Eleições de 2026 – os desafios climáticos
Estamos a pouco mais de 30 dias para irmos às
urnas e elegermos aqueles que terão que enfrentar uma enorme cascata de
problemas que afetam e afetarão o quotidiano dos brasileiros e brasileiras nos
próximos quatro anos (e depois). No entanto, não entram nos debates e planos de
governo questões importantíssimas tanto para o quatriênio quanto para o futuro
dos nossos filhos e netos.
Não vou discutir aqui algo que todo mundo
está constatando: a campanha está chocha, não empolga ninguém. Os votos parecem
devidamente amarrados em blocos rígidos e imutáveis, com um percentual muito
alto de decisões tomadas mais por oposição do que por adesão. A fratura exposta
na sociedade brasileira desde 2013 continua sem trégua e, se é possível, ainda
mais destituída de uma identidade que aponte caminhos para o futuro.
Estamos votando para evitar que o passado
(bolsonarista) volte ou que o presente (petista) se perpetue, independentemente
do que cada proponente indica que vai fazer. O medo é um fator mais importante
do que a esperança nestas eleições, como já foi o caso nas últimas. Mas mesmo o
medo é um fator que é vivido mais com resignação do que com indignação, o que
não foi o caso em 2022.
Esta pasmaceira deve levar a um grande
aumento do não voto, abstenções, nulos e brancos. Segundo uma pesquisa, cerca
de 44% dos eleitores não iriam votar se não houvesse obrigação legal e mesmo
esta ameaça é cada vez menos relevante, já que os efeitos de não ir votar são
pouco mais do que o incômodo de se deslocar ao TRE para justificar a ausência
ou pagar a micro multa. Já nas eleições de 2022 a abstenção foi recorde, quase
um entre cada quatro eleitores não compareceu para dar o seu voto.
As pesquisas apontam as preocupações dos
eleitores e isto delimita o que os candidatos abordam em sua propaganda. Os
temas mais citados são corrupção, violência, saúde, economia, programas
sociais, emprego, pobreza. Não me lembro de qualquer pesquisa ter citado como
preocupação do eleitorado as questões relativas à emergência climática. Falha
das pesquisas? Inconsciência dos eleitores?
Enquanto a campanha rola na indiferença da
grande maioria, a mídia convencional (jornais, revistas e televisões) não nos
tem poupado de informações, cada dia mais dramáticas, apontando para os
impactos do aquecimento global. É como se vivêssemos em mundos totalmente
desconectados, o eleitoral brasileiro e o real planetário.
O silêncio de Flavio Bolsonaro sobre os temas
ambientais é compreensível, já que o clã se destaca pelo mais primário
negacionismo e o governo do pai foi um processo contínuo de reversão de toda a
legislação ambiental brasileira. O filhote do energúmeno só abre a boca para
falar em temas ambientais para prometer ainda mais desmonte nas políticas
ambientais para agradar o agronegócio.
Lula teria algo de positivo a propagandear,
com a queda do desmatamento em 2024 e 2025 e a das queimadas em 2025, muito
embora estes sucessos têm que ser mais bem avaliados no longo prazo. Por outro
lado, o presidente comemorou no mesmo sopro de voz a descoberta de petróleo no
Amapá e a necessidade de uma transição no uso dos combustíveis fósseis,
indicando que ou não tem noção da incoerência ou prefere fingir que as duas
coisas são simultaneamente possíveis.
A frase de Lula ao mostrar as mãos manchadas
de petróleo na festa do Amapá é um símbolo do programa petista para os próximos
anos: “o pré sal da margem equatorial é o nosso passaporte para o futuro”. O
presidente repetiu, quase letra por letra o que disse em 2006, também com as
mãos sujas de petróleo ao festejar o primeiro poço do pré sal na baía de
Campos. Vinte anos depois o futuro continua bem longe e o petróleo dos
primeiros poços está se esgotando sem que o passaporte tenha sido usado.
Agora a promessa é ainda mais furada pela
expectativa de uma acelerada transição para substituir os combustíveis fósseis
em processo de esgotamento no planeta em ebulição já na próxima década. Como o
novo poço só entrará em produção comercial em uns dez anos, ou ficaremos com um
mico na mão (um mico com um custo de 50 bilhões de dólares) ou competiremos com
outras petroleiras a venda dos últimos barris de petróleo antes que o planeta
desande definitivamente.
Este “déjà vu” se repete no programa
da coalizão lulista. A proposta básica é “promover o desenvolvimento
econômico”, com um “PIB robusto” (?), mais emprego, melhor distribuição de
renda. Sem qualificar que tipo de desenvolvimento necessitamos promover vamos
patinar nos resultados modestos e derrapar no endividamento de empresas e
famílias e nos gastos cada vez maiores com os impactos climáticos.
A campanha dá as barretadas de sempre para a
agricultura familiar sem perceber que as políticas adotadas para a apoiar
levaram a uma queda no número dos pequenos produtores rurais e na sua
participação no valor da produção agrícola. O programa de Lula para a
agricultura continua privilegiando o agronegócio sem ver todas as distorções
provocadas por esta economia neocolonial voltada para as exportações primárias
e, sobretudo, sem ver os seus impactos ambientais que derrubam qualquer
veleidade discurseira de “preocupação com o meio ambiente”.
Flávio Bolsonaro é um candidato de uma
proposta só: anistiar o pai e todos os outros golpistas de 2022/23. Tudo mais é
rasíssimo: mais presídios, mais polícia (leia-se mais violência
policial), menos regulamentação ambiental (mais liberdade para a ação
destrutiva do agronegócio). Na economia, ele propõe um passe de mágica de fazer
cair os juros básicos e promover investimentos apenas com a sua posse “gerando
confiança do mercado”.
Mas a ameaça maior desta versão do
bolsonarismo é o controle do STF (com quatro novas nomeações) e o impeachment
de ministros inconvenientes pelo Senado, abrindo caminho para uma nova
tentativa de auto golpe a la Viktor Orbán.
Se os nossos políticos, de todas as cores,
não se posicionam sobre os temas ambientais, é porque não existem demandas dos
eleitores sobre os mesmos. É compreensível que os partidos da direita, extrema
direita e centrão assim se comportem, mas o PT, PCdoB, PSOL e REDE foram
criados como instrumentos de politização da sociedade e deveriam trabalhar para
colocar a emergência climática no centro do debate estratégico do país. Ao
aderir à candidatura de Lula já no primeiro turno, os dois últimos partidos citados
deixaram de usar as eleições como um processo de exposição de alternativas ao
vazio das propostas dominantes no momento.
Espero que Lula ganhe estas eleições, embora
tema que o jogo vai ser ainda mais apertado do que em 2022, com o aumento do
não voto e a falsa noção de segurança para as instituições democráticas no caso
de uma vitória de Flávio Bolsonaro. Foi o sentimento de ameaça à democracia que
entregou os dois milhões de votos que fizeram a vitória de Lula, votos que
vieram da direita republicana, liderados pela posição de Simone Tebet.
No momento, Lula tem quase o mesmo percentual
de votos nas pesquisas de primeiro e segundo turno e a diferença com Flávio
Bolsonaro é dentro da margem de erro. Fica-me a impressão de que a decisão vai
vir de quantos dos eleitores de Lula e de Flávio se deslocarão para votar. Quem
vai perder mais com o aumento do não voto?
Que fatores podem alterar a pequena margem a
favor de Lula até agora? Há quem aposte que perderá quem for o alvo da última
denúncia de corrupção revelada antes do pleito. Espero que seja uma tese
incorreta, pois quem controla a revelação dos escândalos é o bolsonarista André
Mendonça.Há quem ache que a votação das últimas benesses do governo Lula pelo
Congresso (6×1, taxa das blusinhas,…) dará o upa final na votação do
presidente. E há quem ache que um pico dos preços dos alimentos, da energia ou
do endividamento das famílias seria a pá de cal nas chances de Lula.
A questão ambiental pode ser definidora desta
eleição, mesmo sem a emergência climática entrando nos debates e programas.
Aparentemente, tudo depende do impacto do El Niño nos próximos meses, até as
urnas se abrirem.
O fenômeno do aquecimento das águas do oceano
Pacífico é mais do que conhecido da ciência, mas só chegou a impactar a opinião
pública no mundo nos últimos dez anos e, no Brasil, nos últimos dois. Em uma
rápida explicação, este aquecimento provoca maior evaporação das águas do mar
e, combinado com alterações da ação dos ventos, provoca chuvas catastróficas em
alguns pontos do planeta e secas idem em outros, turbinadas com ondas de calor
extremas.
Este El Niño está sendo chamado de “super”
por aumentos de temperatura muito maiores do que no passado, mesmo nos recordes
dos últimos anos (+2 graus Celsius em 2023/24). Embora as águas estejam ainda
esquentando esta marca já foi ultrapassada e a previsão é que o aumento chegue
a um pico entre 3 e 4 graus Celsius de alteração nas temperaturas do mar até
outubro.
Qual foi o efeito do El Niño recorde anterior
em 2023/24 no Brasil? No Sul, o impacto mais devastador foram as inundações em
Porto Alegre, simbolizadas pelos meios de comunicação pelas fotos do cavalo
Caramelo no telhado de uma casa submersa pelas águas do Guaíba. O cavalo
sobreviveu, mas dezenas de pessoas morreram e milhares foram deslocadas e
perderam tudo o que tinham. Sim, a incúria da prefeitura de Porto Alegre e do
governo do Rio Grande do Sul, mais os desmatamentos das margens das bacias dos
rios da região pelo agronegócio contribuíram muito.
Por outro lado, ficou muito menos evidente a
contribuição do aumento do nível das marés na foz do Guaíba, represando o
escoamento das águas. Marés mais altas têm a ver com o derretimento dos gelos
do Ártico e da Groenlândia no Norte, da Antártica no Sul e das montanhas em
toda parte. O nível dos oceanos está crescendo de forma acelerada por efeito do
aquecimento global e este ocorre pelas emissões de gases de efeito estufa, 70%
deles provocados pelo uso de combustíveis fósseis e pelo desmatamento e queimadas
pelo agronegócio.
O outro impacto do El NIño de 2023/24 foi a
maior seca registrada nas regiões Norte e Nordeste, com recordes na queda do
nível dos rios da Amazônia que chegaram a isolar centenas de vilas e cidades da
região. Esta estiagem monstro afetou também o nível dos reservatórios das
usinas hidroelétricas, o que levou o governo a acionar as usinas termoelétricas
movidas a diesel e carvão e à elevação dos custos da energia para os
consumidores de todo o país. A irregularidade das chuvas afetou a produção
agrícola, levando a inflação dos alimentos a disparar, derrubando a avaliação
do governo pela população.
As ondas de calor, combinadas com a secura do
ar provocaram a maior temporada de incêndios florestais na nossa história,
ultrapassando pela primeira vez a área desflorestada como fator de devastação
ambiental. O governo propagandeou a queda do desmatamento por ação de tratores,
um recorde histórico, atribuindo-a à vigilância renovada pela recuperação da
capacidade de intervenção do Ibama e do ICMBio.
Depois dos anos Bolsonaro em que as “boiadas
passavam enquanto todos se preocupavam com a Covid”, no dizer do infame
ministro do Meio Ambiente do energúmeno, as autuações de desmatadores chegaram
a 65% dos eventos em 2023 e isto intimidou grileiros e agronegócio em 2024
Entretanto, se somarmos as áreas de
desmatamento com as de queimadas o total das emissões de gases de efeito estufa
ficou praticamente idêntico. A conclusão do Ibama foi que os agentes da
destruição ambiental (grileiros e agronegócio) tinham mudado de tática. Com
efeito, os satélites de controle ficaram mais eficientes e agora são capazes de
localizar desmatamentos por tratores em áreas de até 30 hectares e isto em
tempo real.
Já as queimadas são de difícil localização na
sua etapa inicial e impedem a identificação dos responsáveis. No ano 2024/25,
as queimadas nas áreas florestadas caíram significativamente, mas isto se deve
ao fato de que as chuvas na Amazônia se prolongaram por mais tempo e
dificultaram a queima da floresta úmida.
E o que se pode esperar deste Super El Niño?
Em primeiro lugar, o aumento de temperatura é recorde nas águas do oceano
Pacífico, mas além disso ele ocorre como acréscimo a um aumento de temperatura
geral do planeta de meio grau Célsius (entre 2015 e 2025) em comparação com as
temperaturas da segunda metade do século XIX. Com tudo estando mais quente, os
impactos do El Niño serão exacerbados.
No Brasil, os impactos do El Niño não são
simultâneos. Os dilúvios na região Sul ocorrem no início das manifestações do
El Niño, normalmente em agosto/setembro. Isto já vem acontecendo este ano no
Rio Grande do Sul e, em menor escala em Santa Catarina e no Paraná, ainda longe
dos desastres de 2024, mas com risco de se intensificarem em setembro/outubro.
Se confirmadas as previsões de chuvas catastróficas e ventanias arrasadoras os
efeitos podem se fazer sentir antes das eleições.
As ondas de calor têm assolado o país inteiro
e já vem afetando a produção agrícola no centro oeste, nordeste e sudeste. O
impacto sobre setores importantes do agronegócio mundial já se faz sentir,
elevando preços de café, açúcar e cacau. No Brasil, os impactos sobre o
agronegócio de soja, milho, carnes e ovos já estão sendo precificados, mas
devem ocorrer depois das eleições.
Já o impacto sobre os hortigranjeiros pode
ser muito mais importante por ocorrer em virtude das chuvas na região sul
(Paraná) e sudeste (São Paulo), que concentram a oferta destes produtos no
país. A produção de arroz e trigo também pode ser afetada, assim como a de
feijão, mas só elevará os preços nos supermercados no próximo ano.
Os preços dos hortigranjeiros e das frutas já
estão em alta este ano, antes mesmo do impacto do El Niño, devido ao aumento
dos custos de produção provocados pela alta dos preços dos fertilizantes e dos
combustíveis (efeito da guerra na Ucrânia, dos embargos americanos aos produtos
russos e da interrupção do fluxo de mercadorias no estrito do Ormuz devido a
guerra com o Irã).
De janeiro a maio, os preços da cesta básica
subiram entre 7,5% e 10%. Ao longo deste ano a batata teve preços 76% mais
elevados, o tomate 86%, a cebola 48%, o feijão 6,5%, os ovos 7%, a carne de boi
10% (cortes traseiros) e 6% (cortes dianteiros). Houve uma pausa nestes
aumentos em agosto, mas as ondas de calor prometem novos impactos para os
próximos meses. Tudo isto leva a aumento do custo da alimentação das famílias
antes das eleições.
Outros fatores tais como o fluxo das
exportações de produtos alimentares podem modificar a oferta de produtos e seus
preços, em particular o da carne bovina. A redução das importações chinesas e
europeias, podem ser, em parte, compensadas pela nova abertura de Donald Trump
para a compra de carne moída brasileira. Menos exportações levam ao aumento da
oferta de carne no mercado interno e uma consequente queda nos preços, mas os
especialistas estão intrigados com o baixo nível dos abates neste fim de estiagem
no centro oeste.
Para resumir, o Super El Niño já promete ser
arrasador em seus impactos, mas uma boa parte deles deve ficar para depois das
eleições, se tudo funcionar como costuma acontecer. O problema é que o caos
climático acabou com a segurança em relação ao que costuma acontecer.
Frente a todas estas ameaças diretas e
indiretas para o país e para a população o governo federal irradia otimismo
enquanto os governos estaduais ignoram os riscos e se resumem a criar comissões
para enfrentar os efeitos climáticos de chuvas e secas. Poucos foram os Estados
que adotaram práticas preventivas e o governo federal confia nos 4000
brigadistas contratados para combater incêndios, uma gota d’água no oceano.
Para terminar esta pessimista avaliação sobre
a irrelevância do tema da emergência climática no debate eleitoral, os
cientistas estão reavaliando as projeções das manifestações do El Niño e
considerando a possiblidade deste fenômeno se tornar semi permanente.
Elegeremos presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais
que não tem noção da gravidade da emergência climática e muito menos um
compromisso com a necessidade urgente de enfrentá-la.
Fonte: Por Jean Marc von der Weid, em A Terra
é Redonda

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