Tatiana Vargas-Maia: O nacionalismo trumpista e a colonização do espaço doméstico dos EUA
Pode
parecer contraditório descrever o processo de controle migratório de um Estado
com território historicamente consolidado como uma dinâmica de construção
nacional, ou mesmo de colonização interna. Todavia, a hipótese que quero
avançar neste texto é exatamente esta: o que observamos contemporaneamente nos
EUA, sobretudo a partir da atuação do Serviço de Imigração e Fiscalização
Aduaneira dos Estados Unidos (United States Immigration and
Customs Enforcement – ICE) no segundo governo de Donald Trump,
configura um projeto de redefinição da nação estadunidense.
Tradicionalmente,
a política de imigração dos EUA é analisada sob a ótica da gestão de
fronteiras, da regulação do mercado de trabalho ou da segurança nacional
–perspectivas que podem ser consideradas normais para a maioria dos Estados
contemporâneos. No entanto, o movimento de controle migratório desencadeado na
segunda gestão de Trump representa uma mudança significativa neste panorama:
não é apenas um processo de endurecimento do controle das fronteiras ou da
administração de imigrantes que já se encontram no país, mas, efetivamente, uma
tentativa deliberada de redefinir a própria composição étnico-racial da nação
estadunidense.
As
políticas migratórias do trumpismo representam um deslocamento sísmico de um
nacionalismo cívico, tradicionalmente observado nos EUA (ao menos em termos
formais), para um nacionalismo étnico e agressivo. Mais do que proteger as
fronteiras nacionais, este projeto político opera por meio de uma lógica de
colonização interna: um esforço do governo para reconfigurar o espaço
doméstico, purificando-o de elementos considerados exógenos à nação dos EUA e
buscando homogeneizar aquela sociedade. Para além da orientação para o espaço
doméstico, esta obsessão pela reconstrução de uma nação etnicamente pura
projeta-se para o internacional, reconfigurando também a política externa dos
EUA, que passa a apresentar, de forma mais explícita, uma postura internacional
de hostilidade e isolacionismo beligerante.
Para
compreender a magnitude desta mudança, é necessário revisitar o consenso do
pós-Segunda Guerra Mundial sobre a identidade nacional estadunidense. Durante
décadas, os EUA projetaram-se como uma nação proposicional, fundamentada em um
nacionalismo cívico. Nesta concepção, ser estadunidense não dependia de sangue,
raça ou religião, mas sim da adesão, do compartilhamento e da participação a um
credo político comum: a Constituição, a democracia e o Estado de Direito, ou
seja, as instituições fundadas no pós-independência (1776) e estabelecidas no
pós-Guerra Civil (1861-1865). O Caldeirão Cultural estadunidense (Melting
Pot), que preconizava a construção daquela nação a partir da fusão
voluntária de pessoas de diferentes origens e tradições culturais, embora falho
na prática e permanentemente desafiado por grupos supremacistas de extrema
direita, era o ideal normativo que pautava a organização institucional da
sociedade dos EUA.
O
trumpismo rompe com essa tradição ao introduzir, com vigor renovado, um
nacionalismo étnico como princípio central da identidade nacional dos EUA.
Nesta visão, a nação não é um projeto político aberto à adesão voluntária, mas
uma entidade cultural e demográfica fixa, enraizada em uma herança étnica
específica (branca e europeia) que precisa ser protegida contra a diluição e a
poluição (ou seja, a assimilação de minorias culturais e a miscigenação com
outros grupos étnico-raciais).
A
retórica da invasão é uma peça central para a compreensão desta proposta.
Quando lideranças políticas enquadram a migração como uma invasão, alteram
fundamentalmente a natureza do debate. O imigrante deixa de ser um potencial
cidadão ou um ator econômico para se tornar um invasor. Esta linguagem
beligerante legitima medidas de exceção. Se o país está sendo invadido, então a
resposta não é o processo legal administrativo, mas a defesa territorial
militar. Assim, a presença do imigrante, documentado ou não, é reconfigurada
como uma ameaça existencial à soberania popular, pavimentando o caminho para
que o governo atue não apenas contra estrangeiros presentes em seu território,
mas também, como observado nos últimos meses, contra cidadãos que não se
encaixam nos critérios de pertencimento nacional agora então redefinidos a
partir da chave étnico-racial.
A
manifestação prática deste processo pode ser compreendida como uma colonização
do espaço doméstico e descreve a inversão da lógica estatal: o governo deixa de
proteger os habitantes do seu território para tratar o próprio interior do país
como uma fronteira hostil a ser domada. Sob a lógica trumpista, a fronteira
deixa de ser uma linha estática demarcada geograficamente e passa a ser móvel,
seguindo as redefinições étnico-raciais do governo sobre a população presente
no território. Ela se move para o interior, reconfigurando o espaço público por
meio de quatro mecanismos principais: o emprego de tecnologia digital para o
rastreamento de pessoas e grupos, o estabelecimento de um complexo de centros
de detenção, a consolidação de uma força policial para a ocupação e o controle
do espaço doméstico e a instauração de uma política do medo.
A
primeira ferramenta desta colonização é tecnológica. A construção do muro, tão
anunciada durante a campanha eleitoral de 2016, não é apenas física, mas agora
também é digital. Por meio da expansão massiva de tecnologias de vigilância,
como o reconhecimento facial, a coleta de dados biométricos e o monitoramento
de redes sociais, o governo cria um panóptico digital voltado às comunidades
imigrantes e às minorias étnico-raciais. O uso de tornozeleiras eletrônicas e
de aplicativos de rastreamento para imigrantes em processo judicial transforma
o próprio corpo do indivíduo na fronteira. Onde quer que o imigrante vá, a
fronteira o acompanha. Esta vigilância de dados permite ao governo exercer
controle sem a necessidade de encarceramento físico imediato, criando uma
prisão a céu aberto em que a liberdade de movimento é ilusória.
Paralelamente
à vigilância, ocorre uma expansão física da infraestrutura de detenção, que
funciona como enxertos coloniais na metrópole. O sistema de detenção de
imigrantes nos EUA (frequentemente gerido por empresas privadas com fins
lucrativos) tende a ser localizado em áreas rurais e remotas. Esta geografia
isola os detidos do acesso a advogados, à visibilidade da mídia e às redes de
apoio comunitário. Tais centros constituem espaços no território nacional em
que os direitos constitucionais são suspensos. Ao segregar fisicamente milhares
de pessoas, o governo realiza uma higienização étnico-racial do espaço social,
tratando seres humanos como excedentes indesejáveis a serem armazenados antes
da expulsão.
A
colonização do espaço doméstico exige uma força de ocupação. Isto é alcançado
por meio da fusão entre o direito penal e o direito migratório, um fenômeno
conhecido como crimigração. Programas como o 287(g), que conferem a policiais
locais capacidades de agentes de imigração, dissolvem a distinção entre a
polícia civil e a polícia de imigração. Quando a polícia local atua como braço
do ICE, qualquer infração de trânsito pode se tornar um gatilho para a
deportação. Isso militariza a sociedade civil: escolas, igrejas e hospitais,
tradicionalmente zonas de segurança, tornam-se locais de risco.
Por
fim, a colonização interna também articula uma dimensão emocional. A ameaça
constante de revogação de status legais (como o ataque ao Dream Act e
a retórica contra a cidadania por nascimento) serve para produzir novas
ilegalidades, convenientes ao processo de homogeneização nacional. O governo
remove ativamente o tapete jurídico que protege residentes legais,
transformando vizinhos em invasores por decreto administrativo. Este mecanismo
aposta na criação de um ambiente doméstico hostil. O medo torna-se uma
ferramenta de governança, maximizando ameaças (frequentemente imaginárias) para
fins políticos pouco democráticos.
Subjacente
a estas iniciativas de reengenharia da sociedade dos EUA está a lógica da
Grande Substituição (Great Replacement), uma teoria conspiratória de
movimentos supremacistas brancos de que elites globais estão orquestrando a
substituição da população branca e cristã dos países do Norte por imigrantes do
Sul Global. Embora nem sempre explicitada, essa teoria orienta a rejeição ao
multiculturalismo. O veto a viajantes de países muçulmanos (Muslim Ban)
e a preferência declarada por imigrantes de países como a Noruega, em
detrimento de “países de merda” (a forma como Trump escolheu se referir ao
Haiti e ao El Salvador em declaração proferida em janeiro de 2018), revelam um
desejo de engenharia social racializada.
Ao
tentar purgar a coletividade de indivíduos e grupos considerados não
assimiláveis, o projeto trumpista busca criar uma sociedade em que
estadunidense seja sinônimo de um perfil cultural e linguístico específico:
branco, cristão, de origem europeia. É uma rejeição frontal ao pluralismo
democrático em favor de uma identidade homogênea, forçada pela coerção estatal.
Ainda
que a tendência geral seja a de analisar os processos supracitados como uma
dimensão puramente interna da política dos EUA, é relevante destacar que,
historicamente, observa-se uma correlação entre a forma como uma nação trata os
seus residentes internos, estrangeiros ou minorias étnico-raciais, e sua
postura no sistema internacional. A lógica de colonização interna e de
homogeneização nacional não para na fronteira; ela transborda, gerando uma
política externa agressiva e paranoica.
Se a
premissa deste processo de colonização interna é que o país está sob cerco de
forças estrangeiras que já penetraram o território, a atitude internacional
decorrente de tal premissa é de profunda desconfiança. O mundo exterior deixa
de ser um espaço de potenciais parcerias mutuamente benéficas para se tornar
uma fonte de contaminação e de ameaça. O multilateralismo é substituído por uma
visão de soma-zero: para os EUA ganharem, os outros devem perder. Esta
mentalidade justifica o abandono de tratados internacionais, o desprezo por
organizações como a ONU e a OTAN, e uma abordagem transacional nas relações
exteriores. A agressividade interna necessária para deportar milhões requer uma
desumanização que, quando projetada externamente, resulta em uma política
internacional insensível às crises humanitárias e desdenhosa dos direitos
humanos. O nacionalismo de homogeneização étnico-racial parece criar um Estado
que se vê como vítima do mundo, justificando, paradoxalmente, que atue como
agressor no sistema internacional.
Em
suma, as políticas de imigração da era Trump não devem ser vistas como um
fenômeno isolado de gestão pública, ou como uma distração para outras questões,
mas sim como a ponta de lança de um projeto de reengenharia social de alcance
nacional e projeção internacional. Ao transitar formalmente do nacionalismo
cívico para o étnico, o atual governo estadunidense adota uma postura de
colonização interna, tratando o próprio território do país como um campo de
batalha em que a homogeneidade deve ser imposta à força por meio da tecnologia,
do encarceramento e da militarização da sociedade civil. Este processo tem
custos devastadores. Internamente, corrói o tecido social e os direitos civis,
criando uma casta de subcidadãos e normalizando a violência estatal. Externamente,
transforma os EUA em uma nação entrincheirada, cuja insegurança identitária se
manifesta em agressividade geopolítica, um processo com potencial para
reconfigurar as relações internacionais contemporâneas.
¨
A honra de Donald Trump e a de Cuba. Por Gabriel Cohn
“A
respeito de Hitler nada me ocorre”. Quem diria que essa frase devastadora com
que o grande ensaísta austríaco Karl Kraus iniciaria livro de ataque ao
nacional-socialismo há um século retornaria à memória neste momento histórico
difícil na figura de Donald Trump?
Pois é,
o inefável Donald acaba de proclamar a sua inquebrantável dignidade (e coragem,
pelo risco militar envolvido) ao declarar-se pronto a acabar com Cuba como
questão de honra que lhe cabe assumir. “Terei a honra de tomar Cuba”, declarou
em entrevista. “De alguma forma. Acho que posso fazer o que quiser com ela”.
Não em momento qualquer, claro, pois é agora que a nação ameaçada se encontra
debilitada, segundo ele.
Debilitada
como? Aqui saímos do terreno da pura indignação para enfrentar fatos duros e
muito embaraçosos nas condições atuais. É notório que as condições adversas
naquela ilha são em grande medida provocadas pelo mais intenso e prolongado
embargo de relações econômicas vitais já imposto por potência planetária a
pequena nação.
A
retórica sem vergonha de Donald Trump não deve, contudo, ocultar a extensão e a
gravidade do processo de agressão sistemática envolvido. Documentos obtidos há
décadas demonstram que o recurso a quaisquer práticas propícias a tal
debilitação já era cogitado na fase inicial dos anos 1960.
Isso
ocorria na forma de planos de agências oficiais dos EUA para gerar revolta na
ilha por carência até à fome mediante danos químicos a colheitas, junto com
“guerra psicológica” naquilo que hoje seria chamado fake news, só
não levadas inteiramente a efeito por receio de que transparecesse a mão ianque
no processo (sem prejuízo das efetivas tentativas de assassinato do líder
nacional, num padrão muito presente hoje).
O fato
é que Donald Trump é só o ponto terminal e menos escrupuloso de um processo de
longo prazo, que ainda será reconhecido como integrante pleno do arsenal de
horrores que marcou o século passado e vem sendo recapitulado em versão piorada
no atual. Nesse ponto ele apenas é porta-voz explícito de um processo que se
estende há muito, sob vários governos de seu país (começou com John Kennedy).
Há uma
mudança, contudo, e essencial. É que na arrogante grosseria dessa figura o que
se faz é tornar nítido – explicitar, esse é o ponto – tudo aquilo que se
incubava de pior na sociedade e na organização do poder nacional naquela nação
que outrora respeitávamos apesar de tudo. Até aí tudo se reduziria, enfim, a
uma questão de “honra” e o mundo continuaria girando.
Todavia,
o que vemos agora é a ação tresloucada de uma superpotência militar e (por
enquanto) econômica cujo mandatário máximo se permite não apenas pronunciar
intenções criminosas e fazer pouco das instituições que deveria obedecer como
praticar pura e simples traição, como ocorreu no ataque militar ao Irã quando
havia entendimentos em curso, tudo isso sem maiores escrúpulos. (Não esperem de
mim lágrimas pela teocracia autoritária iraniana, não é isso que está em jogo).
O
essencial é que os bramidos trumpianos anunciavam um novo patamar no cenário
geopolítico, uma tentativa de um novo colonialismo que deve ser identificado,
analisado e combatido. Donald Trump e há um século Adolf Hitler (a aproximação
dos nomes não é mera retórica, isso mereceria uma análise à parte) são ambas
figuras repugnantes sem dúvida, mas não podem ser menosprezadas.
Entre o
muito que os aproxima está isso, de que representam do modo mais consequente (e
competente nos seus propósitos, diga-se de passagem, por menos que Hitler
proclamasse que faria o que quisesse da Polônia antes de invadi-la) os seus
momentos históricos na explicitação plena de suas tendências levadas ao
extremo.
O
desafio atual, especialmente para um país com importante peso estratégico no
cenário global como o Brasil e por extensão para o conjunto ainda mal-ajambrado
das nações BRICS (sem a Venezuela, dada de presente aos EUA em parte por
deslize do Brasil) consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e
árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus
possíveis competidores.
Cuba
certamente está debilitada após o acirramento da agressão acumulada, mas a
figura de Donald Trump só se torna mais forte e nítida como a expressão atual e
mais cavernosa da conduta dos EUA no mundo.
Se
antes se agia institucionalmente em nome de alegados interesses elevados (em
nome da democracia, como se veria no Brasil em 1964) agora temos um dirigente
nacional que proclama sua capacidade de fazer o que bem entende em outro país,
não tanto em nome daquele que representa e sim no clássico gesto autoritário de
“eu posso” qualquer coisa.
Simples
bravata de quem ocasionalmente representa a maior potência do planeta? É muito
mais grave, e a proclamação na imperial primeira pessoa de que posso fazer o
que quiser e de que isso me honra encerra uma advertência terrível, que vem se
multiplicando ultimamente.
Consiste
ela em acelerar um processo já em andamento, de erosão dos princípios mínimos
de respeito às condições de legitimidade nas relações internacionais, que
costumam ver acompanhadas do desgaste das instituições democráticas nacionais,
como se vê agora nos EUA. Enquanto isso a pequenina Cuba (não tanto, talvez,
afinal é dez vezes maior do que a ilha do Bananal, mas esta é só fluvial)
prossegue na sua tentativa de construir ao seu modo uma sociedade com perfil
socialista e, com percalços e não poucos erros externos e internos, pode sim
exibir sem jactância nem arrogância o que conseguiu apesar de tudo, na
educação, na saúde, na pesquisa, na cultura.
(Lembram-se
da frase “há muitas crianças passando fome neste momento no mundo; nenhuma
delas é cubana”? Frase dolorosa quando na minha pátria há não muito se lia na
imprensa que crianças desmaiavam de fome em escolas enquanto a merenda escolar
era desviada).
Cuba se
mantém como cenário de uma promessa, com muitos equívocos e também com muita
bravura, apesar de tudo. Donald Trump quer sequestrar a honra em sua investida
contra Cuba e contra aquilo que representa de admirável. Não conseguirá.
Fonte:
Le Monde/A Terra é Redonda

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