Quando a MPB desafina: cantoras rejeitam
músicas machistas
Foi Maria Amélia quem, numa roda de samba,
soou o alarme: "Essa música é racista!", alertou a mãe do
cantor Chico Buarque. A música a que ela se referia era a marchinha O
Teu Cabelo Não Nega (1932), de Lamartine Babo. Daquele dia em diante,
a cantora Teresa Cristina não cantou mais aquela música. Aquela e, com o tempo,
outras mais, como Mulher Indigesta (1932), de Noel Rosa; Gol
Anulado (1976), de João Bosco; Feriado na Roça (1979),
de Cartola...
"Já gravei músicas das quais me
arrependo. Principalmente as do álbum O Samba é Minha Nobreza (2002).
Se fosse hoje, não gravaria", garante Teresa Cristina. "Em geral, são
homens falando de mulheres: os homens escolhem o que as mulheres fazem com os
corpos delas, o quanto elas ganham, etc. Todos os gêneros trazem letras
ofensivas. O samba é apenas um reflexo do que a gente vive. Se a gente vive
numa sociedade machista, o samba será machista!"
Em vez de abolir uma canção machista de seu
repertório, Doralyce preferiu fazer diferente: adaptou a letra de Mulheres (1995),
composta por Toninho Geraes. Em 2018, ela gravou, ao lado de Silvia Duffrayer,
uma versão feminista do samba eternizado por Martinho da Vila. No lugar de
versos supostamente românticos como "Nenhuma delas me fez tão feliz como
você me faz", outros, empoderados, como "Eu não sei porque tenho que
ser a sua felicidade".
"Nenhum homem pode dizer quem
somos", afirma Doralyce. "Quando ouvimos canções que colocam as
mulheres em lugares de submissão, objetificação ou subjugação, vemos uma
sociedade que acredita que esse é o lugar destinado às mulheres. É essencial
criar o imaginário da
sociedade em que queremos viver, e não
apenas reproduzir a sociedade em que vivemos. A música pode reproduzir
opressões, mas pode também questioná-las e ajudar a transformar o mundo."
"Uai, isso é machismo? Por quê?"
Doralyce não está sozinha. A advogada
paranaense Camila Queiroz e a produtora cultural gaúcha Danusa Alhandra também
protestaram, cada uma à sua maneira, contra músicas machistas. A primeira
inaugurou a página "Arrumando Letras" no Facebook, enquanto a segunda
criou a campanha "Música: Uma Construção de Gênero" na prefeitura de
São Leopoldo (RS). À época, Danusa era secretária de Políticas para as Mulheres
do município gaúcho.
Uma das primeiras músicas que Camila corrigiu
foi Vidinha de Balada (2017), da dupla Henrique & Juliano:
corrigido, o verso "Tô a fim de você e, se não tiver, você vai ter que
ficar!" ficou "Tô a fim de você e, se não tiver, tudo bem, vou
embora!". Além do sertanejo, havia outros gêneros, como o samba (Faixa
Amarela, de Zeca Pagodinho) e o funk (Nosso Sonho, de Claudinho
& Buchecha), e até músicas internacionais (Run for Your Life, dos
The Beatles).
"Quando corrigi a letra que diz: 'Vai
Namorar Comigo, Sim!', muita gente se perguntou: 'Uai, isso é machismo? Por
quê?'. Hoje em dia, parece estranho. Mas, na época, passava despercebido. O
discurso misógino já estava normalizado em nossa sociedade", avalia
Camila. "A repercussão foi positiva porque gerou debate. Havia gente que
concordava com as minhas correções, e gente que discordava delas. O mais
importante era discutir o assunto."
<><> Lugar de mulher é onde ela
quiser
Se foi uma balada sertaneja que inspirou
Camila a criar uma página no Facebook, foi um funk que levou Danusa a fazer uma
campanha que denuncia a violência contra a mulher: Surubinha de
Leve (2017), de MC Diguinho.
A prefeitura de São Leopoldo publicou imagens
de mulheres supostamente agredidas segurando cartazes com trechos de músicas –
de Sidney Magal (Se Eu te Agarro com Outro, Te Mato, de 1976) a Bezerra
da Silva (Piranha, de 1981).
"Tem gente que acredita que o machismo
não vai acabar nunca. Quando a gente se une, consegue mudar o mundo. Até pouco
tempo, as mulheres não podiam votar ou serem votadas. Hoje, elas podem. É por
isso que acredito na mudança. É possível viver numa sociedade mais justa e
igualitária. É uma luta que requer resistência. Não podemos mais tolerar certas
músicas. Namorar uma menina à força não é romantismo. É machismo", avisa
Danusa.
O machismo no funk foi um dos temas do
mestrado de Michele Miranda na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP). Em 2024, a dissertação Funk Brasileiro e Os Embates Políticos
de Gênero – O Protagonismo Feminino em Questão virou o livro Funk
Delas – A História Contada pelas Mulheres. Na introdução, a autora afirma
que o slogan 'Lugar de Mulher é Onde Ela Quiser' ainda é uma realidade distante
de ser verdade na indústria do funk.
"Infelizmente, o funk tem músicas que
normalizam a violência contra a mulher e fazem apologia ao estupro",
lamenta Michele. "Vivo o funk desde que nasci. Fui criada, dos três aos 15
anos, em bairros periféricos de Niterói (RJ). Morava tão próximo ao baile que a
janela do meu quarto chegava a tremer. Aquilo despertava meu interesse. No
entanto, na minha memória, não consigo me lembrar de escutar nenhuma voz
feminina cantando funk."
Uma das pioneiras é Tatiana dos Santos
Lourenço, a Tati Quebra Barraco. Cria da Cidade de Deus (RJ), ela começou a
frequentar baile aos 12 anos. Lançou o primeiro álbum em 2000, mas só 'furou a
bolha' em 2004. Chegou a ter música em trilha sonora de novela da Globo: América (2005).
Ano passado, a funkeira que abriu caminho para Anitta e Ludmilla excursionou
pela Europa e se apresentou em países, como Portugal, Alemanha e Inglaterra.
"Desde o começo, procurei inverter a
lógica: o homem podia falar sobre sexo, desejo e liberdade, mas, quando uma
mulher fazia o mesmo, era julgada. Minhas músicas deram voz às mulheres da
periferia. Recebi críticas por quebrar padrões e enfrentar tabus,
mas também ganhei elogios de mulheres que diziam se sentir
representadas. Houve críticas porque incomodava ver uma mulher ocupando esse
espaço de protagonismo", orgulha-se Tati.
<><> Enquanto houver
desigualdade, haverá luta
Não é só no funk, pondera Michele, que mulher
enfrenta preconceito e discriminação. Antes de ascenderem como estrelas do
feminejo, vertente da música sertaneja cantada por mulheres, a cantora Marília
Mendonça e a dupla Simone & Simaria começaram como coadjuvantes de artistas
masculinos. A primeira como compositora de Gusttavo Lima, Lucas Lucco e Jorge
& Mateus, e a segunda, como backing vocals do cantor de forró Frank Aguiar.
"Quando lancei meu primeiro álbum de
estúdio, há 40 anos, o sertanejo era comandado por bota e chapéu. O machismo
imperava!", afirma a cantora e compositora Roberta Miranda. "A
representatividade feminina na música sertaneja ainda está aquém daquilo que eu
gostaria de ver. Tenho certeza de que ainda vamos ter muitas mulheres no mundo
sertanejo compondo. Mas, por enquanto, temos poucas. Precisamos de muito, muito
mais."
Autora de sucessos, como A Majestade, o
Sabiá (1985) e Vá com Deus (1987), Roberta Miranda é
exceção da regra. Segundo relatório do Escritório Central de Arrecadação e
Distribuição (ECAD), as mulheres correspondem a apenas 10% dos titulares de
direitos autorais no Brasil. Entram nessa conta cantoras, compositoras
e musicistas, entre outras categorias. Será que, se as mulheres compusessem
mais, as letras da MPB seriam menos machistas?
"O mercado musical, como um todo, é
machista!", garante a jornalista e pesquisadora musical Chris Fuscaldo,
doutora em Letras pela PUC-Rio. "Sim, acho que mais mulheres compondo
ajudaria muito. E acho que seria ótimo também se rolassem mais parcerias entre
homens e mulheres. Zélia Duncan, por exemplo, compõe muito com Paulinho Moska e
Zeca Baleiro, e Marisa Monte está sempre bem acompanhada de Carlinhos Brown e
Arnaldo Antunes."
<><> Meu repertório, minhas
regras
A cantora paranaense Julie Wein e a paulista
Ana Cañas já gravaram músicas de outros artistas, como Chico Buarque, Ivan Lins
e Belchior, entre outros, mas elas também compõem as próprias canções. Julie,
por exemplo, é coautora, ao lado de Matheus Prevot, de Homem
Virtuoso (2026). Ao contrário do que insinua o título da canção, o
protagonista é tudo, menos um poço de virtudes. É repugnante, alienado e
desonesto, entre outros 43 adjetivos nada lisonjeiros.
"A canção não é baseada em uma história
real. É uma sátira a um arquétipo de homem que se coloca em uma espécie de
'trono moral' dentro de uma sociedade patriarcal", explica Julie Wein.
"O mundo seria menos machista se existissem mais mulheres ocupando
posições de poder. Ampliar a presença delas é fundamental para que a gente
caminhe, de uma vez por todas, para uma sociedade em que homens e mulheres
sejam efetivamente vistos como iguais."
Em 2017, Ana Cañas lançou Respeita,
um single-manifesto que pede o fim da violência de
gênero. Na ocasião, ela gravou um clipe que reuniu
86 mulheres, entre anônimas e famosas, negras e indígenas, periféricas e
imigrantes. Durante as gravações, os diretores Isadora Brant e João Wainer
pediram às mulheres que fechassem os olhos, pensassem nas situações de
violência que sofreram e, em seguida, olhassem para a câmera. Rolaram até
lágrimas no clipe.
"Levei décadas para externar um assédio
que aconteceu dentro da minha própria família. Foi uma forma de curar essa dor,
mas não acredito que apenas uma música consiga mudar o cenário", analisa
Ana Cañas. "Sentimos, nos últimos anos, uma mudança de mentalidade. Mas, é
uma indústria ainda dominada por homens. É um trabalho de longo prazo. Seguimos
batalhando. Como já dizia Rita Lee: 'Não vai ser de um dia para o outro. Mas vai
ser'."
<><> Quatro feminicídios por dia
no Brasil
Entre as mulheres que gravaram o clipe da
música Respeita estava a farmacêutica cearense Maria da Penha. Em 1983, seu marido, o economista Marco Antônio Heredia
Viveros, tentou matá-la duas vezes. Na primeira, atirou em suas costas enquanto
ela dormia – Maria da Penha ficou paraplégica. Na segunda, tentou eletrocutá-la
enquanto tomava banho. Em 2002, Marco Antônio foi condenado, mas cumpriu apenas
um terço da pena.
Em 2006, Maria da Penha emprestou seu nome à
lei 11.340, que protege as mulheres contra a violência doméstica e familiar.
Vinte anos depois, o Brasil registra duas medidas protetivas por minuto e quatro
feminicídios por dia. Em 62,5% dos casos, o crime ocorreu na casa
da vítima. Em 79,8% deles, o autor era o parceiro ou ex-parceiro. Para cada
mulher assassinada em 2025, o país contabilizou, em média, 502 ameaças, 182
agressões e 79 perseguições.
Um estudo da Universidade de Innsbruck, na
Áustria, realizado pelo psicólogo Tobias Greitemeyer com 170 jovens, constatou
que músicas com letras machistas e mensagens misóginas, como Superman (2002),
de Eminem, podem tornar o ouvinte mais agressivo e levá-lo a cometer atos de
vingança. Por outro lado, canções feministas, como Respect (1967),
de Aretha Franklin, que exaltam a igualdade de gênero, ajudam a prevenir casos
de violência contra a mulher.
"Cantar ou não cantar uma música que
naturaliza a violência de gênero demonstra o posicionamento do artista",
afirma Vanessa Gatti, doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo
(USP). "O ideal seria aproveitar a oportunidade para refletir sobre como
certas narrativas se tornam inaceitáveis em uma sociedade em transformação.
Muitos artistas revisitaram suas obras e optaram por não incluir músicas que
soam ofensivas às mulheres."
Um bom exemplo é Luiz Caldas, que não canta
mais Fricote (1985) em seus shows, ou Gabriel, o Pensador, que
mudou a letra de Lôraburra (1993) para Evolução (2019)
em um comercial de perfume. Outros, porém, como João Bosco, seguem
cantando Gol Anulado (1976). "Quando você gritou Mengo /
No segundo gol do Zico / Tirei sem pensar o cinto / E bati até cansar",
diz a letra de Aldir Blanc. Ao Estadão, Bosco criticou o
"identitarismo autoritário".
"Em vez de cantar músicas que tratam o
ciúme como prova de amor e transformam a mulher em troféu para homem, prefiro
cantar outras que exaltam a figura feminina e são instrumentos de luta contra o
machismo", afirma a cantora Daniela Mercury. "O artista tem que
ter consciência do que está cantando. Somos seres políticos e precisamos pensar
no coletivo. Não podemos ser ingênuas a ponto de pensar que essas músicas não
impactam nosso cotidiano de abusos."
Fonte DW Brasil

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