sexta-feira, 4 de setembro de 2026

André Mendonça recebe delação-bomba que implode todo o clã Bolsonaro

A Procuradoria-Geral da República (PGR) fechou um acordo de colaboração premiada com o operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. Proprietário da Entre Investimentos e Participações, ele é apontado como peça-chave nas operações financeiras entre o banqueiro Daniel Vorcaro e os custos de produção do filme “Dark Horse”, obra cinematográfica sobre Jair Bolsonaro (PL), informa Malu Gaspar, do jornal O Globo.

Esta é a segunda delação premiada no âmbito do chamado caso Master. Nos últimos dias, a PGR também encaminhou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do processo, a proposta de colaboração do empresário João Carlos Mansur, ex-dono da gestora Reag, responsável por administrar os fundos que Vorcaro utilizava para ocultar patrimônio e recursos.

O grupo Entre, sob o comando de Freixo Júnior, é controlador da revista IstoÉ e da empresa de pagamentos Entrepay, que teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em março deste ano. A empresa já havia sido alvo de mandados de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Federal em janeiro, durante o aprofundamento das investigações do caso.

<><> Remessas ao exterior e o fundo no Texas

Em seu depoimento e nos anexos apresentados aos investigadores, Freixo Júnior detalhou ter efetuado pagamentos a pedido direto de Daniel Vorcaro relacionados ao longa-metragem. A produção do filme tornou-se um dos principais focos de desgaste para a campanha do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República, principalmente após a divulgação de mensagens em que o filho “01” do ex-presidente cobrava recursos financeiros do banqueiro sob a justificativa de financiar a obra.

O delator apresentou comprovantes e detalhes de remessas enviadas ao exterior com destino ao fundo Havengate. Sediado no estado do Texas, nos Estados Unidos, o fundo é administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, pessoa ligada ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Atualmente sem uso de tornozeleira eletrônica e em liberdade, Freixo Júnior teve seu acordo encaminhado para o gabinete do ministro André Mendonça, a quem cabe a análise e a decisão final sobre a homologação. Não há prazo regimental fixado para a avaliação das cláusulas e dos termos do acordo.

<><> Suspeitas de desvio e entrega de dinheiro em espécie

A Polícia Federal e a PGR avaliam que as informações prestadas por Freixo podem viabilizar a obtenção de extratos das movimentações financeiras do fundo Havengate em solo norte-americano. O objetivo prioritário da apuração é solicitar cooperação internacional para esclarecer se as cifras repassadas por Vorcaro foram efetivamente alocadas na produção cinematográfica ou se acabaram desviadas para custear despesas pessoais e permanência de Eduardo Bolsonaro no exterior.

A apuração indica a ocorrência de pelo menos sete pagamentos efetuados pela Entre ao fundo Havengate. Uma dessas remessas ocorreu em 16 de setembro de 2025 — apenas dois meses antes de Vorcaro ser preso por determinação da Justiça Federal de Brasília. O registro do sétimo repasse contradiz publicamente declarações de Flávio Bolsonaro, que afirmou em entrevista à GloboNews que os repasses teriam sido encerrados em maio do mesmo ano.

O operador revelou ainda a execução de diversas remessas em dinheiro vivo, transportadas em malas, atendendo a solicitações do banqueiro. Fontes ligadas à investigação apontam que Freixo Júnior indicou aos investigadores os endereços exatos onde foram entregues os valores em espécie. O delator alegou, contudo, que desconhecia que os recursos destinados ao fundo Havengate tinham relação com “Dark Horse”, sustentando não saber a destinação final dada ao dinheiro após a entrega e declarando não ter citado autoridades detentoras de foro privilegiado. A defesa de Freixo informou que não comentará o caso em razão do sigilo das apurações.

<><> Contradições e perícia em ‘Dark Horse’

Após a revelação inicial do caso pelo veículo The Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro comprometeu-se publicamente a apresentar uma prestação de contas no prazo de 30 dias, apresentação que não se concretizou. O pré-candidato do PL passou a sustentar que o assunto estaria resolvido a partir de um laudo independente contratado pela produtora do filme, a Go Up Entertainment.

A perícia privada contratada identificou que 72% de todos os custos da produção teriam sido contratados nos Estados Unidos, muito embora a maior parte das gravações tenha sido realizada no Brasil. Além disso, os valores atribuídos às fases iniciais do projeto, especialmente na etapa de pré-produção, apresentaram montantes considerados desproporcionais por especialistas do mercado audiovisual.

Paralelamente, dados financeiros das declarações de Imposto de Renda do Banco Master, compartilhados com a CPI do Crime Organizado, revelam que a instituição repassou R$ 2,329 milhões diretamente à Entre Investimentos ao longo de 2025.

A apuração do Intercept expôs conversas ocorridas em janeiro de 2025 entre Daniel Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel — apontado por investigadores como seu operador financeiro. Nas mensagens, Vorcaro reclamava do atraso na transferência de parcelas voltadas ao filme. Zettel relatou dificuldades nas remessas internacionais em dólar e foi orientado pelo banqueiro a utilizar a estrutura da Entre Investimentos. Posteriormente, Zettel consultou a possibilidade de acionar o “Minas” — apelido de Freixo no telefone celular de Vorcaro — e enviou o comprovante de uma remessa de US$ 2 milhões para o fundo atrelado ao filme.

¨      Em proposta de delação, Vorcaro liga doações a Bolsonaro e Tarcísio à propina intermediada por Kassab

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, afirmou em sua proposta de delação premiada que R$ 5 milhões doados às campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Jair Bolsonaro (PL), nas eleições de 2022, tiveram origem em uma negociação de propina relacionada à continuidade do Credcesta no governo de São Paulo.

 Segundo a coluna do jornalista Fabio Serapião, do UOL, Vorcaro relatou na proposta de delação que as contribuições eleitorais teriam sido “contrapartidas financeiras” decorrentes de um “ajuste indevido com Gilberto Kassab para a manutenção do Credcesta no governo Tarcísio”. 

Nas eleições de 2022, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e um dos investigados na operação Compliance Zero, doou R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio ao governo paulista e outros R$ 3 milhões para a tentativa de reeleição de Bolsonaro à Presidência da República.

Segundo Vorcaro, Zettel foi acionado por ele para fazer as contribuições. O ex-banqueiro afirma, no entanto, que seu cunhado não tinha “conhecimento das reais motivações do pagamento”.

A proposta de colaboração sustenta que Zettel “tinha interesses ideológicos afeitos ao dos candidatos” e, por essa razão, não teria se oposto a realizar os repasses com recursos provenientes de negócios mantidos em sociedade com Vorcaro.

<><> A negociação envolvendo o Credcesta

O Credcesta é um cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos e operado pela PKL One Participações, empresa associada ao Master e ligada a familiares de Augusto Lima, sócio de Vorcaro.

Em março de 2022, durante o governo João Doria, São Paulo autorizou empresas como a PKL a oferecer crédito consignado a servidores públicos estaduais civis e militares, incluindo inativos e reformados, por meio de cartão de benefício. A operação do Credcesta começou em julho daquele ano, quando Rodrigo Garcia governava o estado.

O negócio passou a ter importância para o grupo de Vorcaro. Segundo o relato apresentado pelo ex-banqueiro às autoridades, a perspectiva de vitória de Tarcísio na eleição paulista levou Augusto Lima, responsável pela operação do Credcesta no banco, a buscar meios de assegurar sua continuidade na administração seguinte.

“Com a eleição de 2022 em São Paulo e a ascensão de Tarcísio de Freitas como provável vencedor, Augusto Lima, responsável pelas articulações de expansão do Credcesta, buscou garantir a continuidade do negócio junto ao Governo do Estado de São Paulo”, afirma trecho da proposta de delação.

Na versão apresentada por Vorcaro, Lima aproximou-se de Gilberto Kassab, que apoiava a candidatura de Tarcísio e posteriormente assumiria a Secretaria de Governo de São Paulo.

Vorcaro sustenta que foi informado por Lima sobre um “ajuste indevido” envolvendo Kassab e que o entendimento estabelecia contrapartidas financeiras para assegurar a permanência da operação.

<><> Doações oficiais e suposto caixa dois

De acordo com a proposta de colaboração, o suposto acordo previa o pagamento de 5% do resultado líquido da operação do Credcesta em São Paulo, além de contribuições eleitorais destinadas ao PSD e a outros partidos relacionados politicamente a Kassab.

“O pagamento relacionado à doação eleitoral seria inicialmente realizado integralmente em dinheiro. Todavia, Gilberto Kassab ou seus interlocutores informaram a Augusto Lima que precisaria cumprir um compromisso com partidos políticos parceiros e angariar recursos, mas, que, neste caso, os partidos parceiros somente aceitariam doações oficiais”, diz trecho da delação.

Vorcaro relaciona então o que chama de “doações eleitorais exigidas em contrapartida à continuidade do programa Credcesta no Estado de São Paulo”. Segundo o relato, R$ 5 milhões teriam sido repassados oficialmente: R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio e R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Bolsonaro.

Além disso, Vorcaro afirma que aproximadamente R$ 10 milhões teriam sido pagos em espécie, de maneira informal, a pessoas interpostas de Kassab. O dinheiro teria sido entregue por Thiago Botelho, conhecido como Papel, e, conforme as informações que teriam chegado ao ex-banqueiro, seria destinado às campanhas do PSD.

Vorcaro afirma ter procurado Fabiano Zettel para efetuar as contribuições oficiais destinadas a Bolsonaro e Tarcísio.

“Isso ocorreu por solicitação de Augusto Lima, que informou ao Colaborador que sua relação próxima com políticos do Partido dos Trabalhadores (PT) o impedia de doar oficialmente a adversários”, registra a proposta de delação.

<><> Vorcaro diz que contrapartida foi concretizada

O ex-banqueiro sustenta ainda que tanto as doações oficiais quanto os pagamentos que descreve como caixa dois efetivamente ocorreram.

Segundo sua versão, a contrapartida atribuída ao grupo político ligado a Kassab também teria sido concretizada, porque o Credcesta permaneceu operando no governo paulista por mais de um ano.

Em 9 de dezembro de 2024, Tarcísio editou o Decreto nº 69.126/2024, que ampliou para outras instituições o mercado de crédito consignado destinado aos servidores públicos. O credenciamento da PKL acabou suspenso em fevereiro de 2026, após o escândalo envolvendo o Banco Master.

Vorcaro afirma em sua proposta que o Credcesta era o principal ativo do Banco Master e que a manutenção e expansão da operação para novos estados ou governos envolvia o pagamento de vantagens a políticos e operadores locais.

<><> Propostas de delação foram rejeitadas pela PGR e pela PF

O relato sobre as doações apareceu nas três versões da proposta de delação de Daniel Vorcaro apresentadas às autoridades. Nenhuma delas foi aceita pela Polícia Federal ou pela Procuradoria-Geral da República (PGR). As autoridades justificaram as negativas pela ausência de ineditismo e de elementos de corroboração.

Na semana passada, Vorcaro pediu para prestar depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, relator da operação Compliance Zero no Supremo Tribunal Federal (STF). Durante a audiência, voltou a manifestar interesse em firmar um acordo de colaboração.

A PGR, porém, novamente rejeitou a proposta sob o argumento de que Vorcaro não apresentou fatos novos.

<><> Kassab diz que relato é “absolutamente fantasioso”

Gilberto Kassab refutou as acusações e afirmou nunca ter negociado doações com Augusto Lima ou Daniel Vorcaro. Ele reconheceu conhecer Lima e Thiago Botelho, mas negou ter discutido o Credcesta com ambos.

“Nunca tratei de doações com Augusto Lima ou Daniel Vorcaro. Aliás, não tenho qualquer relação com Daniel Vorcaro, nunca falei com ele, pessoalmente ou por telefone. Conheço Augusto Lima e Thiago Botelho, mas nunca tratei sobre o Credcesta. Não participei ou recebi nenhuma doação de Vorcaro, de Lima, ou Botelho. Nunca recebi valores em espécie. São relatos que desconheço a origem e que não têm qualquer sustentação factual”, declarou Kassab.

Procurado pela reportagem, Augusto Lima informou que não comentaria o caso.

<><> Tarcísio nega vínculo com Vorcaro

O governador de São Paulo também negou ter qualquer relação com Vorcaro. Em nota, afirmou que sua campanha eleitoral de 2022 recebeu recursos de mais de 600 doadores e respeitou a legislação.

“A campanha de Tarcísio de Freitas de 2022 contou com mais de 600 doadores e foi conduzida em estrita observância à legislação eleitoral. O governador não possui qualquer vínculo ou relação com o doador citado e não tinha conhecimento prévio de eventuais condutas alheias à campanha. A prestação de contas da campanha foi regularmente apresentada e aprovada pela Justiça Eleitoral”, afirmou.

A manifestação acrescenta que a participação de instituições no sistema estadual de consignações é realizada por credenciamento público e regulamentada por normas anteriores à atual administração.

Segundo a nota, o credenciamento da PKL One Participações ocorreu em maio de 2022, ainda na gestão anterior à de Tarcísio.

“No caso da PKL One Participações S.A., responsável pelo cartão Credcesta, o credenciamento como consignatária ocorreu em maio de 2022, portanto, na gestão anterior, e conforme as regras vigentes.”

O governo paulista acrescentou que o credenciamento “não constitui contrato com o Estado e não envolve qualquer repasse de recursos públicos” e permite que os servidores escolham entre as instituições habilitadas para realizar operações consignadas.

<><> Mendonça vai ouvir delator-bomba de Dark Horse para validar acordo de colaboração

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), ouvirá na terça-feira (8) o empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como ‘Mineiro’ e proprietário da empresa Entre Investimentos e Participações, Teo Cury, da CNN Brasil.

A oitiva serve para que o magistrado avalie se o acordo cumpre todos os critérios legais e formais necessários para a sua celebração. A delação de Freixo foi pactuada diretamente com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e já se encontra formalmente remetida ao gabinete do relator no STF.

Entre os requisitos obrigatórios exigidos por lei para a validação do acordo, o ministro examinará a voluntariedade do empresário — ou seja, se a colaboração foi prestada por livre e espontânea vontade, sem a presença de coação. A despeito do pacto já ter sido assinado entre Freixo e a PGR, o acordo só passará a ter eficácia e validade jurídica plena após a ratificação e homologação oficial por parte de Mendonça.

O teor da delação foca em supostos repasses financeiros realizados pelo banqueiro Daniel Vorcaro a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência. Os valores repassados destinaram-se ao financiamento de “Dark Horse”, projeto de filme cinebiográfico sobre Jair Bolsonaro (PL).

Conforme as investigações sobre o caso, a engenharia financeira envolvida na produção operava por meio de remessas ao Havengate Development Fund, fundo norte-americano responsável pela gestão das verbas do longa-metragem. Em seguida, o fundo repassava o dinheiro para a Go Up Entertainment, produtora incumbida da execução da obra.

O inquérito visa determinar se ocorreram irregularidades no modelo de financiamento do filme e apurar se a totalidade dos recursos encaminhados por Vorcaro foi integralmente aplicada na obra cinematográfica. Uma das principais linhas de suspeita dos investigadores aponta que parcela dessas verbas pode ter sido desviada para Eduardo Bolsonaro, deputado federal cassado que se mudou para os Estados Unidos em fevereiro do ano passado. O ex-parlamentar nega ter recebido repasses do esquema.

De acordo com revelações publicadas pelo site Intercept Brasil, as negociações promovidas por Flávio Bolsonaro para financiar a produção cinematográfica movimentaram cifras estimadas em R$ 134 milhões. Reportagem da revista piauí aponta que ao menos R$ 65 milhões foram efetivamente pagos para a equipe responsável pela produção de “Dark Horse”.

 

Fonte: Brasil 247

 

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