sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Povo Parakanã teme novas invasões após eleições presidenciais

Durante anos, o povo Parakanã ficou restrito a menos de um terço de seu território, isolado em meio a uma vasta área de pastagem ocupada por cerca de 100 mil cabeças de gado. O garimpo de ouro, o desmatamento e a grilagem de terras também se alastravam sobre a Terra Indígena Apyterewa, localizada na bacia do rio Xingu, no Pará.

“Essa é, historicamente, a terra indígena mais desmatada do Brasil, e talvez do mundo”, afirmou Wallace Lopes, analista ambiental do Ibama, em entrevista à Mongabay.

O auge do desmatamento ocorreu durante o governo do presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), que desmantelou a fiscalização ambiental do país. Em 2022, uma área quase do tamanho de Paris (102,23 km²) foi desmatada dentro do território dos Parakanã, de acordo com o Inpe.

“Foi um desmatamento muito grande”, disse Wenatoa Parakanã, presidente da Associação Tato’á, que representa os indígenas. “A gente vê só o pasto.”

Estima-se que os invasores somavam 3 mil pessoas, mais de quatro vezes a população indígena (730). Após duas tentativas fracassadas dos governos anteriores de remover os invasores, em 2013 e 2017, eles se sentiram confiantes o suficiente para construir um pequeno vilarejo dentro da terra indígena, com dois postos de gasolina, bares, igrejas e até mesmo uma escola.

As coisas começaram a mudar em 2023, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o cargo e deu início a uma grande operação de desocupação. A força-tarefa, que cumpriu uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), incluiu a apreensão de gado ilegal, a destruição de maquinário e a remoção do vilarejo.

Cerca de 300 agentes de diversos órgãos governamentais, como o Ibama, a Polícia Federal, a Força Nacional, o Exército e a Funai, atuaram na região. Os esforços reduziram significativamente o desmatamento para 7,5 km² em 2025, e a Terra Indígena Apyterewa caiu da primeira posição para a 12ª no ranking do desmatamento das terras indígenas da Amazônia.

Segundo Wenatoa, muitas famílias indígenas estão agora voltando para as áreas antes ocupadas pelos invasores: “O nosso plano é cuidar do nosso território, da nossa floresta que ainda restou.”

A proximidade da eleição presidencial, no entanto, aumenta o temor dos indígenas de serem novamente abandonados pelas autoridades. Até o momento, as pesquisas indicam uma disputa acirrada entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair, impedido de concorrer após ter sido condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.

“Os invasores sempre falam pra gente que só estão esperando esse governo passar para poder entrar de novo [no território]”, disse Wenatoa.

Lopes, que analisou a operação de desintrusão do território Apyterewa em sua tese de doutorado, observou de perto o impacto do discurso oficial no comportamento dos infratores ambientais.

“A liderança política do momento tem uma importância muito grande para a dinâmica da taxa de desmatamento”, disse Lopes, que viu o desmatamento na Amazônia disparar durante o governo de Jair Bolsonaro e, em seguida, ser controlado novamente durante o governo de Lula.

Territórios recuperados pelas autoridades após operações longas e onerosas podem ser rapidamente reocupados por invasores ao menor sinal de complacência, disse Lopes. E eles podem voltar mais fortes do que antes.

“Porque agora eles entendem a ação do Estado”, disse ele. “Eles sabem quais as estradas utilizadas, qual a estratégia, se vai tirar gado, se vai derrubar ponte… É como se fosse uma espécie de bactéria, que vai se adaptando ao antibiótico que você vai dando.”

De acordo com André Villas-Bôas, do Instituto Socioambiental (ISA), as eleições, por si só, tendem a intensificar as disputas por terras. Os políticos locais, disse ele, podem apoiar as demandas dos grileiros para conquistar votos. Se um membro da família de Bolsonaro chegar ao poder em 2027, Villas-Bôas acredita que a situação ficará ainda pior.

“É um governo que tem uma visão preconceituosa em relação aos povos indígenas, que apoia sem muito discernimento as iniciativas do agronegócio, que vê a grilagem de áreas públicas como parte do desenvolvimento da região.”

<><> Mortes e emboscadas

Os invasores expulsos da Terra Indígena Apyterewa dão sinais claros de que não desistirão facilmente. Pelo menos nove ataques foram registrados desde dezembro de 2024, quando as forças federais encerraram sua presença em larga escala no território e realizaram a devolução simbólica da área aos indígenas.

Em dezembro de 2025, um vaqueiro contratado pelo Ibama para retirar o gado da área foi morto em uma emboscada, enquanto dois indígenas e um funcionário da Associação Tato’á escaparam de ataques a tiros no início de 2026.

O temor de uma retaliação levou organizações indígenas a emitir declarações instando o governo federal a investigar aqueles que ainda ameaçam o território.

“A Terra Indígena Apyterewa está em uma situação de grande vulnerabilidade, cercada de pessoas e grupos que não aceitam a desintrusão e querem a terra e os recursos que são dos Parakanã por direito”, declarou a Rede Xingu+, uma rede de 53 organizações que representam povos indígenas, comunidades ribeirinhas e grupos da sociedade civil da bacia do rio Xingu.

Villas-Bôas, que também atua como secretário executivo da Rede Xingu+, disse que a presença do governo no local deveria ser mais efetiva, dada a gravidade do conflito. “Na hora em que as tensões estouram, o governo se faz presente de forma mais contundente, e depois retrai.”

Em um e-mail enviado à Mongabay, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) afirmou que “todas as terras indígenas que passaram por operações de desintrusão contam com atividades contínuas de proteção territorial”. Segundo o MPI, também foram elaborados Planos de Manutenção de Desintrusão, incluindo medidas de segurança, inspeção e monitoramento.

“Infelizmente o cobertor é curto”, disse Lopes. “Aquele monte de equipe que tinha durante a desintrusão não está mais presente. Você não vai mais encontrar aquela mesma quantidade de servidores, a mesma disponibilidade de aeronaves, de pessoal, de material, de equipamentos.”

Segundo Lopes, o sucesso a longo prazo das desintrusões depende da manutenção de agentes de inteligência no território, prontos para relatar qualquer movimentação estranha.

“A organização do mercado ilegal não é visível por imagem de satélite”, disse ele, acrescentando que atividades ilegais, como o garimpo, exigem o deslocamento de maquinário pesado. “Isso exige um fluxo de gente que não é normal dentro da terra indígena, e que só é visível se tiver o pessoal de inteligência presente dentro do território.”

Também é importante que os indígenas tenham um canal de comunicação fácil e direto com as autoridades, para que possam relatar rapidamente qualquer atividade suspeita, disse Lopes.

Desde que Lula assumiu a presidência, o governo federal promoveu operações para retirada de invasores em 11 terras indígenas, segundo o MPI: Alto Rio Guamá, Karipuna, Kayapó, Araribóia, Munduruku, Sai Cinza, Trincheira Bacajá, Apyterewa, Yanomami, Uru-Eu-Wau-Wau e Sararé.

<>< Bases fixas em um ponto crítico de desmatamento

Uma situação semelhante ocorreu na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, que se estende por mais de 1,7 milhão de hectares, o equivalente a 11 cidades de São Paulo.

Administrada pelo governo do estado do Pará, a área está localizada em um dos pontos críticos de desmatamento da Amazônia e, historicamente, tem sido alvo de grileiros, garimpeiros, madeireiros e pecuaristas. “A APA está localizada entre dois municípios que estão entre os que mais desmatam no Pará: São Félix do Xingu e Altamira”, disse Larissa Amorim, coordenadora do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do instituto de pesquisa Imazon.

Assim como no Terra Indígena Apyterewa, as derrubadas aumentaram na APA Triunfo do Xingu no início da década de 2020, durante o governo Bolsonaro, segundo o SAD. Em 2021, atingiram 421,80 km², quase um terço da área do município de São Paulo.

Em fevereiro de 2023, o governo estadual, liderado por Helder Barbalho, deu início à chamada Operação Curupira. Três postos fixos de fiscalização foram instalados em pontos estratégicos, e funcionários dos órgãos ambientais e de sanidade animal passaram a fiscalizar o transporte de gado, maquinário e pessoas.

A operação provocou a ira de pecuaristas locais, que reclamaram das consequências econômicas da fiscalização. As taxas de desmatamento, no entanto, caíram para 48,07 km² em 2025, de acordo com o SAD — uma área quase nove vezes menor do que a registrada em 2021.

Ainda assim, a APA Triunfo do Xingu continua sendo a unidade de conservação mais pressionada pelo desmatamento na Amazônia em 2026, segundo o SAD. Uma das explicações é a dependência econômica das comunidades locais em relação aos setores madeireiro e pecuário.

Além disso, a APA Triunfo do Xingu pertence a uma categoria de unidade de conservação com menor nível de proteção, na qual certas atividades sustentáveis são permitidas por lei. “Só que o histórico do desmatamento nessa área já é tão intenso que não é possível dizer que esse uso é sustentável”, disse Amorim.

Uma das três bases iniciais de fiscalização e uma unidade de combate a queimadas permanecem no território, informou, por e-mail, a Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará. Segundo a secretaria, isso garante a “presença permanente do Estado para ações de monitoramento, fiscalização e proteção ambiental”.

Em março de 2025, o governo do Pará concedeu uma área de 10.300 hectares na APA Triunfo do Xingu a um consórcio de empresas privadas comprometidas com a geração de créditos de carbono por meio da restauração florestal.

O futuro da APA Triunfo do Xingu também está em jogo nas eleições de outubro. Barbalho, que é aliado de Lula e tem vínculos com o agronegócio, está no governo do Pará há oito anos consecutivos e não pode se candidatar `à reeleição. Ele está apoiando a vice-governadora, Hana Ghassan, na disputa contra o prefeito do município de Ananindeua, Daniel Santos.

 

Fonte: Mongabay

 

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