Avanço
sem abrir mão da soberania: o que a nova fábrica de mísseis da SIATT representa
para o Brasil?
Em meio
ao avanço dos investimentos globais em defesa e ao aumento das tensões
geopolíticas, o Brasil está aumentando sua Base Industrial de Defesa graças a
parcerias externas.
Em entrevista à Exame,
Rodrigo Torres, diretor financeiro do EDGE Group, multinacional emiradense que
possui 50% da SIATT, empresa brasileira de tecnologia de defesa, afirmou que o
grupo vai ampliar sua capacidade de produção até o fim do ano, com a
inauguração da maior fábrica de
mísseis da América Latina, em Caçapava (SP).
Com
foco no atendimento a
demandas das forças armadas
brasileiras e do exterior, um dos principais produtos será o Míssil Antinavio
Nacional de Superfície (MANSUP), desenvolvido para a Marinha do Brasil como um
dos programas estratégicos da indústria nacional de defesa; e o MANSUP-ER,
versão de maior alcance que pode ser utilizada em diferentes plataformas
militares.
Com alto
índice de nacionalização, o armamento busca reduzir a dependência de
componentes estrangeiros e ampliar a autonomia tecnológica brasileira.
À Sputnik
Brasil, o professor do programa de pós-graduação em ciências militares da
Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) Rubens de Siqueira
Duarte explica que a parceria entre a SIATT e o EDGE se encaixa na
estratégia de diversificação de parceiros do Brasil em defesa, em especial com
países que não são tradicionalmente alinhados à Organização do Tratado do
Atlântico Norte (OTAN).
Outros
exemplos são as duas joias da aviação militar brasileira, o
caça F-39E/F Gripen e o cargueiro KC-390. A aeronave de transporte é fruto
de cooperação com vários países, muitos deles fora da OTAN, e o acordo com a
sueca Saab para o desenvolvimento do Gripen ocorreu quando Estocolmo ainda não
fazia parte da OTAN.
Para Paulo
Henrique Montini, pesquisador do grupo de pesquisa Estatística Aplicada e
Computacional do Departamento de Estatística da Universidade Estadual da
Paraíba (UEPB), esse tipo de cooperação fortalece a indústria de defesa
brasileira, permitindo acesso a recursos e tecnologia sem abrir mão do
controle sobre áreas estratégicas.
Segundo
Montini, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Conflitos, Estratégia e
Inteligência da ECEME, a independência completa em defesa envolveria custos
elevados e grandes desafios para acompanhar a fronteira tecnológica mundial.
Por isso parcerias do tipo são importantes. "Áreas sensíveis, como as
que o Brasil possui, não podem ser simplesmente compradas por qualquer um no
mercado hoje."
"O
que se deve fazer é a cooperação com vistas a não perdermos o controle dessas
tecnologias críticas, enquanto se abre o Brasil para participar das cadeias
globais de fornecimento, com vistas a captar recursos para financiar nossa
indústria de defesa."
Para
além de resultados no âmbito militar, investimentos na defesa geram impactos em
diferentes setores da economia, e muitas vezes é nesse lado civil que as
empresas devem se apoiar. Foi o caso da Embraer, que superou desafios em seu
caixa ao desenvolver produtos para a aviação civil.
No caso
da SIATT, Montini avalia que a empresa pode exercer papel semelhante ao criar
os chamados "efeitos de transbordamento tecnológico", em
especial para mercados de alta tecnologia, como o aeroespacial.
"Ela
pode produzir produtos como sensores, inteligência artificial, eletrônica
embarcada, navegação, telecomunicações."
Dessa
forma, parcerias
internacionais podem
ajudar a manter conhecimento e capacidade produtiva no país, desde que
acompanhadas por políticas públicas de incentivo à inovação, como programas de
pesquisa, bolsas de estudo e apoio à criação de startups.
Duarte,
que também é coordenador do Laboratório de Análise Política Mundial (Labmundo),
compartilha à Sputnik Brasil uma visão semelhante.
Para
ele, enquanto a nova fábrica é um grande passo para o Brasil, até mesmo em termos
geopolíticos, dado
o acirramento das tensões mundiais, é preciso acompanhar ações do tipo
com investimentos na reindustrialização do país, com foco específico em
pesquisa e tecnologia de ponta, assim como uma recuperação do ensino público
universal.
"Essas
medidas estruturantes são necessárias para evitar que o investimento na Base
Industrial de Defesa não seja perdido no médio ou longo prazos."
<><>
'Misantropia': sistema da Defesa Civil é invadido e dispara mensagem falsa em
regiões do Brasil
Uma
mensagem falsa atribuída à Defesa Civil surpreendeu moradores de diferentes
regiões do Brasil, após ser enviada por meio do sistema Cell Broadcast,
utilizado para a emissão de alertas de emergência
O
aviso, identificado como um "alerta extremo", continha apenas a
palavra "misantropia" e foi recebido por usuários em estados
como Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Bahia e no
Distrito Federal.
O
primeiro alerta falso foi registrado por volta das 23h45, no Paraná, e
rapidamente se tornou assunto nas redes sociais e em grupos de mensagens,
devido ao forte sinal sonoro emitido pelos aparelhos celulares e à ausência de
qualquer informação sobre desastres naturais
ou outras situações de risco.
Segundo
relatos de moradores, a notificação fazia referência à Defesa Civil, mas não
trazia detalhes sobre chuvas, temporais, alagamentos ou qualquer outro
evento severo. Posteriormente, autoridades confirmaram que a mensagem não
partiu dos órgãos oficiais.
Em
nota, o governo do Paraná afirmou que o alerta "não saiu da Defesa Civil
do Paraná" e informou que o órgão acionou a Defesa Civil Nacional e
a Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel) para investigar o ocorrido.
"Não
há nenhum evento severo previsto para Curitiba", destacou o comunicado. Em
fevereiro deste ano, um episódio semelhante já havia causado preocupação
entre moradores do Paraná, após outro aviso falso ser disparado pelo
sistema.
O que
significa 'misantropia'?
A
palavra que apareceu na notificação se refere a um sentimento de aversão,
desconfiança ou visão negativa em
relação à humanidade.
Na literatura acadêmica, o conceito também é associado à percepção de que os
seres humanos seriam pouco confiáveis, injustos ou
guiados predominantemente pelos próprios interesses.
¨ Brasil às vésperas do
'boom': terras raras tornariam país líder da economia verde mundial, diz mídia
Os
metais de terras raras do Brasil têm o potencial de transformar a trajetória
econômica do país e elevá-lo ao patamar das nações mais prósperas do mundo,
escreve o jornal brasileiro Estado de Minas.
O
jornal salienta que o avanço da
cadeia de terras raras no Brasil tende a interiorizar a produção, gerando
infraestrutura, serviços e arrecadação, e transformando municípios do interior
em novos polos econômicos.
"Em
2026, as terras raras deixam de ser apenas um tema técnico e passam a
ocupar um papel central na agenda econômica e estratégica do Brasil, em um
cenário de transição energética, digitalização acelerada e busca por cadeias de
suprimentos mais seguras, trazendo para o debate nacional questões de política
industrial, soberania tecnológica e oportunidades de reposicionamento do
país na economia verde e na indústria digital", destaca a publicação.
Segundo
a matéria, a expansão da cadeia produtiva de terras raras no
Brasil aumenta
a demanda por profissionais especializados e cria oportunidades para a criação
de polos de inovação voltados para a Indústria 4.0 e para a economia
verde.
Esses
elementos são fundamentais para a digitalização e a transição energética, pois estão
presentes em motores eficientes, turbinas eólicas, veículos elétricos e
infraestrutura de TI. Por isso, a diversificação de fornecedores se tornou
uma prioridade global.
Portanto,
o Brasil pode se tornar relevante em setores críticos, como os de defesa,
espaço e energia limpa, desde que enfrente os desafios ambientais do
refino e da gestão de rejeitos por meio de processos mais sustentáveis e
com maior controle.
A
verticalização da produção e a recuperação de materiais
reciclados aumentam o valor agregado nacional e favorecem um modelo
circular. No entanto, o Brasil ainda depende do exterior nas etapas mais
avançadas de beneficiamento.
Para
superar essa dependência, é essencial investir em pesquisa, na formação de mão
de obra e em políticas públicas, aproveitando a janela de
oportunidade antes que o mercado global se consolide sem a participação do
Brasil, conclui a reportagem.
Anteriormente,
a professora aposentada da Universidade de Brasília, Maria Luiza Falcão
Silva, afirmou que por ser
detentor do segundo maior volume de metais de terras raras do mundo,
o Brasil deve declarar suas posições de forma mais firme e ousada no palco
internacional.
Em
artigo publicado no Brasil 247, a professora defendeu que com o aumento da
importância das terras raras na economia moderna, o Brasil deve agir como
protagonista em igualdade de condições com as demais potências mundiais.
¨ Minerais críticos: Do
Congo ao Chile, economia verde quer “salvar o planeta” explorando o Sul Global
Enquanto
o mundo acelera para as energias limpas, os minerais críticos – lítio,
cobalto, grafite, níquel e cobre – tornaram-se o petróleo do século XXI e
transformam o comércio global, afirma um novo informe da entidade ONU Comércio e Desenvolvimento (Unctad).
A
demanda de lítio crescerá mais de 350% até 2040, enquanto a de grafite superará
130%. Neste contexto de febre extrativista, desencadeou-se uma autêntica
corrida diplomática: 73 acordos e associações internacionais surgiram em
matéria de minerais críticos, dos quais 58 foram assinados depois de 2022.
Os
minerais críticos são utilizados na produção de baterias e armazenamento
elétrico -fundamental com o auge dos veículos elétricos -, aços especiais,
superligas, eletrodos e peças de eletrônica, computadores e celulares.
Só em
2023 o comércio mundial destes minerais críticos superou os 2,5 trilhões
(milhões de milhões) de dólares, e a demanda continua aumentando.
Em seu
informe de Atualização sobre o
Comércio Mundial,
deste mês de junho, a Unctad (antes denominada Conferência das Nações Unidas
sobre Comércio e Desenvolvimento) esboça um panorama de oportunidades
históricas e ao mesmo tempo de riscos profundos para os países em
desenvolvimento.
“Não
podemos repetir os erros do passado com uma exploração sistemática dos países
em desenvolvimento reduzidos à produção de matérias primas básicas”: - Rebeca
Grynspan.
Estes
países possuem a maior parte das reservas mundiais de minerais críticos – a
África concentra 25% do total -, mas a história se repete: a grande maioria
continua presa ao papel de meros extratores de matéria prima, enquanto a
riqueza real é gerada nas usinas de processamento de uns poucos países.
O
informe indica que a oferta de minerais críticos continua altamente
concentrada. Em 2025, a República Democrática do Congo acaparou 74% da produção
mundial de cobalto. A China produziu 78% do grafite natural. Austrália, Chile e
China, juntos, produziram mais de 70% do lítio.
Mas a
assimetria mais chocante se dá na refinação e no processamento, que é onde
realmente se cria valor. Aí, a China desempenha um papel dominante no refino de
vários minerais críticos, e a Indonésia já representa 43% da capacidade mundial
de refino de níquel.
O
desafio, insiste o informe, é que os países em desenvolvimento, ricos em
minerais, continuam exportando matérias primas, enquanto o processamento e a
fabricação de maior valor ocorrem em outras latitudes.
Assim,
o auge dos minerais críticos pode ser uma benção para o desenvolvimento ou uma
maldição mais. Os países com grandes reservas enfrentam o mesmo dilema
histórico: como evitar ser meros exportadores de pedras, diz a Unctad.
O
documento expõe um encontro da secretária geral da Unctad, Rebeca Grynspan, que na 16ª.
conferência da entidade em outubro passado afirmou: “Não podemos repetir os
erros do passado com uma exploração sistemática dos países em desenvolvimento
reduzidos à produção de matérias primas básicas”.
A esse
respeito, a Unctad expõe que um caminho possível está em seu “Informe de
Madagascar”, em que analisa as possibilidades de agregar valor e diversificar a
cadeia de valor nos minerais críticos que este país africano produz.
Madagascar
– a quarta maior ilha do mundo – poderia criar pelo menos 20.000 empregos e
desbloquear novas oportunidades industriais expandindo o valor agregado e
diversificando mais, além da exportação de minerais em bruto.
As
mulheres representariam 52% do emprego direto nos setores prioritários,
especialmente na confecção têxtil e na indústria alimentícia.
Frente
a este cenário de alta concentração e risco geopolítico, muitos governos
passaram da retórica à ação, afirmou a Unctad depois de identificar 73 acordos
e associações internacionais em matéria de minerais críticos, uma cifra que
evidencia que o tabuleiro está em movimento.
Estas
alianças, que abrangem desde a exploração até a reciclagem, são o sintoma de
uma nova realidade: a transição energética não é só um imperativo climático,
mas um campo de batalha comercial e de poder.
O
informe conclui com uma pergunta inquietante: serão os minerais críticos outra
fonte de fragmentação global ou a base de uma cooperação internacional mais
resiliente e inclusiva?
¨ Sul Global já salvou
o G7 da irrelevância mais de uma vez; veja quais países socorreram o grupo
A
relevância do G7 minguou diante da perda demográfica e econômica de seus
membros e da incapacidade do grupo de competir com a ascensão de potências
médias do Sul Global.
Prova
desse declínio é o desdém com que líderes como o presidente estadunidense,
Donald Trump, vêm tratando as reuniões do grupo, com participações mornas e, em algumas
ocasiões, limitadas. Em 2025, por exemplo, Trump defendeu o retorno da
Rússia ao grupo, com a retomada do G8, e deixou a cúpula anual, realizada no
Canadá, no segundo dia, antes do encerramento.
Na
tentativa de manter alguma relevância, o G7 vem recorrendo a lideranças do
Sul Global, principalmente do BRICS, grupo em expansão que hoje detém um
contingente populacional, econômico e político muito mais representativo.
Ao
contrário do que ocorre no BRICS ou
no G20, os
países do Sul Global não possuem assento permanente nem poder de decisão formal
no G7. Suas contribuições ocorrem principalmente quando são convidados pelos
anfitriões das cúpulas. Ainda assim, especialmente na última década, o G7 tem
ampliado esses convites porque muitos dos desafios globais atuais, como clima,
energia, segurança alimentar e desenvolvimento, dependem diretamente da
participação de grandes economias do Sul Global.
A
participação desses países é fundamental para moldar o debate em temas como
financiamento climático, adaptação às mudanças climáticas, transição energética
justa e desenvolvimento sustentável. A Sputnik Brasil preparou uma
lista de ocasiões em que o G7 recorreu a participações de países do Sul Global
para debater temas que norteiam o cenário geopolítico atual.
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Índia
A Índia
foi convidada a participar em várias reuniões recentes do G7, incluindo as
realizadas no Reino Unido (2021), na Alemanha (2022) e no Japão (2023). Suas
contribuições envolveram segurança alimentar, cadeias globais de suprimentos,
energia limpa, tecnologia digital e necessidades dos países em desenvolvimento.
<><>
Indonésia
Em
2022, a Indonésia participou da cúpula do G7 na Alemanha em
discussões sobre recuperação econômica pós-pandemia e cooperação entre
economias desenvolvidas e emergentes. Como então presidente do G20, o país
teve um importante papel na articulação entre diferentes blocos.
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Senegal
Também
na cúpula de 2022, o Senegal participou dos debates sobre segurança
alimentar global, especialmente devido aos impactos do conflito ucraniano sobre
os preços de alimentos e fertilizantes em países africanos.
<><>
União Africana
Em
2024, diversos líderes africanos e representantes da União Africana foram
convidados a participar da cúpula do G7, realizada na Itália, para discutir
desenvolvimento econômico, infraestrutura, migração, energia e segurança
alimentar. Essa participação foi considerada uma tentativa de incorporar
mais perspectivas do Sul Global às discussões do G7.
<><>
Brasil
O
Brasil foi convidado para algumas reuniões ampliadas do G7, especialmente para
debater preservação ambiental, mudanças climáticas, proteção de florestas
tropicais, segurança alimentar e transição energética. Na cúpula de Hiroshima,
no Japão, em 2023, o Brasil participou de discussões sobre governança
global e desenvolvimento sustentável.
Fonte:
Sputnik Brasil/IPS

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