“Esse
BO não é nosso”: por que o PT quer distância de Alexandre de Moraes
A
divulgação do relatório da Polícia Federal sobre as relações de Daniel Vorcaro,
controlador do Banco Master, com o ministro Alexandre de Moraes criou um
problema político de grandes proporções. Mas, do ponto de vista histórico e
partidário, não se trata de uma questão que envolve o PT.
Em
linguagem direta: esse BO não nasceu no governo Lula. A referência a BO é de um
líder petista, a quem fiz a pergunta, quando surgiram as primeiras denúncias
contra Alexandre de Moraes. “Por que vocês não estão defendendo Alexandre de
Moraes?”, questionei. “Simples: esse BO não é nosso”, respondeu. E não é mesmo.
Quem aproximou Alexandre de Moraes de Daniel Vorcaro foi um ex-ministro de
Bolsonaro. E é Michel Temer quem tem influência sobre o ministro do STF.
O
documento de 218 páginas, produzido em 27 de agosto de 2026, analisa dados
extraídos do celular de Vorcaro no âmbito da Operação Compliance Zero. A
investigação apura suspeitas de fraude na cessão de aproximadamente R$ 12
bilhões em carteiras de crédito do Banco Master ao BRB. O relatório não
apresenta uma acusação criminal conclusiva contra Moraes ou contra Michel
Temer. Registra, porém, uma sucessão de contatos, encontros, contratos e
articulações que exige explicações públicas e investigação.
O ponto
de partida político é conhecido. Alexandre de Moraes foi ministro da Justiça no
governo de Michel Temer. Em 2017, foi o próprio Temer quem o indicou para a
vaga aberta no Supremo Tribunal Federal com a morte de Teori Zavascki. A
escolha foi aprovada pelo Senado por 55 votos a 13. Na ocasião, o PT estava na
oposição e criticou a indicação: a então líder da legenda na Casa, Gleisi
Hoffmann, manifestou temor de uma atuação partidária do indicado.
Essa
origem importa porque parte do debate contemporâneo – aquele que interessa à
extrema direita – tenta apresentar Moraes como se tivesse ligação política com
o PT. A cronologia conta outra história. Sua passagem pelo primeiro escalão
federal ocorreu no governo Temer; sua chegada ao STF resultou de uma decisão de
Temer; e o PT questionou sua indicação.
Segundo
a Polícia Federal, o número atribuído ao contato salvo no aparelho de Vorcaro
como “Alexandre de Moraes BRASILIA” foi compartilhado pelo ex-ministro das
Comunicações no governo Bolsonaro Fábio Faria em dezembro de 2023.
O
relatório reconstrói reuniões anteriores e posteriores ao compartilhamento do
telefone, além de uma série de encontros mencionados pelo banqueiro em
conversas privadas, uma delas em Campos de Jordão, com direito a foto do
ministro com o cozinheiro de Vorcaro.
A PF
também analisou três textos escritos no aplicativo Notas do celular de Vorcaro.
De acordo com os registros técnicos, segundos depois de produzir capturas de
tela desses textos, o banqueiro enviou mensagens ao terminal associado ao
contato “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Uma das
notas pedia que fosse reforçada uma interlocução com “Andrei e Paulo” para
impedir que alguém “de baixo” praticasse uma “sacanagem” capaz de colocar tudo
“pro saco”. O documento atribui os termos a possíveis referências ao
diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, e ao procurador-geral da
República, Paulo Gonet, mas não afirma que Moraes tenha atendido ao pedido.
As
mensagens revelam que Vorcaro via Alexandre de Moraes como advogado ou
consultor, atividades que juízes não podem exercer em nenhuma hipótese, direta
ou indiretamente. Em 5 de novembro de 2025, o então banqueiro escreveu ao
ministro:
– O
Pierpaolo tava querendo fazer uma petição nos órgãos pra nos colocar à
disposição e pra ter conhecimento se existem inquéritos. Acha que vale a pena?
Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo. Estamos no escuro,
o Paulo só disse que tava olhando pessoalmente e que não teria sacanagem. Mas
ontem ligou o alerta vermelho né? Uma ação desmedida coloca em risco milhões de
clientes.
“Pierpaolo”
seria o advogado Pierpaolo Cruz Bottini. “Paulo”, no contexto analisado pela
PF, seria o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Nove
dias depois, na sequência de uma mensagem enviada pelo número atribuído a
Alexandre de Moraes – postada por imagem e apagada em seguida –, Vorcaro faz um
agradecimento profundo.
–
Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda
minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós têm uma
dívida de vida contigo e com a sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é
continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser
Outro
núcleo do relatório envolve o escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de
Moraes, mulher do ministro. Uma minuta de contrato enviada a Vorcaro em janeiro
de 2024 tinha, segundo os metadados examinados pela PF, uma última modificação
atribuída ao usuário “Ministro Alexandre de Moraes”.
A
versão final previa pagamentos mensais superiores a R$ 3 milhões e também teria
sido modificada por usuário com essa identificação antes da assinatura pelo
Banco Master.
O
relatório descreve ainda um segundo negócio envolvendo o escritório e empresas
ligadas a Vorcaro. As tratativas incluíam cotas de um avião Legacy 650 e de um
helicóptero Airbus EC 155 B1. Em julho de 2025, uma funcionária informou a
Vorcaro que havia sido solicitado o pagamento de uma fatura de R$ 22,8 milhões
emitida pelo escritório. Mensagens reproduzidas pela PF também indicam que
integrantes do escritório já utilizavam as aeronaves.
Nada
disso, isoladamente, equivale a prova de crime. Contratos advocatícios e
encontros sociais ou profissionais não são ilícitos por natureza. O interesse
público surge da combinação entre os valores, a proximidade registrada, a
posição institucional dos envolvidos e o fato de as informações terem aparecido
no celular de um banqueiro investigado por fraudes bilionárias.
O mais
grave é o que parece ser atividade de consultoria ou advocacia exercida por um
ministro do STF.
<><>
Temer
Michel
Temer aparece nominalmente no documento durante a análise da organização do I
Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024.
Na
página 186, a PF reproduz uma conversa em que Vorcaro pergunta a uma
funcionária: “O alexandre sugeriu participacao do temer, o que acha”. A
mensagem aparece no contexto da montagem da programação de um evento que o
banqueiro havia descrito a outro interlocutor como “super exclusivo com
alexandre de moraes em londres”.
A
passagem registra uma afirmação de Vorcaro, não uma mensagem enviada
diretamente por Moraes. Ainda assim, ela é politicamente significativa: o
ministro teria sugerido a presença do presidente que o nomeou ministro da
Justiça e depois o indicou ao STF.
Outro
diálogo, de 18 de abril de 2024, trata do movimento inverso: a exclusão de um
convidado. O participante vetado seria o empresário Joesley Batista,
controlador da J&F e protagonista da crise que abalou o governo Temer em
2017.
Na
conversa, Fábio Faria escreve a Vorcaro: “Mas eu acho que o Alexandre gosta que
ele saiba que ele vetou”, acrescentando: “Ego dele” e “Mas a gente não precisa
passar isso”. Vorcaro responde: “No final ele vetou mesmo, ficou claro”. A
própria PF apresenta a Figura 195 como conversa “sobre veto de ‘Alexandre’ a
participante do evento.
A
reprodução visível no relatório começa no meio do diálogo e não exibe
integralmente a mensagem anterior que identifica o convidado. Relatos
publicados sobre o material apontam que se tratava de Joesley Batista. Essa
limitação deve ser registrada: o veto é expressamente descrito pela PF, mas o
nome de Joesley não aparece legível no recorte reproduzido na página 188.
O
contexto político, contudo, é inequívoco. Joesley gravou uma conversa com Temer
no Palácio do Jaburu, em março de 2017, e entregou o áudio às autoridades em
seu acordo de colaboração.
A
gravação precipitou uma grave crise política, deu origem a denúncias contra o
então presidente e rompeu a relação entre os dois. A própria PF concluiu
posteriormente que o áudio da conversa não havia sido editado, conforme
registro preservado pelo Senado.
A
sequência descrita no celular de Vorcaro, portanto, sugere uma curadoria
politicamente orientada do fórum: Temer seria incluído por sugestão atribuída a
Moraes, enquanto Joesley, seu notório desafeto, seria mantido fora. Fábio Faria
e Vorcaro ainda discutem se o empresário deveria saber que a exclusão partira
de Alexandre.
A
documentação mostra que a atuação atribuída a Moraes não teria se limitado a
comparecer como palestrante.
O
ministro participou de decisões sobre convidados, transporte de ministros,
emissão de passagens e composição da programação. Em outras mensagens, o
banqueiro afirma precisar aprovar listas com “Alexandre”; uma funcionária
relata ter passado o dia com “Vivi Moraes e o ministro” fechando o programa.
A PF
registra também que Vorcaro transmitiu a um contato associado ao Brazil Journal
um pedido atribuído a Moraes para incluir em uma reportagem a informação de que
três ministros do STF — Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes — haviam se
reunido privadamente com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Na
preparação da segunda edição do fórum, prevista para 2025 e posteriormente
cancelada, surgiu outra resistência atribuída a Moraes. Em julho daquele ano,
uma funcionária perguntou a Vorcaro se Antônio Rueda poderia atuar como
moderador de um painel. O banqueiro respondeu: “De jeito nenhum”, e
acrescentou: “Alexandre morre se vc fizer isso” e “Aliás, nos mata”.
Em
outra mensagem, de 21 de julho de 2025, entre Daniel Vorcaro e a funcionária
identificada como Ana Matos, durante a preparação da segunda edição do Fórum
Jurídico Londres Brasil de Ideias, Daniel Vorcaro demonstra a influência do
ministro do STF.
“Alexandre
reclamou MUITO do evento. Muito”, diz Vorcaro.
Ana
Matos responde: “O que houve? Do programa?”
Daniel
Vorcaro: “Sim. Tudo. Que tá desorganizado. Ninguém sabe de nada. Que colocamos
Tarcísio em destaque.”
Ana
Matos: “Podemos mudar tudo que ele quiser. Tarcísio não confirmou.”
As
mensagens apresentam, portanto, Moraes como alguém que influenciava convidados,
painéis, homenagens e até a comunicação pública do evento. Essa influência
aparece sempre relatada por Vorcaro, Fábio Faria ou integrantes da organização.
Nos
episódios centrais descritos pela PF, o PT não entra.
O
partido não indicou Moraes ao Supremo, não comandava o governo quando ele
chegou ao Ministério da Justiça e não aparece como responsável pelos contratos
ou encontros narrados no relatório. O vínculo político originário de Moraes no
governo federal é com a administração Temer, formada após o golpe contra Dilma
Rousseff.
O atual
governo permitiu investigações independentes, prestou informações e evitou
qualquer tentativa de blindagem institucional. O próprio presidente da
república disse que, quando o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o
presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o procuraram para relatar os
crimes do banqueiro, ele encaminhou os dois para contar tudo o que sabiam para
o procurador-geral da república, Paulo Gonet.
A
tentativa de jogar o desgaste é favorecida por setores da militância petista,
que fazem uma defesa cega do ministro do STF, confundindo convergência
circunstancial, movida por interesses institucionais, com aliança. Como o
governo e o PT nunca foram aliados de Moraes, essa posição alimenta a versão da
extrema direita.
É fato
que Moraes se tornou alvo prioritário do bolsonarismo por sua atuação no STF e
no TSE, mas isso não apaga sua trajetória anterior nem altera quem o levou ao
Supremo.
Moraes
deve explicar a natureza dos encontros com Vorcaro, sua eventual participação
na elaboração dos contratos e o alcance de sua intervenção nos eventos de
Londres. Também deve esclarecer por que teria sugerido Temer e vetado Joesley,
caso confirme as versões transmitidas pelo banqueiro.
E
também que tipo de conselho ou favor prestou a Vorcaro, para levar este a
expressar “a gratidão da minha vida a você”.
O
escritório Barci de Moraes deve explicar os serviços contratados, os valores e
as operações envolvendo aeronaves. Temer, por sua vez, pode informar se recebeu
o convite por sugestão do ministro e se teve conhecimento ou participação na
exclusão de Joesley.
O que o
relatório permite afirmar, até aqui, é mais restrito — e politicamente
revelador. A teia descrita pela PF não foi criada pelo PT. Ela envolve um
banqueiro, empresários, advogados, antigos integrantes de governos de direita e
de extrema direita, membros do sistema de Justiça e um ministro cuja entrada no
STF decorreu de escolha pessoal de Michel Temer.
Se
houver irregularidades, elas devem ser investigadas sem proteção partidária ou
institucional. Mas a conta histórica precisa ser apresentada a quem
efetivamente participou da construção dessas relações.
Esse BO
pode até alcançar grande parte de Brasília e de outros centros de poder. Sua
certidão de nascimento, porém, não foi assinada pelo PT.
Fonte:
Por Joaquim de Carvalho, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário