sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Crise no STF: Moraes acusa Mendonça de agir para favorecer 'grupos políticos', pede providências de Fachin

A crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou novos contornos no início da noite desta quinta-feira (3/9).

O ministro Alexandre de Moraes usou relatórios da inteligência da Polícia Federal para acusar André Mendonça de, "em tese", ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade judicial" e "favorecimento a determinados grupos políticos" ao atuar como relator dos casos do escândalo do INSS ("Operações Sem Desconto") e do Banco Master ("Operação Compliance Zero").

Em seu despacho, feito no âmbito do Inquérito das Fake News, Moraes remete os documentos citados ao presidente da Corte, Edson Fachin, pedindo que ele tome "as providências que entender necessárias".

Moraes retirou o sigilo dos relatórios da inteligência da PF que detalham supostas condutas irregulares de Mendonça, que teria agido contra o próprio Moraes e outros colegas de tribunal.

Segundo o despacho, o ministro André Mendonça também atuou incorretamente nas investigações ligadas ao INSS. Nos relatórios da PF tornados públicos por Moraes, os agentes também refletem se a polícia teria sido dura demais com Roberta Luchisinger, lobista investigada no caso.

O papel de Luchisinger é importante porque ela é ligada ao filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Fábio Lula da Silva, conhecido como Lulinha, é alvo de três inquéritos na PF, mas não aparece citados nos documentos liberados nesta quinta.

Na decisão, Moraes acusa Mendonça de diversas condutas irregulares como "usurpação da direção das investigações das autoridades policiais", "condução irregular das tratativas de eventual colaboração premiada" e "direcionamento de determinados alvos para investigação (ministro Alexandre de Moraes e senador Davi Alcolumbre), por motivos pessoais e políticos (...)".

Entre as situações, o despacho acusa Mendonça de ter ordenado "diligência investigatória policial para a produção ilegal de provas contra o ministro Alexandre de Moraes".

O contra-ataque acontece dois dias depois de Mendonça pedir a Fachin que leve ao plenário um pedido de investigação contra Moraes, indicando possíveis irregularidades na relação entre Moraes e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, também com base em material da PF.

Agora, Fachin tem em mãos acusações cruzadas dos dois ministros para decidir que caminho seguir.

Na noite desta quinta-feira, o presidente da Corte solicitou formalmente esclarecimentos aos colegas Alexandre de Moraes e André Mendonça, além do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, sobre a crise.

Em despacho, Fachin deu prazo de cinco dias para que todos se manifestem sobre a crise aberta até então.

Ainda na decisão, o presidente do STF apontou que os fatos devem ser apurados para que o plenário da Casa possa tomar uma decisão a respeito do pedido da própria PGR pela anulação da validade do relatório.

<><> 'Não tem ninguém certo nesta história'

Moraes usou o Inquérito da Fake News para requisitar da PF os relatórios contra Mendonça no mesmo dia em que o colega abriu o sigilo do seu envolvimento com o caso Master.

O ministro também pediu à PF que envie ao Supremo todo o material que cite ele próprio e também os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux, e Nunes Marques, além do procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

"Em virtude de diversas informações sobre condutas de autoridades tendentes a afetar a independência de ministros deste Supremo Tribunal Federal, determino ao diretor da Polícia Federal que envie imediatamente ao juízo os relatórios de inteligência elaborados pela PF que contenham citação a nomes dos membros dessa Suprema Corte."

O novo capítulo da chamada "guerra civil" entre Mendonça e Moraes reforça a leitura de juristas de que a crise no STF não tem precedentes.

Para Thiago Bottino, professor da FGV Direito Rio "não tem ninguém certo nessa história". "Mas eu também acho que não tem ninguém errado completamente."

No caso de Mendonça, diz Bottino, "tem o fato de ele ter realizado ações durante a investigação que poderiam levar à investigação de um ministro do Supremo, sabendo que o início dessa investigação depende de autorização do plenário".

Quanto a Moraes, professor da FGV Direito Rio vê questões que exigem mais esclarecimento no caso Master e também critica que ele tenha usado o controverso Inquérito das Fake News para apontar irregularidades do colega.

"Se o André Mendonça extrapolou as funções dele, cometeu um abuso de autoridade, não é no Inquérito da Fake News que isso vai ser apurado", aponta.

"Não tem problema nenhum o Alexandre de Moraes fazer um ofício ao Fachin dizendo: olha, tomei conhecimento de que o meu colega praticou um crime e eu peço providências ao presidente da Corte", diz. "Esse seria o caminho próprio".

Bottino diz que há muito tempo o Inquérito das Fake News já teria extrapolado seus limites. O inquérito é de 2019 e foi criado de ofício, ou seja, sem o pedido do Ministério Público, para apurar ameaça contra os ministros do Supremo. De lá para cá, dois procuradores-gerais da República já pediram seu encerramento, sem sucesso.

"Se esse inquérito existe até hoje, não é responsabilidade só do Alexandre Moraes. É do plenário que ratificou a possibilidade de ter um inquérito existindo mesmo contra a vontade do Ministério Público", critica Bottino.

<><> 'Não queria estar na pele de Fachin'

Para o professor da FGV Rio, Fachin está agindo corretamente no caso. "Fachin está numa situação que nenhum outro presidente do STF precisou enfrentar", analisa.

"A gente está tão acostumado que a gente normalizou tanto essa figura do juiz 'todo poderoso', sem restrições, que quando a gente vê o Fachin agindo quase como um árbitro ao invés de um player principal, a gente acha estranho", completa.

"Mas o papel do juiz é ser árbitro, não ter lado em causa nenhuma. Acho que o mais importante é tentar ressignificar o papel do juiz no Estado Democrático Direito", afirma.

A cientista política e jornalista Grazielle Albuquerque concorda que Fachin está numa posição inédita.

"Nao queria estar na pele do Fachin por nada neste mundo", diz ela, autora de um doutorado na Unicamp sobre a relação entre o Supremo e a mídia.

"Aos olhos da sociedade, o tribunal parece estar implodindo. É uma crise enraizada por dentro e não parece ter saída previsível. O que se tem é impeachment, talvez seja possível elaborar outra via, mas desenho institucional não dá muitas possibilidades. Juridicamente é tudo muito inédito", afirma.

No desenho brasileiro, só o Senado pode votar o impeachment de um ministro da corte.

Albuquerque vê o Supremo sendo acompanhado pelo país como "uma novela", com efeitos danosos para o tribunal.

"Cada ministro parece ter uma agenda própria e o Brasil acompanha a pautas sabendo seus nomes, rostos e bandeiras públicas", diz ela.

Isso só faria sentido, afirma a cientista política, se os cargos do STF fossem eletivos. Por outro lado, perde-se também a confiança nas regras e nos ritos do próprio Judiciário: a forma correta de decidir, de seguir processo, de manter distância política.

O resultado, para ela, é que o Supremo mergulha em duas crises ao mesmo tempo: de imagem e de legimitidade.

<><> O que os relatórios de inteligência da PF apontaram sobre Mendonça

No material de inteligência usado por Moraes, os agentes da PF acusam o ministro indicado por Jair Bolsonaro de extrapolar suas atribuições nas investigações. Segundo os documentos, Mendonça exigiu provas extraídas de celulares ainda em estado bruto, antes de a própria equipe da PF triá-los e analisá-los.

A PF também sustenta que Mendonça teria participado diretamente de tratativas de colaboração premiada de um dos detidos no escândalo do INSS, o que é proibido pela lei - o material não cita Daniel Vorcaro, do Master, que também negocia delação.

Os textos da polícia dizem que Mendonça teria direcionado investigações por motivos pessoais e políticos, mirando especificamente Alexandre de Moraes e o senador Davi Alcolumbre, presidente do Senado.

A PF analisa ainda tempos de tomada de decisão de Mendonça para acusá-lo de agir de forma diferente de acordo com alvo da investigação: mais célere se se tratasse de pessoas ligadas ao governo Lula, e mais lentas em relação aos ligados ao bolsonarismo.

Os agentes, no entanto, dizem que a análise é inicial. "A dispersão é expressiva e sugere correlação entre tempo de apreciação e perfil do investigado. A série, contudo, é pequena e não controlada... O dado, no estado atual, é indiciário."

<><> O que relatório da PF apontou sobre Moraes

Um relatório da PF sugerindo conversas comprometedoras entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro teve seu sigilo retirado na terça-feira (01/09) por decisão de André Mendonça, relator do caso Master no STF.

A própria produção de um relatório revelando essas conversas foi solicitada diretamente por Mendonça à PF.

A polícia revelou conversas encontradas no celular de Vorcaro que, segundo investigadores, provavelmente tinham como interlocutor Moraes. Ambos teriam conversado antecipadamente sobre uma operação que poderia afetar Vorcaro. Além disso, Vorcaro teria pedido a Moraes que interferisse em seu favor junto ao diretor da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

A BBC News Brasil mostrou que o número de telefone atribuído pela PF a Alexandre de Moraes também está associado a contas digitais identificadas com o nome do ministro.

Investigadores também apontaram que Moraes teria feito ajustes na minuta de um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

Mendonça pediu que o envolvimento de Moraes seja analisado pelo Plenário do STF, o que pode fazer com que este se torne formalmente investigado, em uma situação inédita para a Corte.

Instada por Mendonça a se manifestar, a Procuradoria-Geral da República, através de decisão de Gonet, pediu a nulidade da investigação da PF e criticou os procedimentos adotados por Mendonça.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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