Um
adolescente em 5 no Brasil sofre abuso sexual na internet
Um em
cinco adolescentes entre 12 e 17 anos no Brasil já foi vítima de abuso ou
exploração sexual facilitado pela tecnologia, segundo um relatório do Fundo das
Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicado nesta quinta-feira (03/09). A
cada três casos, dois acontecem nas redes sociais, sobretudo nas plataformas
Instagram, WhatsApp e Facebook, todas controladas pela Meta, seguidas por
Snapchat, TikTok, X e YouTube.
A
pesquisa da agência da Organização das Nações Unidas (ONU) entrevistou, entre
2020 e 2025, 21 mil adolescentes desta faixa etária em 21 países do Sudeste da
Europa e de diferentes regiões da Ásia, da África e da América Latina.
A média
global de menores que reportaram ter sido vítimas de pelo menos uma forma de
exploração ou abuso sexual relacionado ao uso da tecnologia nos doze meses
anteriores é a mesma da brasileira (18%). É o equivalente a dizer que estimados
20 milhões de adolescentes são vitimizados anualmente no planeta.
As
formas de abuso e exploração sexual mais reportadas, no caso brasileiro, foram
a exposição indesejada a conteúdo sexual na internet (13,7% dos entrevistados);
pedidos para falar sobre atos sexuais ou enviar imagens do próprio corpo
(10,5%) e ofertas de dinheiro ou presentes em troca de imagens ou encontros
sexuais (5,3%).
Os
jogos online foram apontados como o segundo ambiente virtual onde mais
acontecem este tipo de violências, tanto no caso brasileiro (12%) quanto na
média global (14%). Os canais próprios para mensagens diretas são
frequentemente citados como o instrumento usado para cometer abusos.
São
ainda contabilizados pelo levantamento do Unicef os abusos cometidos
pessoalmente, como na escola ou espaços públicos, depois de vítima e
perpetrador terem interagido na internet. Este foi o caso de 18% dos
adolescentes brasileiros entrevistados.
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Confiança explorada
Os
responsáveis pelos abusos frequentemente exercem pressão sobre as vítimas.
Segundo o Unicef, as características, funções e design das plataformas criam as
condições para explorar a confiança dos menores de idade. "Muitas vezes,
tudo começa sem qualquer aviso", escrevem os autores da pesquisa.
"Uma conversa se transforma em coerção, e a coerção se transforma em uma
armadilha."
A falta
de conhecimento sobre quais autoridades procurar e o sentimento de vergonha são
os dois fatores que mais dificultam, tanto no Brasil quanto na média global,
que os afetados procurem ajuda. Ao todo, 41% dos entrevistados ao redor do
mundo não contaram a ninguém sobre a experiência de violência sexual. Menos de
1% dos casos foram reportados às autoridades.
A
maioria (55%) dos casos reportados no Brasil ao Unicef foi perpetrada por
pessoas já conhecidas das vítimas, contra 20% de desconhecidos (também estes
percentuais se alinham à média global). Houve mais registros de abusos
cometidos por menores de idade (35%) do que por adultos (27%).
Em 25%
dos casos, os entrevistados não souberam informar quem estava por trás de
perfis usados para cometer as violências online. "Você começa a conversar
no Facebook com seus amigos e, de repente, chega uma solicitação de mensagem
com uma foto de uma parte íntima de sabe-se lá quem, convidando você a fazer
coisas obscenas. E isso não aconteceu só uma vez, mas várias vezes",
relatou uma adolescente da Colômbia ao Unicef sobre experiências que viveu
entre os 15 e 16 anos.
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Impacto psicológico
Crianças
vítimas dessas formas de abuso apresentam quatro vezes mais probabilidade de
ter pensamentos e comportamentos suicidas, quatro vezes mais probabilidade de
praticar automutilação e relataram níveis de ansiedade cerca de 11 pontos
percentuais mais elevados do que seus colegas, segundo o Unicef.
A
diretora executiva da agência, Catherine Russell, fala numa "realidade
dolorosa". "Essas experiências causam profundo sofrimento emocional e
psicológico," afirma. Os impactos podem se prolongar no tempo, afetando a
escolaridade, os relacionamentos e a vida cotidiana.
Em
agosto, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que o
Discord, plataforma criada para facilitar a comunicação entre gamers,
suspendesse as funcionalidades de transmissão ao vivo e compartilhamento de
vídeos no Brasil, o segundo maior mercado da plataforma no mundo.
A
medida seguiu o caso de uma adolescente que tirou a própria vida durante uma
live na plataforma. A polícia ligou o episódio a uma suposta organização
criminosa acusada de atrair crianças e adolescentes para comunidades virtuais,
onde seriam submetidos a diversos tipos de abusos.
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Como proteger menores de idade
Outros
estudos já chegaram a conclusões semelhantes. A pesquisa EU Kids Online,
publicada em 2020 após entrevistas em 19 países europeus, indicou que 22% de
todos os participantes haviam recebido mensagens de conteúdo sexualizado.
Já num
estudo realizado em sete escolas da Espanha entre 2021 e 2022, 21% das meninas
entrevistadas afirmaram sofrer assédio sexual online ocasionalmente. Outros 5%
disseram enfrentar esse tipo de situação com frequência. Entre os meninos, os
percentuais foram alguns pontos percentuais mais baixos em ambas as categorias.
Já uma
pesquisa do Pew Research Center, de 2022, apontou que 17% dos jovens entre 13 e
17 anos nos Estados Unidos receberam imagens explícitas online sem
consentimento. O levantamento não diferenciou conteúdo sexualizado de outros
tipos, como imagens de violência.
Diversos
países ao redor do mundo têm discutido restringir ou proibir o acesso de
menores de idade às redes sociais, a fim de protegê-los de abusos e dos
impactos à saúde associados ao excesso do tempo de tela. Na Alemanha, por
exemplo, uma comissão propôs em junho um modelo escalonado que prevê limites
etários, mecanismos de verificação de idade e obrigações mais rigorosas de
cooperação por parte das plataformas.
O
Unicef pede que governos, empresas de tecnologia e outros atores adotem medidas
para proteger melhor crianças e adolescentes no ambiente digital. As
recomendações da agência incluem reforçar a privacidade de menores de idade nas
plataformas, fortalecer regulamentações e leis nacionais e criar sistemas
confiáveis de denúncia e apoio voltados a crianças e adolescentes.
Fonte:
DW Brasil

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