segunda-feira, 22 de junho de 2026

Levante de Soweto: conheça o episódio que consolidou a África do Sul como espaço de resistência

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o principal legado deixado pelo movimento, considerado o início do fim do Apartheid, foi a construção do soft power sul-africano de resistência e de não aceitar o espaço de subalternidade que às vezes é imposto aos países africanos.

Em 16 de junho de 1976, milhares de estudantes negros sul-africanos saíram às ruas de Soweto para protestar contra a imposição do africâner, a língua do colonizador, nas escolas e contra o regime do Apartheid na África do Sul. A repressão à manifestação foi violenta e resultou em centenas de mortos e feridos.

O episódio ficou conhecido como o Levante de Soweto, tornou-se um marco da luta contra a segregação racial e ajudou a ampliar a pressão internacional sobre o governo sul-africano.

Hoje, 50 anos depois, o Levante de Soweto continua a ser símbolo da resistência popular e do papel da juventude nas transformações políticas.

O episódio é considerado um ponto de inflexão na história sul-africana por ter conseguido unificar outros movimentos e dar uma "cara jovem" à identidade da revolução do país, conforme aponta ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Laura Ludovico, advogada especialista em direito internacional público e estudo humanitário diplomático e diretora de projetos e pesquisa do BRICS+ Tech Forum.

"Antes de 1976, essa resistência era muito dispersa, era um movimento de consciência negra isolado, um outro em relação às mulheres. Então esse levante de Soweto unificou essas frentes porque a pauta, que era educação, tocava todas as famílias."

A especialista avalia que o Levante de Soweto foi o início da queda do Apartheid, mas frisa que o fim do regime ainda demorou 18 anos para se consolidar. Um dos países que lutou pela queda do regime foi a União Soviética (URSS). Inicialmente, o apoio soviético deu ao Ocidente um pretexto para classificar o Levante de Soweto como ameaça comunista, mas, no decorrer o evento, foi percebido que o apoio ao movimento era indispensável para os direitos humanos.

"Além da União Soviética, também tivemos Cuba, tivemos Angola, tivemos Namíbia. Então, tivemos países que entenderam o que estava acontecendo ou que passaram por situações semelhantes."

Enquanto isso, EUA e Reino Unido começaram a apoiar ainda mais o Apartheid, uma vez que viam a África do Sul como parceiro anticomunista confiável. "Eles definiam como uma questão interna, não era um problema deles."

No entanto, quando as imagens da repressão ao levante circularam globalmente, expondo o que o Apartheid provocava, uma repulsa tomou conta do planeta, transformando o regime em uma questão não só regional africana, mas um escândalo moral internacional. Diante disso, os aliados anglófonos foram questionados publicamente e forçados a se realinhar.

"Depois disso, o que aconteceu foi todo mundo fingir que ninguém apoiava o Apartheid e passaram a apoiar Nelson Mandela e o discurso de direitos humanos."

Ludovico aponta ainda que o episódio expôs como a comunidade internacional é seletiva, pois poderia ter agido contra o Apartheid de diversas formas, em diversos momentos, mas só interviu quando o conflito foi internacionalizado.

"Os países do Sul Global não contam com a solidariedade automática dessas potências, só quando não existe mais nada o que ser feito. Então, mesmo 50 anos depois de Soweto, a principal herança que a gente pode demonstrar aqui é justamente essa transformação estrutural, que sempre vai partir por dentro, e não por uma intervenção de fora. Não é um país que vai salvar outro, é justamente o próprio povo."

Para a jurista, o Levante de Soweto foi parte essencial da construção da identidade sul-africana, porque, embora o país já fosse independente na época do episódio, era uma independência formal e subjetiva, com um governo formado por brancos, e a imposição do africâner como língua oficial agravaria a segregação.

"Queria dizer que as pessoas que não falavam o africâner não teriam acesso à educação. A política foi para que elas não aprendessem, para que elas fossem escravizadas a vida inteira."

Ao podcast, Marcos Paulo Amorim, historiador e pesquisador visitante do Centro de Estudos em Ciências Sociais sobre os Mundos Africanos, Americanos e Asiáticos (CESSMA, na sigla em francês) e do Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais (Inalco), ambos na França, aponta que o levante não foi o único fator que contribuiu para o fim da segregação na África do Sul. O regime do Apartheid criou um sistema que colapsou dentro de si.

Desde o século XIX, quem pagava mais impostos na África do Sul era a população negra. Porém, a partir da década de 1960, o país passou por uma forte transformação de criação dos bantuntões, espaços que eram criados para segregar as pessoas negras.

"E aí o que vai acontecendo na África do Sul é que, com o passar dos anos, se você vai diminuindo a população negra das áreas industriais, a presença negra das áreas produtivas, você tem uma arrecadação menor e, portanto, tem menos trabalhadores, menos tributos. Então, vários colapsos vão se justapondo além do Levante de Soweto."

Ele explica que os EUA, na época do Apartheid, não tinham a intenção de romper com o regime porque o mundo estava vivendo a Guerra Fria, momento em que a indústria bélica norte-americana estava em franco desenvolvimento e precisava importar da África do Sul platina, cobalto, manganês e outros recursos necessários para a sua produção. Porém, ele aponta também um fator ideológico, já que as Leis Jim Crow, que legalizaram a segregação racial nos EUA, perduraram e estiveram em vigor nos EUA até 1954.

"Então, nesse sentido, há um encontro ideológico também. Um terceiro fator também para os EUA é que ali é um tampão anticomunista. Então o Sul estava caindo sob revoluções à esquerda. Quase toda a região da África Meridional estava caindo em revoluções à esquerda. E a África do Sul era o último bastião capitalista que duraria até ali naquele momento."

Já no caso do Reino Unido, ele aponta que há um complicador, porque o país era o colonizador, e boa parte da estrutura legal do Apartheid foi herdada do período colonial.

"Então, havia um receio de que, se o Reino Unido passasse a impor sanções à África do Sul, essas sanções virariam para o próprio Reino Unido."

Amorim enfatiza que a África do Sul é um país com papel ativo no debate internacional, que não aceita o espaço de subalternidade que às vezes é imposto aos países africanos. O legado deixado pelo Levante de Soweto se converteu em soft power, com o país exportando uma imagem de espaço de resistência.

"A África do Sul passar a exportar também isso. Não só a cultura, a cultura sul-africana, a questão da conciliação, o debate internacional sobre o Apartheid. Formula políticas sobre isso, denuncia questões de Apartheid internacionalmente, mas também passa a exportar esse espaço da resistência."

¨      Industrialização africana: China zera tarifas para 53 países e abre seu mercado ao continente

A China considera que a decisão, que entrou em vigor em 1º de maio de 2026, não é um ato de caridade geopolítica nem uma concessão tática, mas um reposicionamento estratégico que redefine a dinâmica comercial entre as potências emergentes e o Sul Global.

Essa política de tarifa zero representa um ponto de virada histórico nas relações sino-africanas: um momento em que ambos os lados reconhecem que sua prosperidade compartilhada depende da construção de cadeias de valor integradas, da industrialização mútua e de benefícios econômicos tangíveis.

A decisão amplia os benefícios já desfrutados por 33 países africanos menos desenvolvidos desde dezembro de 2024 e agora abre as portas do vasto mercado chinês para economias mais desenvolvidas, como Quênia, Egito, Nigéria e África do Sul.

A medida consolida os esforços promovidos pelo Fórum de Cooperação China-África (Focac), plataforma que, há mais de duas décadas, vem construindo uma parceria estratégica abrangente.

As importações e exportações da China com países africanos totalizaram 885,34 bilhões de yuans (cerca de US$ 128,3 bilhões) nos primeiros quatro meses de 2026, um aumento de 19,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com dados divulgados pela Administração Geral das Alfândegas (GAC).

<><> Novas janelas de oportunidade

O Ministério das Relações Exteriores da China destacou que a medida é um exemplo do compromisso do presidente Xi Jinping com os princípios da sinceridade, dos resultados concretos, da amizade e da boa-fé.

A isenção de tarifas para 53 países africanos que mantêm relações diplomáticas com a China representa uma nova oportunidade para as exportações africanas, afirmou Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.

A porta-voz observou que Pequim espera ver mais produtos africanos de alta qualidade e especializados em seu mercado.

Esses resultados já são evidentes. De acordo com Lyu Daliang, diretor do Departamento de Estatísticas e Análises da Administração Geral das Alfândegas, as importações chinesas provenientes da África aumentaram 11,2% nos primeiros quatro meses do ano em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Até o momento, produtos agrícolas sazonais, como maçãs, laranjas e abacates, foram liberados para importação sob a política de tarifa zero. Com seu vasto mercado, a China oferece novas oportunidades de desenvolvimento para a África, explicou Lyu.

<><> Estímulo ao setor agrícola

O impacto sobre o setor agrícola africano é significativo. John Steenhuisen, ministro da Agricultura da África do Sul, descreveu a medida como uma mudança radical para a agricultura de seu país, especialmente diante das pressões do protecionismo global.

“Fomos um dos primeiros a desembarcar sob a política de tarifa zero, com 24 toneladas de maçãs, e obviamente isso representará uma mudança radical, pois agora podemos começar a abrir caminho nesse mercado na China, o que é muito significativo”, observou o ministro.

Steenhuisen enfatizou que, quando a demanda internacional aumenta, a oferta deve acompanhá-la, o que se traduz em expansão industrial e criação de empregos.

Além disso, destacou que essa política ajuda a equilibrar a balança comercial, apoiada por parcerias já existentes, como o Focac e o Brics.

Um excelente exemplo dessa abertura é o café. A partir de 20 de julho deste ano, a China permitirá a entrada de grãos de café provenientes de 53 países africanos que atendam aos requisitos fitossanitários unificados, eliminando a necessidade de negociar acordos bilaterais separados.

Liu Yuxi, embaixador para Assuntos do Focac, explicou que o custo dos grãos de café africanos será reduzido entre 8% e 10%.

“A política de tarifa zero incentivará as empresas chinesas e africanas a expandir a cadeia industrial, indo além do simples cultivo e abrangendo o processamento, a torrefação e a embalagem”, afirmou o diplomata, destacando a criação de empregos e o desenvolvimento comum.

<><> Facilitação e sinergias financeiras

Para garantir o sucesso da iniciativa, as autoridades alfandegárias chinesas implementaram medidas de facilitação. Tong Shubo, vice-diretor da divisão de inspeção da Alfândega do Aeroporto Internacional de Pequim, explicou que opera um modelo de inspeção, exame e liberação na chegada para garantir o frescor dos produtos perecíveis.

Além disso, Guo Xueyan, diretora-geral do Departamento de Cooperação Internacional da GAC, anunciou o lançamento de um sistema on-line de emissão de certificados de origem, permitindo que empresas africanas sejam dispensadas da apresentação de documentos em papel.

No setor financeiro, uma visão de longo prazo também traz resultados. Youssef Rouissi, vice-diretor-geral do banco marroquino Attijariwafa, destacou durante o Fórum de Pontes Financeiras China-África o crescimento expressivo do comércio bilateral, que passou de US$ 10 bilhões em 2000 para quase US$ 350 bilhões em 2025.

“Essa decisão demonstra mais uma vez a visão de longo prazo da China para a África”, afirmou Rouissi, destacando a importância de construir pontes e sinergias para ampliar o comércio e os investimentos.

<><> Um catalisador para a paz e o desenvolvimento

Além do comércio, a política tarifária é vista como um motor para a estabilidade regional.

Omar Touray, presidente da Comissão da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, considerou que a medida terá impacto sobre o desenvolvimento e a produtividade de forma geral.

“Essa política de tarifa zero provavelmente impulsionará nosso desenvolvimento, além de nos ajudar a fortalecer a paz e a segurança em nossa região”, afirmou.

Da mesma forma, Bianca Ojukwu, ministra de Estado dos Negócios Estrangeiros da Nigéria, avaliou que a iniciativa servirá como um importante catalisador para ampliar o comércio, fortalecer as relações econômicas e impulsionar a industrialização do continente africano.

Chen Yusong, vice-diretor do Departamento da Organização Mundial do Comércio (OMC) no Ministério do Comércio da China, descreveu a medida como um acordo inovador e pioneiro, destinado a enfrentar as dificuldades práticas dos países africanos.

A implementação dessa política de tarifa zero reafirma o papel da China como maior parceira comercial da África e destaca a importância do Focac como mecanismo de cooperação.

Em um contexto global marcado por incertezas, a aliança sino-africana surge como um paradigma de comércio aberto, inclusivo e mutuamente benéfico, delineando uma nova oportunidade para a prosperidade compartilhada no Sul Global.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Prensa Latina

 

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