El
Niño alimenta raro trio de furacões no Pacífico
Um trio
de furacões avança pelo Oceano Pacífico nesta quinta-feira (03/09), num evento
raro atribuído por cientistas às águas aquecidas por um El Niño historicamente
forte.
A
tempestade tropical Marie ganhou força e se transformou em furacão no fim da
quarta-feira, na costa da Baixa Califórnia, no México. Ela alinhou-se atrás dos
poderosos furacões Karina e Lowell, que seguiam rumo ao oeste pelo Pacífico,
afastando-se do continente americano.
"O
aquecimento provocado pelo El Niño cria as condições para essas tempestades,
que são alimentadas em grande parte por águas quentes. Quando o Pacífico
tropical está mais quente do que o normal, observamos um aumento no número de
tempestades intensas", explicou Julia Cole, cientista do clima da
Universidade de Michigan, à agência de notícias AFP.
Águas
quentes fornecem energia para tempestades, e os efeitos do El Niño sobre a
atmosfera reduzem o cisalhamento vertical dos ventos sobre o Pacífico – quando
o vento muda de intensidade ou direção à medida que ganha ou perde altitude.
Isso cria condições favoráveis para a intensificação dos furacões.
"O
sistema climático aqueceu significativamente nos últimos 20 anos", disse
Benjamin Kirtman, cientista atmosférico da Universidade de Miami, à AFP.
Segundo
ele, a temperatura da superfície do mar, que já está mais quente que a média,
beira níveis recordes. "Não há outra forma de dizer: as condições [para
formação de tempestades] estão extremamente favoráveis neste momento",
afirmou.
Uma
situação semelhante ocorreu em 2015, outro ano de El Niño intenso, quando os
furacões Kilo, Ignacio, Jimena e a depressão tropical 14E – estágio inicial de
um ciclone tropical – atravessaram o Pacífico simultaneamente.
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Furacão superforte
O
Karina foi classificado na categoria 4 da escala Saffir-Simpson. Já o Lowell
evoluiu na quarta-feira para a categoria 5, a mais forte e destrutiva, quando
estava a centenas de quilômetros ao sul do Havaí.
Enquanto
o Karina deve enfraquecer nos próximos dias, o Lowell "deve permanecer um
grande furacão" enquanto avança para oeste, segundo o Centro Nacional de
Furacões dos Estados Unidos (NHC, na sigla em inglês).
"As
ondulações provocadas por Lowell provavelmente causarão condições de maré e
correntes de retorno com risco de morte em partes das ilhas do Havaí nos
próximos dias", afirmou o NHC, acrescentando que suas previsões de
trajetória e intensidade de longo prazo eram "mais incertas do que o
habitual".
O Havaí
ainda se recupera dos impactos do furacão Lala, que passou próximo à parte sul
da Ilha Grande no mês passado, trazendo ventos destrutivos e graves enchentes
repentinas.
A leste
de Lowell e Karina estava Marie, que se encontrava a cerca de 600 quilômetros a
sudoeste da ponta sul da Baixa Califórnia e deveria ganhar mais força até
sexta-feira, segundo a agência americana.
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Chances cada vez maiores de um El Niño sem precedentes
O El
Niño deste ano tem 69% de chance de se tornar o mais forte já registrado,
segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos
(NOAA), e já provoca eventos climáticos extremos em várias partes do mundo,
embora o pico não seja esperado antes do período entre outubro e dezembro.
A
previsão de um El Niño "muito forte" também foi confirmada pela
Organização Meteorológica Mundial (OMM) nesta quinta-feira. Segundo a agência
climática das Nações Unidas, é praticamente certo que o fenômeno persistirá até
fevereiro. Isso porque o calor acumulado nos oceanos é liberado mais lentamente
para a atmosfera, elevando as temperaturas globais no ano seguinte.
O ano
mais quente já registrado foi 2024, após o último El Niño.
"Esse
El Niño excepcional tem potencial para causar um golpe severo em comunidades e
economias de todo o mundo", disse a chefe da OMM, Celeste Saulo. "Já
estamos observando interrupções e devastação causadas por secas e enchentes, e
esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se
intensifique."
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O que é o El Niño
O El
Niño é a fase de aquecimento de um ciclo natural no Pacífico tropical que
ocorre entre a cada dois a sete anos. O fenômeno geralmente dura entre nove e
12 meses. Ele se instala quando os ventos alísios, que sopram de leste para
oeste, enfraquecem, permitindo que a água quente que normalmente se acumula na
porção oeste do Pacífico retorne para leste e suba à superfície.
Isso
provoca mudanças globais nos padrões de vento, pressão atmosférica e
precipitação, gerando condições mais quentes e secas em algumas áreas e mais
frias e úmidas em outras. Esses efeitos
são potencializados pelas mudanças climáticas, e incluem secas em partes da
Amazônia, da Indonésia e da Austrália, interrupções nas monções da Índia e
alterações nos regimes de chuva em toda a faixa tropical.
As
condições climáticas alternam entre El Niño e seu oposto, La Niña, com períodos
neutros entre ambos.
Embora
o El Niño não seja causado pelas mudanças climáticas, cientistas esperam que
ele intensifique ainda mais o aquecimento de um planeta já afetado pela queima
de combustíveis fósseis, além de aumentar a frequência de eventos climáticos
extremos.
"A
ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta está navegando em águas
desconhecidas, e essas águas estão esquentando. As temperaturas da superfície
do mar estão aumentando, as temperaturas continuam subindo e o mundo está
entrando na zona de perigo dos eventos climáticos extremos", alertou o
secretário-geral da ONU, Antonio Guterres.
"A corrida agora é entre o aumento dos riscos e nosso compromisso
de agir pelo clima e proteger as pessoas. Precisamos vencer essa corrida."
Fonte:
DW Brasil

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