Crise
no STF após divulgação de conversas entre Moraes e Vorcaro: como chegamos até
aqui?
Ao
tirar o sigilo das conversas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do caso
Master e Alexandre de Moraes, o ministro André Mendonça colocou o colega de
toga em situação delicadíssima e levou à praça pública a divisão entre os
ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). E a briga ferve no meio das
eleições. Seria por acaso?
Com a
medida, Mendonça implode o STF sem cerimônias e leva a Corte mais uma vez para
o centro de um debate político polarizado. O “terrivelmente evangélico”
Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro e aprovado pelo Senado Federal para o
STF em 2021, após ocupar os cargos de Advogado-Geral da União e de Ministério
da Justiça e Segurança Pública no governo do ex-presidente. O mesmo que está,
atualmente, preso em casa após ter sido condenado por golpe de Estado em
processo relatado por Alexandre de Moraes.
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As dúvidas que cercam a ação de Mendonça
Daniel
Vorcaro era investigado na Justiça Federal de Brasília por um esquema
bilionário de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e corrupção. Por ter
chegado a nomes de pessoas com foro privilegiado, o caso foi encaminhado ao STF
e distribuído primeiramente ao ministro Dias Toffoli.
Em
fevereiro deste ano, após vazarem informações de que Vorcaro havia comprado
participações no resort Tayayá, de propriedade da família do ministro, no
Paraná, Dias Toffoli passou a ser considerado suspeito para seguir com o caso e
é pressionado a deixar a relatoria. Na mesma reunião em que foi decidida a
saída de Toffoli, o presidente do STF, Edson Fachin, indicou Mendonça para
assumir o caso Master no Supremo.
Àquela
altura já existiam informações de que outras autoridades com prerrogativa de
foro no STF poderiam ter relações com o banqueiro, uma vez que já se sabia, por
exemplo, que a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes,
tinha um contrato de prestação de serviços com o banco.
Agora,
com as mensagens de Vorcaro enviadas a Moraes reveladas, os membros do STF
terão que decidir entre duas teses. A primeira já foi apresentada pelo
procurador-geral da República, Paulo Gonet, que também é citado nas mensagens
do ex-banqueiro. Gonet sustenta que a investigação da PF seria nula, pois
Mendonça teria agido como um juiz de instrução e investigado ilegalmente um
colega de corte.
Isso
porque o relator determinou à PF, em agosto, que fossem detalhadas as conversas
de Vorcaro, “inclusive aquelas eventualmente sujeitas à incidência do art. 5º,
I, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal”. O artigo citado refere-se
à competência do plenário do STF em julgar autoridades como o presidente, o
vice-presidente, deputados federais e senadores, ministros de Estado, ministros
do próprio STF e o procurador-geral da República. Portanto, Mendonça sabia o
que estava procurando.
A outra
tese à disposição dos ministros é entender que as medidas de André Mendonça só
foram tomadas agora justamente para preservar as regras de investigação a
ministros do Supremo. Tanto que Mendonça, por isso, teria levado o caso ao
plenário.
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A quem interessa?
O
momento escolhido pelo ministro André Mendonça de soltar a bomba não poderia
ser mais propício ao candidato à presidência da República pelo Partido Liberal
(PL), Flávio Bolsonaro, o filho 01 de Jair. Com base em relatórios de
inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), a
revista Piauí mostrou, em reportagem publicada na mesma segunda-feira, 1.º de
setembro, que o candidato a presidente havia mentido nas entrevistas, ao dizer
que o último repasse do banqueiro ao filme “Dark Horse” — a edulcorada
cinebiografia de Jair Bolsonaro — teria sido em maio de 2025, seis meses antes
da prisão do doador geral do Brasil, Daniel Vorcaro.
Os
relatórios do COAF mostraram que Vorcaro transferiu 1,6 milhão de dólares (R$ 8
milhões) ao fundo Havengate, que administra o orçamento do filme, em setembro
de 2025. A última doação ocorreu dois meses antes de o banqueiro ser preso na
Operação Compliance Zero, em 17 de novembro de 2025, na pista do aeroporto de
Guarulhos, quando preparava-se para deixar o país.
No
mesmo dia da revelação da revista, Mendonça quebrou o sigilo das conversas de
Moraes e o ex-banqueiro, com direito a prints de tela e muitas dúvidas. Segundo
as investigações, o banqueiro desenvolveu uma forma para conversar com o
ministro. Anotava o que queria no bloco de notas do celular, tirava uma foto da
tela e enviava para o ministro, que respondia em imagens de visualização única
no celular do destinatário e que, por esse motivo, não teriam sido localizadas,
segundo a Polícia Federal (PF).
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POR QUE ISSO IMPORTA?
A
liquidação do Banco Master pelo Banco Central por suspeita de fraudes, gerou um
rombo financeiro estimado em R$ 52 bilhões e um impacto até então inédito no
Fundo Garantidor de Crédito (FGC) do BC;
O
escândalo do Master acabou envolvendo a classe política de vários espectros
ideológicos. Em maio deste ano, o Intercept Brasil revelou que Flávio Bolsonaro
negociou com Daniel Vorcaro, o patrocínio de Dark Horse, uma cinebiografia do
pai, Jair Bolsonaro.
Nas
últimas mensagens de Vorcaro ao ministro, no dia 15 de novembro de 2025, dois
dias antes de sua prisão, o banqueiro perguntava se Galípolo havia respondido a
Moraes e perguntava: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Se Moraes
respondeu, não se sabe, mas na segunda, 17 de novembro, lá estava Vorcaro na
pista de Guarulhos, sonhando em dar uma banana para o país pela janela do seu
jatinho, como um certo personagem de novela, mas não deu tempo.
Falando
em novela, o relatório da PF liberado por Mendonça inclui personagens
importantes de Brasília. Mensagens de Vorcaro para Moraes supostamente
mencionam o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, desafeto de Mendonça, e o
Procurador-Geral da República, Paulo Gonet.
“É
importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer
uma sacanagem que ai vai tudo pro saco. Estou disponivel pra tratar e explicar
qq coisa, so nao pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que tem ido ao
Bacen alegando que farao algo em breve”, afirma Vorcaro em uma das mensagens
que teriam sido enviadas a Moraes. A grafia transcrita é a original.
O
relatório mostra ainda que Gonet teria conversado com Vorcaro por intermédio do
advogado Ciro Soares, que tentou negociar a ida dele e de Pedro Gonet, filho do
PGR, para um evento em Londres, em 2025, que Vorcaro financiaria, mas acabou
não ocorrendo.
Gonet,
que tem a prerrogativa de investigar e, eventualmente, denunciar ministros do
STF, já se manifestou ontem mesmo sobre o despacho de Mendonça e disse que é
nula uma investigação ordenada por um ministro do STF contra outro. Segundo
ele, a nulidade ocorreu porque a decisão de processar e julgar ministros da
Corte cabe ao plenário do STF e não a um ministro isoladamente.
“Se a
autoridade policial deve interromper as suas investigações para que sobre elas
delibere o órgão do Judiciário encarregado do julgamento, com maioria de razão
não deve o relator admitir e nem determinar que um Colega da Corte seja
escrutinado. Na realidade, o relator nem sequer detém competência para dirigir
as ações policiais”, afirma Gonet, que acrescentou: “ao juiz não cabe acusar,
menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais”.
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Reações do Congresso, na imprensa e no próprio STF
No
centro da praça dos Três Poderes, a temperatura subiu terrivelmente e já chega
a 54 o número de pedidos de impeachment do ministro Alexandre de Moraes no
Senado. A atitude do senador Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do
Congresso, a quem cabe abrir processos políticos contra ministros do STF, deve
ser a mesma dos demais 53 pedidos e negar a abertura de processo.
Paralelamente,
duas outras correntes de comentários jurídicos e políticos se formam: uma
defende a renúncia de Moraes, outra que ele deve se afastar para se defender.
Na segunda-feira, dois grandes jornais de São Paulo soltaram editoriais
defendendo a renúncia de Alexandre de Moraes, a Folha de S.Paulo e O Estado de
S. Paulo.
Além do
PGR, que já se manifestou, Mendonça dirigiu sua manifestação ao plenário do
STF, “instância soberana para analisar, de modo técnico e estritamente
jurídico, os novos elementos trazidos pela autoridade policial”. Segundo o
relator do caso Master, o debate sobre o novo relatório da PF deve ocorrer “em
sessão presencial do Colegiado, a partir de data a ser definida pelo eminente
Presidente deste Supremo Tribunal Federal, de acordo com o pleno exercício das
suas atribuições regimentais”, o que não tem prazo para acontecer.
Os
ministros estariam agora divididos sobre os próximos passos. Ao lado de Moraes,
em tese, estariam Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. De Mendonça,
Kassio Nunes, Luiz Fux e Edson Fachin. Carmen Lúcia, mais independente, seria a
dúvida. Toffoli, que se afastou do caso Master, não poderia participar da
discussão.
Hoje
Brasília acordou com a revelação do jornalista Paulo Motoryn, do ICL, de que
Mendonça também esteve com Vorcaro, em 14 de março de 2025, numa reunião em São
Paulo no instituto do ministro. Vazaram áudios e mensagens do celular do
banqueiro. O ministro admitiu e disse que o assunto da conversa, de duas horas,
foram precatórios.
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E as eleições?
A pauta
de impeachment de ministros do STF sempre foi da oposição ao governo Lula,
especialmente após as investigações que culminaram na condenação de Jair
Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. O assunto virá com força. A
discussão vai afetar as pautas de interesse do governo negociadas entre Lula e
Alcolumbre?
De
outra parte, a relatoria da investigação que apura o financiamento do filme
“Dark Horse” está a cargo do ministro Flávio Dino, que requisitou recentemente
informações ao Ministério Público e à Polícia Civil de São Paulo para apurar
eventuais crimes federais no caso, em especial o uso de um fundo no exterior, o
Havengate, e o financiamento da película por Vorcaro. A investigação apura se o
dinheiro do fundo e do Master estariam amparando a vida de luxo de Eduardo
Bolsonaro nos EUA, como mostrou a Agência Pública, e a campanha pró-sanções ao
Brasil, que alimenta os interesses por trás da interferência dos Estados Unidos
na eleição brasileira.
Ou
seja, o caso Master continuará sendo um dos principais motores dos embates da
campanha presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro. E, pelo menos no período
eleitoral, é possível que o debate sobre a moralidade da mais alta corte do
país fique para depois.
Fonte:
Por Marcelo Oliveira, da Agencia Pública

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