Como
a Itália se levantou contra o genocídio
Brasil
e Itália, setembro de 2025: o povo ganha a cena. Não faz sentido comparar a
situação social e política dos dois países, claro, nem as razões que levam o
povo a transformar-se nesses dias em maré. O que Brasil e Itália partilham,
porém, é a intensidade da força popular, o impacto que exerce em diferentes
níveis. Constituído por multidões que escapam às análises ortodoxas da
consciência, da progressão linear, na confiança no papel de um sujeito
histórico único e eterno, o povo enche as ruas, derruba as estratégias, varre
as explicações dos porquês de determinadas escolhas e alianças, os pedidos de
moderação, de compreensão “dos tempos da política”.
Os
espaços políticos institucionais — saturados pela dialética muitas vezes
estéril — são abalados por uma força incontornável que não deixa lugar a outras
ações. As instituições políticas — de governo e de oposição —, os sindicatos
confederais têm de encontrar a maneira de enfrentar aquelas multidões,
ignorá-las é impossível. Significaria ficar ao lado de eventos que marcam a
vida de um país. Conforme as várias orientações, alguns tentam estigmatizá-las
como inúteis ou contraproducentes, outros de saltar por cima do carro.
O que
isso significa para o Brasil e para a política brasileira foi bem descrito por
Antonio Martins num recente artigo no Outras
Palavras, acerca das manifestações contra a anistia para os golpistas. Entre os
cinco pontos que António destaca na sua análise, o terceiro é o que mais
aproxima o Brasil da Itália: “Os partidos e suas frentes sociais não têm mais o
monopólio da convocação popular. Felizmente, entraram em ação outros atores — o
que garantiu o enorme sucesso da jornada de domingo”.
É o
mesmo que está acontecendo na Itália, onde — como todos sabem — se vivenciam
tempos sombrios. A aliança de ferro entre Meloni e Trump — puxada ao extremo
pelas externações delirantes do Salvini — não parece afrouxar-se à frente das
políticas criminosas do segundo. Pelo contrário, são tomadas como referência na
definição das relações com a justiça, nos conflitos sociais, nas desigualdades,
assim como na política externa. A esquerda institucional, presa nas eternas
contradições que a conotam há décadas e sem uma visão clara do que quer ser
quando crescer, fica no banco dos suplentes, sem perspectiva de entrar no campo
de jogo principal para os próximos dois, três campeonatos.
Neste
cenário, e com as imagens de Gaza a entrarem diariamente nos ecrãs de todos, de
um lado, e a hipocrisia e má-fé dos políticos nacionais e europeus, do outro, o
povo tomou a cena.
Não
foram organizações políticas que puxaram isso. Foram duas estruturas bastante
diferentes entre si: o CALP (Collettivo Autonomo dei Lavoratori portuali), uma
organização de base dos estivadores do porto de Gênova, e a Music for Peace,
uma estrutura de voluntariado muito ativa, tanto no âmbito local, como em
paises com fortes necessidades de apoio logístico e humanitário (Sudão e, até
há dois anos, Gaza).
O CALP
tem organizado o bloqueio dos navios para o transporte de armas no porto de
Gênova desde 2019. Construiu, ao longo desses seis anos, ligações estreitas com
organizações sociais e políticas, coletivos de estudantes, centros sociais
autônomos. A participação nos bloqueios sempre viu uma participação que ia
muito para além dos estivadores em si, mas nunca chegou a números realmente
elevados.
A saída
do CALP da CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho) em 2020 e a adesão ao
sindicato de base USB (União Sindical de Base) deram-lhe mais autonomia de
iniciativa. USB é o sindicato bem enraizado entre quem trabalha na logística e
transportes — sobretudo os mais marginalizados — e no setor público. A partir
daí, o CALP alcançou uma posição de destaque nas relações com outros
estivadores, tanto na Itália quanto na Europa. Até chegou a ser recebido pelo
papa Bento, que valorizou muito as ações levadas a cabo pelo Coletivo contra o
tráfico de armas.
Apesar
de tudo isso, as iniciativas promovidas pelo CALP tinham sempre o caráter de
manifestações de “militantes”. Não conseguiam derrubar a barreira que as
mantinha separadas do resto da cidade. Também a maioria dos estivadores não
participava dos bloqueios: entre eles existe uma organização política muito
forte e incrivelmente ortodoxa e anacrônica — Lotta Comunista — que sempre se
declarou contra esse tipo de iniciativas.
Em
agosto, a situação mudou de repente. O CALP e Music for Peace organizaram uma
recolha de bens alimentares para serem transportados a Gaza, pela Global Sumud
Flotilla. Em cinco dias, foram recolhidas 300 toneladas. Foi um sucesso
incrível. Havia filas de pessoas e carros a qualquer hora do dia para
entregarem na sede de Music for Peace os produtos que haviam sido elencados
pelos organizadores. Milhares e milhares de cidadãos de qualquer extração e
idade, também vindo de outras localidades, faziam a fila para entregar o que
compraram. Os supermercados nos arredores chegaram a esvaziar as prateleiras.
A
manifestação que encerrou a recolha viu um rio de dezenas de milhares de
pessoas acompanharem os bens até serem entregues aos barcos.
Aí
estava o povo. O que aconteceu ecoa nas palavras do Antonio Martins: trata-se
de um povo que não respondeu à convocação de uma organização política.
Respondeu, sim, a um apelo interior, se assim o quisermos nomear, que
atravessou a cidade toda e mais além. E não parou aí. A greve geral convocada
pela USB foi um sucesso sem precedentes: centenas de milhares de pessoas
participaram em muitas cidades italianas. A CGIL tentou boicotá-la, convocando
ela mesma outra greve geral três dias antes, mas fracassou totalmente:
participaram alguns milhares. Estamos falando do maior sindicato da Itália.
O
atraso — na melhor das hipóteses — dos partidos e das organizações
institucionais da esquerda tornou-se algo embaraçador. O povo, por sua vez,
mostrou-se mais adiantado por uma distância sideral.
Seria
uma ingenuidade não tomar em conta a situação dramática em que esse movimento
surgiu e ver nele logo algo que indique uma mudança de longo prazo. As
experiências francesas no recente passado mostram que as mobilizações — também
as com maior participação popular — acabam após um tempo mais ou menos longo.
Mas há uma outra consequência: sempre que o povo enche as ruas, algo fica, às
vezes sob a cinza, uma brasa prestes a chispar de novo. A França Insubmissa
nasceu assim.
Mas há
também outro ponto. Esse movimento surgiu em consequência de uma tomada de
posição face a um dos elementos nevrálgicos da fase atual da história do
capitalismo: a guerra e o regime que a produz e reproduz enquanto sua condição
de existência.
Neste
sentido, o movimento que nasceu no verão (europeu) de 2025 pode e deveria
tornar-se algo diferente. Já se fala na USB de objeção de consciência para
todos os que trabalham direta ou indiretamente na produção e manuseio de armas.
Isso significaria ampliar brutalmente o “campo de batalha”, contra uma das
produções estratégicas no plano global, que chegaria muito além da
dramaticidade do genocídio em Gaza.
O
trabalho será muito complicado, pois irá mexer nos equilíbrios entre poderes
políticos e econômicos em diferentes níveis. Por isso, esse movimento precisará
de articulações entre uma multidão de sujeitos que, para ter o impacto
desejado, deverão estender-se horizontal e verticalmente, tendo como âmbito de
referência o cenário internacional.
É mesmo
nesse sentido que a mobilização já está envolvendo a sociedade. No dia 27 de
setembro, teve lugar uma assembleia em Gênova, com a participação de delegações
de estivadores gregos, espanhóis e franceses. Todos estão pactuando com as
mesmas práticas de boicote dos navios da morte, contra a ordem que o “regime de
guerra” quer impor. Seguindo o rumo que levou à articulação de forças sociais
localmente, o desafio agora é deslocar o conflito para um plano supranacional.
A
articulação entre atores diferentes, porém, significa também a produção de um
nível “político”, que seja a síntese das “políticas” específicas. Essa é a
condição para manter, consolidar e desenvolver uma força popular.
O CALP
e Music for Peace estão mostrando que trabalhar neste sentido é possível e
produtivo. Cabe a nós todos contribuir para o alcance dos próximos objetivos,
que serão logo ultrapassados por novos.
O que
temos à nossa frente é uma aposta demasiado elevada para podermos nos permitir
distrações.
Fonte: Por
Giacomo Gastaldi, em Outras Palavras

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