Ruben
Bauer Naveira: A crise global de alimentos
O
presente texto tem por objetivo alertar quanto à provável ocorrência de uma
crise global de alimentos em futuro próximo, por conta da quebra das cadeias de
suprimentos para o sistema agroalimentar decorrente da guerra contra o Irã e do
consequente bloqueio do estreito de Ormuz, perspectiva esta que vem passando
despercebida à grande maioria dos agentes políticos e econômicos.
O fato
de acabar de ter sido assinado de um memorando de entendimento para uma
retomada de negociações entre os Estados Unidos e o Irã não afasta a
perspectiva dessa crise; virá, contudo, agravar ainda mais esse estado de
desatenção.
Crises
de oferta se resolvem pela lei da oferta e da procura. Com menos oferta os
preços sobem, e aí quem consegue pagar reclama mas paga e quem não consegue
substitui por algum correlato mais em conta. Ou passa sem. Mas aqui estamos
falando de alimento, indispensável à vida.
Àqueles
que acreditam que “o mercado se autorregula” e que assim a crise de oferta será
compensada por uma alta de preços (carestia) sem que chegue a haver falta de
produtos (escassez), eu digo que existe uma fronteira entre uma redução na
oferta que signifique apenas comida mais cara (e empobrecimento) e um grau de
redução que signifique que não haverá comida para todo mundo – mesmo que todos
tenham dinheiro para comprá-la. Pode-se consultar por exemplo este artigo o
qual explica bem essa circunstância: se a lei da oferta e da procura é o
mecanismo de homeostase (restauração de uma situação de equilíbrio frente a
perturbações) por excelência da economia global, as cadeias de suprimentos são
o seu calcanhar de Aquiles.
Quebras
nas cadeias de suprimentos ou eventos climáticos extremos volta e meia assolam
um país ou outro, e são compensadas pelo comércio global. Mas nunca antes houve
uma situação como a de agora, em que agricultores por todos os cantos do mundo
estão simultaneamente tendo que lidar com redução na oferta e aumento no custo
dos seus insumos (fertilizantes, defensivos, diesel, lubrificantes,
transporte). E pode-se ter certeza que, em qualquer lugar do mundo, um
agricultor é alguém mais bem-informado e mais interessado em saber sobre o
“Super El Niño” do que a média da população.
A
agricultura é desde sempre uma atividade de margens apertadas e incerteza
constante, em que os desincentivos têm peso. A decisão de cada produtor rural,
grande ou pequeno, quanto a deixar de plantar nesta safra, ou quanto a plantar
menos, é individual. Agricultura é uma atividade pulverizada, sob muito pouca
coordenação. Simplesmente não há como saber quantos produtores estão deixando
de plantar. Mas, desde o dia 28 de fevereiro, são milhões, pelo mundo todo.
Mesmo com as negociações de paz sendo retomadas a partir de agora, serão ainda
muitos milhões mais, por muito tempo – até que a oferta e os preços dos insumos
agrícolas voltem a se estabilizar em níveis que não temos como saber quais
serão, o que pode demorar ainda meses ou anos.
Um
alimento que seja plantado no dia de hoje levará vários meses até que venha a
ser colhido, beneficiado, eventualmente processado, transportado e distribuído,
para que possa ser finalmente consumido. Os alimentos que estamos consumindo no
dia de hoje foram plantados há meses atrás, talvez há mais de ano (inclusive os
de origem animal, pois animais são alimentados com ração de origem vegetal para
engordar). Isso significa que o mundo está contratando uma crise que não
irromperá amanhã, mas sim somente daqui a meses, possivelmente no ano que vem.
Ademais,
governos contabilizam safras, ou seja, alimentos após terem sido colhidos, mas
não contabilizam plantios – nem tampouco aquilo que deixou de ser plantado.
Somente após as colheitas (menores) é que se darão conta da real dimensão do
problema.
Já
teria o mundo ultrapassado a fronteira entre carestia (somente) e escassez (com
carestia também)? Não há como saber. Cada dia a mais que se passou até aqui com
Ormuz fechado agravou essa situação. E, mesmo depois que Ormuz seja reaberto,
levará ainda muitos meses até que o fluxo marítimo volte a se estabilizar – em
algum ponto que ainda ficará abaixo do volume histórico. Ou seja, o problema (a
crise futura) continua a se agravar, apenas a um ritmo mais lento.
Fome
massiva significará conturbação social. O que se está incubando pelos
desdobramentos da guerra contra o Irã avança silenciosamente para desembocar
naquela que poderá vir a ser a maior crise econômica e social de todos os
tempos.
<><>
A ruptura das cadeias de suprimentos
Devo de
início deixar muito claro que estamos tratando não somente de uma crise global
de alimentos, mas de uma crise em praticamente todas as cadeias globais de
suprimentos, uma vez que os produtos derivados de petróleo estão presentes em
praticamente todas elas: A carestia e a escassez de nafta petroquímica
impactarão cadeias como a dos plásticos e inúmeras outras, como tintas, o que
acabará por impactar cadeias como a automobilística; a carestia e escassez de
querosene de aviação impactarão o turismo, o que por sua vez impactará
segmentos como os de hotelaria e restaurantes.
A
carestia e escassez de combustível para navios (chamado “bunker”) impactarão o
comércio marítimo no mundo todo, com reflexos imensuráveis; a carestia e a
escassez de lubrificantes e graxas impactarão a indústria, uma vez que toda ela
utiliza maquinário; a carestia e a escassez de enxofre, um subproduto do refino
de petróleo, impactarão a produção de ácido sulfúrico, o produto químico mais
utilizado no mundo, presente em uma infinidade de cadeias produtivas como por
exemplo na mineração, a ser bastante afetada.
Especificamente
as perdas na mineração do cobre e do níquel impactarão as cadeias de tudo o que
faz uso de eletricidade, como baterias, o que por sua vez virá impactar a
transição energética para energias limpas pelo mundo; o ácido sulfúrico está
presente ainda nos processos de tratamento de água e esgoto no saneamento
urbano, no refino de petróleo e na produção de aço, têxteis, celulose,
borracha, couro, químicos, farmacêuticos e cosméticos.
A
carestia e a escassez de gás hélio, um subproduto da liquefação de gás natural,
impactarão a produção de microchips, o que impactará todas as cadeias de
eletrônicos, bem como até mesmo a realização na medicina de exames de
ressonância magnética (uma vez que os aparelhos de ressonância consomem gás
hélio).
Os
países do Golfo Pérsico respondiam ainda (antes da guerra) por uma parcela
expressiva das exportações mundiais de alumínio. Tudo isso junto acabará por
impactar o sistema financeiro mundial.
Essas
repercussões são de tamanha monta, e tamanho alcance, que não têm como ser
completamente percebidas até que se irradiem levando a efeitos como esses, e
aos efeitos desses efeitos. Já ao início da guerra contra o Irã (no dia 04 de
março, apenas cinco dias após o início dos combates) Craig Tindale delineou um
esquema geral para essas repercussões, mapeando uma sequência em cascata de
doze transformações ao longo de um período de mais de cinco anos, a culminar em
um rearranjo civilizacional geral do mundo.
Os EUA
e o Irã acabam de assinar um memorando de entendimento que estipula a
reabertura do estreito de Ormuz. Ainda que a partir de agora tudo corra bem e o
seguimento das negociações chegue a bom termo (o que é incerto), tais
repercussões ainda assim se farão sentir, ao contrário do que preferiria o
wishful thinking predominante no assim chamado “mercado” em sua ânsia por um
“retorno à normalidade”. Para além do necessário intervalo de tempo (vários
meses) entre uma recuperação gradual do fluxo marítimo e a normalização que
seja possível das cadeias globais de suprimentos (porque já foi tornado
impossível qualquer retorno a níveis pré-guerra; há diversos outros fatores.
O que
foi ajustado não foi um acordo de paz, foi tão somente um memorando de
entendimento, o qual estabelece as premissas de cada lado para aceitar entrar
novamente em negociações. Os termos do memorando não são vinculantes, ou seja,
trata-se de declarações de intenção ao invés de compromissos. As negociações
propriamente ditas se iniciam a partir de agora, com uma profusão de
divergências por resolver de conciliação extremamente difícil, e com qualquer
novo impasse podendo levar ao rompimento das negociações e à retomada das
hostilidades a qualquer momento;
Uma
reabertura de Ormuz deverá ainda por algum tempo ocorrer de forma apenas
parcial, até uma conclusão completa das negociações: o Irã somente deverá
liberar o trânsito de cargas de/para os países do chamado “Ocidente coletivo”
mediante uma liberação de seus ativos e fundos retidos nesses países, bem como
mediante o levantamento por esses países de suas sanções contra o Irã; do mesmo
modo, o Irã somente deverá liberar o trânsito de cargas de/para os países do
Golfo Pérsico mediante um desmantelamento das bases militares dos Estados
Unidos naqueles países.
Houve
alguma destruição física pelos bombardeios de instalações petrolíferas, pelo
que uma parte da oferta estará perdida ainda por anos. A retomada da produção
de petróleo após o fechamento forçado de poços devido ao esgotamento da
capacidade de estocagem (o que afeta muito mais os países do Golfo do que o
Irã, já acostumado a isso por décadas de sanções à sua exportação de petróleo)
será tanto lenta quanto incompleta.
Os
empresários do ramo do comércio marítimo (armadores, seguradoras) lidam com
custos elevados (valor do navio; valor da carga; tripulação por longos
períodos; combustível do navio; taxas portuárias e alfandegárias e inúmeros
outros custos associados), e precisarão se sentir psicologicamente seguros
quanto a levar seus navios a atravessarem novamente o estreito.
Como
uma ilustração, já há mais de um ano haviam cessado os ataques dos Houthis à
navegação comercial no estreito de Bab-el-Mandeb no Mar Vermelho, porém até
hoje o volume de tráfego retornou somente a 75% dos níveis anteriores. Por que
isso? Apenas porque os Houthis continuam lá (tanto é que acabaram de fechar
novamente o Bab-el-Mandeb) – assim como os iranianos também continuarão ao
largo de Ormuz. Do mesmo modo, especialistas supõem (mas não têm como prever)
que uma reabertura de Ormuz, hoje, levaria ao final deste ano a uma retomada de
apenas cerca de 40% do tráfego anterior à guerra.
<><>
A crise global de alimentos
As
cadeias de suprimento para os alimentos (fertilizantes, defensivos, máquinas
agrícolas, diesel, lubrificantes, transporte etc.) serão impactadas tanto
quanto as demais cadeias. Os alimentos são, contudo, o nosso foco pelo seu
caráter indispensável à sobrevivência humana. Se vier a ocorrer de os sacos de
lixo desaparecerem das prateleiras dos supermercados (porque são feitos de
plástico, feito de polímeros, feitos de nafta, feita de petróleo) as pessoas
passarão a ter que lavar as suas latas e latões de lixo, porém para a falta de
alimento não há alternativa. Qualquer ruptura nas cadeias de produção de
alimentos é uma receita certa para a conturbação social.
Previamente
a este artigo, vieram a ser publicadas as traduções para o português de dez
textos e reportagens sobre esta ruptura nas cadeias de produção de alimentos.
De todo
modo, como um resumo:
Os
países do Golfo Pérsico respondiam (antes da guerra) por cerca de 35% da
produção mundial de ureia, cerca de 40% da de enxofre e cerca de 20% da de gás
natural liquefeito (GNL). A ureia é o principal insumo para os fertilizantes
nitrogenados, do enxofre se faz o ácido sulfúrico que é o principal insumo para
os fertilizantes fosfatados e a partir do GNL também se produz ureia; há por
exemplo fábricas de ureia em Bangladesh, mas que utilizavam o GNL que vinha do
Qatar (uma das indústrias mais bombardeadas) e assim se encontram paralisadas.
O bloqueio das exportações do Golfo Pérsico é uma quebra nas cadeias globais de
fertilizantes, com impacto direto nas cadeias globais de alimentos.
Grandes
exportadores de fertilizantes, como a Rússia e a China, suspenderam suas
exportações para privilegiar a sua segurança alimentar doméstica (a Índia
solicitou emergencialmente o fornecimento de fertilizantes à China, porém esta
negou alegando priorizar suas necessidades próprias).
O preço
dos fertilizantes no mundo já disparou. A China, o maior produtor e exportador
mundial de ácido sulfúrico (mais de 40% da produção mundial), suspendeu as
exportações, comprometendo assim por exemplo a mineração de cobre no Chile e na
República Democrática do Congo, de níquel na Indonésia e de urânio no
Cazaquistão. Cerca de metade do consumo de ácido sulfúrico no mundo destina-se
à produção de fertilizantes fosfatados.
Em
qualquer lugar do mundo, as culturas cultivadas possuem janelas de plantio
bastante estreitas, em função das estações do ano. Plantios realizados
imediatamente antes da guerra não sofrerão efeitos, mas as respectivas
colheitas ainda levarão meses para acontecer, o que mascarará ainda por um bom
tempo os efeitos da crise (o mundo está consumindo hoje alimentos que foram
plantados ou mesmo colhidos há meses atrás). Plantios que eram para ter sido
realizados depois que a guerra estourou possivelmente ocorreram também sem
problemas, porém desde que os respectivos fertilizantes já tivessem sido
estocados.
Do
contrário, aqueles agricultores necessitados de fertilizantes que transitariam
pelo Canal de Suez os receberam/receberão com um retardo de cerca de vinte
dias, tempo a mais necessário para que os navios contornem o Cabo da Boa
Esperança. Desta forma, mesmo que esses fertilizantes tenham sido adquiridos a
um preço premium, tal atraso na entrega já implicou em uma aplicação do produto
fora do período ideal, com redução na produtividade da colheita. O pior caso é
o do aumento de preços que leva ao abandono do plantio, como já está
acontecendo em lugares tão distantes como os Estados Unidos (caso da soja,
malgrado a China ter aberto novamente o seu mercado para a soja americana, ou a
Tailândia.
Se, a
despeito das tratativas de paz, o estreito de Ormuz ainda vier a estar
bloqueado até por volta de setembro/outubro, a escassez global de enxofre
esgotará os estoques nos países desprovidos de produção própria, levando a uma
paralisação das suas fábricas de fertilizantes fosfatados;
Reduzir
a quantidade de fertilizantes (para uma mesma área plantada) não é uma opção.
Após plantios por anos a fio, os solos já se encontram exauridos; sem a adição
de NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) eles simplesmente não rendem. Qualquer
resposta a uma redução na quantidade de fertilizante será não-linear; assim,
10% a menos de fertilizante podem vir a representar 30% a menos de colheita
(claro que isso varia de cultura para cultura; por exemplo, o milho é mais
exigente em fertilizante do que a soja). Para os grandes produtores não há
alternativa aos fertilizantes agora tanto caros quanto escassos; os pequenos
buscam sofregamente encontrar alguma.
Um
efeito disso será a troca de culturas (por exemplo, plantadores de milho
passando a plantadores de soja); isso acarretará a necessidade de mudanças nos
hábitos alimentares dos consumidores.
Para
além dos fertilizantes, haverá quebra também nas cadeias de suprimentos dos
defensivos agrícolas (agrotóxicos), cuja produção depende de nafta
petroquímica; é da nafta pesada que se extrai reformado rico em tolueno e
xileno, e é do craqueamento a vapor da nafta leve que se produz gasolina de
pirólise rica em benzeno. Benzeno, tolueno e xileno (conhecidos pela sigla BTX)
estão na base das fórmulas de praticamente todos os pesticidas (herbicidas,
fungicidas e inseticidas) comerciais.
Ademais,
para uma aplicação efetiva, os princípios ativos dos defensivos necessitam
ainda ser dissolvidos em solventes (chamados aromáticos pesados), os quais são
também derivados do BTX. A atual produção agrícola somente pode existir sob
condições de intensa defesa química porque, sem os defensivos, as plantações da
agricultura moderna não possuem por si sós a necessária resistência às pragas.
No
mundo todo a agricultura é um negócio de margens estreitas e custos fixos; além
da carestia e da escassez de fertilizantes e defensivos os agricultores se
deparam com aumentos de custo do diesel e dos lubrificantes para seus tratores
e colheitadeiras, e ainda com maiores custos de transporte e frete. Será comum
(e já está sendo) que agricultores simplesmente desistam de plantar nesta
safra, aguardando por dias melhores (o que pode demorar anos, até que a
situação normalize), ou mesmo abandonando de vez a atividade, muito antes que
os governos compreendam a dimensão do problema e se proponham a intervir: uma
vez que as safras plantadas (ou não) agora somente serão(iam) colhidas daqui a
vários meses, os efeitos da crise somente serão sentidos de forma mais aguda em
2027.
Obviamente,
pequenos agricultores com pouco capital padecerão mais, alimentando o
surgimento de mercados negros e paralelos para fertilizantes e defensivos
desviados ou falsificados. A criação animal sofrerá tanto quanto as plantações,
uma vez que o milho e a soja são também a base alimentar da pecuária, de modo a
que a perda de grãos levará a uma liquidação forçada de rebanhos de aves e
suínos.
Pelo
mundo todo, os países buscarão importar alimentos, o que fará os preços
explodirem – inclusive em seus mercados domésticos. Qualquer país que detenha
estoques de grãos, potássio, fosfatos ou defensivos irá tratá-los como ativos
estratégicos em vez de bens comercializáveis (tal como a China já fez com o
ácido sulfúrico). Haverá uma tendência mundial aos controles de exportação, ao
racionamento de emergência, ao açambarcamento em lugar do comércio habitual ou
mesmo ao confisco puro e simples.
Os
brasileiros devem se recordar de um episódio havido no início da pandemia de
Covid-19 em que uma compra proveniente da China de 600 respiradores para
intubação de pacientes em hospitais foi confiscada nos EUA em uma escala do voo
em Miami; ao final, a culpa foi atribuída à empresa chinesa vendedora, porque,
é claro, uma vez que os respiradores não seguiriam mesmo para o Brasil, a
alternativa dela a romper o contrato para vendê-los nos EUA seria a de perder
tudo (esse episódio pode ser revisitado aqui, aqui e aqui).
O que
virá agora será pior: frente a necessidades críticas de segurança alimentar das
populações, pode-se esperar toda espécie de açambarcamento e de confisco de
insumos para a produção de fertilizantes e defensivos, de fertilizantes e
defensivos acabados, e de alimentos em geral.
Como se
isso tudo não bastasse, eventos extremos decorrentes da mudança climática
incidirão de forma dramática a partir do segundo semestre de 2026 e adentrando
2027, justamente quando a crise global de alimentos se fará sentir, no que pode
ser chamada uma tempestade perfeita que tende a devastar colheitas e a espalhar
fome por todo o mundo.
Meteorologistas
preveem a provável ocorrência de um “Super El Niño”, a provocar secas,
enchentes e ondas de calor extremo por todo o planeta, em magnitude igual ou
superior à da “grande fome” em 1877 de um século e meio atrás (também causada
pelo El Niño) que matou mais de 50 milhões de pessoas pelo mundo todo.
À
medida que o tempo passa, as probabilidades de este vir a constituir um evento
climático catastrófico vêm em um crescendo: eram essas as perspectivas em 29 de
abril, em 12 de maio, em 14 de maio, em 17 de maio, em 05 de junho, em 08 de
junho, em 09 de junho, em 11 de junho, em 14 de junho e em 17 de junho.
Ambos
os extremos, secas e inundações, comprometem criticamente a eficácia dos
fertilizantes. Nas regiões atingidas pela seca, a água atua como diluente. Sem
umidade suficiente no solo, os fertilizantes aplicados não chegam a se
dissolver para serem absorvidos pelas plantas. Já nas regiões atingidas por
inundações o excesso de chuvas acaba por remover o nitrogênio e o fosfato
altamente solúveis do solo antes que a absorção pelas plantas venha a ocorrer.
O El
Niño, uma anomalia oceânica no Pacífico equatorial, altera fundamentalmente a
ressurgência de águas profundas o que compromete os cardumes de anchoveta
peruana, a espécie fundamental para a produção global de farinha e de óleo de
peixe, acarretando um déficit de proteína nos mercados de ração para pecuária e
aquicultura. Os subprodutos da farinha de peixe são também muito procurados
como fertilizantes orgânicos premium e como condicionadores de solo. A perda
simultânea dos fertilizantes sintéticos (derivados do ácido sulfúrico e da
ureia) e dos substitutos orgânicos (devido ao colapso da pesca causado pelo El
Niño juntamente com o aumento do preço do combustível para os barcos)
representa outra tempestade perfeita desabando sobre os produtores agropecuários.
Este
artigo tem como propósito alertar quanto à gravidade da crise vindoura e
procurar mostrar os seus principais componentes. Para discorrer sobre como essa
crise poderá vir a afetar especificamente o Brasil foi escrito um outro artigo,
“O Brasil na Crise de Alimentos”.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário