segunda-feira, 22 de junho de 2026

Avanço sem abrir mão da soberania: o que a nova fábrica de mísseis da SIATT representa para o Brasil?

Em meio ao avanço dos investimentos globais em defesa e ao aumento das tensões geopolíticas, o Brasil está aumentando sua Base Industrial de Defesa graças a parcerias externas.

Em entrevista à Exame, Rodrigo Torres, diretor financeiro do EDGE Group, multinacional emiradense que possui 50% da SIATT, empresa brasileira de tecnologia de defesa, afirmou que o grupo vai ampliar sua capacidade de produção até o fim do ano, com a inauguração da maior fábrica de mísseis da América Latina, em Caçapava (SP).

Com foco no atendimento a demandas das forças armadas brasileiras e do exterior, um dos principais produtos será o Míssil Antinavio Nacional de Superfície (MANSUP), desenvolvido para a Marinha do Brasil como um dos programas estratégicos da indústria nacional de defesa; e o MANSUP-ER, versão de maior alcance que pode ser utilizada em diferentes plataformas militares.

Com alto índice de nacionalização, o armamento busca reduzir a dependência de componentes estrangeiros e ampliar a autonomia tecnológica brasileira.

À Sputnik Brasil, o professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) Rubens de Siqueira Duarte explica que a parceria entre a SIATT e o EDGE se encaixa na estratégia de diversificação de parceiros do Brasil em defesa, em especial com países que não são tradicionalmente alinhados à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Outros exemplos são as duas joias da aviação militar brasileira, o caça F-39E/F Gripen e o cargueiro KC-390. A aeronave de transporte é fruto de cooperação com vários países, muitos deles fora da OTAN, e o acordo com a sueca Saab para o desenvolvimento do Gripen ocorreu quando Estocolmo ainda não fazia parte da OTAN.

Para Paulo Henrique Montini, pesquisador do grupo de pesquisa Estatística Aplicada e Computacional do Departamento de Estatística da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), esse tipo de cooperação fortalece a indústria de defesa brasileira, permitindo acesso a recursos e tecnologia sem abrir mão do controle sobre áreas estratégicas.

Segundo Montini, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Conflitos, Estratégia e Inteligência da ECEME, a independência completa em defesa envolveria custos elevados e grandes desafios para acompanhar a fronteira tecnológica mundial. Por isso parcerias do tipo são importantes. "Áreas sensíveis, como as que o Brasil possui, não podem ser simplesmente compradas por qualquer um no mercado hoje."

"O que se deve fazer é a cooperação com vistas a não perdermos o controle dessas tecnologias críticas, enquanto se abre o Brasil para participar das cadeias globais de fornecimento, com vistas a captar recursos para financiar nossa indústria de defesa."

Para além de resultados no âmbito militar, investimentos na defesa geram impactos em diferentes setores da economia, e muitas vezes é nesse lado civil que as empresas devem se apoiar. Foi o caso da Embraer, que superou desafios em seu caixa ao desenvolver produtos para a aviação civil.

No caso da SIATT, Montini avalia que a empresa pode exercer papel semelhante ao criar os chamados "efeitos de transbordamento tecnológico", em especial para mercados de alta tecnologia, como o aeroespacial.

"Ela pode produzir produtos como sensores, inteligência artificial, eletrônica embarcada, navegação, telecomunicações."

Dessa forma, parcerias internacionais podem ajudar a manter conhecimento e capacidade produtiva no país, desde que acompanhadas por políticas públicas de incentivo à inovação, como programas de pesquisa, bolsas de estudo e apoio à criação de startups.

Duarte, que também é coordenador do Laboratório de Análise Política Mundial (Labmundo), compartilha à Sputnik Brasil uma visão semelhante.

Para ele, enquanto a nova fábrica é um grande passo para o Brasil, até mesmo em termos geopolíticos, dado o acirramento das tensões mundiais, é preciso acompanhar ações do tipo com investimentos na reindustrialização do país, com foco específico em pesquisa e tecnologia de ponta, assim como uma recuperação do ensino público universal.

"Essas medidas estruturantes são necessárias para evitar que o investimento na Base Industrial de Defesa não seja perdido no médio ou longo prazos."

<><> 'Misantropia': sistema da Defesa Civil é invadido e dispara mensagem falsa em regiões do Brasil

Uma mensagem falsa atribuída à Defesa Civil surpreendeu moradores de diferentes regiões do Brasil, após ser enviada por meio do sistema Cell Broadcast, utilizado para a emissão de alertas de emergência

O aviso, identificado como um "alerta extremo", continha apenas a palavra "misantropia" e foi recebido por usuários em estados como Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Bahia e no Distrito Federal.

O primeiro alerta falso foi registrado por volta das 23h45, no Paraná, e rapidamente se tornou assunto nas redes sociais e em grupos de mensagens, devido ao forte sinal sonoro emitido pelos aparelhos celulares e à ausência de qualquer informação sobre desastres naturais ou outras situações de risco.

Segundo relatos de moradores, a notificação fazia referência à Defesa Civil, mas não trazia detalhes sobre chuvas, temporais, alagamentos ou qualquer outro evento severo. Posteriormente, autoridades confirmaram que a mensagem não partiu dos órgãos oficiais.

Em nota, o governo do Paraná afirmou que o alerta "não saiu da Defesa Civil do Paraná" e informou que o órgão acionou a Defesa Civil Nacional e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para investigar o ocorrido.

"Não há nenhum evento severo previsto para Curitiba", destacou o comunicado. Em fevereiro deste ano, um episódio semelhante já havia causado preocupação entre moradores do Paraná, após outro aviso falso ser disparado pelo sistema.

O que significa 'misantropia'?

A palavra que apareceu na notificação se refere a um sentimento de aversão, desconfiança ou visão negativa em relação à humanidade. Na literatura acadêmica, o conceito também é associado à percepção de que os seres humanos seriam pouco confiáveis, injustos ou guiados predominantemente pelos próprios interesses.

¨      Brasil às vésperas do 'boom': terras raras tornariam país líder da economia verde mundial, diz mídia

Os metais de terras raras do Brasil têm o potencial de transformar a trajetória econômica do país e elevá-lo ao patamar das nações mais prósperas do mundo, escreve o jornal brasileiro Estado de Minas.

O jornal salienta que o avanço da cadeia de terras raras no Brasil tende a interiorizar a produção, gerando infraestrutura, serviços e arrecadação, e transformando municípios do interior em novos polos econômicos.

"Em 2026, as terras raras deixam de ser apenas um tema técnico e passam a ocupar um papel central na agenda econômica e estratégica do Brasil, em um cenário de transição energética, digitalização acelerada e busca por cadeias de suprimentos mais seguras, trazendo para o debate nacional questões de política industrial, soberania tecnológica e oportunidades de reposicionamento do país na economia verde e na indústria digital", destaca a publicação.

Segundo a matéria, a expansão da cadeia produtiva de terras raras no Brasil aumenta a demanda por profissionais especializados e cria oportunidades para a criação de polos de inovação voltados para a Indústria 4.0 e para a economia verde.

Esses elementos são fundamentais para a digitalização e a transição energética, pois estão presentes em motores eficientes, turbinas eólicas, veículos elétricos e infraestrutura de TI. Por isso, a diversificação de fornecedores se tornou uma prioridade global.

Portanto, o Brasil pode se tornar relevante em setores críticos, como os de defesa, espaço e energia limpa, desde que enfrente os desafios ambientais do refino e da gestão de rejeitos por meio de processos mais sustentáveis e com maior controle.

A verticalização da produção e a recuperação de materiais reciclados aumentam o valor agregado nacional e favorecem um modelo circular. No entanto, o Brasil ainda depende do exterior nas etapas mais avançadas de beneficiamento.

Para superar essa dependência, é essencial investir em pesquisa, na formação de mão de obra e em políticas públicas, aproveitando a janela de oportunidade antes que o mercado global se consolide sem a participação do Brasil, conclui a reportagem.

Anteriormente, a professora aposentada da Universidade de Brasília, Maria Luiza Falcão Silva, afirmou que por ser detentor do segundo maior volume de metais de terras raras do mundo, o Brasil deve declarar suas posições de forma mais firme e ousada no palco internacional.

Em artigo publicado no Brasil 247, a professora defendeu que com o aumento da importância das terras raras na economia moderna, o Brasil deve agir como protagonista em igualdade de condições com as demais potências mundiais.

¨      Minerais críticos: Do Congo ao Chile, economia verde quer “salvar o planeta” explorando o Sul Global

Enquanto o mundo acelera para as energias limpas, os minerais críticos – lítio, cobalto, grafite, níquel e cobre – tornaram-se o petróleo do século XXI e transformam o comércio global, afirma um novo informe da entidade ONU Comércio e Desenvolvimento (Unctad).

A demanda de lítio crescerá mais de 350% até 2040, enquanto a de grafite superará 130%. Neste contexto de febre extrativista, desencadeou-se uma autêntica corrida diplomática: 73 acordos e associações internacionais surgiram em matéria de minerais críticos, dos quais 58 foram assinados depois de 2022.

Os minerais críticos são utilizados na produção de baterias e armazenamento elétrico -fundamental com o auge dos veículos elétricos -, aços especiais, superligas, eletrodos e peças de eletrônica, computadores e celulares.

Só em 2023 o comércio mundial destes minerais críticos superou os 2,5 trilhões (milhões de milhões) de dólares, e a demanda continua aumentando.

Em seu informe de Atualização sobre o Comércio Mundial, deste mês de junho, a Unctad (antes denominada Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) esboça um panorama de oportunidades históricas e ao mesmo tempo de riscos profundos para os países em desenvolvimento.

“Não podemos repetir os erros do passado com uma exploração sistemática dos países em desenvolvimento reduzidos à produção de matérias primas básicas”: - Rebeca Grynspan.

Estes países possuem a maior parte das reservas mundiais de minerais críticos – a África concentra 25% do total -, mas a história se repete: a grande maioria continua presa ao papel de meros extratores de matéria prima, enquanto a riqueza real é gerada nas usinas de processamento de uns poucos países.

O informe indica que a oferta de minerais críticos continua altamente concentrada. Em 2025, a República Democrática do Congo acaparou 74% da produção mundial de cobalto. A China produziu 78% do grafite natural. Austrália, Chile e China, juntos, produziram mais de 70% do lítio.

Mas a assimetria mais chocante se dá na refinação e no processamento, que é onde realmente se cria valor. Aí, a China desempenha um papel dominante no refino de vários minerais críticos, e a Indonésia já representa 43% da capacidade mundial de refino de níquel.

O desafio, insiste o informe, é que os países em desenvolvimento, ricos em minerais, continuam exportando matérias primas, enquanto o processamento e a fabricação de maior valor ocorrem em outras latitudes.

Assim, o auge dos minerais críticos pode ser uma benção para o desenvolvimento ou uma maldição mais. Os países com grandes reservas enfrentam o mesmo dilema histórico: como evitar ser meros exportadores de pedras, diz a Unctad.

O documento expõe um encontro da secretária geral da Unctad, Rebeca Grynspan, que na 16ª. conferência da entidade em outubro passado afirmou: “Não podemos repetir os erros do passado com uma exploração sistemática dos países em desenvolvimento reduzidos à produção de matérias primas básicas”.

A esse respeito, a Unctad expõe que um caminho possível está em seu “Informe de Madagascar”, em que analisa as possibilidades de agregar valor e diversificar a cadeia de valor nos minerais críticos que este país africano produz.

Madagascar – a quarta maior ilha do mundo – poderia criar pelo menos 20.000 empregos e desbloquear novas oportunidades industriais expandindo o valor agregado e diversificando mais, além da exportação de minerais em bruto.

As mulheres representariam 52% do emprego direto nos setores prioritários, especialmente na confecção têxtil e na indústria alimentícia.

Frente a este cenário de alta concentração e risco geopolítico, muitos governos passaram da retórica à ação, afirmou a Unctad depois de identificar 73 acordos e associações internacionais em matéria de minerais críticos, uma cifra que evidencia que o tabuleiro está em movimento.

Estas alianças, que abrangem desde a exploração até a reciclagem, são o sintoma de uma nova realidade: a transição energética não é só um imperativo climático, mas um campo de batalha comercial e de poder.

O informe conclui com uma pergunta inquietante: serão os minerais críticos outra fonte de fragmentação global ou a base de uma cooperação internacional mais resiliente e inclusiva?

¨      Sul Global já salvou o G7 da irrelevância mais de uma vez; veja quais países socorreram o grupo

A relevância do G7 minguou diante da perda demográfica e econômica de seus membros e da incapacidade do grupo de competir com a ascensão de potências médias do Sul Global.

Prova desse declínio é o desdém com que líderes como o presidente estadunidense, Donald Trump, vêm tratando as reuniões do grupo, com participações mornas e, em algumas ocasiões, limitadas. Em 2025, por exemplo, Trump defendeu o retorno da Rússia ao grupo, com a retomada do G8, e deixou a cúpula anual, realizada no Canadá, no segundo dia, antes do encerramento.

Na tentativa de manter alguma relevância, o G7 vem recorrendo a lideranças do Sul Global, principalmente do BRICS, grupo em expansão que hoje detém um contingente populacional, econômico e político muito mais representativo.

Ao contrário do que ocorre no BRICS ou no G20, os países do Sul Global não possuem assento permanente nem poder de decisão formal no G7. Suas contribuições ocorrem principalmente quando são convidados pelos anfitriões das cúpulas. Ainda assim, especialmente na última década, o G7 tem ampliado esses convites porque muitos dos desafios globais atuais, como clima, energia, segurança alimentar e desenvolvimento, dependem diretamente da participação de grandes economias do Sul Global.

A participação desses países é fundamental para moldar o debate em temas como financiamento climático, adaptação às mudanças climáticas, transição energética justa e desenvolvimento sustentável. A Sputnik Brasil preparou uma lista de ocasiões em que o G7 recorreu a participações de países do Sul Global para debater temas que norteiam o cenário geopolítico atual.

<><> Índia

A Índia foi convidada a participar em várias reuniões recentes do G7, incluindo as realizadas no Reino Unido (2021), na Alemanha (2022) e no Japão (2023). Suas contribuições envolveram segurança alimentar, cadeias globais de suprimentos, energia limpa, tecnologia digital e necessidades dos países em desenvolvimento.

<><> Indonésia

Em 2022, a Indonésia participou da cúpula do G7 na Alemanha em discussões sobre recuperação econômica pós-pandemia e cooperação entre economias desenvolvidas e emergentes. Como então presidente do G20, o país teve um importante papel na articulação entre diferentes blocos.

<><> Senegal

Também na cúpula de 2022, o Senegal participou dos debates sobre segurança alimentar global, especialmente devido aos impactos do conflito ucraniano sobre os preços de alimentos e fertilizantes em países africanos.

<><> União Africana

Em 2024, diversos líderes africanos e representantes da União Africana foram convidados a participar da cúpula do G7, realizada na Itália, para discutir desenvolvimento econômico, infraestrutura, migração, energia e segurança alimentar. Essa participação foi considerada uma tentativa de incorporar mais perspectivas do Sul Global às discussões do G7.

<><> Brasil

O Brasil foi convidado para algumas reuniões ampliadas do G7, especialmente para debater preservação ambiental, mudanças climáticas, proteção de florestas tropicais, segurança alimentar e transição energética. Na cúpula de Hiroshima, no Japão, em 2023, o Brasil participou de discussões sobre governança global e desenvolvimento sustentável.

 

Fonte: Sputnik Brasil/IPS

 

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