Levante
de Soweto: conheça o episódio que consolidou a África do Sul como espaço de
resistência
Ao
podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o principal legado
deixado pelo movimento, considerado o início do fim do Apartheid, foi a
construção do soft power sul-africano de resistência e de não aceitar o espaço
de subalternidade que às vezes é imposto aos países africanos.
Em 16
de junho de 1976, milhares de estudantes negros sul-africanos saíram às ruas de
Soweto para protestar contra a imposição do africâner, a língua do
colonizador, nas escolas e contra o regime do Apartheid na África
do Sul.
A repressão à manifestação foi violenta e resultou em centenas de mortos e
feridos.
O
episódio ficou conhecido como o Levante de Soweto, tornou-se um marco
da luta contra a segregação racial e ajudou a ampliar a pressão
internacional sobre o governo sul-africano.
Hoje,
50 anos depois, o Levante de Soweto continua a ser símbolo da resistência
popular e do papel da juventude nas transformações políticas.
O
episódio é considerado um ponto de inflexão na história sul-africana por ter
conseguido unificar outros movimentos e dar uma "cara jovem" à
identidade da revolução do país, conforme aponta ao podcast Mundioka,
da Sputnik Brasil, Laura Ludovico, advogada especialista em direito
internacional público e estudo humanitário diplomático e diretora de projetos e
pesquisa do BRICS+ Tech Forum.
"Antes
de 1976, essa resistência era muito dispersa, era um movimento de consciência
negra isolado, um outro em relação às mulheres. Então esse levante de Soweto
unificou essas frentes porque a pauta, que era educação, tocava todas as
famílias."
A
especialista avalia que o Levante de Soweto foi o início da queda do Apartheid,
mas frisa que o fim do regime ainda demorou 18 anos para se consolidar. Um dos
países que lutou pela queda do
regime foi
a União Soviética (URSS). Inicialmente, o apoio soviético deu ao Ocidente
um pretexto para classificar o Levante de Soweto como ameaça comunista, mas, no
decorrer o evento, foi percebido que o apoio ao movimento era indispensável
para os direitos humanos.
"Além
da União Soviética, também tivemos Cuba, tivemos Angola, tivemos Namíbia.
Então, tivemos países que entenderam o que estava acontecendo ou que passaram
por situações semelhantes."
Enquanto
isso, EUA e Reino Unido começaram a
apoiar ainda mais o Apartheid, uma vez que viam a África do Sul como parceiro
anticomunista confiável. "Eles definiam como uma questão interna, não era
um problema deles."
No
entanto, quando as imagens da repressão ao levante circularam globalmente,
expondo o que o Apartheid provocava, uma repulsa tomou conta do planeta,
transformando o regime em uma questão não só regional africana, mas um
escândalo moral internacional. Diante disso, os aliados anglófonos foram
questionados publicamente e forçados a se realinhar.
"Depois
disso, o que aconteceu foi todo mundo fingir que ninguém apoiava o Apartheid e
passaram a apoiar Nelson Mandela e o discurso de direitos humanos."
Ludovico
aponta ainda que o episódio expôs como a comunidade internacional é
seletiva, pois poderia ter agido contra o Apartheid de diversas formas, em
diversos momentos, mas só interviu quando o conflito foi internacionalizado.
"Os
países do Sul Global não contam com a solidariedade automática dessas
potências, só quando não existe mais nada o que ser feito. Então, mesmo 50 anos
depois de Soweto, a principal herança que a gente pode demonstrar aqui é
justamente essa transformação estrutural, que sempre vai partir por dentro, e
não por uma intervenção de fora. Não é um país que vai salvar outro, é
justamente o próprio povo."
Para a
jurista, o Levante de Soweto foi parte essencial da construção da identidade
sul-africana, porque, embora o país já fosse independente na época do episódio,
era uma independência formal e subjetiva, com um governo formado por brancos, e
a imposição do africâner como língua oficial agravaria a segregação.
"Queria
dizer que as pessoas que não falavam o africâner não teriam acesso à educação.
A política foi para que elas não aprendessem, para que elas fossem escravizadas
a vida inteira."
Ao
podcast, Marcos Paulo Amorim, historiador e pesquisador visitante do
Centro de Estudos em Ciências Sociais sobre os Mundos Africanos, Americanos e
Asiáticos (CESSMA, na sigla em francês) e do Instituto Nacional de Línguas e
Civilizações Orientais (Inalco), ambos na França, aponta que o levante não foi
o único fator que contribuiu para o fim da segregação na África do Sul. O
regime do Apartheid criou um sistema que colapsou dentro de si.
Desde o
século XIX, quem pagava mais impostos na África do Sul era a população negra.
Porém, a partir da década de 1960, o país passou por uma forte transformação de
criação dos bantuntões, espaços que eram criados para segregar as pessoas
negras.
"E
aí o que vai acontecendo na África do Sul é que, com o passar dos anos, se você
vai diminuindo a população negra das áreas industriais, a presença negra das
áreas produtivas, você tem uma arrecadação menor e, portanto, tem menos
trabalhadores, menos tributos. Então, vários colapsos vão se justapondo além do
Levante de Soweto."
Ele
explica que os EUA, na época do Apartheid, não tinham a intenção de romper com
o regime porque o mundo estava vivendo a Guerra Fria, momento em que a
indústria bélica norte-americana estava em franco desenvolvimento e precisava
importar da África do Sul platina, cobalto, manganês e outros recursos
necessários para a sua produção. Porém, ele aponta também um fator ideológico,
já que as Leis Jim Crow, que legalizaram a segregação racial nos EUA,
perduraram e estiveram em vigor nos EUA até 1954.
"Então,
nesse sentido, há um encontro ideológico também. Um terceiro fator também para
os EUA é que ali é um tampão anticomunista. Então o Sul estava caindo sob
revoluções à esquerda. Quase toda a região da África Meridional estava caindo
em revoluções à esquerda. E a África do Sul era o último bastião capitalista
que duraria até ali naquele momento."
Já no
caso do Reino Unido, ele aponta que há um complicador, porque o país era o
colonizador, e boa parte da estrutura legal do Apartheid foi herdada do
período colonial.
"Então,
havia um receio de que, se o Reino Unido passasse a impor sanções à África do
Sul, essas sanções virariam para o próprio Reino Unido."
Amorim
enfatiza que a África do Sul é um país com papel ativo no debate internacional,
que não aceita o espaço de subalternidade que às vezes é imposto aos países
africanos. O legado deixado pelo Levante de Soweto se converteu em soft
power, com o país exportando uma imagem de espaço de resistência.
"A
África do Sul passar a exportar também isso. Não só a cultura, a cultura
sul-africana, a questão da conciliação, o debate internacional sobre o
Apartheid. Formula políticas sobre isso, denuncia questões de Apartheid
internacionalmente, mas também passa a exportar esse espaço da
resistência."
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Industrialização africana: China zera tarifas para 53
países e abre seu mercado ao continente
A China
considera que a decisão, que entrou em vigor em 1º de maio de 2026, não é um
ato de caridade geopolítica nem uma concessão tática, mas um reposicionamento
estratégico que redefine a dinâmica comercial entre as potências emergentes e o Sul Global.
Essa
política de tarifa zero representa um ponto de virada histórico nas relações
sino-africanas: um momento em que ambos os lados reconhecem que sua
prosperidade compartilhada depende da construção de cadeias de valor
integradas, da industrialização mútua e de benefícios econômicos tangíveis.
A
decisão amplia os benefícios já desfrutados por 33 países africanos menos
desenvolvidos desde dezembro de 2024 e agora abre as portas do vasto mercado
chinês para economias mais desenvolvidas, como Quênia, Egito, Nigéria e África
do Sul.
A
medida consolida os esforços promovidos pelo Fórum de Cooperação
China-África (Focac),
plataforma que, há mais de duas décadas, vem construindo uma parceria
estratégica abrangente.
As
importações e exportações da China com países africanos totalizaram 885,34
bilhões de yuans (cerca de US$ 128,3 bilhões) nos primeiros quatro meses de
2026, um aumento de 19,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, de
acordo com dados divulgados pela Administração Geral das Alfândegas (GAC).
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Novas janelas de oportunidade
O
Ministério das Relações Exteriores da China destacou que a medida é um exemplo
do compromisso do presidente Xi Jinping com os princípios da sinceridade, dos
resultados concretos, da amizade e da boa-fé.
A
isenção de tarifas para 53 países africanos que mantêm relações diplomáticas
com a China representa uma nova oportunidade para as exportações africanas,
afirmou Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.
A
porta-voz observou que Pequim espera ver mais produtos africanos de alta
qualidade e especializados em seu mercado.
Esses
resultados já são evidentes. De acordo com Lyu Daliang, diretor do Departamento de Estatísticas e
Análises da Administração Geral das Alfândegas, as importações chinesas
provenientes da África aumentaram 11,2% nos primeiros quatro meses do ano em
comparação com o mesmo período do ano anterior.
Até o
momento, produtos agrícolas sazonais, como maçãs, laranjas e abacates, foram
liberados para importação sob a política de tarifa zero. Com seu vasto mercado,
a China oferece novas oportunidades de desenvolvimento para a África, explicou
Lyu.
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Estímulo ao setor agrícola
O
impacto sobre o setor agrícola africano é significativo. John Steenhuisen,
ministro da Agricultura da África do Sul, descreveu a medida como uma mudança
radical para a agricultura de seu país, especialmente diante das pressões do
protecionismo global.
“Fomos
um dos primeiros a desembarcar sob a política de tarifa zero, com 24 toneladas
de maçãs, e obviamente isso representará uma mudança radical, pois agora
podemos começar a abrir caminho nesse mercado na China, o que é muito
significativo”, observou o ministro.
Steenhuisen
enfatizou que, quando a demanda internacional aumenta, a oferta deve
acompanhá-la, o que se traduz em expansão industrial e criação de empregos.
Além
disso, destacou que essa política ajuda a equilibrar a balança comercial,
apoiada por parcerias já existentes, como o Focac e o Brics.
Um
excelente exemplo dessa abertura é o café. A partir de 20 de julho deste ano, a
China permitirá a entrada de grãos de café provenientes de 53 países africanos
que atendam aos requisitos fitossanitários unificados, eliminando a necessidade
de negociar acordos bilaterais separados.
Liu
Yuxi, embaixador para Assuntos do Focac, explicou que o custo dos grãos de café
africanos será reduzido entre 8% e 10%.
“A
política de tarifa zero incentivará as empresas chinesas e africanas a expandir
a cadeia industrial, indo além do simples cultivo e abrangendo o processamento,
a torrefação e a embalagem”, afirmou o diplomata, destacando a criação de
empregos e o desenvolvimento comum.
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Facilitação e sinergias financeiras
Para
garantir o sucesso da iniciativa, as autoridades alfandegárias chinesas
implementaram medidas de facilitação. Tong Shubo, vice-diretor da divisão de
inspeção da Alfândega do Aeroporto Internacional de Pequim, explicou que opera
um modelo de inspeção, exame e liberação na chegada para garantir o frescor dos
produtos perecíveis.
Além
disso, Guo Xueyan, diretora-geral do Departamento de Cooperação Internacional
da GAC, anunciou o lançamento de um sistema on-line de emissão de certificados
de origem, permitindo que empresas africanas sejam dispensadas da apresentação
de documentos em papel.
No
setor financeiro, uma visão de longo prazo também traz resultados. Youssef
Rouissi, vice-diretor-geral do banco marroquino Attijariwafa, destacou durante
o Fórum de Pontes Financeiras China-África o crescimento expressivo do comércio
bilateral, que passou de US$ 10 bilhões em 2000 para quase US$ 350 bilhões em
2025.
“Essa
decisão demonstra mais uma vez a visão de longo prazo da China para a África”,
afirmou Rouissi, destacando a importância de construir pontes e sinergias para
ampliar o comércio e os investimentos.
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Um catalisador para a paz e o desenvolvimento
Além do
comércio, a política tarifária é vista como um motor para a estabilidade
regional.
Omar
Touray, presidente da Comissão da Comunidade Econômica dos Estados da África
Ocidental, considerou que a medida terá impacto sobre o desenvolvimento e a
produtividade de forma geral.
“Essa
política de tarifa zero provavelmente impulsionará nosso desenvolvimento, além
de nos ajudar a fortalecer a paz e a segurança em nossa região”, afirmou.
Da
mesma forma, Bianca Ojukwu, ministra de Estado dos Negócios Estrangeiros da
Nigéria, avaliou que a iniciativa servirá como um importante catalisador para
ampliar o comércio, fortalecer as relações econômicas e impulsionar a
industrialização do continente africano.
Chen
Yusong, vice-diretor do Departamento da Organização Mundial do Comércio (OMC)
no Ministério do Comércio da China, descreveu a medida como um acordo inovador
e pioneiro, destinado a enfrentar as dificuldades práticas dos países
africanos.
A
implementação dessa política de tarifa zero reafirma o papel da China como
maior parceira comercial da África e destaca a importância do Focac como
mecanismo de cooperação.
Em um
contexto global marcado por incertezas, a aliança sino-africana surge como um
paradigma de comércio aberto, inclusivo e mutuamente benéfico, delineando uma
nova oportunidade para a prosperidade compartilhada no Sul Global.
Fonte:
Sputnik Brasil/Prensa Latina

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