Como
instituto de André Mendonça conseguiu R$ 10,7 milhões em dois anos com
contratos públicos
O Instituto Iter, fundado pelo ministro
do Supremo Tribunal
Federal (STF), André Mendonça, e do qual ele e sua mulher eram cotistas, obteve, em
pouco mais de dois anos, 28 contratos com órgãos públicos de todo o Brasil que
totalizam R$ 10,7 milhões. Todos os contratos identificados foram firmados com
dispensa ou inexigibilidade de licitação.
O levantamento da BBC News Brasil foi feito a
partir de informações disponíveis no Portal Nacional de Contratações Públicas
(PNCP) extraídas na quinta-feira (3/4). O levantamento considerou apenas os
registros identificados como "contratos".
Dispensa e inexigibilidade de licitação são
formas de contratação direta previstas na legislação brasileira e sua
utilização não significa, necessariamente, que haja quaisquer irregularidades
na contratação.
Nesta quinta-feira (3/9), André Mendonça
divulgou uma nota afirmando que, na quarta-feira (2/9), decidiu deixar a
sociedade e que ele e sua mulher, Janey Nagliatti de Mendonça, que atuou como
representante do instituto, cederam suas cotas sem contrapartida financeira.
Os contratos do instituto geraram novo
interesse depois que Mendonça admitiu, ao jornal O Estado de S. Paulo, ter se
encontrado com o Daniel Vorcaro, no início de 2025, na sede da entidade, em São
Paulo.
O encontro havia sido revelado pelo
jornalista Paulo Motoryn em sua newsletter Noites Húngaras, na quarta-feira
(2/9).
O encontro chamou atenção porque Mendonça é
relator do caso que investiga supostos crimes financeiros praticados por
Vorcaro. À época do encontro, no entanto, Mendonça ainda não estava com o
processo.
Em nota divulgada por seu gabinete, Mendonça
admitiu que se encontrou com Vorcaro e um de seus advogados e que o tema do
encontro teria sido uma ação que tramitava no STF sobre o pagamento de
precatórios de interesse do banco.
Não há registros, até agora, de que o
instituto tenha sido beneficiado por contratos vinculados às empresas de
Vorcaro.
A divulgação do encontro entre Mendonça e
Vorcaro, no entanto, aconteceu depois de o ministro ter liberado o sigilo de um
relatório que apontava para supostas mensagens trocadas entre o banqueiro
Vorcaro e o ministro do STF Alexandre de
Moraes.
O relatório aponta que, pelas mensagens,
Vorcaro pediu orientação a Moraes sobre se deveria ou não deixar o país um dia
antes de ser preso, em novembro de 2025.
O relatório também aponta que Moraes teria
editado um contrato enviado pela equipe de Vorcaro à sua mulher, Viviane Barci
de Moraes, no valor de R$ 129 milhões.
A retirada do sigilo abriu uma crise no STF porque Mendonça pediu ao presidente da Corte, Edson
Fachin, que um pedido de investigação sobre Moraes seja analisado pelo plenário
do tribunal.
A crise ganhou contornos políticos em função
dos perfis dos dois ministros. De um lado, Moraes ficou conhecido ao relatar o
processo que terminou com a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro
(PL).
Por sua atuação no caso, ele ganhou apoio de
políticos da esquerda e virou alvo de políticos da direita.
Do outro lado, Mendonça, que é evangélico e
foi indicado por Bolsonaro, é visto à esquerda como um ministro alinhado ao
bolsonarismo.
Até o momento, Moraes não se manifestou sobre
o relatório divulgado por Mendonça.
Em nota enviada à BBC News Brasil, o
Instituto Iter confirmou a saída de Mendonça e que o ministro não teria
recebido lucros da empresa.
"Registramos que, ao longo dos dois anos
de atividade do Instituto Iter, não houve qualquer distribuição de lucros ou
dividendos".
Os contratos identificados preveem a oferta
de cursos em áreas distintas que vão da gestão administrativa à segurança
pública.
Entre os clientes do instituto fundado por
Mendonça estão Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Piauí, prefeituras
municipais e conselhos de classe como o Conselho Federal de Contabilidade
(CFC).
A nota (veja mais abaixo) também disse que a
natureza intelectual dos cursos fornecidos pelo instituto justificariam as
inexigibilidades e dispensas de licitação.
<><> Criado após chegada ao STF
Documentos obtidos pela BBC News Brasil
mostram que o Instituto Iter foi criado em novembro de 2023, quase dois anos
depois de assumir a vaga de ministro do STF por indicação do ex-presidente Jair
Bolsonaro.
Antes de chegar à Corte, havia sido
advogado-geral da União e ministro da Justiça e Segurança Pública no governo
Bolsonaro
A família Mendonça tinha parte no Instituto
Iter por serem sócios de uma outra entidade, a Integre Cursos e Pesquisa em
Estado de Direito Governança Global LTDA. A Integre, por sua vez, era acionista
do Instituto Iter.
Além disso, em 2024, quando o Instituto Iter
foi registrado em São Paulo, a mulher do ministro, Janey Mendonça foi colocada
como administradora da sociedade.
A Lei Orgânica da Magistratura proíbe que
juízes e ministros de Cortes exerçam atividades comerciais ou participem de
sociedades comerciais, exceto se forem acionistas ou cotistas. A legislação
permite ainda que eles possam ministrar cursos e lecionar.
Durante a criação da empresa, entre 2023 e
2024, os demais sócios eram pessoas que tinham trabalhado com Mendonça no
governo de Jair Bolsonaro ou que atuam ao seu lado como ministro do STF e do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Entre eles estão nomes como:
- Victor Godoy Veiga, ex-ministro da Educação
entre março e dezembro de 2022,
- Tércio Issami Tokano,
ex-secretário-executivo do Ministério da Justiça durante a passagem de Mendonça
pela pasta e atual assessor-chefe do gabinete de Mendonça no Tribunal Superior
Eleitoral (TSE)
- Rodrigo Sorrenti Hauer Vieira, que
atualmente é seu chefe-de-gabinete no STF
- Danilo Dupas Ribeiro, que foi presidente do
Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado
ao Ministério da Educação
André Mendonça não aparece nominalmente como
sócio direto do Iter nesse contrato social de 2024. A nota divulgada pelo
próprio ministro nesta quinta-feira, porém, confirma que ele e Janey detinham
participação e que ambos decidiram ceder suas cotas.
Atualmente, segundo a Receita Federal, o
único sócio do Instituto Iter é Victor Godoy Veiga, que aparece como CEO da
entidade.
O contrato social estabelece como atividades
do instituto a oferta de cursos de capacitação e treinamento e a realização de
eventos e seminários. Seu capital social registrado era de R$ 50 mil.
Em abril de 2024, os sócios aprovaram a
transferência da sede do Instituto Iter de Brasília para a Alameda Santos, na
região da Avenida Paulista, em São Paulo.
Cerca de um mês depois, começaram a aparecer
os primeiros contratos públicos identificados pela BBC News Brasil.
Mesmo não aparecendo como sócio direto da
empresa, Mendonça é o principal "rosto" do instituto no site do
instituto.
Em agosto, por exemplo, uma seção no site do
Iter apresentava Mendonça como fundador da entidade. Sua imagem também aparece
no banner para um curso de oratório oferecido pelo instituto.
Nesta quinta-feira, no entanto, a página que
continha a imagem de Mendonça com "fundador" do instituto constava
como "não encontrada".
A BBC News Brasil indagou o instituto sobre a
retirada da foto, mas não obteve resposta.
<><> Contratos crescentes
O primeiro contrato registrado no
levantamento foi assinado em 29 de maio de 2024, seis meses depois de a empresa
ser criada.
O valor do contrato era de R$ 11,5 mil e
previa um curso presencial sobre a nova Lei de Licitações e Contratos.
Em 30 de novembro, o instituto assinou seu
primeiro grande contrato, no valor de R$ 323 mil, para a realização de cursos
de capacitação profissional na área de segurança pública.
No seu primeiro ano de funcionamento fechado,
o instituto fechou cinco contratos que totalizaram R$ 400 mil.
No ano seguinte, porém, houve um salto no
volume de contratos.
Em 2025, foram 13 contratos somando R$ 4,1
milhões.
Em julho de 2025, o Iter conseguiu o primeiro
contrato superior a R$ 1 milhão.
Trata-se de um contrato no valor de R$ 1,2
milhão feito pelo Consórcio Intermunicipal da Região Oeste Metropolitana de São
Paulo.
O contrato tinha como objetivo "cursos e
palestras em diversas áreas do direito e administração pública, no âmbito da
Escola de Governo do Cioeste".
O Cioeste é um consórcio que reúne 14
municípios da região oeste metropolitana de São Paulo, como Barueri,
Carapicuíba e Osaco.
Em 2026, houve um novo salto no valor dos
contratos.
Até o dia 3 de setembro, a instituição já
tinha firmado 10 contratos no valor de 6,2 milhões. O valor é maior do que a
soma dos dois anos anteriores.
Foi nesse período que apareceram os maiores
contratos encontrados pela BBC News Brasil.
<><> Os maiores contratos
O maior contrato firmado pelo instituto até
agora foi assinado em 28 de julho deste ano com o Tribunal de Justiça do
Amazonas (TJ-AM).
O contrato foi no valor de R$ 1,635 milhão e
prevê a oferta de um curso de pós-graduação lato sensu denominado "MBA em
Jurisdição Constitucional e Temas Contemporâneos do Direito Público".
O acordo tem vigência prevista até janeiro de
2028.
Questionado pela BBC News Brasil, o TJAM não
enviou resposta.
O segundo maior contrato é com a Fundação
para o Desenvolvimento da Educação (FDE), de São Paulo, e foi firmado em maio
deste ano. Seu valor é de R$ 1,630 milhão.
A FDE é parte do governo do Estado de São
Paulo, comandado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), que foi colega de
Mendonça durante o governo de Jair Bolsonaro.
À época, enquanto Mendonça se revezou na AGU
e no MJSP, Tarcísio comandou o Ministério da Infraestrutura. Os dois eram tidos
como "homens fortes" e de confiança de Bolsonaro.
Neste processo, o Iter foi contratado para
oferecer serviços educacionais destinados à capacitação e ao desenvolvimento
profissional dos funcionários da FDE.
O acordo prevê ainda um banco de horas para
participação em cursos da grade regular do instituto e em formações
personalizadas, além de vagas em cursos de pós-graduação.
Em nota enviada à BBC News Brasil, a
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) disse que o contrato
com o Iter "passou pelas análises e pelos controles previstos na
legislação e nas normas internas da Fundação".
A nota diz ainda o contrato ainda não foi
executado e que os recursos não foram pagos.
"A utilização do serviço ocorrerá de
acordo com a demanda efetiva da FDE", disse um trecho da nota.
A Seduc-SP também afirmou que, antes de
contratar o Iter, teria feito uma pesquisa de preços.
O terceiro maior contrato encontrado no
levantamento foi assinado em agosto deste ano com o Conselho Federal de
Contabilidade (CFC).
Foram pagos R$ 1,382 milhão para uma
"imersão corporativa" voltada a até 100 participantes, entre
presidentes, vice-presidentes, integrantes de conselho, diretores e
funcionários do CFC e dos conselhos regionais de Contabilidade.
O contrato inclui cinco noites de hospedagem
no Grande Hotel Campos do Jordão, do Senac, alimentação, salas para os eventos
e infraestrutura de áudio, vídeo e suporte técnico.
A programação prevê ainda uma
"Conferência Magna" de abertura ministrada pelo próprio André
Mendonça.
O CFC também firmou um outro contrato, no
valor de R$ 349 mil, com o Instituto Iter. Neste caso, o serviço era um curso
ministrado por Mendonça com o título: "A Arte e a Ciência da
Oratória" entre maio e agosto deste ano.
O contrato, acessado pela BBC News Brasil,
aponta que o público-alvo seriam diretores ou empregados do CFC em posição de
comando totalizando 15 pessoas ao custo de R$ 23 mil por pessoa.
Procurado, o CFC não respondeu às perguntas
enviadas pela BBC News Brasil.
O quarto maior contrato foi o contrato com o
Cioeste, que também não enviou respostas.
O quinto maior contrato foi firmado com a
Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro, em abril deste
ano.
Ele tem um valor de R$ 518 mil e vigência de
um ano para o treinamento na área de segurança pública "por meio de
aquisição de vaga".
Em nota, o órgão disse que os cursos pagos ao
Instituto Iter deverão acontecer entre setembro e novembro deste ano e terão
114 vagas.
"Serão oferecidas capacitações em Gestão
e Governança, Gestão Orientada por Dados e Gestão de Projetos, Orçamento,
Licitação e Logística. Importante esclarecer que não houve execução contratual
e ou qualquer pagamento até o momento", diz um trecho da nota.
Ainda segundo o órgão, a contratação do
Instituto Iter aconteceu "dentro dos parâmetros legais" e que "a
escolha do Instituto Iter considerou a qualificação do corpo docente e o
notório saber dos profissionais envolvidos".
O Instituto Iter também foi contratado por
órgãos comandados por políticos de esquerda e centro-esquerda.
Em abril de 2025, por exemplo, o instituto
fechou um contrato de R$ 136,8 mil com a Prefeitura do Recife, comandada pelo
PSB.
No Piauí, o contrato de R$ 323 mil firmado em
novembro de 2024 foi com a Secretaria de Segurança Pública do Estado.
Em nota enviada à BBC News Brasil, o
Instituto Iter justificou os regimes de contratação referentes aos seus cursos.
"Cursos e programas de formação são
serviços técnicos especializados de natureza predominantemente intelectual,
hipótese em que a Lei nº 14.133/2021 admite a contratação direta por
inexigibilidade de licitação", diz um trecho da nota.
O instituto complementou a explicação dizendo
que "cada um tem concepção pedagógica, conteúdo e corpo docente
próprios" e que " não há como submeter a disputa de preço aquilo que
não é comparável entre si".
A nota diz ainda que, ao final, a decisão
sobre a contratação pertence ao órgão público.
"Em todos os casos, a decisão sobre a
modalidade de contratação é do órgão contratante, que instrui o processo com
parecer jurídico próprio, justificativa de preço e autorização da autoridade
competente, e o divulga de forma pública e transparente para toda a
sociedade".
Fonte: BBC News Brasil

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