Há
100 anos, Brasil desafiou potências por vaga permanente na Liga das Nações,
antecessora da ONU
Muito
antes da atual e persistente campanha para ocupar um assento permanente no
Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, o Brasil já travou uma
batalha parecida na Liga das Nações, a entidade que antecedeu a ONU.
Há
exatos cem anos, o desejo obstinado de se tornar membro permanente do Conselho
Executivo da Liga das Nações levou o Brasil a um dos atos mais ousados de sua
história diplomática, que paralisou a organização.
O que o
governo do presidente Artur Bernardes fez foi vetar a entrada da Alemanha
justamente na condição de membro permanente. Se os alemães fossem admitidos, o
sonho brasileiro estaria enterrado. O país tinha poder de veto por ser membro
temporário do Conselho Executivo.
A
medida foi ousada porque o Brasil, apesar da posição periférica no tabuleiro
internacional e da limitada força econômica e militar, contrariou diretamente
os interesses de gigantes como Grã-Bretanha e França, que queriam a admissão da
Alemanha.
A Liga
das Nações (ou Sociedade das Nações) havia sido criada pouco tempo antes, em
1919, logo após a carnificina da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com a
missão de impedir novos conflitos armados e, assim, garantir a “paz universal”.
O Brasil foi um dos fundadores da organização.
O veto
à Alemanha foi anunciado por diplomatas brasileiros numa assembleia
extraordinária na sede da entidade, em Genebra, em 17 de março de 1926. Dadas
as esperanças depositadas na Liga das Nações, a paralisia provocada pelo Brasil
deixou o mundo apreensivo por algumas semanas.
As
atividades na Suíça só voltaram à normalidade após uma decisão drástica. Em 12
de junho, isolado, o Brasil anunciou que não faria mais parte da Liga das
Nações. A medida foi tomada para evitar a humilhação de o país ser removido da
cadeira provisória pelas potências. Até ser fechada, em 1946, a liga nunca mais
teve a presença do Brasil.
Documentos
da época guardados hoje no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que os
senadores se envolveram apaixonadamente na questão.
Numa
sessão do Congresso Nacional às vésperas da saída do país, o deputado Azevedo
Lima (DF), um dos fundadores do Partido Socialista do Brasil, disse que a crise
foi provocada pela “inépcia internacional do senhor Artur Bernardes”:
— O
Brasil representou um imensamente ridículo papel pleiteando a honra de
sentar-se ao lado das grandes potências, participar das intrigas
internacionais, servir à burguesia exploradora do trabalho e conspirar contra a
tranquilidade universal em nome dos suspeitos princípios de paz que orientam os
trabalhos da Liga das Nações.
Consumada
a saída do Brasil, o senador Antônio Muniz (BA) avaliou que o presidente
Bernardes agiu de forma equivocada:
— O
atual chefe da nação faz uma política internacional altamente nociva aos
interesses nacionais. Além de ter cedido parte do nosso território com o
tratado da Bolívia e estabelecido que o Uruguai exerça atos de soberania no
território nacional, nos levou a sair da Liga das Nações de um modo que não é
nada airoso [digno] para a nossa diplomacia.
Indo na
direção oposta, o senador Antônio Azeredo (MT) afirmou que o Brasil merecia,
sim, o título de membro permanente:
— O
nosso país é possuidor de uma população de 35 milhões de habitantes e um
território fertilíssimo, maior do que a Inglaterra europeia, a França, a
Alemanha, a Itália, a Espanha, a Holanda e a Dinamarca reunidas. Por que não
ser um membro permanente nessa gloriosa sociedade criada exclusivamente para
garantir e defender os interesses supremos da humanidade?
Azeredo
esclareceu que a Alemanha não deveria interpretar o veto como um ato de
hostilidade e que o Brasil continuava considerando o povo alemão “amigo e
colaborador do nosso progresso”. Ele explicou:
— Foi
um ato de defesa dos nossos interesses, ou melhor, do nosso amor próprio,
porque, muito antes de esse grande país [Alemanha] pretender associar-se à Liga
das Nações, já pleiteávamos o lugar de membro permanente, tendo disso
conhecimento outros governos, que nos aconselhavam a aguardar o momento
oportuno.
No
momento da crise de 1926, 55 países faziam parte da Liga das Nações. Desses, 10
compunham o seu Conselho Executivo — quatro permanentes e seis temporários.
Os
membros permanentes eram a Grã-Bretanha, a França, a Itália e o Japão — grandes
potências que haviam vencido a Primeira Guerra Mundial. O Brasil, por sua vez,
era membro temporário desde a fundação da liga, reeleito ano após ano.
O
poderoso Conselho Executivo era o centro das decisões da Liga das Nações,
encarregado de elaborar planos para desarmar o mundo e traçar medidas de defesa
coletiva como resposta a agressões aos países-membros.
O
presidente Artur Bernardes e seu ministro das Relações Exteriores, Félix
Pacheco, estavam tão empenhados em incluir o Brasil naquele seleto clube de
potências que, em 1924, o governo enviou ao Congresso Nacional uma proposta de
criação de uma representação diplomática permanente na Liga das Nações.
Os
senadores e deputados aprovaram a proposta, e o diplomata escolhido para as
negociações em Genebra para a inclusão do Brasil foi Afrânio de Melo Franco.
Essa
não foi a primeira vez que o Congresso votou um tema relacionado à Liga das
Nações. Qualquer alteração feita no pacto original da organização tinha que ser
validada pelo Parlamento, por envolver compromissos de soberania nacional.
Uma das
alterações foi a criação da Corte Permanente de Justiça Internacional,
encarregada de resolver litígios entre países de forma arbitral ou judicial. O
Congresso brasileiro aprovou o estatuto do tribunal em 1921.
Entre
as personalidades brasileiras que a Liga das Nações escolheu para juízes da
corte figuraram o ex-presidente Epitácio Pessoa e o senador Rui Barbosa (BA).
O
senador Félix Pacheco (PI), antes de ser ministro e protagonista da saída do
Brasil da liga, ficou emocionado com a eleição do colega baiano e discursou:
— Os 38
votos dados espontaneamente a Rui Barbosa no escrutínio em Genebra representam
uma vitória tão imensurável e tão sem paralelo na vida diplomática da
totalidade dos países do globo que não há no Brasil quem não sinta a estas
horas o coração desbordando de júbilo e de ufania.
Em tom
exagerado, ele disse que a eleição colocava Rui acima não apenas dos demais
juízes da corte, mas de todos os reis e presidentes do mundo.
— A
investidura que recebeu não lhe veio de nenhum deles [reis ou presidentes]
isoladamente nem de um povo só, mas da unanimidade dos povos — explicou.
O
senador, contudo, não chegou a assumir a posição na Corte Permanente de Justiça
Internacional por causa da idade avançada e de problemas de saúde. Rui morreria
logo em seguida, em 1923, aos 73 anos.
Outro
brasileiro na Liga das Nações foi o médico e cientista Carlos Chagas, famoso
por descobrir a doença que levaria o seu nome. Ele integrou o Comitê de
Higiene, considerado o embrião da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mesmo com
a saída do Brasil da liga, Chagas permaneceu no comitê, como especialista
independente, dado o seu prestígio internacional.
Durante
a crise, a Grã-Bretanha e a França acionaram seus embaixadores no Rio de
Janeiro para tentar convencer o governo Artur Bernardes a recuar no veto à
Alemanha. O Brasil estava irredutível.
O
principal argumento do país em busca da vaga permanente foi o de que as
Américas precisavam de pelo menos um representante permanente no Conselho
Executivo. Embora a Liga das Nações tenha sido idealizada pelo presidente
Woodrow Wilson, os Estados Unidos não se associaram porque o Congresso
americano optou pelo isolacionismo e não ratificou o tratado de criação da
organização.
Na
mensagem presidencial enviada ao Congresso no início de 1926, Artur Bernardes
escreveu:
“Aceitamos
a Liga das Nações como o esboço dos Estados Unidos do Mundo. Dessa convicção
decorre para a América a necessidade de estar convenientemente representada nas
várias esferas do seu Conselho Executivo”.
Em
outro trecho da mensagem, o presidente acusou as potências de insistirem nos
pactos secretos que levaram à Primeira Guerra Mundial, em vez de se adaptarem à
nova ordem internacional que a liga prometia consolidar:
“A
nossa pretensão chocou-se com oposições inesperadas e intransigentes, que se
julgaram dispensadas de justificar-se. Fortalecido pelo apoio unânime da nação,
o governo [do Brasil] manteve o seu conhecido ponto de vista, em homenagem à
própria liga, que perderia de interesse no dia em que se visse sotoposta aos
pactos secretos, modalidade mais recente dos antigos tratados de aliança, que
se mostraram contraproducentes para a preservação da paz”.
O
senador Antônio Azeredo avaliou que a inclusão da Alemanha não poderia ser
aprovada porque havia sido acertada pelas potências europeias fora da Liga das
Nações, no Tratado de Locarno, sem consulta aos membros temporários do Conselho
Executivo, que também tinham poder de veto.
— A
Liga das Nações é uma sociedade que interessa o mundo inteiro, e não somente a
Europa. A obra política de Locarno, que é incontestavelmente um tratado
regional, não pode, a despeito de sua grande importância, interessar da mesma
maneira as nações de outros continentes nem influir decisoriamente na Liga das
Nações. O Tratado de Locarno não podia impor suas deliberações ao Supremo
Conselho da liga — criticou.
Na
época, ganhou força a interpretação de que Artur Bernardes insistiu tanto na
ofensiva diplomática por causa da grande oposição política que sofria dentro do
Brasil. O político José Carlos de Macedo Soares, adversário do governo,
publicou em 1927 o livro O Brasil e a Sociedade das Nações, em que acusou
Bernardes de fabricar essa cruzada patriótica apenas com o intuito de angariar
o apoio da população.
O
diplomata e historiador Eugênio Garcia, autor do livro O Brasil e a Liga das
Nações: vencer ou não perder, considera fraco o argumento. Ele entende que a
busca por apoio popular pode até ter sido levada em conta, mas não foi
determinante, já que a campanha pelo assento permanente existia desde 1923 e
era um objetivo genuíno de política externa.
Garcia
aponta uma contradição nos discursos de Bernardes durante a campanha e depois
da saída da Liga das Nações:
—
Primeiro, insistia em ser membro permanente porque considerava a Liga das
Nações imprescindível para o mundo. Mas, quando não conseguiu, passou a dizer
que não servia para nada, a não ser para atender aos interesses europeus. Essa
mudança de discurso não escapou aos olhos dos opositores, que acusaram o
governo de ter duas caras, ora exaltando a liga como um espaço de idealistas
comprometidos com a paz, ora desqualificando-a por completo.
A Liga
das Nações logo começou a definhar. Admitida no Conselho Executivo após a saída
do Brasil, a Alemanha abandonou a organização em 1933, depois da chegada do
nazismo ao poder. A Itália fascista saiu em 1937. O fracasso ficou ainda mais
evidente em 1939, quando não conseguiu impedir a deflagração da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945). Após o fim do conflito, a liga foi extinta. Em seu lugar,
criou-se a ONU.
O atual
Conselho de Segurança da ONU equivale, com algumas diferenças, ao antigo
Conselho Executivo da Liga das Nações. Desde 2003, no primeiro governo do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil pleiteia um assento permanente
no conselho da ONU, para juntar-se ao chamado P5 — Estados Unidos,
Grã-Bretanha, França, Rússia e China, países vitoriosos na Segunda Guerra
Mundial. Existem ainda dez países com assento temporário, mas apenas o P5 tem
poder de veto.
A
professora Norma Breda dos Santos, que atua no Instituto de Relações
Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e tem estudos sobre a Liga das
Nações, diz que o pleito do Brasil na ONU é legítimo e faz parte do jogo
diplomático:
—
Lembro que, anos atrás, praticamente toda autoridade estrangeira que
desembarcava aqui, fosse presidente, fosse ministro, fazia questão de declarar
apoio à candidatura do Brasil. Mesmo
sendo pequenas as chances de sucesso, a própria manutenção da candidatura é uma
ferramenta útil para projetar-se internacionalmente e manter-se em evidência na
agenda diplomática global.
De
acordo com ela, o sucesso é praticamente impossível porque esbarra na lógica da
manutenção do poder, que já existia em 1926 e permanece ainda hoje:
— Nas
organizações internacionais, reforçam-se as hierarquias já existentes. Aceitar
a entrada de um novo membro permanente no Conselho de Segurança significaria
diluir o poder das cinco grandes potências. Elas não abrem mão do seu
monopólio. A resistência não é ao Brasil especificamente. Qualquer país que
entrasse afetaria essa hierarquia dentro da ONU.
Eugênio
Garcia enxerga nos dois casos um curioso comportamento do Brasil no cenário
internacional:
—
Existe uma oscilação contraditória na nossa mentalidade diplomática, que vai do
excesso de autocrítica à forte ambição de ser uma potência. O complexo de
vira-lata convive com a crença arraigada de que o país está destinado a grandes
coisas por causa do seu amplo território e da sua imensa população.
O
diplomata e historiador afirma que pleitear um assento permanente em uma
organização internacional exige realismo e estratégia. Para ele, a candidatura
não pode ser tratada como mera questão de prestígio:
— É
preciso clareza de objetivos, saber para que serve o conselho, o papel de um
membro permanente e, sobretudo, por que o país deseja essa posição. Na década
de 1920, o Brasil errou a mão e investiu pesadamente sem avaliar a viabilidade
política nem ler corretamente o contexto. A falta de uma meta clara levou à
frustração e, por fim, à saída abrupta da Liga das Nações.
Garcia
diz que, ao contrário do que aconteceu em 1926, o Brasil hoje não se atreveria
a abandonar a ONU, porque a organização tem mais influência que a Liga das
Nações e o contexto internacional é diferente daquele do passado.
—
Ninguém sai da ONU hoje porque só teria a perder, já que se trata da principal
organização internacional existente. Uma decisão assim traria isolamento e alto
custo político, com consequências severas e desvantajosas — acrescenta.
A
professora Norma dos Santos explica que, por muito tempo, a Liga das Nações foi
considerada um fiasco total, mas aponta que estudos históricos produzidos nas
últimas três décadas reavaliaram essa visão e mostraram que a organização teve,
sim, sucessos, especialmente fora da esfera militar. Ela enumera:
—
Embora limitada na segurança coletiva, a Liga das Nações obteve avanços
significativos na área humanitária, na saúde e na cooperação internacional.
Tratou pioneiramente das minorias e dos refugiados. Pelo sistema de mandatos,
impôs regras que buscaram diminuir o poder das potências mandatárias sobre as
antigas colônias dos países que perderam a Primeira Guerra. Sua estrutura
serviu de modelo direto para a criação da ONU.
Fonte:
Por Ricardo Westin – Agência Senado

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