Entregadores:
quando as empresas promovem a imprudência
À
autoridade competente,
Venho
apresentar denúncia para apuração de possível esquema de distribuição oculta e
qualitativamente diferenciada de entregas em aplicativos de delivery que atuam
na cidade de Londrina/PR, especialmente no contexto da TAON Delivery, sem
prejuízo de investigação de padrões semelhantes em outros aplicativos que
operam na cidade, como iFood e Delivery Up.
A
presente denúncia não se limita a uma reclamação individual sobre baixa
remuneração ou insatisfação com corridas. Trata-se de possível modelo
estrutural de gestão algorítmica do trabalho, baseado em classificação de
endereços, filtragem de rotas, direcionamento de entregas mais vantajosas para
determinados motoristas e concentração de entregas mais lentas, distantes ou
burocráticas nos demais trabalhadores. O resultado prático desse sistema seria
a criação de um incentivo econômico indireto à velocidade, à condução menos
defensiva e ao aumento do risco de acidentes no trânsito.
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1. A lógica geral: o endereço do cliente como dado operacional central
Os
aplicativos de delivery não trabalham apenas com a localização do restaurante e
do motorista. Eles também acumulam, ao longo do tempo, uma base detalhada sobre
os destinatários: endereços, regiões, tipo de imóvel, tempo médio de espera no
local, facilidade de entrega, dificuldade de acesso, existência ou não de
portaria, distância do circuito principal de demanda e possibilidade de o
motorista retornar rapidamente para novas coletas.
Na
prática, determinados destinos são mais vantajosos do que outros. Um prédio
residencial com portaria, uma casa próxima ao centro ou um endereço comercial
em região de alta demanda tende a permitir uma entrega rápida, com baixa espera
e retorno quase imediato ao fluxo de pedidos. Já um prédio sem portaria, um
condomínio fechado de casas, um endereço em bairro muito afastado ou uma região
que obriga o motorista a se deslocar sem remuneração para voltar ao circuito
principal produz uma entrega mais lenta e menos rentável.
Em
Londrina, essa diferença é especialmente relevante porque grande parte da
demanda se concentra no centro, na Gleba Palhano e em regiões próximas aos
principais estabelecimentos. Uma entrega finalizada em área central tende a
permitir novo encaixe de rota. Uma entrega finalizada em bairros muito
afastados, como extremos da zona norte, zona leste ou outras regiões
periféricas, pode gerar perda de tempo não remunerado, gasto de combustível,
desgaste da moto e redução do número de pedidos possíveis dentro da janela de
almoço ou jantar.
Portanto,
há uma diferença real entre entregas rápidas e entregas lentas. Essa diferença,
isoladamente, não seria ilícita. O problema surge quando a plataforma, tendo
conhecimento técnico dessa diferença, passa a distribuir os melhores pacotes
operacionais de forma seletiva, premiando determinados padrões de comportamento
e penalizando outros sem transparência.
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2. O mecanismo denunciado: concentração de entregas rápidas nos motoristas mais
velozes
O ponto
central desta denúncia é que os aplicativos podem estar utilizando dados de
tempo, localização, permanência no destino, retorno ao circuito e desempenho
operacional para formar uma espécie de hierarquia oculta entre motoristas.
Segundo
a dinâmica observada, motoristas que demonstram maior agilidade, maior
velocidade no trânsito e maior capacidade de cumprir rotas rapidamente tendem a
receber maior concentração de entregas rápidas, centrais e encadeáveis. Esses
pedidos são mais vantajosos porque exigem menos tempo parado, permitem mais
paradas em uma mesma corrida, aumentam a receita por minuto e mantêm o
motorista próximo de novas coletas.
Por
outro lado, motoristas que dirigem de forma mais cautelosa, respeitam os
limites da via, reduzem velocidade após acidentes ou não se enquadram no padrão
operacional desejado tendem a receber maior proporção de entregas lentas,
periféricas, burocráticas ou de pior aproveitamento. Isso inclui condomínios
fechados, prédios sem portaria, destinos afastados, regiões com retorno
improdutivo e rotas menos alinhadas ao circuito principal.
Esse
mecanismo é grave porque transforma segurança no trânsito em desvantagem
econômica. O motorista que dirige com mais cuidado pode acabar recebendo rotas
piores. O motorista que acelera mais, aceita risco e mantém desempenho
agressivo pode ser premiado com rotas melhores. A plataforma não precisa
ordenar expressamente que o trabalhador corra. Basta fazer com que a
remuneração dependa, na prática, de um pacote logístico reservado aos
motoristas mais rápidos.
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3. A diferença econômica entre entregas rápidas e lentas
A
diferença entre uma rota rápida e uma rota lenta não é pequena. Ela altera
completamente a remuneração do motorista dentro das janelas de maior demanda.
Imagine
um motorista que realiza 10 corridas, cada uma com 3 destinos. Ao final, ele
terá passado por 30 destinos. Se esses destinos forem majoritariamente lentos —
condomínios, prédios sem portaria, locais com cadastro, espera na entrada e
deslocamento interno — e cada um gerar de 5 a 10 minutos de espera, o motorista
pode perder de 2h30 a 5h apenas em tempo parado ou burocrático.
Em
sentido oposto, um motorista que recebe 30 destinos rápidos, com espera média
de 1 a 2 minutos, pode gastar apenas 30 a 60 minutos em espera total. A
diferença prática pode ultrapassar uma hora e meia de trabalho dentro do mesmo
número aparente de corridas. Ou seja, dois motoristas podem trabalhar as mesmas
horas, mas com resultados econômicos completamente diferentes, porque um
recebeu destinos rápidos e encadeáveis e o outro recebeu destinos lentos e
dispersos.
Essa
diferença fica ainda maior porque os aplicativos funcionam por janelas de pico.
O almoço e o jantar concentram a maior parte da demanda. A manhã tem menor
fluxo, e o período da tarde, especialmente entre 14h e 17h, costuma ser ainda
mais fraco. Assim, perder 10, 15 ou 20 minutos em destinos ruins durante o
almoço não significa apenas perder tempo naquela corrida; significa perder a
oportunidade de pegar outras rotas dentro da melhor janela do dia.
No caso
da TAON Delivery, isso era agravado pelo modelo de entregas adicionais. Como a
entrega adicional possuía valor reduzido para o motorista, era economicamente
vantajoso para a plataforma agrupar várias entregas rápidas em uma mesma
corrida. Quanto mais destinos rápidos fossem colocados em uma rota só, maior a
eficiência para o aplicativo: mais pedidos entregues em menos tempo, menor
custo relativo por parada e maior possibilidade de lucro sobre o trabalho do
entregador.
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4. O conceito de “premium” e a prova estatística do melhor resultado econômico
O laudo
técnico elaborado sobre a janela de 11h às 13h analisou 305 dias com ao menos
uma corrida entre abril de 2023 e julho de 2024. Para fins técnicos, foi
adotado o critério de “premium/circuito” para destinos finalizados dentro do
miolo operacional central da cidade, isto é, regiões com maior densidade de
estabelecimentos, maior chance de reaproveitamento logístico e menor
necessidade de deslocamento vazio.
Esse
conceito é importante porque traduz, em termos objetivos, aquilo que o
motorista percebe na prática: terminar a corrida dentro do circuito central é
muito melhor do que terminar em região afastada. O destino premium não é
simplesmente um “bairro melhor”; é um ponto que permite continuidade
operacional, novas coletas e menor tempo improdutivo.
O laudo
identificou que, nos dias normais da janela 11h-13h, a mediana era de 5
corridas, 8 destinos, R$ 53,25 de receita, 50% de corridas unitárias, 50% de
corridas multidestino e 33,3% de fechamentos premium. Em contraste, no núcleo
de julho de 2024, especialmente nos dias 01/07, 08/07 e 15/07, houve um pacote
operacional de outra qualidade: mediana de 17 destinos, R$ 92,40 de receita,
85,7% de multidestino, apenas 14,3% de corridas unitárias e 100% de fechamentos
premium.
Isso
demonstra que a vantagem econômica não vinha apenas de “trabalhar mais”. Ela
vinha da qualidade do pacote recebido: mais destinos, mais corridas agrupadas,
menos unitárias, melhor fechamento espacial e maior conversão de tempo em
receita.
No dia
01/07/2024, por exemplo, foram 9 corridas, 17 destinos, R$ 92,40 de receita e
100% de fechamentos premium. No dia 08/07/2024, mesmo com apenas 4 corridas,
houve 11 destinos e R$ 84,70 de receita, indicando alta densidade operacional.
No dia 15/07/2024, o padrão reapareceu: 7 corridas, 17 destinos, R$ 96,30,
85,7% de multidestino e 100% de fechamentos premium.
O
próprio laudo reconhece que esses dados não provam, sozinhos, o código interno
do algoritmo. Contudo, eles indicam um padrão compatível com gerenciamento
diferenciado da distribuição de corridas, marcado por agrupamento de destinos
bons, maior densidade operacional e melhor conversão de tempo em receita. A
ocorrência conjunta desses pacotes, quando comparada às taxas históricas
normais dos estabelecimentos, foi apontada como extremamente rara sob um modelo
aleatório simples.
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5. Incentivo indireto à velocidade e risco de acidente
A
consequência mais grave desse sistema é a indução indireta ao risco. Quando o
motorista percebe que as melhores rotas são direcionadas a quem mantém
desempenho mais rápido, ele passa a ter incentivo econômico para acelerar,
reduzir margens de segurança, atravessar a cidade com mais pressa e operar em
estado de tensão permanente.
A
plataforma não precisa escrever “corra” na tela. O incentivo pode ser
construído pelo resultado. Se correr mais gera acesso a rotas melhores, e
dirigir de forma cautelosa gera perda de qualidade operacional, então o sistema
cria uma pressão estrutural por velocidade.
No meu
caso, essa dinâmica contribuiu para que eu buscasse maior desempenho dentro da
plataforma, culminando em acidente de moto em 18/12/2023, durante atividade
relacionada à operação de entrega. Após o acidente, com lesão no joelho e maior
cautela na condução, houve percepção de piora qualitativa das rotas, perda de
programadas e maior instabilidade de acesso aos melhores pacotes operacionais.
A tese
aqui não é que a plataforma tenha dado uma ordem expressa para correr. A tese é
que ela estruturou um ambiente econômico em que correr mais podia significar
receber melhores entregas, enquanto dirigir com segurança podia significar cair
para pacotes piores. Isso cria um risco não apenas para o trabalhador, mas
também para pedestres, consumidores, outros motoristas e a coletividade no
trânsito urbano.
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6. Impacto coletivo e possível extensão para outros aplicativos
Embora
os documentos mais robustos anexados se concentrem na TAON Delivery, há
indícios e relatos de que lógica semelhante pode existir em outros aplicativos
de entrega em Londrina, como iFood e Delivery Up. Por isso, a investigação não
deve se limitar à análise de um único caso individual, mas deve examinar a
estrutura do mercado local de delivery e os critérios reais utilizados para
distribuição de entregas.
É
possível que diferentes aplicativos utilizem sistemas semelhantes de pontuação,
ranqueamento, classificação de endereços, tempo médio de permanência no
destino, taxa de cancelamento, velocidade de conclusão e retorno ao circuito de
demanda. Caso isso se confirme, estaremos diante de um problema coletivo de
segurança, remuneração e transparência algorítmica.
A
investigação deve verificar se há empresas, operadores logísticos, equipes
locais, estabelecimentos parceiros ou grupos internos organizando, direta ou
indiretamente, a separação de pedidos rápidos e lentos, bem como a destinação
preferencial dos pedidos mais vantajosos a determinados motoristas.
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7. Conclusão
O que
se denuncia é um possível sistema de exploração sofisticada, no qual a
plataforma utiliza dados operacionais sobre endereços, motoristas e rotas para
distribuir o trabalho de forma desigual, sem transparência e com forte impacto
econômico. A consequência prática é a criação de uma hierarquia oculta: alguns
motoristas recebem pacotes mais rápidos, centrais e lucrativos; outros ficam
com rotas lentas, afastadas e menos rentáveis.
Esse
mecanismo não apenas altera a remuneração. Ele modifica o comportamento do
trabalhador no trânsito. Ao premiar, direta ou indiretamente, quem entrega mais
rápido e mantém maior aderência ao circuito privilegiado, o aplicativo cria um
incentivo estrutural à velocidade. O trabalhador passa a disputar não apenas
corridas, mas acesso a uma faixa melhor do próprio sistema. A segurança deixa
de ser neutra e passa a ter custo econômico.
Por
isso, a investigação é necessária. Sem acesso aos logs internos, critérios de
distribuição, histórico de programadas, classificação de destinos e regras de
ranqueamento, a plataforma sempre poderá reduzir o problema à mera oscilação de
demanda ou à escolha individual do motorista. Contudo, os dados já reunidos
indicam algo mais sério: um padrão operacional compatível com distribuição
qualitativamente diferenciada de corridas, agrupamento de destinos vantajosos e
favorecimento econômico de comportamentos mais rápidos e arriscados.
A
presente denúncia busca, portanto, a apuração completa desse modelo, a
preservação dos registros internos das plataformas e a responsabilização de
eventuais práticas que exponham trabalhadores e a população a risco, precarizem
a remuneração e operem decisões automatizadas sem transparência.
Fonte:
Por Jonathan Willian Magalhães Espíndola, em Outras Palavras

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