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que é tão raro o impeachment de juízes das Supremas Cortes no mundo
As
revelações de um relatório da Polícia Federal sobre as trocas de mensagens
entre o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e um número atribuído ao
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), despertaram
questionamentos sobre qual será o futuro do magistrado na Corte.
A
expectativa agora é que o plenário do STF analise a possibilidade de abertura
de uma investigação contra Moraes pelo caso. O caso terá que ser pautado pelo
presidente da Corte, Edson Fachin, que prometeu anunciar "medidas cabíveis
e necessárias" nos próximos dias.
Além
disso, juristas e políticos debatem se há elementos para abertura de um
processo de impeachment no Senado.
Antes
mesmo das revelações da Polícia Federal — em relatório cujo sigilo foi
levantado pelo ministro André Mendonça, do STF — já havia dezenas de pedidos
para cassar Moraes no Senado, sobretudo apresentados por parlamentares ligados
ao bolsonarismo, após o ministro conduzir o processo que resultou na condenação
do ex-presidente Jair Bolsonaro por golpe de Estado em julgamento em uma das
turmas do STF.
Segundo
um levantamento do Congresso em Foco, até o começo desta semana, já havia 66
pedidos de impeachment contra Moraes.
No
entanto, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não autorizou a abertura de
nenhum deles.
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Como é o impeachment de ministros do STF no Brasil?
A
Constituição não utiliza a expressão impeachment para ministros do STF, mas
atribui ao Senado a competência para processá-los e julgá-los por crimes de
responsabilidade, segundo uma nota da assessoria de imprensa do Senado
publicada em 2024.
Os
crimes são definidos na Lei nº 1.079/1950, conhecida como Lei do Impeachment.
Um dos crimes listados é "proceder de modo incompatível com a honra,
dignidade e decoro de suas funções". Outros crimes incluem:
• alterar, por qualquer forma, exceto por
via de recurso, a decisão ou voto já proferido em sessão do Tribunal;
• proferir julgamento, quando, por lei,
seja suspeito na causa;
• exercer atividade político-partidária;
• ser patentemente desidioso no
cumprimento dos deveres do cargo.
As
punições previstas são a perda do cargo e a inabilitação até cinco anos para o
exercício de qualquer função pública.
A
denúncia deve ser apresentada ao Senado. O presidente do Senado encaminha o
pedido à Advocacia da Casa, que faz uma avaliação técnica da proposta antes de
ela ser analisada pela Comissão Diretora. Depois disso, a proposta pode ser
levada para deliberação dos senadores, seguindo o mesmo rito do impeachment de
presidente da República.
Em
dezembro de 2025, o ministro Gilmar Mendes chegou a decidir em caráter liminar
que apenas o chefe da Procuradoria-Geral da República (PGR) estaria apto a
denunciar ministros do STF ao Senado por crimes de responsabilidade,
suspendendo um trecho da Lei do Impeachment que dava a todo cidadão a
prerrogativa de denunciar os magistrados. Além disso, sua decisão alterava o
quórum necessário para abertura do pedido: de maioria simples para dois terços
dos senadores.
Dias
depois, Gilmar Mendes voltou atrás na sua decisão, permitindo que qualquer
cidadão possa pedir o impeachment de um ministro do STF.
Segundo
a nota do Senado, nunca foi aprovado um pedido de impeachment contra um
ministro do STF no Brasil.
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Como funciona em outros países?
Mas
como outros países lidam com o impeachment de juízes de cortes constitucionais?
A
atribuição de remover juízes de cortes supremas ou constitucionais varia entre
países. Ela pode caber ao próprio tribunal ou ao Parlamento.
Em
países como Alemanha, França e Itália, a decisão sobre a remoção de um juiz de
uma Corte Constitucional cabe aos próprios magistrados da Corte.
Na
Alemanha, a câmara baixa do Parlamento pode solicitar o impeachment de um juiz
federal, mas a decisão final cabe ao Tribunal Constitucional Federal (a mais
alta instância em matéria constitucional na Alemanha).
Na
Itália, os 15 juízes do Tribunal Constitucional da República Italiana têm
mandatos de nove anos e não podem ser reconduzidos ao cargo. Cinco dos juízes
são apontados pelo presidente da Itália, cinco pelo Parlamento italiano e cinco
por outros tribunais.
Uma vez
no cargo, eles só podem ser removidos em casos especiais — como por
incapacidade ou má conduta — por maioria de dois terços dos próprios juízes do
Tribunal.
Na
França, a lei prevê que os membros do Conselho Constitucional podem ser
forçados a renunciarem — mediante uma votação secreta, na qual uma maioria
simples entre os juízes é suficiente.
Já nos
EUA e no Reino Unido, assim como no Brasil, o Parlamento tem papel decisivo
para remover um juiz. O mesmo acontece em diversos países latino-americanos,
como Argentina, Chile e Colômbia.
No caso
americano, as duas Casas são envolvidas — semelhante ao processo de impeachment
de um presidente. O pedido de impeachment precisa ser apresentado por um
deputado na Câmara dos Representantes.
Se esse
pedido for aprovado em uma comissão e no plenário, o Senado realiza um
julgamento. Para afastar definitivamente o magistrado, são necessários dois
terços dos votos no Senado.
No
Reino Unido, os magistrados da Suprema Corte só podem ser destituídos por meio
de um processo que exige a aprovação tanto da Câmara dos Comuns quanto da
Câmara dos Lordes, no Parlamento britânico, seguida da destituição formal pelo
monarca britânico. O mecanismo previsto em lei nunca foi utilizado contra um
magistrado da Suprema Corte.
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Poucos casos no mundo
Apesar
de diferentes legislações nacionais preverem a destituição de juízes em
Supremas Cortes, a verdade é que são raros os casos de magistrados que acabam
afastados por esses processos, afirma o professor de direito David Kosar, da
universidade Masaryk, na República Checa.
Em
países como Argentina, Paraguai, Venezuela e Equador, já houve casos de
destituição de juízes em cortes constitucionais na primeira década deste
século.
Mas,
assim como no Brasil, nas democracias consolidadas da Europa ocidental não há
registros de impeachment de juízes de Supremas Cortes, segundo Kosar.
Ele
cita que neste ano, na Hungria, com o fim do governo de Viktor Orban,
parlamentares trabalham para alterar a idade compulsória de aposentadoria para
magistrados da Corte Constitucional, para provocar uma mudança na composição do
tribunal — mas nenhum juiz foi removido do cargo.
Em toda
a história dos EUA, só houve um processo de impeachment de ministro da Suprema
Corte, ocorrido há mais de 200 anos. Em 1804, o juiz Samuel Chase sofreu um
processo de impeachment, acusado de promover sua agenda política nos casos que
julgava.
Historiadores
contemporâneos geralmente consideram que o processo de impeachment de Chase foi
altamente politizado — em um contexto de intensa polarização entre o magistrado
e o presidente da época, Thomas Jefferson. Em 1805, em votação no Senado
americano, Chase foi inocentado das acusações, já que não houve os dois terços
dos votos necessários para afastá-lo.
A
discussão sobre impeachment nos EUA voltou à tona há dois anos com dois pedidos
de impeachment feitos pela deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez contra
Clarence Thomas e Samuel Alito, dois juízes conservadores da Suprema Corte
americana.
Em seu
pedido, a deputada acusava ambos os juízes de não declararem todo o seu
patrimônio, além de presentes e viagens recebidas. Thomas foi acusado também de
não se declarar suspeito em casos que poderiam envolver sua esposa, uma famosa
ativista política conservadora. Já Alito foi acusado de exibir em sua casa
bandeiras semelhantes a usadas por ativistas que invadiram o Capitólio em
janeiro de 2021.
Os
pedidos contra os dois juízes americanos da Suprema Corte não foram levados
adiante pelo Congresso americano — já que os republicanos controlavam as
comissões e tinham maioria na Câmara dos Representantes.
Em
outros países, há casos de juízes de Supremas Cortes que acabam afastados,
embora relativamente raros.
Na
Argentina, dois ministros da Corte Suprema foram destituídos pelo Senado após
processos de impeachment, em 2003 e 2005.
Um caso
notório aconteceu no Peru em 1997, quando três juízes do Tribunal
Constitucional foram destituídos pelo Congresso após decidirem contra uma
interpretação da Constituição que permitiria ao então presidente Alberto
Fujimori disputar um novo mandato.
Quatro
anos depois, os mesmos três juízes voltaram ao cargo, após uma decisão da Corte
Inter-Americana de Direitos Humanos. A mesma corte também decidiu contra a
destituição de ministros da Suprema Corte no Paraguai que havia ocorrido em
2003.
Mais
recentemente, juízes de Supremas Cortes que foram julgados e afastados de seus
cargos no Paquistão e no Sri Lanka acabaram retornando aos tribunais anos mais
tarde, após obterem decisões favoráveis em processos que questionavam a
legalidade de seus afastamentos e os apontavam como resultado de disputas
políticas.
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Por que é tão raro o afastamento de juízes?
David
Kosar, da universidade de Masaryk, afirma que na maioria dos países com
democracias consolidadas existe um consenso geral sobre o que constitui
comportamento apropriado e que os próprios juízes costumam ser cientes disso.
"Quando
existe comportamento problemático ou inapropriado, os próprios juízes renunciam
e, portanto, o processo de impeachment nunca chega a ocorrer de fato",
afirma.
Em
instâncias inferiores da Justiça, há casos de afastamento de juízes através de
mecanismos de impeachment.
Em
2024, na África do Sul, o juiz John Hlophe sofreu impeachment do cargo de juiz
da Alta Corte (que não é a mais alta instância da justiça do país) em votação
no Parlamento sul-africano, acusado de tentar influenciar ministros da Suprema
Corte em um julgamento envolvendo o ex-presidente Jacob Zuma.
Mas no
caso de magistrados de Supremas Cortes, os processos de impeachment geralmente
necessitam de indícios fortes de irregularidades para poderem avançar.
"Frequentemente
algumas dessas iniciativas podem ser politizadas. Assim, tipicamente, esses
processos de impeachment só prosperam se houver uma clara conduta criminosa,
algo reconhecido por ambos os lados em uma sociedade polarizada."
Outro
motivo, segundo ele, que contribui para a raridade desses processos são riscos
envolvidos para as instituições.
"Eu
diria que o desafio mais importante no Brasil neste momento é como o Supremo
Tribunal Federal lidará com essa questão, pois a reputação da Corte está em
jogo agora."
"É
crucial que o Supremo Tribunal brasileiro conduza esse assunto de forma
transparente e convincente. Caso contrário, isso pode desencadear uma reação
negativa e represálias contra a Corte em um futuro próximo. E se eles perderem
apoio na opinião pública, e a confiança da população na Corte estiver baixa,
haverá poucas forças para defendê-la contra possíveis ataques."
"É
fundamental lidar com a situação adequadamente. Se o Supremo Tribunal Federal
não o fizer, o tiro pode sair pela culatra."
Fonte:
BBC News Mundo

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