PT
em São Paulo: é possível superar o muro conservador do interior paulista?
Para as
eleições de 2002, o PT teve um desafio: convencer o então deputado federal José
Genoino a se candidatar ao governo de São Paulo. Na época, o então parlamentar
preferia focar esforços no Congresso Nacional e na construção da candidatura de
Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto.
Os
petistas nunca haviam chegado ao segundo turno na disputa pelo governo
paulista. No pleito anterior, José Genoino havia sido o deputado federal mais
votado do estado, com 306 mil votos.
Na
disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, os petistas vinham de uma experiência
frustrante em 1998, quando Marta Suplicy ficou fora do segundo turno por apenas
75 mil votos, incríveis 0,4%. O pleito foi decidido entre Paulo Maluf, que era
do PFL, e Mário Covas, do PSDB, que acabou eleito.
Em
1994, José Dirceu, uma das mais importantes lideranças da história do PT, já
havia caído no primeiro turno, com apenas 14% dos votos. Naquele ano, Mário
Covas, no PSDB, foi eleito após vencer facilmente Francisco Rossi (PDT) no
segundo turno.
Uma
eleição antes, em 1990, Plínio Arruda Sampaio, que ganhou fama nacional no Psol
nos anos 2000, ficou apenas em quarto lugar como candidato do PT ao governo
paulista. Luiz Antônio Fleury, que concorria pelo PMDB, terminou o primeiro
turno atrás de Paulo Maluf, do PDS, e surpreendeu ao virar no segundo turno e
ser eleito governador.
Em
1986, o jovem Eduardo Suplicy sucumbiu nas urnas e perdeu a eleição para o
Palácio dos Bandeirantes, terminando em quarto lugar, com apenas 11% dos votos.
Genoino
levava, portanto, em 2002, um peso para as urnas: a responsabilidade de fazer o
PT disputar o segundo turno e, consequentemente, ser competitivo na corrida
pelo Palácio dos Bandeirantes.
O PT
antecipou a eleição dentro do partido, justamente para fazer do interior um
espaço menos resistente ao partido. “Eu comecei a andar o interior em 2001,
mais de um ano antes da eleição. Veja, andei 620 municípios (são 644 no
estado). Naquela época, o PT tinha muita estrutura no interior, nas
macrorregiões. Eu corri o estado todo, falando com todo mundo, dialogando e
apresentando nossas ideias”, relembra Genoino.
A
estratégia deu certo. Genoino teve uma votação histórica para o partido e
chegou ao segundo turno, quando perdeu para Geraldo Alckmin, que corria pelo
PSDB na época. “Nossa votação foi muito boa e deu um caminho para o partido.”
A
projeção era ótima para 2006: o partido havia acumulado força para o próximo
pleito. Porém, os anos seguintes foram difíceis para os petistas paulistas.
“Depois daquela eleição, o PT passou por um processo de criminalização, e as
figuras mais atingidas do partido, todas lideranças nacionais, eram do PT de
São Paulo. Eu, José Dirceu, Lula, Luiz Gushiken, entre outros. Isso levou o
partido para uma posição frágil no estado”, conta Genoino.
Para
ele, essa atmosfera reacionária tem uma gênese. “Em São Paulo, a movimentação
de 1932 gerou uma onda conservadora no interior de São Paulo. Isso foi se
consolidando com a ditadura, quando teve governadores como Adhemar de Barros e
depois o Maluf. Uma coisa que o Maluf fez no interior foi consolidar esses
grupos que se tornaram espaços de reunião de conservadores, como Rotary Club,
Lions Clubs, além das igrejas. Mesmo as católicas no interior são de direita.”
Para o
cientista político Paulo Roberto Souza, o conservadorismo da região passa por
“todo o sistema local de mídia tradicional e agora a emergente agromídia
digital” e reúne “diversos fatores, mas me parece que a principal é o ‘cordão
sanitário’ anti-progressismo articulado pelas lideranças políticas locais
históricas desde o coronelismo com o agronegócio contemporâneo e a extrema
direita”, explica o professor da FESP-SP.
“As
cidades do interior, mesmo as satélites, têm uma homogeneidade política,
cultural e social muito mais simplificada do que a região metropolitana, onde
as múltiplas desigualdades, diante da dinâmica violenta e densa, são mais
perceptíveis e disputáveis, bem como toda a influência cosmopolita nos espaços
urbanos, com infraestrutura cultural e universitária que geram necessariamente
uma heterogeneidade mais ampla.”
Genoino
vê nas campanhas nacionais outro obstáculo para as campanhas ao Palácio dos
Bandeirantes. “Pela relevância do estado, as candidaturas do PT sempre têm a
obrigação de nacionalizar o debate e ser palanque para o candidato nacional.
Veja o Haddad agora, tem que sustentar uma campanha em São Paulo para garantir
palanque ao Lula. Precisamos criar condições para que o candidato consiga
priorizar a disputa estadual.”
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O desafio de Haddad
Em
2022, quando disputou a eleição para o governo de São Paulo, Fernando Haddad
chegou ao segundo turno e conseguiu vencer na capital paulista e em outros 78
municípios. Tarcísio Freitas (Republicanos), no entanto, saiu vencedor em 566
cidades e garantiu que o governo paulista seguisse mais quatro anos nas mãos da
direita.
A Real
Time Big Data divulgou uma pesquisa, em junho deste ano, mostrando como vota o
paulista de diversas regiões do estado. O levantamento reforçou a preocupação
petista com o interior.
De
acordo com a pesquisa, Haddad vence na capital, assim como em 2022, e empata na
região metropolitana. Porém, na macrorregião de Campinas, o petista tinha
apenas 25%, contra 52% de Tarcísio de Freitas. No Centro Paulista, outra
vitória em primeiro turno do atual governador, 57% contra 25% do petista.
No Vale
do Paraíba, a Real Time Big Data projetava Tarcísio com 51% e Haddad com 34%.
No Oeste Paulista, o governador acumulava 57% das intenções de voto e o petista
tinha apenas 23%. Por fim, na região de Sorocaba, outra vitória do atual
mandatário, 52% contra 28%.
O
cenário adverso no interior não foi recebido como novidade ou com espanto pelos
petistas, que entenderam a região como estratégica para a eleição deste ano.
Não à toa, o PT escolheu Campinas como palco para o lançamento da candidatura
de Fernando Haddad ao governo paulista, em 25 de julho deste ano.
O
município já foi governado pelo PT em duas oportunidades. Primeiro, entre 1989
e 1992, quando Jacó Bittar era o prefeito, e por Toninho do PT, que comandou os
campineiros por apenas nove meses, entre 1 de janeiro e 10 de setembro de 2001,
quando foi assassinado.
Vinte e
três anos após Toninho do PT, Pedro Tourinho (PT), após cumprir dois mandatos
como vereador em Campinas, decidiu disputar a prefeitura local. Mas o ambiente
para o partido já era muito distante do começo do século.
“O
preconceito contra o PT no interior paulista é fruto de anos de uma máquina de
desinformação que tenta associar a luta pelos direitos dos trabalhadores a algo
negativo. Em Campinas, esse discurso sempre serviu como cortina de fumaça para
proteger privilégios e blindar esquemas locais de poder. Vimos isso claramente
quando atuei na Câmara Municipal: enquanto liderávamos a fiscalização e a
denúncia de desvios na gestão da saúde, os setores conservadores tentavam
desviar o foco atacando o partido”, afirmou Tourinho.
O
petista, que neste ano é candidato a deputado federal, insiste. “Esse
antipetismo se manifesta na tentativa de rotular qualquer política de
distribuição de renda, de defesa do SUS ou de fortalecimento da universidade
pública como ‘ideológica’. Enfrentamos esse preconceito demonstrando
compromisso prático com a vida das pessoas: defendendo o Mais Médicos, a
atenção primária à saúde, a valorização do funcionalismo público e a
transparência na administração.”
Mais
para oeste, está Ribeirão Preto, onde, em 2020, Duda Hidalgo, do PT, se tornou
a mais jovem vereadora eleita na história do município, aos 21 anos, com 3.481
votos. Em 2024, ela se reelegeu. Dessa vez, com a terceira maior votação da
cidade, 8.651 eleitores a escolheram na urna.
“Furar
esse bloqueio foi resultado de um trabalho coletivo que escolheu disputar a
política pela raiz, dialogando diretamente com a vida real da população
trabalhadora, das populações negras, da juventude e das periferias de Ribeirão
Preto. O conservadorismo tenta vender todos os dias de que o interior é
homogêneo, que é tudo igual, mas a nossa cidade tem uma juventude que quer
futuro, mulheres chefes de família que sustentam suas casas e uma população
LGBTQIA+ que exige direitos e respeito”, explica Hidalgo.
Para a
petista, que disputa uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo
(Alesp), disputar o interior é possível, pois “quando o projeto do PT se traduz
em acolhimento, presença territorial e soluções concretas para os problemas do
cotidiano, nenhuma barreira conservadora consegue silenciar a vontade de
mudança”.
Paulo
Roberto pondera que “o interior hoje já não é mais pautado pelo debate político
universalista da capital, uma vez que não se sente representado, pois boa parte
dessas demandas são percebidas de outra forma, enquanto as suas demandas são
pouco abordadas pelo segmento progressista. Não é uma dificuldade exclusiva do
Haddad, mas sim de todo o campo.”
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Lacunas da direita em São Paulo
Apesar
da aparente vitória encaminhada de Tarcísio de Freitas, de acordo com as
pesquisas, Hidalgo e Tourinho acreditam que Haddad pode reverter o cenário
eleitoral. O segredo está em pautas e lacunas do atual governo no interior.
Em
março deste ano, Ribeirão Preto foi tomada por enchentes. Em dezembro do ano
passado, 1,2 mil famílias que vivem na comunidade da Locomotiva, na zona sul da
cidade, foram impactadas pelas cheias no município.
Ribeirão
Preto não é exceção. Outros municípios sofreram com as chuvas, inclusive a
capital paulista. A gestão de Tarcísio de Freitas insiste, desde 2024, em
cortes nas verbas de enchentes e desastres climáticos.
Em
2023, o governo estadual investiu apenas R$ 841 milhões dos R$ 2 bilhões
previstos em orçamento para infraestrutura hídrica e combate a enchentes. Isso
significa que Tarcísio de Freitas desembolsou apenas 40% dos recursos que
dispunha.
“Reduzir
investimentos em obras estruturantes de macro e microdrenagem penaliza de forma
imediata as periferias e as áreas de várzea, onde a infraestrutura já é
precária. A prevenção climática não é gasto supérfluo, é política de segurança
pública. Quando o governo estadual corta recursos da adaptação climática para
priorizar a lógica fiscal de curto prazo e a privatização, ele abandona os
municípios à própria sorte e aprofunda o abismo da desigualdade regional”,
critica Hidalgo.
A
ex-vereadora lembrou que o debate sobre segurança pública e a conduta da
Polícia Militar fica restrito à capital paulista, mas que no interior a
violência policial é reproduzida.
“Em
cidades como Ribeirão Preto, a juventude negra convive diariamente com a
hipervigilância, a criminalização da sua cultura e a falta de oportunidades. O
desmonte de políticas de controle do uso da força e o enfraquecimento de
mecanismos de transparência pelo governo estadual impactam diretamente os
bairros populares do interior. Precisamos desarmar essa lógica que trata
segurança como confronto armado contra os mais vulneráveis”, finaliza Hidalgo.
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Educação
Uma das
pautas do bolsonarismo abraçadas por Tarcísio de Freitas em São Paulo, a
militarização das escolas avançou no estado. “A tentativa de impor o modelo
cívico-militar nas escolas paulistas é uma farsa ideológica e um desrespeito
flagrante aos profissionais da educação. Em vez de valorizar o piso dos
professores, reformar as escolas sucateadas, garantir merenda de qualidade e
investir em ciência e tecnologia, o governo estadual tenta aplicar uma lógica
de tutela e repressão no ambiente escolar”, explica Tourinho.
Quando
assumiu, Tarcísio de Freitas nomeou Renato Feder para chefiar a Secretaira de
Educação, que era reconhecido por ter implementado o modelo de escolas
civício-militares no Paraná, durante o governo de Ratinho Jr (PSD).
Em São
Paulo, Tarcísio de Freitas militarizou 100% das vagas de Ensino Médio em dois
municípios: Nhandeara e General Salgado, ambas no interior paulista. Isso
significa que famílias que discordam do modelo não encontraram alternativas nas
cidades.
Em
decisão recente, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a suspensão do
programa de expansão das escolas cívico-militares no país. A medida foi
celebrada por Tourinho. “A derrota jurídica e institucional dessa proposta em
São Paulo, com a Justiça e a sociedade civil apontando seu caráter
inconstitucional, discriminatório e inadequado pedagogicamente, mostra que a
escola pública precisa de educadores valorizados, não de monitoramento de
comportamento. A função primordial da escola é formar cidadãos críticos, livres
e qualificados para o mercado de trabalho e para a vida.”
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Pedágios
Anunciados
como inovação tecnológica para facilitar a vida dos paulistas, os pedágios
eletrônicos de cobrança automática se espalharam pelas rodovias de São Paulo.
Chamados pela gestão Tarcísio de Freitas de “Free Flow”, o serviço foi
criticado em diversas audiências públicas na Alesp e se tornou alvo do governo
federal.
Em
abril, o Ministério dos Transportes anunciou a suspensão de 3,4 milhões de
multas aplicadas pelo não pagamento dos pedágios. O governo paulista conseguiu
reverter a medida na Justiça.
Porém,
explica Tourinho, “para o pequeno comerciante, o prestador de serviços, o
motorista de aplicativo e o produtor rural familiar, essa política encareceu o
frete, inflacionou o custo de vida regional e impôs um sistema burocrático e
punitivo, com prazos exíguos que geram multas automáticas pesadas na CNH”.
O
petista insiste. “Ao multiplicar os pontos de cobrança eletrônica em rodovias
que conectam cidades vizinhas, como nas regiões de Campinas, Circuito das
Águas, Sorocaba e no eixo Anhanguera-Bandeirantes, o governo passou a cobrar de
quem faz deslocamentos curtos diários para trabalhar, estudar ou buscar
atendimento médico.”
Em
agenda no município de Ourinhos, no interior paulista, na última quinta-feira
(27), Haddad se reuniu com moradores e comerciantes da região e comentou a
instalação dos “Free Flow” nas rodovias que cortam a cidade.
“O
planejamento da instalação de pedágios está mal feito. Tanto que o governador
adiou uma parte da instalação com prejuízo para os cofres públicos, porque ele
vai ter que indenizar a empresa que ele contratou”, afirmou Haddad.
Paulo
Roberto Souza avalia que esses temas são deficiências da gestão de Tarcísio de
Freitas e que a campanha de Haddad tem explorado. “Mas o desafio, sem dúvida, é
furar a bolha do interior, tentando mostrar como esses e outros problemas do
Tarcísio pioram a qualidade de vida dessas pessoas, principalmente das mais
pobres e vulneráveis”, encerrou.
O
governo de São Paulo foi procurado para comentar as críticas. Até o fechamento
desta matéria, não houve resposta. Caso haja uma manifestação do Palácio dos
Bandeirantes, o texto será atualizado.
Fonte:
ICL Notícias

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