Povo
Parakanã teme novas invasões após eleições presidenciais
Durante
anos, o povo Parakanã ficou restrito a menos de um terço de seu território,
isolado em meio a uma vasta área de pastagem ocupada por cerca de 100 mil
cabeças de gado. O garimpo de ouro, o desmatamento e a grilagem de terras
também se alastravam sobre a Terra Indígena Apyterewa, localizada na bacia do
rio Xingu, no Pará.
“Essa
é, historicamente, a terra indígena mais desmatada do Brasil, e talvez do
mundo”, afirmou Wallace Lopes, analista ambiental do Ibama, em entrevista à
Mongabay.
O auge
do desmatamento ocorreu durante o governo do presidente Jair Bolsonaro
(2019-2022), que desmantelou a fiscalização ambiental do país. Em 2022, uma
área quase do tamanho de Paris (102,23 km²) foi desmatada dentro do território
dos Parakanã, de acordo com o Inpe.
“Foi um
desmatamento muito grande”, disse Wenatoa Parakanã, presidente da Associação
Tato’á, que representa os indígenas. “A gente vê só o pasto.”
Estima-se
que os invasores somavam 3 mil pessoas, mais de quatro vezes a população
indígena (730). Após duas tentativas fracassadas dos governos anteriores de
remover os invasores, em 2013 e 2017, eles se sentiram confiantes o suficiente
para construir um pequeno vilarejo dentro da terra indígena, com dois postos de
gasolina, bares, igrejas e até mesmo uma escola.
As
coisas começaram a mudar em 2023, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
assumiu o cargo e deu início a uma grande operação de desocupação. A
força-tarefa, que cumpriu uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF),
incluiu a apreensão de gado ilegal, a destruição de maquinário e a remoção do
vilarejo.
Cerca
de 300 agentes de diversos órgãos governamentais, como o Ibama, a Polícia
Federal, a Força Nacional, o Exército e a Funai, atuaram na região. Os esforços
reduziram significativamente o desmatamento para 7,5 km² em 2025, e a Terra
Indígena Apyterewa caiu da primeira posição para a 12ª no ranking do
desmatamento das terras indígenas da Amazônia.
Segundo
Wenatoa, muitas famílias indígenas estão agora voltando para as áreas antes
ocupadas pelos invasores: “O nosso plano é cuidar do nosso território, da nossa
floresta que ainda restou.”
A
proximidade da eleição presidencial, no entanto, aumenta o temor dos indígenas
de serem novamente abandonados pelas autoridades. Até o momento, as pesquisas
indicam uma disputa acirrada entre o presidente Lula e o senador Flávio
Bolsonaro, filho mais velho de Jair, impedido de concorrer após ter sido
condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.
“Os
invasores sempre falam pra gente que só estão esperando esse governo passar
para poder entrar de novo [no território]”, disse Wenatoa.
Lopes,
que analisou a operação de desintrusão do território Apyterewa em sua tese de
doutorado, observou de perto o impacto do discurso oficial no comportamento dos
infratores ambientais.
“A
liderança política do momento tem uma importância muito grande para a dinâmica
da taxa de desmatamento”, disse Lopes, que viu o desmatamento na Amazônia
disparar durante o governo de Jair Bolsonaro e, em seguida, ser controlado
novamente durante o governo de Lula.
Territórios
recuperados pelas autoridades após operações longas e onerosas podem ser
rapidamente reocupados por invasores ao menor sinal de complacência, disse
Lopes. E eles podem voltar mais fortes do que antes.
“Porque
agora eles entendem a ação do Estado”, disse ele. “Eles sabem quais as estradas
utilizadas, qual a estratégia, se vai tirar gado, se vai derrubar ponte… É como
se fosse uma espécie de bactéria, que vai se adaptando ao antibiótico que você
vai dando.”
De
acordo com André Villas-Bôas, do Instituto Socioambiental (ISA), as eleições,
por si só, tendem a intensificar as disputas por terras. Os políticos locais,
disse ele, podem apoiar as demandas dos grileiros para conquistar votos. Se um
membro da família de Bolsonaro chegar ao poder em 2027, Villas-Bôas acredita
que a situação ficará ainda pior.
“É um
governo que tem uma visão preconceituosa em relação aos povos indígenas, que
apoia sem muito discernimento as iniciativas do agronegócio, que vê a grilagem
de áreas públicas como parte do desenvolvimento da região.”
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Mortes e emboscadas
Os
invasores expulsos da Terra Indígena Apyterewa dão sinais claros de que não
desistirão facilmente. Pelo menos nove ataques foram registrados desde dezembro
de 2024, quando as forças federais encerraram sua presença em larga escala no
território e realizaram a devolução simbólica da área aos indígenas.
Em
dezembro de 2025, um vaqueiro contratado pelo Ibama para retirar o gado da área
foi morto em uma emboscada, enquanto dois indígenas e um funcionário da
Associação Tato’á escaparam de ataques a tiros no início de 2026.
O temor
de uma retaliação levou organizações indígenas a emitir declarações instando o
governo federal a investigar aqueles que ainda ameaçam o território.
“A
Terra Indígena Apyterewa está em uma situação de grande vulnerabilidade,
cercada de pessoas e grupos que não aceitam a desintrusão e querem a terra e os
recursos que são dos Parakanã por direito”, declarou a Rede Xingu+, uma rede de
53 organizações que representam povos indígenas, comunidades ribeirinhas e
grupos da sociedade civil da bacia do rio Xingu.
Villas-Bôas,
que também atua como secretário executivo da Rede Xingu+, disse que a presença
do governo no local deveria ser mais efetiva, dada a gravidade do conflito. “Na
hora em que as tensões estouram, o governo se faz presente de forma mais
contundente, e depois retrai.”
Em um
e-mail enviado à Mongabay, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) afirmou que
“todas as terras indígenas que passaram por operações de desintrusão contam com
atividades contínuas de proteção territorial”. Segundo o MPI, também foram
elaborados Planos de Manutenção de Desintrusão, incluindo medidas de segurança,
inspeção e monitoramento.
“Infelizmente
o cobertor é curto”, disse Lopes. “Aquele monte de equipe que tinha durante a
desintrusão não está mais presente. Você não vai mais encontrar aquela mesma
quantidade de servidores, a mesma disponibilidade de aeronaves, de pessoal, de
material, de equipamentos.”
Segundo
Lopes, o sucesso a longo prazo das desintrusões depende da manutenção de
agentes de inteligência no território, prontos para relatar qualquer
movimentação estranha.
“A
organização do mercado ilegal não é visível por imagem de satélite”, disse ele,
acrescentando que atividades ilegais, como o garimpo, exigem o deslocamento de
maquinário pesado. “Isso exige um fluxo de gente que não é normal dentro da
terra indígena, e que só é visível se tiver o pessoal de inteligência presente
dentro do território.”
Também
é importante que os indígenas tenham um canal de comunicação fácil e direto com
as autoridades, para que possam relatar rapidamente qualquer atividade
suspeita, disse Lopes.
Desde
que Lula assumiu a presidência, o governo federal promoveu operações para
retirada de invasores em 11 terras indígenas, segundo o MPI: Alto Rio Guamá,
Karipuna, Kayapó, Araribóia, Munduruku, Sai Cinza, Trincheira Bacajá,
Apyterewa, Yanomami, Uru-Eu-Wau-Wau e Sararé.
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Bases fixas em um ponto crítico de desmatamento
Uma
situação semelhante ocorreu na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do
Xingu, que se estende por mais de 1,7 milhão de hectares, o equivalente a 11
cidades de São Paulo.
Administrada
pelo governo do estado do Pará, a área está localizada em um dos pontos
críticos de desmatamento da Amazônia e, historicamente, tem sido alvo de
grileiros, garimpeiros, madeireiros e pecuaristas. “A APA está localizada entre
dois municípios que estão entre os que mais desmatam no Pará: São Félix do
Xingu e Altamira”, disse Larissa Amorim, coordenadora do Sistema de Alerta de
Desmatamento (SAD) do instituto de pesquisa Imazon.
Assim
como no Terra Indígena Apyterewa, as derrubadas aumentaram na APA Triunfo do
Xingu no início da década de 2020, durante o governo Bolsonaro, segundo o SAD.
Em 2021, atingiram 421,80 km², quase um terço da área do município de São
Paulo.
Em
fevereiro de 2023, o governo estadual, liderado por Helder Barbalho, deu início
à chamada Operação Curupira. Três postos fixos de fiscalização foram instalados
em pontos estratégicos, e funcionários dos órgãos ambientais e de sanidade
animal passaram a fiscalizar o transporte de gado, maquinário e pessoas.
A
operação provocou a ira de pecuaristas locais, que reclamaram das consequências
econômicas da fiscalização. As taxas de desmatamento, no entanto, caíram para
48,07 km² em 2025, de acordo com o SAD — uma área quase nove vezes menor do que
a registrada em 2021.
Ainda
assim, a APA Triunfo do Xingu continua sendo a unidade de conservação mais
pressionada pelo desmatamento na Amazônia em 2026, segundo o SAD. Uma das
explicações é a dependência econômica das comunidades locais em relação aos
setores madeireiro e pecuário.
Além
disso, a APA Triunfo do Xingu pertence a uma categoria de unidade de
conservação com menor nível de proteção, na qual certas atividades sustentáveis
são permitidas por lei. “Só que o histórico do desmatamento nessa área já é tão
intenso que não é possível dizer que esse uso é sustentável”, disse Amorim.
Uma das
três bases iniciais de fiscalização e uma unidade de combate a queimadas
permanecem no território, informou, por e-mail, a Secretaria de Meio Ambiente,
Clima e Sustentabilidade do Pará. Segundo a secretaria, isso garante a
“presença permanente do Estado para ações de monitoramento, fiscalização e
proteção ambiental”.
Em
março de 2025, o governo do Pará concedeu uma área de 10.300 hectares na APA
Triunfo do Xingu a um consórcio de empresas privadas comprometidas com a
geração de créditos de carbono por meio da restauração florestal.
O
futuro da APA Triunfo do Xingu também está em jogo nas eleições de outubro.
Barbalho, que é aliado de Lula e tem vínculos com o agronegócio, está no
governo do Pará há oito anos consecutivos e não pode se candidatar `à
reeleição. Ele está apoiando a vice-governadora, Hana Ghassan, na disputa
contra o prefeito do município de Ananindeua, Daniel Santos.
Fonte:
Mongabay

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