O avesso da soberania
Durma com esta, caro leitor, cara leitora: o
Departamento de Guerra dos EUA foi quem viabilizou, no fim das contas, a compra
da única mineradora capaz de produzir terras raras em escala comercial fora da
Ásia – a Serra Verde, localizada em Goiás.
Não foi o comprador direto da empresa – papel
desempenhado pela USA Rare Earths, na qual o governo dos Estados Unidos possui
fatia de 10% -, mas amarrou o nó que faltava ao sucesso da transação:
garantiu a aquisição de 100% da sua produção por 15 anos.
O negócio revela traços de pactos coloniais.
O itinerário se inicia com o aporte do governo estadunidense (nesse caso, US$
1,55 bilhão), passa pela aquisição da matéria-prima produzida no Brasil e,
cereja do bolo, termina numa planta norte-americana de processamento de
minerais críticos e estratégicos, para alimentar segmentos industriais de alta
tecnologia, entre os quais defesa, energia, IA, microeletrônica e mobilidade
elétrica. Quem se gaba do feito é o próprio O episódio deveria atormentar
qualquer espírito comprometido com o Brasil. Parecemos ser o único país
relevante a não querer disputar o próprio destino. EUA, China e União Europeia,
para citar os principais centros de poder global, disputam abertamente o
Brasil. Os objetivos são claros: extrair renda e acumular poder – político,
econômico, militar, produtivo, tecnológico.
Contra as mais variadas pressões externas,
arbitrárias ou não, o governo brasileiro propôs e levou a cabo negociações
comerciais e iniciativas de atração de investimentos estrangeiros. Em uma de
suas inúmeras observações nesse sentido, Alckmin voltou a defender o livre
comércio nos termos propostos pela Inglaterra no século XIX. Para o
vice-presidente, se “eu sou mais competitivo num setor, vendo para você. Você é
mais competitivo em outro. Você vende para mim produtos de melhor qualidade,
mais baratos”. Uma versão simplória da teoria do livre-comércio.
O próprio presidente Lula dá o tom. Em
recente encontro de cúpula do Mercosul, afirmou que o bloco “está avançando nos
diálogos com Canadá, Índia e Vietnã. Nesta cúpula, daremos mais um passo ao
lançar as negociações de uma parceria econômica com o Japão. Em breve, queremos
fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos
do planeta”. Isso depois de já ter assinado acordos de livre comércio com
Singapura, EFTA e União Europeia. A abertura ainda mais generosa aos
exportadores chineses selaria a sorte do que sobra do setor industrial
brasileiro.
A ideia mágica é a de que garantiremos nossa
soberania pela diversificação. Quem vai comprar nossa soja, nossa carne, nosso
suco de fruta? Dá-lhe diversificação de compradores. Quem vai nos fornecer
semicondutores, serviços satelitais, máquinas de ressonância magnética e toda
uma infinidade de produtos de alta tecnologia? Tome diversificação de
fornecedores. A única diversificação de que não se fala, ou não se fala
seriamente, aquela realmente capaz de garantir nossa soberania, é a
diversificação de capacidades institucionais, produtivas e tecnológicas, em
território nacional, base do desenvolvimento de todos os países relevantes.
Passados quatro anos, a cadela do fascismo
volta a apresentar-se às urnas. Em 2022, o discurso do presidente Lula exibia
alguns sinais de ousadia. O programa de governo também. Escolhemos aqui apenas
dois deles, em função da amplitude de seus efeitos sobre a economia do País – a
política fiscal e de comércio exterior.
A noção de um teto de gastos era rechaçada.
Programas sociais e investimentos públicos eram encarados como fator decisivo
para redução de desigualdades, aumento da produtividade e crescimento da
economia. A pressão sobre a dívida pública seria atenuada prioritariamente por
essa via, não pela compressão de gastos sociais e investimentos públicos.
A integração externa, por outro lado, estaria
condicionada à reindustrialização do Brasil – o livre comércio não era encarado
como vetor de desenvolvimento. O comércio exterior deveria estar subordinado
aos objetivos superiores de desenvolvimento nacional. Ou seja, comércio
criterioso, conduzido em função das nossas necessidades de desenvolvimento
produtivo e tecnológico.
Mas o que temos agora, nesta encruzilhada tão
decisiva para o País? Temos a energia, a coragem e a criatividade de um
mordomo. Do tipo tão bem descrito por Kazuo Ishiguro, nobel de literatura,
em Os Vestígios do Dia. O jovem ministro da Fazenda, alçado a
porta-voz econômico da campanha do presidente Lula, é o homem mais previsível
do governo.
As satisfações que oferece ao mercado vão na
linha de que o arcabouço fiscal (o novo teto de gastos) “veio pra ficar”, de
que devemos “promover novo ajuste fiscal de 2% do PIB” ou de que “precisamos
obter grau de investimento para estabilizar a trajetória do endividamento
público”. A investidores estrangeiros, sua pasta teve a delicadeza de oferecer
a Serra Verde, por meio do Eco Invest e da plataforma BIP4. Não há
maldade nisso, obviamente. Existe apenas disciplina e lealdade ao papel que
dele se espera. Um mordomo irretocável.
O problema é o que se espera do presidente
Lula, do sentido histórico de seus governos, sobretudo agora em que a luta pela
soberania surge como imperativo. No discurso, o conceito tem sido
frequentemente usado de maneira adequada. Na prática, o caso da Serra Verde
sinaliza a emergência de mais um ciclo econômico guiado por lógica regressiva e
tendente a produzir o resultado de sempre: dependência e subdesenvolvimento. O
avesso da soberania.
¨
Batalha eleitoral
decisiva da luta de classes no Congresso. Por César Fonseca
O encontro do presidente Lula com os
representantes do capital financeiro, nesta segunda-feira, no Palácio da
Alvorada, tratou basicamente de uma agenda antitrabalhador, prejudicial aos
propósitos lulistas de alcançar o quarto mandato.
Os capitalistas presentes querem afirmar
aquilo que foi prioridade na pauta da Globo em entrevistas com os candidatos,
semana passada: relação dívida/PIB, objetivando conter gastos públicos sociais,
para não aumentar a dívida pública, que está em 82% do PIB, bombeada pelos
juros altos de curtíssimo prazo.
Trata-se de assunto controverso que coloca os
trabalhadores com barbas de molho, pois todas as providências para resolver
essa relação, conforme desejam os empresários, implicam contenção dos salários,
do consumo, da produção, da arrecadação, dos investimentos, enfim, do
desenvolvimento sustentável da economia.
Significa, sobretudo, atender às demandas dos
capitalistas, não dos trabalhadores, na linha do engajamento dos candidatos da
direita e ultradireita fascista bolsonarista.
Tal agenda, eleita prioritária, por exemplo,
pela Globo, porta-voz do capital, é negativa do ponto de vista do trabalho.
<><> Momento de tensão máxima
O assunto se intensifica, justamente, na
semana decisiva, em que o Congresso se reúne, extraordinariamente, para decidir
providências fundamentais para os interesses da população: aumento de salários
e do emprego, expresso no debate pela aprovação da redução da jornada de
trabalho de 6×1 para 5×2.
Outro assunto prioritário: o debate sobre as
terras raras — eis o assunto que mexe com as relações do Brasil com o mundo,
especialmente com os Estados Unidos, pois, afinal, somos o segundo maior
detentor mundial dos minerais críticos, fundamentais para a industrialização de
vanguarda, para a defesa nacional e para a inteligência artificial, que atrai a
atenção geral.
Com as terras raras, está em jogo a soberania
nacional.
Igualmente, interessa aos trabalhadores a
remoção da chamada “Taxa das Blusinhas”, que favorece as pequenas e médias
empresas, que dependem do consumo dos trabalhadores de renda média e baixa
renda.
Esses setores econômicos estão prejudicados
pela abertura comercial neoliberal, favorável aos produtos importados,
beneficiados pelos juros altos, nocivos aos assalariados, que consomem a
crédito, e à industrialização nacional.
Por fim, debate-se, para aprovação, a PEC da
Segurança, proposta pelo presidente Lula, contra a qual a direita fascista se
rebela.
Por quê?
Simples: a posição civilizatória de Lula
coloca no comando do Estado o combate ao crime organizado, atualmente dominante
no cenário político federativo, controlado por oligarquias econômicas e
financeiras reacionárias, que financiam os candidatos da direita e
ultradireita, favorecidas pelas emendas parlamentares, aprovadas por orientação
neoliberal, no Legislativo.
As posições do governo estão claras,
sintonizadas com pauta desenvolvimentista: mais emprego, mais renda, mais
arrecadação, mais investimentos, para aumentar a oferta de produção diante do
aumento da taxa de emprego e dos salários médios, para, sobretudo, equilibrar a
demanda, a fim de controlar os preços, evitando tensões inflacionárias.
A pauta em votação no Congresso, em caráter
extraordinário, mediante negociação do presidente com os líderes do
Legislativo, é, portanto, oposta à prioridade contida na pauta da Globo,
apresentada aos candidatos em disputa como se fosse prioridade dos trabalhadores,
contrários aos cortes de gastos públicos para segurar a inflação nos termos do
arcabouço neoliberal.
<><> Pauta neoliberal anti-Lula
O essencial, que agradou os banqueiros no
encontro com o presidente, foi, certamente, o anúncio de que a economia, em
2027, registrará superávit primário próximo de R$ 20 bilhões.
Isso significa que, entre receita e despesa
orçamentárias, os cofres públicos terão a menos perto de 0,3% do PIB para
aplicar no desenvolvimento, a fim de pagar juros da dívida pública, já nas
alturas de 82% do PIB, a exigir desembolso superior a R$ 1 trilhão em custos
financeiros, meramente especulativos.
Ou seja, os setores econômicos do governo
apresentaram aos credores uma agenda mais voltada ao antidesenvolvimentismo
neoliberal do que ao desenvolvimento sustentável, ao qual se filia o lulismo
progressista.
Encontro decisivo com os trabalhadores
Agora, depois de se encontrar com os
representantes do capital, o presidente Lula, certamente, se reunirá com o
outro lado: os trabalhadores.
Trata-se de equilibrar os interesses entre
capital e trabalho, em pleno jogo eleitoral, onde são disputados os interesses
de classe.
Essa tarefa já está em curso, de forma
extraordinária, nesta semana, com a batalha pela aprovação, principalmente, da
redução da jornada de trabalho.
Pragmaticamente, reduzir a jornada significa
mais salário, mais desenvolvimento, mais saúde, mais educação e mais qualidade
de vida para os trabalhadores.
Não é à toa que o maior adversário de Lula, o
candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro, suspendeu suas viagens pelo país, em
campanha, para ficar em Brasília, no Congresso, a fim de votar contra o fim da
escala 6×1.
Está, portanto, em cena, na batalha
eleitoral, a luta de classes entre capital e trabalho.
Lula, trabalho; Bolsonaro, capital.
Vencer essa batalha é mais do que meio
caminho andado para o presidente alcançar o quarto mandato.
Os trabalhadores esperam por esse resultado,
favorável a eles, a fim de colocar seu voto na urna contra o fascismo
bolsonarista, antitrabalhador, e sua agenda política do atraso.
Fonte: Por Manoel Casado, em Outras
Palavras/Brasil 247

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