O
voto das mulheres cristãs
No dia
16 de agosto, no lançamento da campanha à reeleição de Lula (PT), em São
Bernardo do Campo, Janja chamou ao palco o pastor e cantor gospel Kleber Lucas
e dividiu com ele o jingle. Na semana seguinte, Michelle Bolsonaro foi recebida
pelo bispo Robson Rodovalho na Igreja Sara Nossa Terra e, num evento no entorno
do Distrito Federal (DF), orou por Flávio Bolsonaro (PL) e pediu votos para o
enteado. Os candidatos à Presidência estão a todo vapor na disputa pelo
imaginário religioso cristão do eleitorado brasileiro. Mas, afinal, o que é
esse tal “voto cristão” que direita, centro e esquerda tentam conquistar? Em
nossa análise, a franja mais importante desse segmento são justamente as
mulheres cristãs.
Antes
de dar à religião o peso que ela tem no contexto eleitoral, porém, é preciso
reconhecer uma naturalização histórica na relação entre eleições e religião. Os
católicos sempre ocuparam os espaços de poder no Brasil, tanto que sua presença
ali se tornou invisível e a norma contra a qual toda novidade religiosa se
destaca. É verdade que segmentos evangélicos estão em ascensão pública, em
maior ou menor grau (Censo, 2022). Mas, ao enfocar demasiadamente os(as)
evangélicos(as), campanhas eleitorais esquecem que o maior “colégio eleitoral”
feminino do país, no jargão dos estrategistas, não é evangélico, mas católico.
E que, olhado em conjunto, o voto das mulheres cristãs é o que, de fato, decide
as eleições no Brasil. E não apenas o de um ou outro segmento religioso.
O Censo
2022 trouxe um dado que a cobertura eleitoral, do progressismo à extrema
direita, tem dificuldade de digerir. No Brasil, o cristianismo tem rosto de
mulher. As mulheres são 55,4% dos evangélicos, 51% dos católicos e 60,6% dos
espíritas. Somadas, católicas, evangélicas e espíritas (o espiritismo
kardecista se entende como doutrina cristã) chegam a cerca de 79 milhões de
fiéis. São elas que lotam os bancos das igrejas e sustentam, com trabalho
voluntário e não pago, a catequese, a caridade, a rede de assistência e o
trabalho de cuidado que as igrejas cristãs oferecem.
Outra
razão menos confessável é que a tara política no voto evangélico parte de uma
compreensão indigesta sobre esse segmento. O voto evangélico é tratado como um
voto que se entrega por atacado: negocia-se com Silas Malafaia, com Rodovalho,
com as Assembleias de Deus e supõe-se que os fiéis vêm junto numa escala de
“cima para baixo”. Fato que já foi desmentido por inúmeras pesquisas que
analisam o voto evangélico (ISER, 2024, 2023 e 2022). A indicação do pastor
importa, mas ele não é o motivo principal nem isoladamente decisivo do voto
evangélico. No caso da Igreja Católica, a situação é ainda mais complexa:
historicamente hierárquica, a Igreja Católica não indica candidatos católicos
publicamente, mas elege-os. Mas a pergunta “em quem votam as católicas e por
quê?” ainda carece de ser trabalhada, pensada e refletida.
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Mulheres cristãs não são todas iguais
Por
vezes, setores sociais, ao tratarem das mulheres cristãs, falam a partir de
caricaturas. A evangélica aparece como “de direita”, autoritária, submissa,
aliciada pelo pastor, fanática ou, na versão lisonjeira, como a “mulher
virtuosa” de Provérbios 31, esposa e mãe exemplar. A católica quase não
aparece; quando aparece, é nomeada como freira ou de “esquerda”, e não como
parte do contingente pastoral leigo que constrói a economia religiosa do
catolicismo, como no caso das catequistas, ministras da Palavra e da
Eucaristia, coordenadoras de pastoral, voluntárias e integrantes da Pastoral da
Criança. As espíritas são tratadas como um puxadinho do catolicismo, quando
formam o grupo religioso com maior presença de mulheres e maior escolaridade do
país.
Dentro
de cada segmento, as nuances parecem pesar mais que o rótulo. É o que ensina a
pesquisa “Mulheres evangélicas, política e cotidiano”, do Instituto de Estudos
da Religião (ISER), que ouviu 45 evangélicas de todas as regiões, das classes C
e D, majoritariamente negras. São muitos os fatores que levam uma mulher
evangélica a votar num candidato, e o vetor religioso raramente está no centro.
Boa parte delas criticou abertamente a mobilização da política nos espaços
religiosos: a campanha feita do púlpito semeia desunião num lugar que elas
procuram justamente por união e acolhimento. Dizem ouvir pastores e parentes,
mas decidem o voto por conta própria, pesquisando, estudando e, na expressão
delas, preferem a “orientação divina”. Suas referências são os “pastores da
esquina”, não Malafaia ou Edir Macedo. Todas, menos uma, defenderam a separação
entre Igreja e Estado. Ou seja, este parece ser um valor para as mulheres
cristãs.
O que
está no centro para muitas mulheres cristãs são pautas como cuidado, infância,
maternidade, família e políticas públicas. Mas compartilhar essas preocupações
não significa atribuir a elas o mesmo sentido político. O cuidado, por exemplo,
é uma categoria em disputa: pode ser mobilizado para defender papéis
tradicionais de gênero, mas também para falar de combate à fome, enfrentamento
da violência, acesso à saúde, proteção e dignidade.
As
mulheres ouvidas pelo ISER falam de política a partir do que carregam, como
seus filhos, pais, netos, a casa. O medo mais citado é o de adoecer e não poder
cuidar de quem depende delas, e é aí que a igreja entra como rede de apoio, e o
Estado também, como responsável pelas políticas públicas que elas cobram e que
muitas vezes chegam pelas mãos das próprias igrejas. Preço no supermercado,
posto de saúde, segurança e violência, inclusive a violência contra a mulher,
dentro e fora de casa, são as pautas que decidem, muito antes de qualquer
“pauta de costumes”. Não por acaso, a pesquisa registrou uma mulher totalmente
alinhada à moral bolsonarista, que defende educação sexual nas escolas porque
sofreu abuso na infância e sabe que a casa nem sempre é lugar seguro para uma
criança.
Há
ainda um cansaço que nenhuma pesquisa eleitoral mediu: o medo das mulheres
cristãs de serem reduzidas a fundamentalistas. No caso das mulheres
evangélicas, elas vivem sob julgamento duplo: o da igreja, que cobra a conduta
da crente, e o da sociedade (e parte do progressismo ascético), que as trata
como fanáticas. Os dados mostram que foi esse cansaço, e não a doutrina, que
levou muitas delas a relativizar Bolsonaro, como alguém a quem também é
permitido errar, e outras tantas a abandoná-lo pela pandemia, mas também por
ver em seu comportamento “um mau testemunho” que só confirma a imagem que a
sociedade faz dos evangélicos. Mas olhar apenas para o voto ainda conta só uma
parte dessa história.
Mulheres
cristãs não são apenas um público que recebe mensagens de candidatos, igrejas
ou lideranças: elas também produzem política, constroem agendas, mobilizam
outras mulheres e ocupam espaços de liderança e representação. Isso também
exige rever outra simplificação. O conservadorismo não oferece às mulheres
apenas submissão ou retorno ao espaço doméstico. Em diferentes espaços,
mulheres conservadoras são incentivadas a estudar, empreender, comunicar,
liderar e participar da política, ainda que essa atuação seja enquadrada por
determinados valores religiosos e normas de gênero. Reconhecer essa agência não
significa ignorar que essas mesmas mulheres possam defender projetos que
restringem direitos ou reafirmam hierarquias de gênero.
Essa
participação ajuda a entender por que olhar para as mulheres cristãs apenas
como eleitoras é insuficiente. Elas são quase metade do eleitorado brasileiro,
sustentam com trabalho não pago as igrejas que os candidatos visitam e conhecem
a política pelo lado de quem espera o salário, a consulta e a condução. Ao
mesmo tempo, mulheres de diferentes posições políticas ganham visibilidade
pública e disputam não apenas valores como família, cuidado, infância e
políticas públicas, mas a própria definição de quem são e do que precisam as
mulheres brasileiras.
A
questão, portanto, não é apenas quantas mulheres chegam à política, mas quem
conquista legitimidade para falar em nome delas, quais experiências são
reconhecidas como representativas e quais permanecem fora desse enquadramento.
Por isso, é preciso, de um lado, desnaturalizar a ideia de que mulheres cristãs
não possam ter discursos autoritários e, de outro, reconhecer que tratá-las
como um bloco a ser “entregue” por pastores ou “recuperado” por primeiras-damas
diz mais sobre os estrategistas do que sobre elas. Quem quiser saber para onde
vai esse voto precisa fazer duas coisas que a cobertura eleitoral raramente
faz: incluir as católicas na conta e ouvir o que as evangélicas dizem quando o
pastor não está na sala. E há algo que importa mais do que o voto: compreender,
ouvir e aprender com as mulheres cristãs para além do ano eleitoral.
Dói
admitir, mas feministas, antifeministas e as muitas mulheres comuns, de centro
ou de lugar nenhum, que não cabem em nenhum dos dois rótulos, estão tratando de
temas correlatos, como o cuidado, a violência, a saúde, o dinheiro que não
chega ao fim do mês, mas com linguagens e repertórios diferentes. Reconhecer as
singularidades, diferenças, interditos e possibilidades de diálogo é
fundamental para a democracia e, logo, para toda a sociedade brasileira.
Fonte:
Por Camila Galetti, Jamille Bezerra e Tabata Tesser, no Le Monde

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