Oliveiros
Marques: O egoísmo da elite e a questão tributária
O
cinismo da elite racista brasileira - dessa direita e extrema-direita imbecil -
no debate sobre a questão tributária é impressionante. Repetem, de forma
deslavada, que o objetivo do governo seria tirar dinheiro da população para
encher os cofres públicos. Escondem deliberadamente que, no capítulo atual, o
governo propõe algo bem diferente: fazer com que cerca de 140 mil contribuintes
— os mais ricos — passem a pagar um pouco mais, ou comecem a pagar, para que 25
milhões de brasileiros deixem de pagar Imposto de Renda.
Ou
seja, trata-se de tirar dos bilionários, dos bancos e das casas de apostas (as
“Bets”), para garantir a isenção de IR a professores, médicos, cabeleireiras,
eletricistas, motoristas de aplicativo, e tantas outras categorias de
trabalhadores e empreendedores Brasil afora.
O
sequestro do debate tributário por essa elite - com sua falsa interpretação dos
fatos - busca, na verdade, esconder uma verdade simples: eles não querem pagar
imposto. Querem continuar acumulando fortunas enquanto pagam,
proporcionalmente, muito menos do que os pobres e a classe média. Nenhum país
do mundo - esse mesmo mundo que eles adoram visitar e bajular - chegou onde
chegou sem implementar um sistema tributário progressivo, baseado numa lógica
elementar: quem ganha mais, paga mais.
O
debate, do jeito que vem sendo intencionalmente colocado pela elite - e,
logicamente, amplificado por setores da imprensa - “ignora o papel central da
tributação na construção de sociedades mais igualitárias e desenvolvidas”, como
bem aponta Laura Carvalho, diretora global de Prosperidade Econômica e
Climática da Open Society Foundations e professora associada da FEA-USP, no
prefácio do recém-lançado livro ‘Igualdade: Significado e importância’. A obra
apresenta um diálogo entre Thomas Piketty e Michael Sandel, professores da
Escola de Economia de Paris e da Universidade de Harvard, respectivamente.
Nessa
obra, os autores chamam atenção para o fato de que não basta crescimento
econômico ou redução da pobreza para que uma sociedade seja mais justa. Existe
um conceito fundamental, muitas vezes ignorado: o da distância social.
E no
debate atual sobre o IOF no Brasil, esse conceito salta aos olhos. Mesmo que
milhões saiam da pobreza - como historicamente aconteceu nos governos do PT - o
país não será justo se isso não representar, ao mesmo tempo, a redução do
controle das elites sobre os espaços de decisão política e sobre a narrativa
pública. Como alertam Sandel e Piketty, essa dominação “restringe a autonomia
dos indivíduos, perpetuando relações de dependência e submissão”.
Por
isso, dentro desse quadro analítico, é mais que acertada a decisão do governo
de ingressar com uma ação no STF para derrubar a decisão do Congresso. Não
apenas por representar uma clara intromissão em prerrogativas do Executivo, mas
porque materializa essa imposição histórica das elites que controlam o poder e
que precisam ser enfrentadas - se o objetivo for, de fato, construir uma
sociedade mais justa, igualitária e democrática.
• Flagrantes parlamentares de ataque aos
pobres. Por Paulo Henrique Arantes
É
nítida no dia a dia a volúpia chantageadora do Congresso Nacional. Sempre
alinhado com os poderosos lobistas que o frequentam, o Legislativo empareda o
Executivo em suas tentativas de promover justiça social, pouco dela que seja,
alegando a falsa preocupação com as contas públicas e fazendo genuflexão à
Faria Lima. Emendas têm de ser liberadas sem freio ou critério, caso contrário
o fantasma do impeachment assombrará o presidente da República. Algo nesse
sentido não seria surpresa sendo os parlamentares quem são.
Na
presente legislatura, além do surto com o IOF, não foram poucos os momentos em
que o Congresso avançou sobre a parcela mais pobre da população brasileira. No
fim de 2024, a PEC 54, o PLP 210 e o PL 4.614, modificando BPC, o Bolsa
Família, o abono salarial e limitando o aumento do salário mínimo foram
aprovados na Câmara e no Senado. Lula fez vetos ao PL 4.614, derrubando a
exigência de comprovação de deficiência moderada ou grave para recebimento do
BPC e revogando a regra sobre reingresso no Bolsa Família.
Já o
salário mínimo, graças aos nobres congressistas, só terá aumento real - acima
da inflação - se o PIB de dois anos antes for positivo. Caso contrário, será
corrigido pelo INPC seco.
O
Brasil também deve ao Congresso Nacional a derrubada de propostas progressivas
que beneficiavam diretamente os mais pobres no texto da Reforma Tributária.
Ficaram garantidas apenas isenções na Cesta Básica.
Ao
aprovar a PEC 54 e o PLP 210, o Parlamento congelou salários de servidores e
instituiu o contingenciamento automático de gastos, afetando programas sociais,
de saúde e educação. No caso do segundo, Lula vetou apenas o trecho que proibia
o bloqueio de emendas parlamentares impositivas, incluindo emendas individuais
e de bancada. O governo argumentou que impedir o bloqueio dessas emendas
violaria uma decisão do STF (ADPF 854), que exige tratamento igual entre
emendas e despesas discricionárias.
Fresca
na memória está a criação de 18 novas cadeiras na Câmara, de 513 para 531, o
que eleva os gastos dos “fiscalistas” daquela casa em cerca de 65 milhões de
reais.
• Governo recorre ao Supremo contra
derrubada do IOF
A
Advocacia-Geral da União (AGU) protocolou nesta terça-feira (1º) ação junto ao
Supremo Tribunal Federal (STF), no intuito de reverter a derrubada do decreto
elaborado pelo governo federal que aumenta alíquotas do Imposto sobre Operações
Financeiras (IOF).
Em
coletiva de imprensa, o ministro da AGU, Jorge Messias, informou que a ação
declaratória de constitucionalidade foi apresentada após solicitação feita pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com base em estudo técnico e jurídico
solicitado ao órgão na semana passada.
Segundo
Messias, a conclusão da AGU é que o decreto do governo federal é
constitucional, válido e não poderia ter sido objeto de decreto legislativo de
sustação.
“A
avaliação técnica dos nossos advogados foi de que a medida adotada pelo
Congresso acabou por violar o princípio da separação de poderes”, explicou
Messias.
"Todo
esforço do governo é para que possamos retomar a normalidade
institucional".
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Entenda
O
decreto fazia parte de medidas elaboradas pelo Ministério da Fazenda para
reforçar as receitas do governo e atender às metas do arcabouço fiscal. No fim
de maio, o presidente Lula editou decreto que aumentava o IOF para operações de
crédito, de seguros e de câmbio.
A
decisão de pautar a derrubada do decreto do IOF foi anunciada horas antes da
votação pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), em postagem
nas redes sociais. Segundo ele, a maioria da Câmara não concorda com elevação
de alíquotas do IOF como saída para cumprir o arcabouço fiscal e tem cobrado o
corte de despesas primárias.
Já o
governo alegou que a medida é necessária para evitar mais cortes em políticas
sociais e maiores contingenciamentos que podem afetar o funcionamento da
máquina pública. Além disso, segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, as
regras do decreto corrigiam injustiças tributárias de setores que não pagam
imposto sobre a renda.
Entre
as medidas propostas no decreto estão o aumento na taxação das apostas
eletrônicas, as chamadas bets, de 12% para 18%; das fintechs, de 9% para 15% a
alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), igualando-se aos
bancos tradicionais; a taxação das Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e Letras
de Crédito do Agronegócio (LCA), títulos que atualmente são isentos de Imposto
de Renda.
Antes
mesmo da derrubada do decreto, o governo editou, no início de junho, uma medida
provisória (MP) com aumento de tributos para bets (empresas de apostas) e para
investimentos isentos. A ideia da MP era atender uma pressão do próprio
Congresso. A medida provisória também prevê o corte de R$ 4,28 bilhões em
gastos obrigatórios neste ano. Em troca, o governo desidratou o decreto do IOF,
mas o decreto foi derrubado pelo Congresso da mesma forma.
• Jorge Messias diz que informou Motta e
Alcolumbre antes de acionar STF contra derrubada do IOF
O
advogado-geral da União, Jorge Messias, buscou tranquilizar, e afirmou, nesta
terça-feira (1º) que comunicou previamente aos presidentes do Senado, Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP), e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta
(Republicanos-PB), que acionaria o Supremo Tribunal Federal (STF), em meio a
embates relacionados ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). O governo
federal defende revalidar os decretos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
que elevaram as alíquotas do imposto.
Os
decretos do governo federal foram anulados por decisão do Congresso Nacional,
elevando a tensão entre o Executivo e o Legislativo. Aliados do governo,
lideranças do Psol reagiram, e o STF designou como relator de uma ação contra a
decisão do Congresso o ministro Alexandre de Moraes.
Messias
assegurou, em coletiva de imprensa, que a ação no STF pelo IOF é a favor do ato
do governo e não contra o Congresso. “A preocupação do presidente [Luiz Inácio
Lula da Silva] não é atacar um ato do Congresso. A preocupação do presidente
não é, de forma direta, discutir com o Congresso".
Messias
garantiu que o presidente Lula mantém “relação profícua” com os chefes do
Legislativo e reiterou a importância de uma convivência institucional
equilibrada. “Defendemos uma relação respeitosa e harmônica entre os
poderes", afirmou o advogado-geral.
Segundo
ele, o recurso ao STF, anunciado oficialmente mais cedo em documento divulgado
pela AGU, é uma resposta jurídica e não um embate político. “Há espaço da
política e há espaço do direito. Nesse momento, falará o direito. A política
poderá chegar a arranjos próprios”, disse Messias, ressaltando que o governo
mantém a disposição para o diálogo.
O
advogado-geral reforçou que a medida do presidente Lula tem amparo na
jurisprudência vigente e que a competência para editar decretos sobre o IOF é
prerrogativa do Executivo. “Toda questão política, o presidente Lula considera.
Ele tem se dedicado muito a dialogar com os presidentes das duas casas, e vamos
continuar fazendo. São linhas que caminham em paralelo, mas que podem no futuro
se encontrar em benefício para a coletividade”, declarou.
• Haddad diz que espera ligação de Hugo
Motta para explicar derrubada do IOF
O
ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta terça-feira (1º) que o
governo continuará dialogando com o Congresso Nacional, apesar do desgaste
causado pela derrubada do decreto que previa o aumento do IOF (Imposto sobre
Operações Financeiras). As informações são do g1.
Sem
citar diretamente qualquer rompimento com o Legislativo, Haddad ressaltou que o
Executivo não vê a decisão como uma traição, mas demonstrou incômodo com a
condução do tema pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a
quem fez um apelo público por retorno de contato.
"Estou
aguardando o retorno de uma ligação que fiz para ele na semana passada",
afirmou o ministro."Eu fiz uma ligação e estou aguardando o retorno. [Ele]
tem que ficar à vontade também. O presidente Hugo Motta frequentou o Ministério
da Fazenda como poucos parlamentares. É uma pessoa que é considerada amiga do
Ministério da Fazenda. De todos aqui, não é só de mim. E sabe que tem livre
trânsito. Não tem nenhuma dificuldade, da minha parte nenhuma",
prosseguiu.
A
polêmica teve início após o Congresso Nacional, com apoio expressivo de
parlamentares, derrubar no mesmo dia o decreto do governo que aumentava o IOF.
A proposta, mesmo após ter sido modificada em reunião com Haddad para reduzir
seu impacto, foi rejeitada tanto na Câmara quanto no Senado.
Diante
da derrota, o governo federal estuda entrar com uma ação no Supremo Tribunal
Federal (STF), por meio da Advocacia-Geral da União (AGU), para tentar
restaurar a validade do decreto.
Na
véspera, Hugo Motta afirmou à imprensa que não traiu o Executivo e que já havia
alertado o governo sobre as dificuldades para aprovar o texto no Congresso.
• 'Judicialização do IOF pode criar
confronto entre os poderes', alerta Hugo Motta
Durante
jantar promovido nesta segunda-feira (30) na residência do ex-governador João
Doria, em São Paulo, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta
(Republicanos-PB), expressou preocupação com a decisão do governo federal de
acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) contra o Congresso Nacional. De acordo
com a coluna da jornalista Amanda Klein, do UOL, participantes do encontro
afirmaram que Motta alertou que a judicialização do Imposto sobre Operações
Financeiras (IOF) "pode ser caminho ruim adotado pelo governo federal para
criar um confronto entre poderes, no caso Legislativo e Supremo Tribunal
Federal".
Segundo
um empresário presente, “ele fez uma crítica educada e pontual ao governo, mas
afirmou, sim, que recorrer ao STF para derrubar a decisão do Congresso vai
afastar ainda mais Executivo e Legislativo”. A declaração ocorreu na véspera de
a Advocacia-Geral da União (AGU) ingressar com ação no STF para contestar a
constitucionalidade do Projeto de Decreto Legislativo (PDL), que anulou o
aumento do IOF aprovado por maioria expressiva tanto na Câmara quanto no Senado
na última semana.
Os
participantes do encontro também relataram que Hugo Motta cogita colocar em
pauta outros projetos de decreto legislativo como forma de pressão, embora não
tenha especificado quais. Um deles, no entanto, teria garantido que o PDL
relatado por Arthur Lira, que isenta do IOF quem recebe até R$ 5 mil, será
aprovado.
O
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), recentemente alertou que há
mais de 500 PDLs tramitando na Câmara e 80 no Senado. O volume reforça o risco
de novas derrotas do governo Lula caso o embate entre os Poderes se
intensifique. Em sua fala aos empresários, Motta ressaltou que, na condição de
presidente da Câmara, sua função é interpretar a vontade dos parlamentares e
garantir a independência da Casa. Disse ainda que busca manter o diálogo com os
demais Poderes, em busca de harmonia institucional, mas sem abrir mão da
autonomia do Legislativo.
Ainda
segundo a reportagem, Motta foi aplaudido de pé após discurso para cerca de 65
empresários de diversos setores, incluindo indústria, comércio, serviços,
tecnologia e bancos. De acordo com seus interlocutores, o jantar havia sido
agendado antes da atual crise envolvendo o IOF. Embora tenha evitado ataques
diretos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o deputado afirmou que o
Brasil não tolera mais aumento de tributos e que o país espera controle de
gastos, não um governo que gaste mais do que arrecada.
Nos
bastidores, conforme relatos de participantes, Motta comentou que ainda mantém
esperança de que o governo federal apresente alguma proposta concreta de corte
de despesas.
Na mesa
principal do evento estavam, além de Motta e João Doria, o vice-governador de
São Paulo, Felicio Ramuth (PSD), o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles e
o ex-governador Rodrigo Garcia (PSDB). O prefeito paulistano Ricardo Nunes
(MDB) também compareceu, mas ficou apenas dez minutos, cumprimentou o
presidente da Câmara e deixou o local para outro compromisso.
Ainda
conforme a reportagem, a avaliação dos empresários é de que Motta já se afastou
do presidente Lula — e que a tendência é esse distanciamento se aprofundar. Na
avaliação deles, o próprio governo federal tem contribuído para o agravamento
dessa separação. No meio político, a leitura é que o governo enfrenta
dificuldades crescentes para recuperar sua popularidade.
Fonte:
Brasil 247

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