terça-feira, 1 de julho de 2025

“Acabou a coalizão de Lula; agora é guerra com mísseis e drones", diz Moisés Mendes

O jornalista e colunista Moisés Mendes avaliou, em entrevista ao programa Boa Noite 247, que a relação entre o governo Lula e o Congresso Nacional entrou em uma nova e conflituosa fase. “Numa guerra, não se briga mais com flecha; agora é com mísseis e drones”, afirmou. Para ele, houve uma ruptura irreversível na lógica de coalizão política que sustentou os governos petistas desde 2003.

A entrevista foi conduzida por Leonardo Sobreira e aconteceu logo após a derrubada, na Câmara dos Deputados, do decreto presidencial que elevava a alíquota do IOF sobre operações de crédito. Mendes entende que esse episódio marca uma inflexão no relacionamento entre os poderes. “O governo de coalizão não vai se desfazer formalmente, mas vai funcionar de forma precária até 2026. A convivência virou confronto permanente”, disse.

<><> Haddad veste o uniforme do embate

O comentarista também destacou a mudança de postura do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como sinal dessa nova fase. “Ele vai para o embate. A palavra está na fala dele. Não somos nós que estamos interpretando”, afirmou Mendes, referindo-se à declaração de Haddad em palestra na USP: “Não é hora de se recolher, agora é hora de vestir o uniforme do embate, do bom debate público, da disputa por ideias”.

Para Mendes, o enfrentamento se dá no momento em que o governo colhe bons indicadores econômicos, mas lida com a dificuldade de traduzir esses resultados em apoio popular. “O governo oferece inflação sob controle, crescimento do PIB, emprego... Mas as pessoas não percebem esses dados como percebiam antes. A segurança virou tema central e isso é um déficit das esquerdas”, pontuou.

<><> A disputa pelo centro e o desafio da comunicação

Diante do esgarçamento da aliança governista, Moisés Mendes defende que Lula busque recompor forças mirando o centro político. Ele relembrou a estratégia da Frente Ampla no Uruguai, que recuperou o poder ampliando alianças com setores moderados. “Aqui não tem mais onde ampliar pela esquerda. Nós vamos ter que correr para o centro, chamar mais gente para dentro da frente”, avaliou.

Outro eixo do problema, segundo o jornalista, está na comunicação: “A imagem da balança dos ricos e dos pobres não alcança as pessoas. Ela é simbólica demais, genérica demais. Nós vamos ter que conversar com influenciadores que os mandatos não alcançam. As velhas caras do PT não falam mais com as pessoas como no século passado”.

<><> A isenção do IR como batalha simbólica

A proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, carro-chefe da política econômica do governo para a classe média, também foi alvo da conversa. Para Mendes, a resistência do Congresso a essa medida “escancara a sabotagem dos interesses populares”. Ele ironizou: “Chegamos ao ponto de ter que puxar o Arthur Lira como relator para salvar uma proposta como essa. Isso era consenso há pouco tempo. Hoje, é motivo de embate”.

O colunista vê nessa resistência um sintoma claro de luta de classes. “É o velho confronto: os interesses dos pobres contra os interesses dos ricos. Mas como comunicar isso? Como fazer essa conversa chegar nas pessoas?”, questionou.

<><> A hora de enfrentar

Moisés encerrou a entrevista com uma defesa do enfrentamento político, ainda que reconheça não haver respostas fáceis. “Nós, jornalistas, temos que seguir perseguindo perguntas que levem a algum consenso, se é que existe algum hoje. Eu não tenho respostas. Mas sei que não dá mais para seguir como antes”.

Segundo ele, é preciso combinar firmeza institucional, capacidade de articulação com o centro político e, sobretudo, uma nova linguagem que ressoe com o sentimento popular. “A realidade mudou, e a política precisa acompanhar”.

•        Lula deve reagir com firmeza e sabedoria às tentativas de manietar seu governo

A recente decisão da Câmara dos Deputados de rejeitar o aumento do IOF sobre operações de câmbio representa um desafio político relevante ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A medida, inicialmente adotada por decreto, visava recompor parte da arrecadação como um passo importante rumo à justiça fiscal. A rejeição do aumento, porém, sinaliza um clima de tensão entre o Executivo e o Legislativo, especialmente diante da postura cada vez mais autônoma e, em certos momentos, hostil da maioria parlamentar. Paira a ansiedade resultante de uma antecipação da disputa eleitoral de 2026 — uma situação que obviamente não convém ao governo, a quem mais interessa um ambiente de estabilidade e negociação voltado à aprovação de medidas de interesse nacional.

Não pode, porém, o Executivo permanecer inerte diante da tentativa de ceifar seu poder. O artigo 153 da Constituição é claro ao afirmar que é direito do governo federal alterar, como aliás já o fez em diversas ocasiões, as alíquotas do imposto sobre operações financeiras.

Diante desse cenário, o governo tem, obviamente, a opção — ou mesmo o dever — de recorrer ao Judiciário para manter seus poderes constitucionais. Munido dessa possibilidade, e avaliando o cenário, deve reagir com moderação para evitar o agravamento da relação institucional com o Congresso, mas também com firmeza para manter sua autoridade e coerência com os compromissos assumidos perante a população, sobretudo no campo da responsabilidade social e do combate à desigualdade.

É relevante considerar o momento virtuoso que o país vive. A economia segue apresentando vigor, com o desemprego no nível mais baixo da história recente, aumento da massa salarial, crescimento do consumo e diminuição — também recorde — da desigualdade. Vale notar que a economia brasileira continua crescendo, mesmo com queda da inflação atual e perspectiva declinante para os preços futuros. O real registra a maior valorização frente ao dólar neste ano, o que tem sido decisivo para o recuo dos preços de muitos produtos.

Os agentes políticos percebem nesses e em outros indicadores as tendências dos cenários para o fim do ano e para 2026.

A votação revelou não apenas resistência à medida fiscal, mas também a disposição de setores da Câmara em testar os limites do Executivo. Trata-se de uma tentativa de constranger o governo, ainda mais num contexto em que o equilíbrio das contas públicas e o cumprimento das promessas sociais de Lula são temas sensíveis, com reflexos junto à opinião pública.

A resposta do presidente Lula deve se dar em dois níveis. Deve reafirmar o compromisso tanto com seu programa social quanto com a responsabilidade fiscal. Deve, ao mesmo tempo, redobrar o diálogo político com lideranças partidárias, inclusive da base aliada.

O que está em jogo vai além de um imposto. Trata-se da capacidade do governo de conduzir sua política econômica sem ser refém de agendas paralelas ou sabotagens disfarçadas de autonomia legislativa. É legítimo que o Parlamento debata e revise medidas do Executivo, mas é igualmente legítimo que o Executivo defenda seus instrumentos de gestão — especialmente aqueles que buscam corrigir distorções históricas do sistema tributário.

Neste momento, Lula deve manter o tom sereno e institucional que tem caracterizado sua atual gestão. Mas precisa, também, mostrar que não recuará diante de pressões que enfraqueçam os pilares de sua política econômica e social. Reafirmar a importância da reforma tributária, continuar buscando apoio para a tributação progressiva da renda e do patrimônio, e ampliar a articulação com os presidentes da Câmara e do Senado são passos fundamentais.

A governabilidade no presidencialismo de coalizão exige, de fato, concessões. Mas também exige firmeza de propósitos. É hora de Lula exercitar sua reconhecida habilidade política e construir, com lucidez e energia, o espaço necessário para governar com legitimidade e eficácia.

Lula dispõe de potentes armas legais e políticas para responder às armadilhas colocadas pelos adversários — e até por aliados — da sua gestão.

Optando pelo confronto ou pela conciliação, o presidente deve levar em conta algumas condições. Não interessa ao governo, agora, permitir que se injete pela via da crise institucional mais incerteza e instabilidade num ambiente econômico e administrativo favorável.

Todos sabem que, para quem está no governo, previsibilidade e segurança são ativos importantes para qualquer postulação cuja prioridade se imporá logo mais adiante.

 

•        “Lula deve recorrer às ruas e não ao Supremo”, afirma José Genoino

Durante entrevista ao programa Bom Dia 247, o ex-presidente nacional do PT José Genoino fez um alerta ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para ele, diante do avanço do que considera um projeto neoliberal de desmonte do Estado, o presidente Lula deve abandonar a estratégia de conciliação e buscar o apoio direto das ruas. “A gente deve recorrer às ruas e não prioritariamente ao Supremo. Recorrer às ruas, fazer o debate político, mostrar quem é quem”, afirmou Genoino.

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O dirigente histórico do PT criticou duramente a atuação da elite econômica brasileira e apontou para o risco de uma “catástrofe” social caso não haja enfrentamento claro ao modelo em curso.

“Essa elite financeira monopolista nunca quer pagar imposto”, declarou, citando as recomendações recentes do Banco Mundial para o Brasil, que incluem a desvinculação dos gastos obrigatórios com saúde, educação e previdência, além de reformas administrativas e fiscais.

Segundo ele, as medidas aprofundariam a exclusão social.

Para Genoino, o governo enfrenta uma ofensiva orquestrada que visa desidratar sua capacidade de ação, enfraquecendo sua base política e preparando o terreno para uma alternativa de extrema direita “sem as extravagâncias de Bolsonaro, mas com o mesmo conteúdo neoliberal e autoritário”. Nesse cenário, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é visto como o nome mais promissor desse campo político: “O que o Tarcísio quer é privatizar o que resta”, alertou.

O ex-deputado federal sustenta que a governabilidade do campo progressista está em xeque. Segundo ele, é necessário que o PT se reposicione, com mais autonomia frente ao governo e capacidade de articulação com movimentos sociais e partidos de esquerda. “Está faltando combatividade, está faltando sangue nos olhos. Se ficar só no parlamento, não dá. Tem que fazer disputa dentro e fora do Congresso”, enfatizou.

Genoino também apontou para as limitações do atual modelo de governabilidade, centrado na chamada frente ampla. Para ele, o presidencialismo brasileiro está sendo deformado por práticas como as emendas impositivas, que reduzem o papel do Executivo. “Eles estão querendo tirar o poder do presidente da República. Isso é uma excrescência. O povo vota esperando mudança, e o orçamento está sendo pulverizado com emendas para fazendas e condomínios”, criticou.

Ele ainda classificou como erro estratégico recorrer exclusivamente ao Supremo Tribunal Federal para barrar derrotas políticas no Congresso. “Essa ideia de tudo a gente vai para o Supremo cria uma dependência muito grande. O Lula deve fazer um pronunciamento à nação, claro, e reunir os partidos da base para adotar uma tática de resistência ativa”, defendeu. Para Genoino, o presidente precisa usar sua capacidade de comunicação com o povo de forma mais assertiva: “O Lula é bom de diálogo, mas agora precisa ser bom de enfrentamento”.

Genoino concluiu sua intervenção fazendo um apelo à esquerda para que retome sua capacidade de encantamento e mobilização popular. “Sem esperança e sem encanto, a gente fica entregue ao pessimismo, ao individualismo e à depressão. Nós temos que ligar o motor da urgência política”, disse.

•        Esquerda reage e marca ato em São Paulo contra ofensiva da direita e do bolsonarismo

 Movimentos sociais e partidos de esquerda decidiram fazer um ato conjunto no dia 10 de julho, em frente ao Masp, na Avenida Paulista, em São Paulo-SP, pela defesa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, diante da ofensiva da extrema-direita no Legislativo, de acordo com informações do jornal Folha de São Paulo.

O ato, que ocorre em meio a renovadas tensões entre o Congresso Nacional e o governo do presidente Lula, levantará bandeiras em defesa da justiça tributária, com destaque para o apoio ao projeto que prevê isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5.000 e a taxação dos super-ricos.

"Devem ser mencionados também temas como conta de energia, emendas parlamentares", acrescenta o jornal.

A manifestação é apoiada pela Central de Movimentos Populares, além de partidos, personalidades e políticos da esquerda.

Os atos terão ocorrido dias após uma manifestação bolsonarista, neste domingo (29/6), no mesmo local. Os extremistas de direita falharam, até então, em reverter o atraso na votação do projeto que perdoa os terroristas do 8 de Janeiro, conhecido como PL da Anistia.

Inelegível, Jair Bolsonaro estava previsto para subir no carro de som durante o ato da extrema-direita em defesa da anistia aos envolvidos na trama golpista, após uma série de manifestações lideradas pelo ex-capitão e aliados políticos e evangélicos pelo país.

•        Governo vai ter que combinar combatividade e sabedoria para romper o cerco. Por Bepe Damasco

Saiu na sexta-feira (27) o resultado da PNAD Contínua do IBGE. Os 6,2% de desemprego no trimestre encerrado em maio são a menor taxa para o período desde o início da série histórica da pesquisa, há 13 anos. Mas sabe qual a importância que isso tem para a Faria Lima, as Organizações Globo e a grande maioria do Congresso Nacional?

Nenhuma.

A inflação segue em trajetória de queda, os preços dos alimentos estão cedendo, o dólar está cotado a menos de R$ 5,50, o PIB contraria os analistas do mercado e sobe como em poucos países do planeta.  No entanto, advinha qual o valor que o Centrão, os comentaristas e articulistas da mídia comercial e os engravatados do mercado dão a este ótimo ambiente econômico?

Nenhum.

Fora os avanços econômicos, o governo exibe vários programas sociais exitosos. Assim, só restou para a direita, a extrema-direita e a imprensa comercial apelar para chavões alarmistas, como "desequilíbrio fiscal", "estrangulamento fiscal" e "apagão fiscal"

E dane-se se isso tem algum amparo na realidade.

A revogação do decreto do governo sobre o IOF, por parte do Congresso Nacional, leva a três conclusões óbvias:

1.       Deputados e senadores sabem que Lula tem muito para mostrar na campanha pela reeleição e querem forçar o governo a sagrar seu coração eleitoral, que são os investimentos e programas sociais. A conta deles é simples: sem o IOF, só vai restar ao governo cortar na carne em saúde e educação, por exemplo.

2.       A cúpula do Congresso rompeu, de cabeça pensada, os canais de diálogo e negociação com o governo. Qualquer proposta pregando o diálogo padece, portanto, de vício de origem. É impossível negociar com quem não quer negociar.

3.       A direita já decidiu que Tarcísio de Freitas é o seu candidato e a tendência é que, pelo menos institucionalmente, partidos como União Brasil, Progressistas, Republicanos, etc, que têm ministérios no governo, não apoiarão a candidatura à reeleição do presidente Lula.

De nada adiantarão convites para viagens ao exterior na comitiva presidencial, almoços, jantares e conversas que atravessam horas a fio. Na cabeça dos luminares do Centrão, a fórmula para vencer a eleição passa por sabotar o governo, inclusive engavetando projetos de forte apelo popular, como a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil.

A saída, então, passa pelo rompimento com o Congresso? De jeito algum.

É preciso tensionar as bancadas com mais realizações, manter canais com lideranças intermediárias da Câmara e do Senado, convencer o presidente Lula a se encontrar de forma mais frequente com deputados e senadores e escalar mais ministros para a interlocução com eles.

Não há a menor garantia de que essa ofensiva dará certo, mas o afastamento completo seria um caminho perigoso.

Por outro lado, o governo não pode abrir mão da luta política, deixando claro nesta queda de braço quem defende os pobres e quem está ao lado dos ricos. Fica a sugestão para o ministro Sidônio Pereira, da Secom: por que que não uma campanha com esse propósito?

Não dá para entender porque o presidente Lula não ocupou até agora uma cadeia de rádio e TV para explicar didaticamente a importância do pequeno aumento do IOF para a justiça tributária e o equilíbrio das contas públicas.

E, por fim, com todos os riscos de segurança, que podem ser perfeitamente mitigados pela equipe do presidente com o apoio dos movimentos sociais, não terá chegado a hora de Lula ir ao encontro do povo? Não em eventos chapa branca, mas em manifestações amplas de prestação pública de contas de seu governo.

Ah, mas isso é antecipação de campanha, dirão muitos. Mas, e daí? Os adversários já colocaram o bloco na rua. Há momentos na política em que o excesso de moderação é péssimo conselheiro.

 

Fonte: Brasil 247

 

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