O
que aprendi fazendo 30 dias seguidos de ioga no outono paulistano
Quando
a professora anunciou que ia apagar algumas das luzes da sala, eu senti o
alívio de quem tinha chegado no limite do atraso, mãos frias do maio gelado
paulistano no lado de fora. A partir dali, poderia cair meu filho na escola ou
cair o governo de Cuba, e eu só saberia depois do savasana.
Talvez
essa fosse exatamente a sensação que mais buscava naquela aula e em todas de
ioga que venho fazendo há alguns anos: a libertação, mesmo que efêmera, de um
estado de prontidão.
Essa
libertação é ansiada por motivos óbvios para mim, uma mulher 40+ nessa
metrópole relaxante, e editora na BBC News Brasil num país e num mundo em que
se morre de tudo, menos de tédio.
Mas
esse estado mental não dura nem perto de 60 minutos, no meu caso. São só alguns
instantes, no meio do todo, em que uma postura ou outra funciona como uma
rédea, forçando corpo e pensamentos a andar numa mesma linha.
No
mais, eu sigo sendo um cartoon que vi na revista New Yorker, no qual uma mulher
coloca a roupa para lavar mentalmente enquanto deitada no tapetinho no savasana
(o momento de "entrega" final da ioga, deitado, "quando o seu
corpo recebe todos os benefícios da prática").
Palavras
como "entrega" merecem minhas aspas. Mesmo depois desses anos, minha
aproximação da ioga é desconfiada, ou tenta ser.
O humor
e o cinismo foram sempre meu escudo para não soar ingênua, para não ser
enrolada pela vida, para não ser enrolada pelos meus sentimentos.
Como
fica tudo isso se eu simplesmente virar new age da ioga?
Eu sei
como fica. No emaranhado que sou eu: fazedora de promessa a meu santo e com
boletos suficientes pagos em psicanálise (e alguns de mapa astral). A mesma
pessoa que se pergunta: isso que insiste na minha cabeça é intuição ou é
neurose?
Que
outra questão estou querendo resolver me jogando nessa nova onda de ioga?
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'Vai ser transformador'
A
pergunta já me acompanhava, mas foi irresistível quando o professor Lucas
disse, no final de uma aula, que seria "transformador" fazer 30 dias
seguidos de ioga — de hot yoga, no meu caso, aquela em que os participantes se
alongam e se concentram numa sala aquecida. Era o mês do desafio da casa
tradicional na rua Mourato Coelho, no bairro de Pinheiros: fazer 30 dias de
aula. Seguidos.
Vamos
lá, 30 dias, independentemente das notícias, da gangorra hormonal, da chuva, do
frio de maio. Vamos lá, 30 dias.
Lembrei
do escritor francês Emmanuel Carrère, que começa seu maravilhoso livro Ioga num
retiro de 10 dias de meditação desfiando os conceitos e pensando como escrever
um livro sobre... ioga. A vida tinha outros planos para ele.
Eu
também queria escrever sobre ioga.
Atravessei
os 30 dias, pois bem. Aconteceu de tudo, como sempre, no noticiário. Passaram
cavalos negros, Casa Branca, uma permanência recorde numa posição de
equilíbrio, a manhã mais fria do ano, afonia, gripe.
Atravessei
os 30 dias. E só depois revisitei o Ioga, do Carrère:
"A
ioga diz que nós somos outra coisa além do nosso pequeno eu confuso,
fragmentado, amedrontado, e que nós podemos acessar essa outra coisa. Trata-se
de um caminho, outros o tomaram antes de nós e o indicam. Se o que eles dizem é
verdade, vale a pena irmos até lá e conferirmos nós mesmos."
Vale a
pena conferir por nós mesmos. E talvez você esbarre com um convite para tal
neste fim de semana: 21 de junho é o Dia Internacional da Yoga.
Vale
mais fazer do que ler sobre ioga.
E
tentar é fazer, como repetem na Mourato Coelho. E essa foi a primeira coisa que
aprendi (e reaprendi) nesses 30 dias de hot yoga, na sala aquecida. Se nunca
tentou a modalidade, diria para dar uma chance, até "bater". Pode
também não bater nunca: haverá suor seu e alheio envolvido, e às vezes penso
que não é para todo mundo — que meu marido, por exemplo, sentiria impulso de
ligar para a Anvisa.
A outra
coisa que aprendi é que o savasana me dá ainda mais vontade de tomar Coca-Cola
zero (depois do cházinho em comunidade, no copo baixo de vidro na sala da
recepção).
Também
tive convicção de que essa coisa de gameficação, de desafio, funciona. Ficar 10
dias num retiro ou fazer 30 dias de yoga tem algo anti-ioga, de doutrina da
"superação"?
Tem um
pouco. É a mesma força de quem faz Duolingo às 23h55 para não perder a
"ofensiva".
Funciona
como uma liberação mental: não tem que pensar, só vai.
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Músculos fluorescentes? O mais próximo de meditação que já cheguei
Não
precisa pensar, siga as instruções: as mãos vão acima da cabeça, braços
esticados, aproxime as palmas e cruze os polegares, apenas. Tula dandasana, o
"bastão em equilíbrio" (eu adoro os nomes, poéticos, pensar que eles
atravessaram tanto até chegar à minha sala aquecida na Mourato).
A perna
direita, estendida, dá um passo grande adiante, o tronco inclina-se para
frente, braços e mãos seguem o tronco. A perna esquerda sobe atrás e você fica
o mais parecido com um T que conseguir.
Pode
ser que você faça um T capenga, e nada aconteça, e tudo bem. E pode ser que
aquele T ganhe uma tensão.
É como
num filme da Marvel. O cientista aplica uma substância no corpo, e ela vai
desenhando um caminho fluorescente nos feixes de músculos.
Você
lembra de que eles, os músculos, estão lá. Você pensa na sua canela e na ponta
do seu dedo da mão, e não pensa que tem que botar roupa para lavar.
Eu, que
sempre me achei ansiosa demais para fazer ioga, estou lá agradecida por
reconhecer um feixe de músculos e por descansar o fogo da minha cabeça.
Estou
lá agradecida também por acompanhar uma gota de suor nascer no couro cabeludo e
ganhar velocidade até o chão. É o mais próximo da meditação a que já cheguei.
Em
outros momentos, o efeito dos movimentos é menos sutil. No camelo, (ustrasana,
ustra é camelo em sânscrito), você fica de joelhos, tronco ereto e começa a
curvar para trás, enquanto lança seus braços e forma um arco quando suas mãos
pegam os calcanhares.
A curva
é para lembrar uma corcova, entendido, e o resultado é que você reduz o espaço
da garganta e obriga os alvéolos dianteiros dos seus pulmões a trabalharem
mais.
Quando
mais eu teria oportunidade de pensar nos meus alvéolos dianteiros cheios de ar?
Ao fim
do esforço, deita-se de costas. E, como bem diz o professor Djully, "dá um
barato". Dá mesmo. Uma onda quente corre sob meu osso esterno, nem de todo
agradável, mas eu a vejo, eu a acompanho.
O que
aprendi nestes 30 dias é que você pode esperar pelo camelo, que o moto contínuo
(só ir, sem pensar), existe.
Em 30
dias, topei também com a ideia clássica da yoga e da meditação de que nenhum um
dia é igual ao anterior. As tais flutuações da vida.
É como
escanear seu estado mental e, por consequência, corporal (de novo, essa imagem
equestre do Carrère, com um arreio segurando corpo e pensamentos).
Quanto
tempo demora para "bater", para seus pensamentos agitados cederem um
pouco e você conseguir sustentar uma postura? Ontem mais, antes de ontem menos.
Vi isso
em mim, escuto nos comentários do vestiário.
Carrére
fala algo assim também: "Em alguns dias é um prazer, em outros é
insuportável. Nada funciona. O corpo todo reclama, resiste à imobilidade, não
percebe mais sequer um dos seus equilíbrios tensos, delicados, que é tão
prazeroso observar".
Algumas
aulas no meio da jornada foram sofridas, o corpo cansado, os efeitos da
expectativa no corpo da menstruação que vem depois de dias e dias de aviso
prévio. A ioga me dava um tempo de auto-observação e, com sorte, um espaço
antes da reação, mas definitivamente não iria equalizar meus humores.
A
última aula da sequência foi intensa, concentrada, mas eu não saí como uma
pluma flanando pelas ruas, livre de ansiedade. Foi transformador, verdade, mas
não porque me ofereceu soluções.
Nestes
30 dias, soube de novo que não é sempre que eu consigo me ouvir, nem sequer num
lugar gentil como meu centro de ioga.
Por
mais que me repetissem: navegue os 30 dias, diminua o ritmo nas aulas, e eu me
jogava. Fui quando caí afônica, fui muito gripada (provavelmente uma
imprudência para uma sala fechada) simplesmente porque não aguentei a
frustração de não terminar os 30 dias. Tudo por uma camiseta que dizia: desafio
30 dias.
Está aí
talvez a parte que pode ser funesta da gameficação do "desafio". A
ideia de vencer, de terminar, no meu caso, certamente atropelou outros
equilíbrios. "Faz o que o corpo te convida a fazer hoje", dizia a voz
suave do professor Cris. Se eu tivesse escutado, eu teria ficado no edredom.
Se eu
não consigo ser gentil comigo mesma nem na aula de ioga, onde?
Anotado.
O
cientista aplica uma substância no corpo e ela vai desenhando um caminho
fluorescente nos feixes de músculos. Você lembra de que eles, os músculos,
estão lá
<><>
'Que você tenha um dia livre de medo'
Todo
final de aula eu me agradeço "pelos meus esforços", por estar ali,
porque faz sentido para mim ("se agradeça, se fizer sentido para
você", sugerem os professores, talvez se precavendo de acharem eles muito
new age).
E
deitada no tapete, no savasana, ora olho para as ferragens do exaustor, ora
lembro algo que meu filho falou na garupa da bicicleta antes da aula.
Às
vezes lembro de desejar que a Tamilis ou o Lucas ou a Luna, alguns dos
professores da yoga, além da Paula, da recepção, tenham um dia livre de medo,
não tenham um instante sequer de ansiedade.
Aprendi
a desejar que as pessoas tenham dias livres de medo em uma aula online de
meditação durante a pandemia. Achei bonito.
Esse
desejo para eles, no savasana, é para mim como uma reza. Não é a certeza de que
depois dali vou recuar antes de ser rude, mas é a intenção da gentileza,
primeiro no dia deles, depois, se eu tiver sorte, no meu dia. E qualquer
gentileza é um descanso.
Aprendi
mais claramente nestes 30 dias que a sala de yoga na rua Mourato Coelho em São
Paulo me oferece essa possibilidade de, nos dias bons, também rezar um pouco.
Que
vocês também tenham um dia livre de medo hoje.
Fonte:
BBC News Brasil

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