se distinguem dos demais por ter sido resultado
de eleições livres e democráticas, mas nem por isso vividos com menos
intensidade e vigor.
Fonte:
A Terra é Redonda

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