Como
funciona o poderoso lobby sionista
Em
2017, um diplomata israelense em Londres foi gravado exigindo medidas contra
Alan Duncan, então ministro das Relações Exteriores britânico. Logo depois,
Duncan foi informar o secretário executivo do departamento sobre a revelação,
relembrando a conversa em seu diário: “Eu o lembrei, em tom de brincadeira […]
do que eu disse a ele no meu primeiro dia como ministro. ‘Simon […] eu não te
contei? O CFI [Conservadores Amigos de Israel] e os israelenses acham que
controlam o Ministério das Relações Exteriores. E controlam!’”
Para
alguns da esquerda, queixas como as de Duncan exemplificam teorias
conspiratórias equivocadas sobre a onipotência de Israel e seu lobby. Esses
oponentes da tese do lobby israelense nos dizem que o rabo não abana o cachorro
e que Israel serve aos interesses estratégicos estadunidenses — ontem, hoje e
eternamente.
“O
valor de Israel para o poder imperial dos EUA — um aliado confiável e
militarmente poderoso em uma região geoestrategicamente crucial do mundo — é
perfeitamente óbvio e não requer um lobby para ser compreendido”, escreve o
comentarista britânico David Wearing. Em um estudo sobre o lobby, publicado no
ano passado em formato de livro, o acadêmico Hil Aked lança um argumento
semelhante. Sugestões de que o apoio a Israel é contrário aos interesses
nacionais estadunidenses e que o lobby tem responsabilidade por essa distorção,
insiste Aked, são “problemáticas”: “nacionalismo progressista” equivocado, na
melhor das hipóteses, e “com um tom potencialmente xenófobo”, na pior. Trata-se
de ensaios políticos predeterminados, a alguma distância da análise concreta da
situação concreta.
Da
mesma forma, Andreas Malm dedicou recentemente uma parte significativa de um
ensaio — sobre o genocídio de Gaza e sua precedência em histórias combinadas de
catástrofes coloniais e ecológicas — à rejeição da tese do lobby. Ele concorda
com a afirmação de Sayyed Hassan Nasrallah de que “Israel costumava ser uma
ferramenta nas mãos dos britânicos e agora é uma ferramenta nas mãos dos
Estados Unidos”. Malm contrapõe “a teoria distorcionista do lobby” à “teoria
instrumentalista do império e dos atores políticos” e se pronuncia a favor
desta última, argumentando que ela é justificada por “evidências do passado
remoto, bem como do passado recente e do presente”.
No
entanto, essas rejeições à tese do lobby israelense são insuficientes tanto
analítica quanto estrategicamente. No mundo evocado por tais argumentos, existe
um interesse imperial estadunidense pré-formado e basicamente imutável, sempre
atendido pelo apoio incondicional a Israel. Essa é a suposta base, que o apego
ideológico das elites estadunidenses a Israel espelha fielmente. Muitas vezes,
esse interesse imperial fixo é simplesmente dado como certo, com sua
articulação por líderes estadunidenses substituindo qualquer coisa que se
aproxime de evidências substanciais ou investigação rigorosa. Assim, Malm pode
acreditar na palavra de Joe Biden quando ele repete sua visão de longa data de
que “se não houvesse Israel […] os Estados Unidos teriam que inventar um”,
baseada na forma tão inabalável e eficaz que o país serve ao império.
Há
muitas armadilhas em interpretar os interesses existentes do império
estadunidense a partir de declarações cuidadosamente selecionadas de alguns de
seus líderes. Mais obviamente, os líderes estadunidenses são mais do que
capazes não apenas de cometer erros de cálculo estratégicos desastrosos, mas
também de se apegar a concepções equivocadas sobre os interesses do império que
supervisionam. Isso não é algo que normalmente temos dificuldade em aceitar.
Havia toda uma variedade de teorias pseudomaterialistas sobre os interesses
imperiais que supostamente levaram George W. Bush a invadir o Iraque, por
exemplo, mas poucos questionariam hoje que a guerra — e talvez o aventureirismo
pós-11 de setembro de forma mais ampla — foi um saldo negativo para o poder dos
EUA. Tratava-se de uma cruzada ideológica desastrosa, baseada na arrogância
autodestrutiva sobre o potencial de intervenções militares de choque e pavor
para criar uma ordem mundial.
Em
outras palavras: é claro que muitos líderes estadunidenses, Joe Biden hoje em
primeiro lugar entre eles, acreditam firmemente que Israel é um posto avançado
imperial eficaz e um investimento valioso. Mas eles podem estar errados.
Questionar as autoconcepções estratégicas dos governantes imperiais não é um
exemplo, como afirma um oponente determinado da tese do lobby, de “sussurrar
para a classe exterminacionista que seu cálculo está errado”, mas sim uma
questão de insistir em uma compreensão séria e integrada do inimigo — o que
geralmente vale mais, como Perry Anderson certa vez insistiu, do que “boletins
para elevar um moral duvidoso”.
Outro
problema gritante em acreditar na palavra de Biden é que dois podem jogar o
jogo da pescaria de arquivos. Veja esta observação de Henry Kissinger de 1975,
que parece contradizer diretamente os argumentos sobre Israel como um
importante ativo estratégico para os Estados Unidos, precisamente quando o
contexto era mais complicado, durante a Guerra Fria: “A força israelense não
impede a disseminação do comunismo no mundo árabe […] Portanto, é difícil
afirmar que um Israel forte serve aos interesses estadunidenses porque impede a
disseminação do comunismo no mundo árabe. Não impede. Ele garante a própria
sobrevivência de Israel.” Hoje, poderíamos apontar para uma enorme dissidência
no Departamento de Estado dos EUA sobre a política de Biden para Gaza e para um
coro dentro do mundo da expertise estadunidense em “segurança nacional” sobre
os perigos estratégicos do apoio inabalável a Israel.
Em um
nível mais fundamental, a oposição de esquerda à tese do lobby israelense
frequentemente se baseia em uma visão ultrapassada e mecânica do poder
imperial. Primeiro: em um campo político superdeterminado como o do Estado
imperial estadunidense, forças ideológicas — o sionismo de Biden, conservado em
aspic, por exemplo — podem ter efeitos materiais determinantes, prejudiciais à
posição hegemônica do império e à sua vida útil no século XXI. É nesse âmbito
que Israel e o lobby exercem sua força.
Em
segundo lugar, por definição, a imagem de um interesse imperial estadunidense
imutável, sempre bem atendido pelo apoio a Israel, só se sustenta na ausência
de qualquer compreensão conjuntural: não há qualquer tentativa de apreender,
teórica ou empiricamente, o funcionamento contemporâneo do império dos EUA. Há
inúmeras razões para questionar a utilidade de Israel para seus benfeitores
estadunidenses hoje. O Mediterrâneo Oriental, e até mesmo o Golfo Pérsico
(embora Israel nunca tenha tido grande valor neste último), têm importância
estratégica bastante reduzida. Enquanto isso, Washington enfrenta uma
sobrecarga imperial ao tentar competir em três grandes frentes ao mesmo tempo —
Europa Oriental, Leste Asiático e Oriente Médio — tudo isso em um cenário de
capacidade militar-industrial degradada.
O
comportamento de Israel, há muito tempo desonesto e agora genocida, torna
impensável o tipo de estabilidade regional mais ampla, possibilitada pela
melhoria das relações do Golfo Pérsico com o Irã, de que os Estados Unidos
precisam para se “retirar” confortavelmente do Oriente Médio em termos
militares. Nesse sentido, a observação de John Mearsheimer e Stephen Walt em
“The Israel Lobby and US Foreign Policy” [O Lobby de Israel e a Política
Externa Estadunidense] sobre a circularidade dos argumentos a favor da
importância estratégica de Israel parece especialmente pertinente: “Israel é
retratado como um aliado vital para lidar com seus vizinhos perigosos, mas o
compromisso com Israel é uma razão importante pela qual os Estados Unidos veem
esses Estados como ameaças em primeiro lugar.”
Por
fim, a noção de que “o rabo nunca pode abanar o cachorro”, embora geralmente
seja um aforismo anticonspiracionista bem-intencionado, elide décadas de
inovação no estudo histórico de impérios, focado em como as periferias e postos
avançados imperiais atuaram sobre os centros metropolitanos. As margens
importam: os suplicantes podem não ser onipotentes, mas os senhores também não
o são. “Quem é a porra da superpotência aqui?”, questionou Bill Clinton,
desesperado, aos seus assessores após se encontrar com o primeiro-ministro
israelense Benjamin Netanyahu.
E
quanto à política? Grande parte do trabalho do lobby consiste em persuadir —
com incentivos e punições — líderes e legisladores ocidentais de que apoiar
Israel é do interesse estratégico de seus países. No que diz respeito à opinião
pública, o lobby enfrenta uma tarefa mais difícil do que nunca: à medida que o
genocídio em Gaza continua, a maioria está se tornando receptiva às demandas do
movimento de solidariedade à Palestina. Nesse contexto, a esquerda concordar
com Biden enquanto ele repete que Israel é um fiador confiável dos interesses
estadunidenses parece politicamente insensato.
Visões
conspiratórias sobre a totalidade do “controle” de Israel são enfraquecedoras,
mas também o são essas noções obsoletas do império dos EUA como um monólito
congelado — estas últimas frequentemente acompanhadas de uma retórica grandiosa
que implica que os palestinos devem aguardar a queda da civilização ocidental
em sua totalidade para se libertarem do sionismo.
Acontece
que análises concretas apontam para a crescente superfluidade estratégica de
Israel em relação ao império estadunidense e, portanto, sugerem um papel mais
relevante para o lobby na garantia da manutenção do patrocínio. Mas a
compreensão empírica que se obtém sobre a relação EUA-Israel e sua natureza é,
em certo sentido, secundária: na medida em que se envolve no trabalho forte e
lento da política de massa, a esquerda deveria apresentar argumentos éticos e
estratégicos contra o apoio a Israel, independentemente disso.
Se o
projeto colonial de ocupação na Palestina deve ser desmantelado, derrotar o
lobby israelense no Ocidente deve ser uma de nossas tarefas. “A verdade”,
escreveu Frantz Fanon, “é o que acelera a desintegração do regime colonial […]
e o bem é simplesmente o que mais os prejudica”.
Fonte:
Por Ed McNally – Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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