sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Eleições de 2026 – os desafios climáticos

Estamos a pouco mais de 30 dias para irmos às urnas e elegermos aqueles que terão que enfrentar uma enorme cascata de problemas que afetam e afetarão o quotidiano dos brasileiros e brasileiras nos próximos quatro anos (e depois). No entanto, não entram nos debates e planos de governo questões importantíssimas tanto para o quatriênio quanto para o futuro dos nossos filhos e netos.

Não vou discutir aqui algo que todo mundo está constatando: a campanha está chocha, não empolga ninguém. Os votos parecem devidamente amarrados em blocos rígidos e imutáveis, com um percentual muito alto de decisões tomadas mais por oposição do que por adesão. A fratura exposta na sociedade brasileira desde 2013 continua sem trégua e, se é possível, ainda mais destituída de uma identidade que aponte caminhos para o futuro.

Estamos votando para evitar que o passado (bolsonarista) volte ou que o presente (petista) se perpetue, independentemente do que cada proponente indica que vai fazer. O medo é um fator mais importante do que a esperança nestas eleições, como já foi o caso nas últimas. Mas mesmo o medo é um fator que é vivido mais com resignação do que com indignação, o que não foi o caso em 2022.

Esta pasmaceira deve levar a um grande aumento do não voto, abstenções, nulos e brancos. Segundo uma pesquisa, cerca de 44% dos eleitores não iriam votar se não houvesse obrigação legal e mesmo esta ameaça é cada vez menos relevante, já que os efeitos de não ir votar são pouco mais do que o incômodo de se deslocar ao TRE para justificar a ausência ou pagar a micro multa. Já nas eleições de 2022 a abstenção foi recorde, quase um entre cada quatro eleitores não compareceu para dar o seu voto.

As pesquisas apontam as preocupações dos eleitores e isto delimita o que os candidatos abordam em sua propaganda. Os temas mais citados são corrupção, violência, saúde, economia, programas sociais, emprego, pobreza. Não me lembro de qualquer pesquisa ter citado como preocupação do eleitorado as questões relativas à emergência climática. Falha das pesquisas? Inconsciência dos eleitores?

Enquanto a campanha rola na indiferença da grande maioria, a mídia convencional (jornais, revistas e televisões) não nos tem poupado de informações, cada dia mais dramáticas, apontando para os impactos do aquecimento global. É como se vivêssemos em mundos totalmente desconectados, o eleitoral brasileiro e o real planetário.

O silêncio de Flavio Bolsonaro sobre os temas ambientais é compreensível, já que o clã se destaca pelo mais primário negacionismo e o governo do pai foi um processo contínuo de reversão de toda a legislação ambiental brasileira. O filhote do energúmeno só abre a boca para falar em temas ambientais para prometer ainda mais desmonte nas políticas ambientais para agradar o agronegócio.

Lula teria algo de positivo a propagandear, com a queda do desmatamento em 2024 e 2025 e a das queimadas em 2025, muito embora estes sucessos têm que ser mais bem avaliados no longo prazo. Por outro lado, o presidente comemorou no mesmo sopro de voz a descoberta de petróleo no Amapá e a necessidade de uma transição no uso dos combustíveis fósseis, indicando que ou não tem noção da incoerência ou prefere fingir que as duas coisas são simultaneamente possíveis.

A frase de Lula ao mostrar as mãos manchadas de petróleo na festa do Amapá é um símbolo do programa petista para os próximos anos: “o pré sal da margem equatorial é o nosso passaporte para o futuro”. O presidente repetiu, quase letra por letra o que disse em 2006, também com as mãos sujas de petróleo ao festejar o primeiro poço do pré sal na baía de Campos. Vinte anos depois o futuro continua bem longe e o petróleo dos primeiros poços está se esgotando sem que o passaporte tenha sido usado.

Agora a promessa é ainda mais furada pela expectativa de uma acelerada transição para substituir os combustíveis fósseis em processo de esgotamento no planeta em ebulição já na próxima década. Como o novo poço só entrará em produção comercial em uns dez anos, ou ficaremos com um mico na mão (um mico com um custo de 50 bilhões de dólares) ou competiremos com outras petroleiras a venda dos últimos barris de petróleo antes que o planeta desande definitivamente.

Este “déjà vu” se repete no programa da coalizão lulista. A proposta básica é “promover o desenvolvimento econômico”, com um “PIB robusto” (?), mais emprego, melhor distribuição de renda. Sem qualificar que tipo de desenvolvimento necessitamos promover vamos patinar nos resultados modestos e derrapar no endividamento de empresas e famílias e nos gastos cada vez maiores com os impactos climáticos.

A campanha dá as barretadas de sempre para a agricultura familiar sem perceber que as políticas adotadas para a apoiar levaram a uma queda no número dos pequenos produtores rurais e na sua participação no valor da produção agrícola. O programa de Lula para a agricultura continua privilegiando o agronegócio sem ver todas as distorções provocadas por esta economia neocolonial voltada para as exportações primárias e, sobretudo, sem ver os seus impactos ambientais que derrubam qualquer veleidade discurseira de “preocupação com o meio ambiente”.

Flávio Bolsonaro é um candidato de uma proposta só: anistiar o pai e todos os outros golpistas de 2022/23. Tudo mais é rasíssimo:  mais presídios, mais polícia (leia-se mais violência policial), menos regulamentação ambiental (mais liberdade para a ação destrutiva do agronegócio). Na economia, ele propõe um passe de mágica de fazer cair os juros básicos e promover investimentos apenas com a sua posse “gerando confiança do mercado”.

Mas a ameaça maior desta versão do bolsonarismo é o controle do STF (com quatro novas nomeações) e o impeachment de ministros inconvenientes pelo Senado, abrindo caminho para uma nova tentativa de auto golpe a la Viktor Orbán.

Se os nossos políticos, de todas as cores, não se posicionam sobre os temas ambientais, é porque não existem demandas dos eleitores sobre os mesmos. É compreensível que os partidos da direita, extrema direita e centrão assim se comportem, mas o PT, PCdoB, PSOL e REDE foram criados como instrumentos de politização da sociedade e deveriam trabalhar para colocar a emergência climática no centro do debate estratégico do país. Ao aderir à candidatura de Lula já no primeiro turno, os dois últimos partidos citados deixaram de usar as eleições como um processo de exposição de alternativas ao vazio das propostas dominantes no momento.

Espero que Lula ganhe estas eleições, embora tema que o jogo vai ser ainda mais apertado do que em 2022, com o aumento do não voto e a falsa noção de segurança para as instituições democráticas no caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro. Foi o sentimento de ameaça à democracia que entregou os dois milhões de votos que fizeram a vitória de Lula, votos que vieram da direita republicana, liderados pela posição de Simone Tebet.

No momento, Lula tem quase o mesmo percentual de votos nas pesquisas de primeiro e segundo turno e a diferença com Flávio Bolsonaro é dentro da margem de erro. Fica-me a impressão de que a decisão vai vir de quantos dos eleitores de Lula e de Flávio se deslocarão para votar. Quem vai perder mais com o aumento do não voto?

Que fatores podem alterar a pequena margem a favor de Lula até agora? Há quem aposte que perderá quem for o alvo da última denúncia de corrupção revelada antes do pleito. Espero que seja uma tese incorreta, pois quem controla a revelação dos escândalos é o bolsonarista André Mendonça.Há quem ache que a votação das últimas benesses do governo Lula pelo Congresso (6×1, taxa das blusinhas,…) dará o upa final na votação do presidente. E há quem ache que um pico dos preços dos alimentos, da energia ou do endividamento das famílias seria a pá de cal nas chances de Lula.

A questão ambiental pode ser definidora desta eleição, mesmo sem a emergência climática entrando nos debates e programas. Aparentemente, tudo depende do impacto do El Niño nos próximos meses, até as urnas se abrirem.

O fenômeno do aquecimento das águas do oceano Pacífico é mais do que conhecido da ciência, mas só chegou a impactar a opinião pública no mundo nos últimos dez anos e, no Brasil, nos últimos dois. Em uma rápida explicação, este aquecimento provoca maior evaporação das águas do mar e, combinado com alterações da ação dos ventos, provoca chuvas catastróficas em alguns pontos do planeta e secas idem em outros, turbinadas com ondas de calor extremas.

Este El Niño está sendo chamado de “super” por aumentos de temperatura muito maiores do que no passado, mesmo nos recordes dos últimos anos (+2 graus Celsius em 2023/24). Embora as águas estejam ainda esquentando esta marca já foi ultrapassada e a previsão é que o aumento chegue a um pico entre 3 e 4 graus Celsius de alteração nas temperaturas do mar até outubro.

Qual foi o efeito do El Niño recorde anterior em 2023/24 no Brasil? No Sul, o impacto mais devastador foram as inundações em Porto Alegre, simbolizadas pelos meios de comunicação pelas fotos do cavalo Caramelo no telhado de uma casa submersa pelas águas do Guaíba. O cavalo sobreviveu, mas dezenas de pessoas morreram e milhares foram deslocadas e perderam tudo o que tinham. Sim, a incúria da prefeitura de Porto Alegre e do governo do Rio Grande do Sul, mais os desmatamentos das margens das bacias dos rios da região pelo agronegócio contribuíram muito.

Por outro lado, ficou muito menos evidente a contribuição do aumento do nível das marés na foz do Guaíba, represando o escoamento das águas. Marés mais altas têm a ver com o derretimento dos gelos do Ártico e da Groenlândia no Norte, da Antártica no Sul e das montanhas em toda parte. O nível dos oceanos está crescendo de forma acelerada por efeito do aquecimento global e este ocorre pelas emissões de gases de efeito estufa, 70% deles provocados pelo uso de combustíveis fósseis e pelo desmatamento e queimadas pelo agronegócio.

O outro impacto do El NIño de 2023/24 foi a maior seca registrada nas regiões Norte e Nordeste, com recordes na queda do nível dos rios da Amazônia que chegaram a isolar centenas de vilas e cidades da região. Esta estiagem monstro afetou também o nível dos reservatórios das usinas hidroelétricas, o que levou o governo a acionar as usinas termoelétricas movidas a diesel e carvão e à elevação dos custos da energia para os consumidores de todo o país. A irregularidade das chuvas afetou a produção agrícola, levando a inflação dos alimentos a disparar, derrubando a avaliação do governo pela população.

As ondas de calor, combinadas com a secura do ar provocaram a maior temporada de incêndios florestais na nossa história, ultrapassando pela primeira vez a área desflorestada como fator de devastação ambiental. O governo propagandeou a queda do desmatamento por ação de tratores, um recorde histórico, atribuindo-a à vigilância renovada pela recuperação da capacidade de intervenção do Ibama e do ICMBio.

Depois dos anos Bolsonaro em que as “boiadas passavam enquanto todos se preocupavam com a Covid”, no dizer do infame ministro do Meio Ambiente do energúmeno, as autuações de desmatadores chegaram a 65% dos eventos em 2023 e isto intimidou grileiros e agronegócio em 2024

Entretanto, se somarmos as áreas de desmatamento com as de queimadas o total das emissões de gases de efeito estufa ficou praticamente idêntico. A conclusão do Ibama foi que os agentes da destruição ambiental (grileiros e agronegócio) tinham mudado de tática. Com efeito, os satélites de controle ficaram mais eficientes e agora são capazes de localizar desmatamentos por tratores em áreas de até 30 hectares e isto em tempo real.

Já as queimadas são de difícil localização na sua etapa inicial e impedem a identificação dos responsáveis. No ano 2024/25, as queimadas nas áreas florestadas caíram significativamente, mas isto se deve ao fato de que as chuvas na Amazônia se prolongaram por mais tempo e dificultaram a queima da floresta úmida.

E o que se pode esperar deste Super El Niño? Em primeiro lugar, o aumento de temperatura é recorde nas águas do oceano Pacífico, mas além disso ele ocorre como acréscimo a um aumento de temperatura geral do planeta de meio grau Célsius (entre 2015 e 2025) em comparação com as temperaturas da segunda metade do século XIX. Com tudo estando mais quente, os impactos do El Niño serão exacerbados.

No Brasil, os impactos do El Niño não são simultâneos. Os dilúvios na região Sul ocorrem no início das manifestações do El Niño, normalmente em agosto/setembro. Isto já vem acontecendo este ano no Rio Grande do Sul e, em menor escala em Santa Catarina e no Paraná, ainda longe dos desastres de 2024, mas com risco de se intensificarem em setembro/outubro. Se confirmadas as previsões de chuvas catastróficas e ventanias arrasadoras os efeitos podem se fazer sentir antes das eleições.

As ondas de calor têm assolado o país inteiro e já vem afetando a produção agrícola no centro oeste, nordeste e sudeste. O impacto sobre setores importantes do agronegócio mundial já se faz sentir, elevando preços de café, açúcar e cacau. No Brasil, os impactos sobre o agronegócio de soja, milho, carnes e ovos já estão sendo precificados, mas devem ocorrer depois das eleições.

Já o impacto sobre os hortigranjeiros pode ser muito mais importante por ocorrer em virtude das chuvas na região sul (Paraná) e sudeste (São Paulo), que concentram a oferta destes produtos no país. A produção de arroz e trigo também pode ser afetada, assim como a de feijão, mas só elevará os preços nos supermercados no próximo ano.

Os preços dos hortigranjeiros e das frutas já estão em alta este ano, antes mesmo do impacto do El Niño, devido ao aumento dos custos de produção provocados pela alta dos preços dos fertilizantes e dos combustíveis (efeito da guerra na Ucrânia, dos embargos americanos aos produtos russos e da interrupção do fluxo de mercadorias no estrito do Ormuz devido a guerra com o Irã).

De janeiro a maio, os preços da cesta básica subiram entre 7,5% e 10%. Ao longo deste ano a batata teve preços 76% mais elevados, o tomate 86%, a cebola 48%, o feijão 6,5%, os ovos 7%, a carne de boi 10% (cortes traseiros) e 6% (cortes dianteiros). Houve uma pausa nestes aumentos em agosto, mas as ondas de calor prometem novos impactos para os próximos meses. Tudo isto leva a aumento do custo da alimentação das famílias antes das eleições.

Outros fatores tais como o fluxo das exportações de produtos alimentares podem modificar a oferta de produtos e seus preços, em particular o da carne bovina. A redução das importações chinesas e europeias, podem ser, em parte, compensadas pela nova abertura de Donald Trump para a compra de carne moída brasileira. Menos exportações levam ao aumento da oferta de carne no mercado interno e uma consequente queda nos preços, mas os especialistas estão intrigados com o baixo nível dos abates neste fim de estiagem no centro oeste.

Para resumir, o Super El Niño já promete ser arrasador em seus impactos, mas uma boa parte deles deve ficar para depois das eleições, se tudo funcionar como costuma acontecer. O problema é que o caos climático acabou com a segurança em relação ao que costuma acontecer.

Frente a todas estas ameaças diretas e indiretas para o país e para a população o governo federal irradia otimismo enquanto os governos estaduais ignoram os riscos e se resumem a criar comissões para enfrentar os efeitos climáticos de chuvas e secas. Poucos foram os Estados que adotaram práticas preventivas e o governo federal confia nos 4000 brigadistas contratados para combater incêndios, uma gota d’água no oceano.

Para terminar esta pessimista avaliação sobre a irrelevância do tema da emergência climática no debate eleitoral, os cientistas estão reavaliando as projeções das manifestações do El Niño e considerando a possiblidade deste fenômeno se tornar semi permanente. Elegeremos presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais que não tem noção da gravidade da emergência climática e muito menos um compromisso com a necessidade urgente de enfrentá-la.

 

Fonte: Por Jean Marc von der Weid, em A Terra é Redonda

 

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