Derretimento
de geleiras pressiona adaptação climática
As
geleiras de alta montanha formadas durante a era do gelo estão recuando e se
tornando mais instáveis, à medida que a queima de combustíveis fósseis aquece o
planeta e torna a neve mais escassa.
A
instabilidade cria condições para o colapso de grandes porções de geleiras,
desencadeando avalanches de gelo e rocha, capazes de represar vales fluviais
antes da liberação de enormes ondas de água.
Após o
colapso de uma geleira que provocou o que ficou conhecido como um "tsunami
de montanha" no Nepal e no Tibete na semana passada, milhares de pessoas
continuam desaparecidas e são dadas como mortas.
Diferentemente
da avalanche glacial de 2025 que destruiu a cidade de Blatten, na Suíça, de
onde praticamente todos os moradores foram retirados, a falta de sistemas de
alerta precoce no Himalaia deixou moradores e turistas à mercê das enchentes
repentinas.
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O fator clima
As
causas do colapso das geleiras fazem parte de uma complexa rede de
transformações interligadas nas paisagens de alta montanha, em parte
decorrentes do aumento das temperaturas globais, afirmam cientistas.
Levan
Tielidze, pesquisador em geomorfologia glacial da Universidade Monash, na
Austrália, aponta que o Himalaia não é, como frequentemente se imagina, um
"ambiente congelado e relativamente estável", mas sim feito de
"sistemas dinâmicos nos quais interagem geleiras, neve, permafrost,
encostas rochosas, rios e processos de monção".
"À
medida que o clima aquece, todos esses componentes mudam simultaneamente, o que
significa que os riscos podem se propagar de um processo para outro",
explica ele à DW. Quando rochas, gelo e água interagem de maneiras
imprevisíveis nos picos mais altos do mundo, os fluxos de detritos resultantes
"podem se transformar em uma inundação catastrófica rio abaixo".
Há
quase 25 anos, naquele que foi então o maior colapso glacial da história, uma
geleira despencou sobre outra nas montanhas do Cáucaso. O evento provocou
avalanches de gelo e detritos que percorreram mais de 24 quilômetros e mataram
cerca de 125 pessoas.
"Foi
um dos primeiros alertas sobre a ocorrência crescente e a potencial gravidade
desse tipo de perigo relacionado a geleiras", diz Tielidze à DW.
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Desastres mais comuns e intensos
Segundo
a Organização das Nações Unidas (ONU), as geleiras das montanhas nepalesas
encolheram um terço em 30 anos, o que aumentou sua instabilidade.
Algumas
pesquisas sugerem que, mesmo que as emissões provenientes da queima de
combustíveis fósseis caíssem o suficiente para impedir que o planeta aqueça
mais de 2ºC em relação ao período pré-industrial, a região mais ampla do Hindu
Kush-Himalaia poderia perder até metade de sua cobertura glacial até o fim do
século em comparação a 2020.
"Essas
mudanças estão aumentando tanto a frequência quanto a intensidade dos desastres
relacionados ao clima em regiões montanhosas", afirma Dipesh Chapagain,
cientista sênior do Instituto de Meio Ambiente e Segurança Humana da
Universidade das Nações Unidas.
O
especialista estudou centenas de enchentes provocadas pelo rompimento de lagos
glaciais (GLOFs, na sigla em inglês) na região do Hindu Kush-Himalaia. Esses
eventos ocorrem quando a água proveniente do derretimento de geleiras e da neve
forma um lago que eventualmente se rompe, provocando enchentes extremas rio
abaixo. O número desses episódios por década aumentou cinco vezes desde os anos
1950.
O
colapso glacial no Nepal e no Tibete apresenta semelhanças com um evento de
GLOF. No entanto, segundo Chapagain, foi muito diferente porque pulou
completamente a "etapa intermediária de formação de lago" e
desencadeou diretamente a inundação repentina.
A
avalanche também gerou atividade sísmica equivalente a uma magnitude de cerca
de 5,2. Em seguida, o impulso do fluxo de detritos ricos em água que entrou no
sistema fluvial permitiu que ele percorresse aproximadamente 100 quilômetros,
observa Tielidze. "Esses perigos estão se tornando muito difíceis de
classificar"
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Adaptação é possível?
O
colapso glacial ocorrido nos Alpes suíços em 2025, que destruiu toda a vila de
Blatten, resultou em uma única morte. O monitoramento detalhado da deformação
da geleira e do terreno ao redor permitiu que as autoridades retirassem a
população antes da catástrofe.
Mas
isso é menos viável na região do Hindu Kush-Himalaia, que abriga mais de 63,7
mil geleiras, pondera Tielidze. "No Himalaia, precisamos ir além do
monitoramento apenas de lagos considerados perigosos. Precisamos de sistemas
integrados que combinem observações por satélite, detecção sísmica, monitoramento
de geleiras e encostas, estações de medição dos rios, previsões meteorológicas
e alertas automatizados."
Em
eventos de rápida evolução, como o desastre no Nepal, a detecção de
movimentações sísmicas poderia fornecer às comunidades localizadas rio abaixo
"minutos preciosos de aviso prévio", aponta ele.
Chapagain
afirma, por sua vez, que a natureza transfronteiriça dos riscos glaciais no
Himalaia torna a cooperação regional e entre países na preparação para
desastres tão urgente quanto a implementação de sistemas de alerta precoce. No
entanto, a tecnologia e a capacidade de adaptação atualmente disponíveis podem
ser insuficientes para "responder a um desastre da escala que acabamos de
testemunhar".
"O
que aprendemos com isso é que podemos nos adaptar às mudanças climáticas, mas
não a um apocalipse climático", afirma Shreya K.C., copresidente de um
grupo de advocacy da Loss and Damage Youth Coalition, sediado em Katmandu.
A ONU
alertou nesta quarta-feira (02/09) que o aumento das temperaturas globais
deverá ultrapassar o limite crucial de 1,5 °C nos próximos anos. Esse novo
cenário resultará em eventos climáticos ainda mais extremos e intensificará a
pressão sobre diversos ecossistemas, inclusive as geleiras e as cidades
costeiras de baixa altitude, segundo relatório inédito da organização.
Fonte:
DW Brasil

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